6. Analyses des entretiens
6.6 Entrée 6 : ce qui pourrait être modifié avec du recul
A Casa de Cultura Afro-Sergipana foi fundada no dia 19 de outubro de 1968 por Severo D’Acelino. Segundo Brito, D’Acelino liderava, na época, um grupo de estudantes no Colégio Estadual Presidente Vargas. No momento de sua criação, esta entidade teve o apoio do professor José Antônio da Costa Melo, o qual
lecionava a disciplina Língua Portuguesa naquele colégio.75
Souza utiliza a classificação de Daniel Camacho, para quem os movimentos sociais são definidos como uma “dinâmica gerada pela sociedade civil que se
orienta para a defesa de interesses específicos”.76 Para Souza, a ação desses
movimentos sociais se dirige para o questionamento das estruturas hegemônicas de dominação. Os movimentos sociais, segundo Camacho, teriam duas grandes manifestações: uma ligada aos interesses dos grupos hegemônicos e a outra ligada àqueles que expressam “os interesses populares”. Os grupos hegemônicos estariam mais interessados em se contrapor à ordem social e política vigente, de forma que as transformações que pretendem realizar beneficiassem o próprio grupo. “Já as camadas populares, constituídas por aqueles setores da sociedade que sofrem exploração e dominação, questionam como um todo a estrutura da sociedade e propõem reformas radicais e abrangentes em benefício do todo social”.77
Entidades Negras tendem a cristalizar a característica “personificada” e em muitos momentos “folclórica” de Severo D’Acelino.
75
BRITO, Deogenes Duarte de. (2000: 30). A Casa de Cultura Afro-Sergipana: uma contribuição ao movimento negro em Sergipe (1969-1998), Monografia apresentada ao Colegiado do Curso de História – CECH/UFSe
76
SOUZA, 1995, pp.5-6.
77
“De 1968 até meados da década de 80, o Movimento Negro em Sergipe tem a liderança de Severo D’Acelino. A mais antiga representação do grupo de negros é a Casa da Cultura, construída por um grupo de estudantes do Colégio Getúlio Vargas, pertencentes ao município de Aracaju. Dada a conjuntura de repressão da época, nasceu sob a linha cultural e com a denominação de Grupo Regional de Folclore e Arte Cênica Amadorista Castro Alves. Em 1980 o referido grupo mobiliza-se para revitalização da cultura negra e passa a adotar o nome de Instituto Sergipano de Pesquisa da Cultura negra.” 78
As descrições acerca da organização de outros movimentos sociais em Sergipe, realizada por Maria Luiza de Souza não alcançam, pois, a atuação dos movimentos negros no estado, uma vez que tais ações se restringiam às atividades desenvolvidas pela Casa de Cultura Afro-Sergipana, que naquele momento denominava-se Grupo Regional de Folclore e Artes Cênicas Amadorista
Castro Alves (GRFACACA).79 Uma breve descrição das atividades da Casa de
Cultura nos anos setenta é também realizada por Brito80.
“Por conta da repressão política vivida naquela época, a Entidade nasceu com a denominação de Grupo Regional de Folclore e Artes Cênicas Amadorista Castro Alves (GRFACACA) não fazendo, portanto, uma referência direta à questão negra. Até por volta da década de 1970 o Grupo viveu a chamada ‘fase diversionista’, onde o teatro teve o maior destaque dentre as várias atividades executadas”.81
Para Brito,do momento da criação da Casa de Cultura até meados dos anos
oitenta, esta entidade viveu na fase “diversionista”, a qual foi especialmente marcada pelas atividades ligadas às artes cênicas.
78
Estrato do Trabalho “Aspectos do Movimento Negro no Estado de Sergipe”, apresentado por Maria de Guadalupe Alves de Oliva, ao TO – Movimentos Sociais, do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, em janeiro de 1990. In: Revista Movimentos: estudo de teorias e práticas sociais, ano 1, n0 1, 1995, pp. 13-14.
79 Conforme Brito, as atividades desse grupo não ficavam restritas a Aracaju, tendo a cidade de
Laranjeiras como um dos seus espaços de atuação. Em Laranjeiras, o GRFACACA conseguiu autorização da Prefeitura local para criar a Galeria Castro Alves, onde desenvolveria seus trabalhos. BRITO, Deogenes Duarte de. (2000). A Casa de Cultura Afro-Sergipana: uma contribuição ao movimento negro em Sergipe (1969-1998), Monografia apresentada ao Colegiado do Curso de História – CECH/UFSe.
80
Op. cit.
81
“Na fase diversionista o grupo não tinha aquele espírito de militância, não tinha o objetivo de criar uma consciência crítica na população em relação ao problema do racismo. As atividades iam se desenvolvendo na base da comédia, o discurso ia sendo proferido, mas só que este não era captado por ninguém.”82
Em entrevista por mim realizada em 1998, o fundador da Casa de Cultura Afro-Sergipana faz comentário sobre o contexto da criação dessa entidade.
“Em 68, é... Quer dizer... houve diversos problemas. (...) A gente não poderia, não teve condições de registrar enquanto entidade negra; teve que registrar como entidade cultural, entidade cênica, porque a gente trabalhava mais em cima do teatro, tá? Quer dizer, o fato de ter o nome de Castro Alves, dificultou muito, inclusive nós tivemos a visita da Polícia Federal; nós tivemos a visita do Conselho Estadual de Cultura, e nosso registro no Conselho foi atrasado porque o presidente daquela época não aceitou e arquivou. Só anos mais tarde, quando Amaral Cavalcante era secretário e passou a ser presidente, sei lá... foi que ele abonou o nosso registro. E todos trabalhos que a gente ia com a Polícia Federal, tinha embargos... Quer dizer... é praticamente a questão dos juizados de menores, porque praticamente todos os integrantes, a maioria, digamos assim 98% era tudo de menor.”
O trabalho de Brito confirma que a Casa de Cultura Afro-Sergipana teve alguns dos seus registros negados desde o período de sua criação, em 1968. Segundo este autor, a documentação jurídica daquela entidade só seria efetivada em outubro de 1972, sob a denominação Sociedade Amadorista de Cultura Popular Artística Musical. Nesse momento, a Casa de Cultura teria procurado desenvolver ações mais voltadas à “conscientização da comunidade”, aliando-as ao interesse de desenvolver estudos acerca das manifestações sócio-culturais em
Sergipe.83
82
Idem, p. 33.
83 Deve-se levar em conta que boa parte da descrição da historiografia da Casa de Cultura é
realizada a partir dos depoimentos de Severo D’Acelino àquele historiador nas dependências da referida entidade, no dia 22 de julho de 2000. Brito sinalizou em seu trabalho que não conseguiu confirmar as informações do seu entrevistado por meio de fonte documental da entidade. Este fato
Naquele período os movimentos negros sergipanos desenvolveram estratégias e se dinamizaram de modo que construíram novas formas de atuação, como é o caso da Casa de Cultura Afro-Sergipana. Esse contexto fez emergir um campo próprio de atuação política, onde as presenças de novos ativistas e de novas representações sócio-raciais possibilitaram a criação de lógica e sentidos particulares. Assim, no primeiro momento da atuação de entidades negras em Sergipe, estas buscaram atuar não apenas no campo das relações dos movimentos sociais, mas, sobretudo, legitimar-se em seu próprio campo político.
No início da década de 1980, o GRFACCA pretendeu desenvolver atividades mais ligadas à cultura negra, passando a adotar o nome de Instituto Sergipano de Pesquisa da Cultura Popular e Negra (ISPCPN). Um dos primeiros objetivos do instituto foi encaminhar ao governo estadual da época pesquisas e projetos a fim de dar visibilidade e importância à questão racial. Para Brito, no que se refere ás pesquisas realizadas por aquele instituto, “o grande marco foi a descoberta de
João Molungu, mais tarde reconhecido como herói negro sergipano”.84 Durante
toda a metade dos anos oitenta o ISPCPN desenvolveu suas atividades de pesquisa ligadas à cultura negra sergipana. Esta é a fase “cultural” da Casa de
Cultura Afro-Sergipana, segundo Brito85 e Oliva86.
Com a organização do II Encontro de Negros do Norte e Nordeste realizado na cidade de Aracaju em 1986, ocorre uma série de mudanças nos movimentos negros em Sergipe. Naquele ano o Grupo Regional de Folclore e Arte Cênica Castro Alves (GRFACACA) passa a se chamar Casa de Cultura Afro- Sergipana. Segundo Brito,
“Em termos práticos a Entidade dá continuidade ao seu trabalho, só que agora mais voltada para a revitalização da condição social do negro. Inicia assim uma luta mais aberta contra o racismo e pelos direitos civis da
pode ser visualizado no destaque do autor: “Não foi encontrado nos arquivos da entidade qualquer documento jurídico do referido ano, que dê um suporte comprobatório que confirme assim a existência da mesma. Acredita-se que o fato de não ser encontrada tal documentação seja conseqüência originada da perda ou roubo de vários documentos”. Op. cit., pp. 30-31.
84 BRITO, p. 44. 85
Op. cit., p. 51.
86
comunidade negra, embora, evidentemente, já vinha dando seus primeiros ensaios sobre a questão quando da instalação do instituto à época do GRFACACA”.87
A segunda metade dos anos oitenta possibilita novos investimentos no âmbito da questão negra em Sergipe. Este aspecto perpassa a articulação do campo dos movimentos negros sergipanos, na medida em que outras organizações não necessariamente ligadas à luta anti-racista, mas à pesquisa, foram criadas. Este é o caso do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) criado em 1986 na Universidade Federal de Sergipe (UFSe). Este núcleo foi organizado por grupos de professoras e professores ligados a alguns departamentos da UFSe interessados em realizar pesquisas ligadas à questão racial naquele estado. Na década de 1980 passaram por aquele núcleo Beatriz Góis Dantas, Luiz Alberto dos Santos (ambos do DCS) e Maria Nely Santos (DHI). Até o final da segunda metade da década de 1990 o NEAB desenvolveu atividades de debates sobre a questão racial, as quais tiveram, em vários momentos, a participação de militantes do movimento negro sergipano. Aqueles encontros eram realizados especialmente nas datas alusivas ao 13 de maio (dia oficial da abolição do trabalho escravo no Brasil) e ao 20 de Novembro – dia da Consciência Negra no Brasil.
Enquanto o NEAB desenvolvia as chamadas atividades de “extensão” pretendidas pela Universidade Federal de Sergipe, os Encontros de Negros possibilitavam que a militância negra sergipana convidada para aqueles debates desenvolvesse a sua própria leitura acerca das desigualdades sócio-raciais no seu estado. Aqueles eventos também foram a base de suas formas de ação política, que esteve especialmente pautada no interesse de promover uma identidade negra positiva e na reivindicação de políticas públicas. Tais políticas públicas ganhariam maior importância nos novos discursos de militantes e entidades negras em Sergipe. O ponto central daquelas políticas estava direcionado para a
87
BRITO, op.cit., 51-52. Para este autor, a razão da transição da atuação “cultural” para a “política” é o advento da Nova República. Nesse momento o ISPCPN passa a se chamar Instituto Severo D’Acelino de Culturas Negras, tornando-se um setor interno da nova organização. Para Oliva, é o contexto da organização do IV Encontro de Negros do Norte e Nordeste que influencia na mudança de atuação do Grupo Regional de Folclore e Arte Cênica Castro Alves para Casa de Cultura Afro-Sergipana (Oliva, op. cit., p.13).
participação da população negra no mercado de trabalho e, deste modo, contra a discriminação sócio-racial.
No ano de 1986 é realizado, em Aracaju, o II Encontro de Negros do Norte e Nordeste (ENNE). Em 09 de abril do mesmo ano é criada a União dos Negros de
Aracaju – UNA.88 Para Oliva, a UNA pretende “ir além de aspectos culturais” com
a sua militância política. Ainda conforme esta autora, na década de 80 a Casa de Cultura Afro-Sergipana
“Tem a importância de trazer a público o debate sobre a cultura negra, mas é a partir de 1986, com a realização do II Encontro de Negros do Norte e Nordeste, que passa a ter maior penetração em nível de debate e outras perspectivas de organização”.89
Segundo esta autora, o Grupo Unidos do Quilombo surgiria em Aracaju sob a influência do UNA. O seu objetivo seria, segundo ela, a prática da capoeira “numa
linha mais conseqüente, angola”.90 Todavia, como veremos neste capítulo, o
desenvolvimento de atividades de capoeira e o interesse pela criação de banda e composição de músicas afro são os motivos pelos quais o referido grupo ganhou expressão em Aracaju. Tais aspectos perpassam as influências da UNA, na medida em que, tanto esta quanto o Grupo Quilombo, se inserem em um contexto do qual emerge a articulação de militantes e entidades negras no Brasil. Os Encontros Regionais são a chave para a explicação desse fenômeno.