objet.méthode(arguments)
Chapitre 9 : Les fichiers
9.9 Enregistrement et restitution de variables diverses
A fim de compreender quais foram às modificações impostas pela DRC, sentiu-se a necessidade de conhecer como era a vida dos informantes antes da doença. Cabe ressaltar que a vida deles estava imbricada com as expectativas
sociais referentes a essa etapa, com influência dos valores, crenças, normas e modo de viver, aspectos apontados por Leininger (1985) na definição da cultura.
De acordo com Debert (2010) a experiência contemporânea culmina na revisão da concepção da psicologia do desenvolvimento, na qual o curso da vida é periodizado por uma evolução unilinear, em que cada fase, embora existam particularidades sociais e culturais, possuí um caráter universal.
Assim, pode se dizer que, com o passar dos anos, são atribuídas expectativas na formação das pessoas como seres aptos a coabitarem nela, ou seja, dependendo da faixa etária que se está vivendo a necessidade de seguir “regras”. Desse modo, foi estabelecido que a vida do adulto jovem fosse constituída pela formação da família, atividades laborais e estudos, o que pode ser evidenciado na narrativa dos informantes que contaram sobre sua vida antes da doença renal crônica, alguns remetendo a ideia de vida normal.
Eu trabalhava numa loja [...] tinha 30 anos, nova...! E tinha o meu filho já também. Era uma vida normal, saia [...] é vivia uma vida normal. Informante
5, 41 anos, 10 anos de HD.
Era só trabalho mesmo e estar em casa depois. Trabalhei cortando mato em engenho, lavouras, mas sempre serviço pesado. Informante 4, 28 anos, um
ano e 5 meses de HD.
Eu ia no centro, eu ia receber, eu pagava as contas, eu fazia tudo, eu ia no super. Era muito diferente, eu estudava de noite, eu saia de dia, eu estava sempre fazendo alguma coisa eu nunca ficava parada, se eu tivesse que fazer qualquer coisa eu fazia [...]. Eu ia no centro a pé com a mãe e voltava. Se tivesse que ir sozinha eu ia, se eu tivesse que ir no colégio dos guris eu ia, com minha irmã ou se eu tivesse que ir sozinha, fazia qualquer coisa, ia para festa e voltava sozinha [...]. Informante 2, 25 anos, sete anos de HD. Eu jogava futebol, eu fazia esporte, trabalhava, ia a baile, ia a festa, ia a tudo assim. [...] Trabalhava em lavoura, meio turno, trabalhava de manhã, no caso, e estudava de tarde no colégio [...], aí eu comecei a receber um salário todo mês, gostei e não voltei mais (a estudar). Informante 1, 37 anos,
18 anos de HD.
A minha vida foi assim, trabalhando [...] a gente não tinha mordomia para ficar parado, tinha que estudar e trabalhar. Trabalhava em indústria de conservas [...]. Eu era o chefe lá para ligar as máquinas para as mulheres trabalharem nos pêssegos, na peladeira. Informante 8, 41 anos, dois anos
de HD.
Fui para Porto Alegre trabalhar, não fazia nada, trabalhei, trabalhei lá, daí depois eu voltei de novo [...]. Antes da diálise eu tratava de cavalo de competição de beleza [...]. Eu não tinha nada, trabalhava normal, jogava bola [...], eu quase fui chamado pelo time do Grêmio [...], ai logo que ele queria me levar eu fiquei doente entendeu, mais era normal. Ia para festa, tocava noite na rua, tocando, não parava fim de semana em casa, era um guri normal, saia, dormia, se tivesse que trabalhar, trabalhava [...].
Trabalhava em firma sempre e eu era um cara que era muito festeiro. Festa, trabalho e festa. [...] Saia cedo do serviço, chegava à tardinha, tomava o meu banhozinho [...], ia futebol fim de semana, eu queria estar assim, não aqui (silêncio). Eu gostava muito de caçar. Eu caçava muito [...]. Informante
7, 35 anos, cinco anos de HD.
Foi possível perceber que a vida dos informantes, antes do diagnóstico da doença renal crônica era baseada no trabalho braçal da lavoura, das indústrias, do tratamento dos cavalos conforme descrito pelos homens, e do comércio e das atividades domésticas segundo as mulheres.
As atividades de lazer também foram mencionadas como parte da rotina passada, sendo que ir a festas e jogar futebol foram as mais destacadas. A formação da família e o estudo foram mencionados por alguns participantes. Pelos relatos acredita-se que eles estavam seguindo um “padrão” aceito e desejado pela sociedade em que vivem, o que possivelmente foi interrompido pela presença da DRC, uma vez que nenhum deles manteve vínculo empregatício ou continuou os estudos e alguns sequer conseguiram constituir uma família.
De acordo com Andrade (2010) o “ser adulto” consiste na obtenção de uma posição social em consequência do desempenho profissional e familiar, embora tenham ocorrido modificações, como o prolongamento dos estudos, a instabilidade profissional que dificulta a inserção no mercado laboral e a emancipação residencial da família de origem mais tardia, influenciando na idade para a formação da própria família. Contudo, os informantes possivelmente não atingiram essas expectativas sociais com suas referidas transformações por vontade própria, mas pela presença da doença em suas vidas.
À constituição da família, ou até mesmo a presença de um companheiro (a), foi atribuída de diferentes significados. Relacionamentos foram rompidos em consequência da doença, pois as companheiras dos informantes não a aceitaram.
[...] Durou pouco (o relacionamento), depois que eu comecei a fazer hemodiálise, não durou muito tempo, a gente se separou, ela não se acostumou muito [...]. Acho que ela não aceitou o tipo de doença no caso.
Informante 1, 37 anos, 18 anos de HD.
Eu me separei mais por causa, pela doença, que ela (ex-mulher) não aceitou. No início assim até estava mil maravilhas para nós, não aceitou a doença, ai nós começamos a brigar demais e nos separamos, com essa que eu tenho o filho, eu tenho o guri de 11 anos. Informante 3, 35 anos, oito
anos de HD.
Uma das informantes relatou sobre a dificuldade de conseguir encontrar uma pessoa que assuma um compromisso sério com ela, visto a rotina da pessoa em tratamento hemodialítico, também citando o abandono em decorrência da doença.
E conseguir uma pessoa também, porque geralmente a maioria daqui (pessoas em tratamento hemodialítico) são abandonados [...]. Tive (companheiro), tenho de vez enquanto, mais não é aquilo que a gente imagina sabe. Casar, morar junto, não é com toda expectativa, [...] até agora para mim não apareceu (silêncio), é por causa da rotina da gente mesmo, quem já tinha, até então já, alguns prevalecem, mas outros não. Isso é um compromisso também, porque tu te relacionar com alguém, essa pessoa vai ter que conviver com a tua doença junto, ai já complica. Informante 5, 41
anos, 10 anos de HD.
Ter filhos pode ser uma perspectiva de futuro para muitas pessoas que estão na idade reprodutiva. Entretanto, para alguns informantes deste estudo, pode significar o risco de morrer, ter que realizar a terapia diariamente e o medo de transmitir a doença ao seu descendente.
Se eu tiver filho agora eu morro, mas já disseram que pode ter, mas tem que fazer todos os dias à hemodiálise. Fazer três vezes por semana já é uma tristeza imagina todos os dias (risadas). Informante 2, 25 anos, sete
anos de HD.
O filho pode sair com esse meu problema, tu não sabe, não, filho é filho, tu podendo evitar, está bom assim. Informante 7, 35 anos, cinco anos de HD.
O ter filhos ou não, influencia na vida das pessoas, uma vez que há uma construção cultural de que em todos os lugares elas se juntam e procriam (GEERTZ, 1989). Entretanto, na literatura consultada, há descrição dos riscos da gravidez durante o tratamento hemodialítico por vários fatores, estando associado à amenorreia e a esterilidade, o que restringe essa possibilidade. Por esta razão, algumas mulheres compreendem a situação e aceitam as condições impostas pela doença, como a impossibilidade de gestar um filho em consequência dos riscos tanto para a mãe, quanto para o bebê (OLIVEIRA; MENDONÇA; SENA, 2007). Já, o informante do sexo masculino preocupou-se com a possibilidade de hereditariedade da doença, preferindo abdicar da procriação em decorrência desse risco.
Embora tenha ocorrido uma modificação no perfil das mulheres na atualidade como o labor fora do domicílio e a garantia dos seus direitos, mantém-se uma das responsabilidades culturalmente atribuída à maioria das mulheres, ou seja, o cuidar da casa, dos filhos, dos enfermos, da família, dentre outras maneiras, o que ficou evidenciado na fala das participantes do estudo.
É eu saía, cuidava da casa, trabalhava de manhã e de tarde [...]. Cuidava da minha mãe, o meu irmão também, eu criei ele, porque a minha mãe trabalhava [...]. Informante 5, 41 anos, 10 anos de HD.
[...] Eu cuidava dos guris, arrumava a casa, fazia tudo. Antes eu fazia tudo, eu buscava os guris no colégio, levava [...], ia com a mãe para o serviço da mãe, fazia tudo, tudo normal eu fazia. Informante 2, 25 anos, sete anos de
HD.
O aprendizado do cuidado perpassa distintas gerações, ou seja, da mãe para a filha, que ensina as suas filhas com apoio da avó. Todas as pessoas do gênero feminino estão incluídas no processo do cuidado familiar, o que tem forte influência cultural, caracterizando práticas seculares e cuidados leigos próprios, embora, este princípio possa estar comprometido, sobretudo pela busca da transformação do papel da mulher contemporânea. Assim, as mulheres têm conquistado um espaço essencial à sua afirmação social e a sua valorização diante a sociedade por meio dos papeis que vêm desenvolvendo com competência na família ou na comunidade, dentre eles o de cuidadora, que histórica e culturalmente é o mais evidenciado e assimilado (WEGNER; PEDRO, 2010).
Nesse ínterim, autores pontuam que a representação do gênero feminino, ainda designa o cuidado como essência e destino de algumas mulheres (THOMÉ; MEYER, 2011).
Os hábitos de ingerir bebida alcoólica e o tabagismo também são regulados por normas, possuindo diferentes valores sociais no decorrer dos anos, como por exemplo, em um passado recente o uso do tabaco era incentivado, uma vez que havia propagandas que remetiam a ideia de que o tabaco era algo positivo na vida das pessoas, com isso fumar tornou-se um “modismo” da época. Atualmente, nota- se o contrário, o incentivo é para que as pessoas tenham hábitos de vida mais saudáveis possíveis, evitando o uso indiscriminado do álcool e a cessação do tabagismo.
De primeiro eu bebia, quando ia no baile, tomava uma cervejinha, duas, não muito, de cair não, com os amigos [...]. Informante 8, 41 anos, dois anos de
HD.
Às vezes fumava cigarro, não era pedra [...]. Informante 7, 35 anos, cinco
anos de HD.
O tabagismo tem forte influência do meio em que as pessoas vivem, dentre os quais o grupo que pertencem. Além do mais, existia a identificação do cigarro como um atrativo, capaz de modificar quem o utilizava, remetendo uma ideia de força e atração, sendo que muitas pessoas começaram a usar o tabaco na época da grande epidemia dessa droga, quando a publicidade mostrava enganosamente o lado
positivo de fumar e as divulgações científicas sobre os malefícios alcançavam somente uma minoria da população (HORTENSE; CARMAGANI; BREÊTAS, 2008).
Enquanto, as bebidas alcoólicas ainda são estimuladas. Geralmente, elas são ingeridas em momentos especiais da vida das pessoas, famílias e grupos (ROEHRS; LENARDT; MAFTUM, 2008). Esses aspectos podem ter influenciado os informantes a utilizarem as substâncias, uma vez que pela narrativa deles é possível perceber quais eram os cenários que estimulavam o uso, a saber, o social.
A inexistência de sintomas, como dor e a presença de uma aparência de ser “saudável”, remete a concepção de ausência de doença, fazendo com que muitas vezes o diagnóstico seja retardado, pois as pessoas, principalmente os homens, geralmente só procuram atendimento nos serviços de saúde quando não estão se sentindo bem. Os informantes deixaram implícitos esses conceitos que permearam o seu modo de viver.
[...] Não era “franzininho” assim, que nem uma secura, um pouquinho mais, bem mais gordo [...]. Informante 3, 35 anos, oito anos de HD.
É era normal (a vida antes de ter a doença renal crônica), eu nunca senti dor nada (silêncio). Informante 6, 40 anos, um ano de HD.
Eu jogava futebol, ia para academia, ia para baile e não sentia nada. Conseguia fazer tudo normal [...]. Informante 1, 37 anos, 18 anos de HD. Nota-se que foram os informantes do sexo masculino que pontuaram a ausência de sintomas ao sentido de normalidade. Esse fato pode estar relacionado com a construção de vida deles, uma vez que para algumas pessoas estar doente é sinônimo de sentir alguma alteração no corpo, principalmente tratando-se dos homens. Nesse sentido, os participantes do estudo de Gomes, Nascimento e Araújo (2007) relataram que existe momentos em que se faz necessário procurarem ajuda para a cura de um mal que angustia, quando há presença de dor insuportável e impossibilidade de desenvolver atividades laborais.
Diante dessa perspectiva, as relações entre masculinidade e cuidado em saúde têm sido avaliadas com base no gênero, focando as dificuldades dos homens na procura por assistência de saúde. Entretanto, a forma como os serviços lidam com as demandas específicas deles, ordena práticas sociais, como as de saúde, condicionando a percepção de mundo e pensamento (COUTO et al., 2010).
O ser humano é capaz de participar em qualquer cultura, aprender qualquer idioma e realizar qualquer tarefa. Contudo, é a cultura característica do local em que ele nasce e/ou cresce que determina o que ele deve fazer, além de influenciar na
mobilidade social e posição hierárquica na estrutura da sociedade, decisões regidas de acordo com a idade, sexo e demais variáveis (LANGDON, WIIK, 2010). Fato que pode estar relacionado com as expectativas sociais dos adultos jovens deste estudo. Nesse núcleo apresentou-se uma breve história da vida dos informantes anterior ao diagnóstico da DRC e da necessidade de HD, desse modo, poderão ser identificados nos próximos, às modificações ao longo da trajetória com a doença, que não foram poucas, além das questões sociais.