Como fora apresentado, o sistema didático de uma experiência formativa é regido por princípios que obedecem as premissas do ensino fundamentado na formação de funções psíquicas da aprendizagem e do desenvolvimento integral dos sujeitos. Tais concepções estruturam a natureza sistêmica da experiência didática formativa, as quais, inspiradas no método do experimento formativo se baseia na aplicação do método experimental da psicologia soviética cuja relação ensino-aprendizagem se orienta pela lógica dialética da multilateralidade qual designa que um objeto de estudo deve ser compreendido em função de sua sistematicidade em relação aos fenômenos que integram (ZANKOV, 1984).
Consequentemente, em um sistema didático se consideram os vínculos entre o objeto e suas mediações, além da lógica das contraposições onde destaca que entre a realidade e sua representação (objeto) há uma série de contraposições entre o sujeito e a realidade que fazem com que a transformação da realidade por parte do sujeito, mesmo que ocorra de maneira consciente, ocorre em face de abstrações ou sentidos próprios que se interpõem entre a realidade e sua representação de modo que apesar de um se deduzir do outro não surge dele.
Considerando tais premissas no campo do ensino se infere que os sistemas didáticos são processos objetivos cuja finalidade é estabelecer a compreensão causal do
desenvolvimento das funções psíquicas que de acordo com Aquino (2015), superam qualitativamente as metodologias tradicionais de ensino, pois estabelece na estrutura do ensino a causa do desenvolvimento integrando a apropriação cultural e socialmente mediatizada como papel da escola no processo de ensino-aprendizagem.
Na sistematização do sistema didático elaborado para a experiência formativa foram obedecidos os princípios norteadores do método, que de acordo com Zankov (1984), correspondem aos princípios reguladores e orientadores do processo de ensino que se caracterizam por estabelecerem:
a) Papel reitor dos conhecimentos teóricos: princípio que se refere ao papel
protagonista da formação dos conceitos científicos para o desenvolvimento mental dos estudantes, os quais desempenham importância no desenvolvimento dos hábitos e a compreensão profunda do conhecimento;
b) Princípio do ensino com alto nível de dificuldade: se refere à natureza
desafiadora que o ensino precisa configurar para que não se torne uma atividade desmotivadora e lenta. Assim estabelece o desafio de lidar com as contradições e a superação de dificuldades de modo que a estrutura do conteúdo de ensino precisa corresponder ao amplo e profundo estado de generalizações;
c) Princípio do avanço em grande ritmo: se relaciona com o princípio anterior
e estabelece que os alunos precisam progredir no estudo do conteúdo com celeridade evitando a repetição da mesma tarefa com mesmo padrão de dificuldade para que a consolidação da assimilação não se torne monótona. Dessa forma, além de tarefas que possibilitem o constante desafio é necessário que se faça sempre de forma gradual e aprofundada;
d) Princípio da compreensão do processo pelos estudantes: expressa que para
o cumprimento da proposta metodológica no ensino e a diminuição das dificuldades de assimilação por parte dos estudantes, o processo experimental precisa ser organizado de modo que os alunos possam explicar os fundamentos do experimento e no sentido da necessidade de se aprender os elementos a disposição nas tarefas e as causas que se relacionam aos eventuais erros de assimilação.
A observância de tais princípios, além de conceber à experiência formativa um caráter conceitual alinhado ao modelo teórico proposto pela psicologia histórico-cultural, possibilitou o planejamento sistemático da pesquisa em seu aspecto didático e como papel
estruturante para a orientação dos estudante, pois, criou condições para a resolução consciente das tarefas e ampliou o controle qualitativo por parte do pesquisador.
Seguindo esses referenciais e as premissas da organização do ensino defendidas por Nuñez (1992, 2009), um sistema dessa natureza possibilita investigar e acompanhar o processo de desenvolvimento dos sujeitos, pois a partir de sua organização e estrutura permite se estruturar em função de objetivos definidos de aprendizagem, que em termos da didática uma experiência formativa se configura como um sistema de organização do ensino capaz de possibilitar condições de aprendizagem em função de uma orientação completa e fundamentada nos pressupostos de um desenvolvimento integral dos sujeitos. Alia ao ensino e ao processo de aprendizagem o conceito de desenvolvimento psíquico defendido pela psicologia soviética, segundo o qual, “el desarollo se caracteriza, ante todo, por los avances cualitativos em el nível y la forma de las capacidades, los tipos de actividad de los que se apropia el individuo (DAVIDOV;MARKOVA, 1987, p. 322). Tem como base o modelo teórico do experimento formativo de L. S. Vygotski (1889-1934), através do qual representa a atividade de ensino como uma ação orientada para a formação de habilidades relacionadas ao processo de assimilação de uma ação ou conceito e se caracteriza como uma forma de atividade mental que se associa ao objeto assimilado em função de sua estrutura singular, ou seja, relativa à uma essência que se internaliza sob a forma de uma representação mental (DAVYDOV, 1988).
O método do experimento formativo caracteriza-se pela intervenção ativa do pesquisador nos processos mentais que ele estuda. Neste sentido, ele difere substancialmente do experimento de verificação (constatação, comprovação) que somente enfoca o estado já formado e presente de uma formação mental. A realização do experimento formativo pressupõe a projeção e modelação do conteúdo das formações mentais novas a serem formadas, dos meios psicológicos e pedagógicos e das vias de sua formação. Ao pesquisar os caminhos para realizar este projeto (modelo) no processo do trabalho de aprendizagem cognitiva feito com as crianças, pode-se estudar também as condições e regularidades da origem, da gênese das novas formações mentais correspondentes. Em nosso ponto de vista, o experimento formativo pode ser chamado de experimento genético-modelador, que plasma uma combinação (unidade) entre a investigação do desenvolvimento mental das crianças e a educação e ensino destas mesmas crianças (Davídov, 1988, p. 52).
Apesar dessa pesquisa não objetivar o desenvolvimento mental nessa faixa etária, ao se inspirar no modelo genético-modelador associa à experiência em sala de aula os princípios que regem a avaliação do processo psíquico relacionado à reestruturação da
base orientadora, a qual, em termos psicológicos é o núcleo do aprendizado em relação à formação das ações mentais e dos conceitos.
Além disso, corresponde a uma metodologia que se relaciona a zona de desenvolvimento próximo no sentido de possibilitar interações sociais e colaborativas de aprendizagem aonde o professor pode planejar sistemas didáticos compatíveis ao processo de participação dos sujeitos e seu desenvolvimento (LIBÂNEO, 2007).
Se constitui portanto como um método de ensino que proporciona e cria condições para modificações no plano da estrutura mental do pensamento, pois, auxilia juntamente com a adoção de uma base orientadora desejável, uma reestruturação do objeto a ser assimilado no sentido de mobilizar aos estudantes as condições favoráveis para pensarem teoricamente.
se apoia na organização e reestruturação de novos programas de ensino e aprendizagem e dos procedimentos para levá-los a efeito. O ensino e a aprendizagem experimentais não se realizam adaptando-se ao nível presente, já formado, do desenvolvimento psíquico das crianças, mas, utilizando, na comunicação do educador com suas crianças, meios que formam ativamente nestes, novo nível de desenvolvimento das capacidades (DAVIDOV, 1988, p. 196).
Extrapola o método de investigação e se caracteriza como uma estratégia de ensino e de educação experimental, pois, potencializa a aprendizagem e o desenvolvimento intelectual dos estudantes uma vez que permite uma intervenção direta nos processos psicológicos e pedagógicos em função de associar sistemas didáticos específicos e compatíveis com a formação das habilidades.
Conforme expressa Libâneo e Freitas (2009), com o objetivo do desenvolvimento de estruturas mentais uma experiência de natureza didática, associa ao ensino os aspectos da Atividade que auxiliam no desenvolvimento das capacidades intelectuais dos sujeitos. Nesse sentido compreendem como uma via a adoção de unidades didáticas como um conjunto estruturado de atividades de ensino e aprendizagem através das quais se estabelecerão pontos de aprendizagem entre o sujeito e o objeto a ser assimilado.
Neste aspecto o emprego de uma experiência didático formativa adota como premissa os critérios qualitativos em sua abordagem didática, como por exemplo, a formação de habilidades cognoscitivas, a capacidade de transferência do aprendizado para situações diversas, o caráter consciente da ação e a modificação das estruturas psíquicas mediante a assimilação dos conteúdos e habilidades.
Através de sistemas didáticos experimentais se descartam os esquemas condutistas de ensino-aprendizagem e se estabelecem estratégias didáticas que se fundamentam no
processo dinâmico existente entre as manifestações da realidade externa e a aquisição de suas respectivas representações internas e propicia o desenvolvimento psíquico do indivíduo, pois estrutura um sistema de organização e os meios da experiência social elaborada a partir de modelos que permitem a atividade-ação-operação adotando os princípios necessários à atividade humana no sentido de promover mudanças qualitativas na psique e no desenvolvimento mental e da personalidade (DAVYDOV; MÁRKOVA, 1987).
5.2. A CARACTERIZAÇÃO DO SISTEMA DIDÁTICO PARA A