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Enquête sur les forces de travail

Dans le document Conseil supérieur de l'emploi : rapport 2014 (Page 103-108)

maladie chronique

T ABLE DES MATIERES

3.1. Enquête sur les forces de travail

Existe um outro conjunto de conceitos em análise na nossa pesquisa, habitualmente associados às teorias culturalistas. Apontam para um conjunto de actividades, práticas, ou textos, frequentemente relacionados com o campo do lazer e divertimento dos jovens.

No coração deste eixo está o conceito aparentemente simples de juventude. A cultura juvenil como "categoria social" emerge em larga medida,

principalmente após os anos 1960, no contexto da crise do capitalismo: recessão, desemprego, crise das qualificações, da urbanização crescente, das transformações familiares e sociais, etc..

A sociologia contemporânea e o senso comum têm usado a juventude e as tensões intergeracionais para explicar os problemas sociais profundamente sentidos no pós-guerra, para explicar o conflito social. Para estes, como refere Hoggart, a classe "desaparecera" como resultado do

"embourgeoisement"6 8 (citado por Love et al., 1 992:267). O problema parece,

então, ter-se deslocado das causas estruturais para passar a focar as expressões históricas da desorganização social. Isto parece ter contribuído, de algum modo, para uma deslocação do conceito de patologia individual para o terreno do social - a patologia social (Fernandes, 1990). Emergiu, muitas vezes, como substituindo a luta de classes. A juventude, como referem Love et ai. (1992), tornou-se uma imagem poderosa da mudança social, porque desassossegada, visível e com atitudes por vezes anti-autoritárias. 0 uso deste conceito ofusca, muitas vezes, assuntos mais amplos.

Os problemas sociais que atravessam a juventude condensam e marcam a crise das sociedades em que vivemos. Nesse sentido, juventude emerge como um analisador da crise (sobretudo a partir da década de 70). Contudo, como refere Sérgio Grácio, a "construção social da juventude", vista como uma categoria unitária, tem tido como efeito a exclusão simbólica (Grácio, 1991) dos jovens das classes trabalhadoras da categoria dos "não genuinamente jovens", que não "encaixam" na "excelência jovem", porque não possuem o "capital cultural" que lhes permita o acesso a essa categoria.

Também, quanto a nós, as raparigas destes meios sociais e destas classes têm sido duplamente excluídas da categoria (pelas mesmas características), adicionando-se ainda o facto de, muitas vezes, a seu respeito serem construídas generalizações de que resultam penalizações particulares para as suas vidas. Distanciamo-nos, pois, das visões deterministas que conmsideram estas culturas como desviantes (fruto da anomia, da crise e de tensões duma fase de vida ou como uma cultura dominada pela classe dominante), onde a resposta das jovens seria uma forma de dar sentido à sua marginalidade e/ou subordinação.

Um outro conceito analisador de cultura juvenil é o de lazer com o qual aparece muitas vezes associada. Todavia, trata-se de um conceito a necessitar de esclarecimento. Ora, a noção de lazer nas sociedades capitalistas está interligada com tempo livre fora do trabalho "real", articulando-se com a ideia de "(re)criação" da força de traballho. Esta concepção dominante tem significado que apenas as pessoas que estão no trabalho pago são merecedoras de tempo livre. Significa, simultaneamente, que se excluem as mulheres domésticas, os/as estudantes, os/as

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fcsta tese afirmava que a classe desaparecera como resultado do embourgeoisement Hoggart reconhece a cultura das classes trabalhadoras, mas argumenta que estão a tornar-se vitimas de uma cultura empobrecida (Hoggart citado por Love et ai.: 259).

São disso exemplo o conjunto dos estudos subculturais da classe trabalhadora da desv.ância e da delinquência, conforme desenvolvemos anteriormente. Estes trabalhos encontraram profundos insights nas análises do interaccionismo simbólico e na teoria de

labelling de Becker (1985).

desempregados/as, uma vez que não se encontram na situação de "trabalhadores reais", isto é, não estão no trabalho pago/ 0.

E em grande medida debaixo desta tendência que os estudos contemporâneos do lazer e os estudos culturais tomam os homens como categoria central. Em virtude da ausência de vozes e visões das próprias mulheres em muitas pesquisas sobre o lazer e as culturas juvenis, elas aparecem quase sempre como "objectos de lazer" masculino.

Por sua vez, as pesquisas que focam o lazer feminino, frequentemente, destacam duas tendências principais: uma que vê as mulheres como vítimas de sofrimento e de controle, sem tempo livre para se divertirem; uma outra que celebra a sua feminilidade actuando, nas palavras de Gilda O'Neill, como "consumidoras deixando-se atrair por um isco hegemónico que lhes é acenado" pela cultura de massas (0'Neill,1 993). Esta visão negligencia o papel da "acção das mulheres" como produtoras de cultura, restringindo-as a meras consumidoras. Mas o lazer, mesmo na perspectiva de consumo, apresenta um leque de significados que podem ser definidos, acrescentados ou transformados por quem toma parte neles (O'Neill,1 993).

Tomamos, então, o espaço de lazer feminino como o espaço de "não trabalho" (Foreman citada por Barrett, 1980). Identificámo-lo com os chamados tempos livres, fora da escola, do trabalho pago e do trabalho doméstico, onde as raparigas se permitem o privilégio de funcionar sobre o "princípio do prazer". Aqui, tem-se a ilusão de que "somos nós" a determinar o sentido das coisas.

Defendemos ainda que o lazer e o divertimento não podem ser separados da cultura na qual são originados, experienciados e compreendidos. Os seus significados estão fortemente articulados com o contexto. Assim, as raparigas tomam parte na cultura de uma forma específica, procurando construir um lugar para si próprias, às vezes num ambiente demasiado hostil (O'Neill,1993).

Queremos, então, perceber através deste conceito o que é que as raparigas fazem no seu tempo livre, evidenciando o valor do lazer para si próprias, o que é que fazem para ter um tempo agradável, isto é, tratar a "acção humana" no uso do lazer no e para o seu próprio modo.

Assim, o lazer tem de ser visto também como articulado com o espaço familiar. Porque lidamos com raparigas, este contexto precisa de ser analisado, onde têm sido vistas como suporte material, emocional e afectivo dos pais, irmãos e namorados e onde estes "esperam ser servidos" (Stoer e

Isto levanta, pelo menos, dois problemas: o valor e a função do trabalho doméstico não pago (e mesmo do estudo), no contexto da reprodução social e enquanto elementos fundamentais na reconstituição da força de trabalho.

Araújo,1 992:113). Mas não é apenas por isso, é também porque as pesquisas que estudaram os rapazes (ou a cultura neutra) falharam ao limitar-se a analisar apenas a face mais visível da cultura masculina, esquecendo o que o género masculino "faz" na vida familiar.

À cultura juvenil, para além do conceito de juventude e de lazer, aparece também associado um outro conceito que denominamos de pares. Representam um espaço de informalidade, uma área livre da vigilância, das exigências e constrangimentos do mundo adulto. Não queremos com isto dizer que sejam zonas limpas e isentas dos valores adultos e convencionais. Sustentam uma mistura de valores, quer das ideologias dominantes de classe e género, quer quanto a valores dos grupos juvenis (subculturais) que proliferam cada vez mais nas sociedades ocidentais. Nestes grupos, os indivíduos interagem com os seus iguais, constituindo espaços, quer de aceitação de determinações sociais pela (re)apropriação das normas, valores e culturas, quer de crítica, resistência, fuga, construções alternativas a essas mesmas determinações. Os grupos de pares são, muitas vezes, alvo de ataques, quer dos mass média quer pelas diferentes tentativas de recuperação das ideologias. Os sujeitos sofrem influências da família, da escola, do trabalho, da moda, da publicidade, da literatura, etc., mas é neste espaço entre os seus iguais que eles podem (re)afirmar, (re)elaborar essas influências ou lutar contra, constituindo-se como indivíduos singulares ao mesmo tempo que são representativos do todo social (Ferrarotti, 1983), na confluência de todos estes factores. Os grupos de pares, pela sua transversalidade em relação às diferentes instituições, constituem lugares privilegiados de troca, de convívio e de produção. Aí se encontram e (re)constroem momentos de todos os outros espaços.

Intimamente relacionado com as questões do lazer e do consumo e dos grupos de pares, a cultura juvenil é também associada à fase de namoro e de preparação para o casamento. Para as raparigas da classe trabalhadora, os pares, o consumo, o namoro e o casamento, etc., assumem contornos específicos, porque se jogam aqui o acesso, ou não, a determinadas posições no que se poderá chamar de mercado sexual e mercado do casamento. Alguns/mas autores/as têm defendido que estas raparigas parecem ser mais intensa e precocemente pressionadas para arranjar namorado, como parte da ideologia conducente ao casamento, este visto como "solução" para assegurar a sobrevivência ou mobilidade ascendente futura. Aqui, o consumo e a ideologia ganham especial relevância, já que são percepcionados como proporcionando ou não como possibilidades de escolhas mais vantajosas em termos de futuro familiar. O casamento aparece como "normal", "natural" e "inevitável". As alternativas ao casamento são vistas como "desviantes" e

"patológicas". Então, a maior parte das raparigas (e rapazes também) são tomados como estando numa fase de maturação biológica natural, em direcção ao casamento e à maternidade (ou paternidade). Então, as respostas culturais das raparigas podem ser olhadas, não apenas no seguimento da reprodução das diferenciações de classe e das divisões sexuais do lazer, através de produções e pressões para manter os modelos patriarcais e capitalistas, mas também como um espaço de produção activa desses próprios modelos, a par de formas e estratégias de resistência e luta por relações alternativas.

Griffin (1989) e McRobbie (1991) referem que, para estudar a cultura das raparigas, é crucial pensar nas pressões que elas enfrentam para manter uma boa reputação sexual e evitar e para evitar ter má fama. Muitas destas raparigas são classificadas de acordo com uma padronização dominante, sendo vistas como incorporando os piores excessos de uma cultura inferior e má. Estes debates pressupõem que não existe nenhuma escolha livre "real" e vêem as mulheres como parte de uma armadilha capitalista para com as classes trabalhadoras, enquanto que os seus pares das classes médias marcham para o trabalho intelectual. Assim, os ataques vêm desde a ideologia de direita (snobismo e misogenia) até "aos que acham que as mulheres se divertem de forma politicamente incorrecta". (O'Neill,1 993:200).

Contudo, negligencia-se também que são os rapazes que têm o poder de definir a reputação sexual das raparigas - "boas raparigas" e "más raparigas", constituindo, então, este o seu verdadeiro "dilema": sobre o que fazer, por exemplo, quando o rapaz pede sexo, sendo este um jogo onde as raparigas dificilmente podem entrar, porque se diz que sim, arrisca-se a ser rotulada de "rapariga fácil", se diz que não é considerada, no mínimo, frígida (Griffin, 1 9 8 9 : 6 0 ; McRobbie, 1 9 9 1 , Willis, 1 977). O mercado de casamento é uma espécie de mercado sexual, no qual manter uma boa reputação é essencial e constitui uma preocupação constante (McRobbie, 1991). As relações com os namorados são supostas ser baseadas num "verdadeiro amor", mas não é fácil encaixar os pedidos masculinos na fantasia do amor romântico. Este dilema das raparigas aparece como fulcral para compreender o campo do lazer juvenil das raparigas.

Dans le document Conseil supérieur de l'emploi : rapport 2014 (Page 103-108)