• Aucun résultat trouvé

Les enfants au contact de la langue proscrite

Segundo Henrique Perdigão, a paróquia de S. Lourenço dos Francos foi instituída no ano de 1555, na igreja que tinha pertencido ao mosteiro do mesmo nome. Era um mosteiro da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, mas foi abandonado devido à pobreza em que se encontravam os monges e, posteriormente, extinto pelo reformador da Ordem Frei Luís de Montoya, em meados do século XVI.112Do edifício monacal não restam quaisquer vestígios.

110

A 15 de Julho de 1529, o Cardeal Infante, D. Afonso de Portugal, emitiu um alvará dirigido aos reitores e beneficiados das igrejas do Arcediago de Lisboa, proibindo-os de fazerem rações nas suas igrejas e as prometerem antes de vagarem, com o argumento de que, deste modo, se dava azo aos homens de desejarem a morte dos beneficiados por cujas rações esperavam. Este alvará foi lido e registado em todas as vilas; na Lourinhã a 5 de Agosto de 1529, nas pousadas do vigário da vara e na presença do prior e beneficiados. Cf. AHCPL, Copia Authentica dos Documentos que existem em hum Livro I da Camara Ecclesiastica deste Patriarchado, lv. 530, séculos XV-XVI, fls. 231-232, 234v-235.

111 O Concílio Provincial, realizado em Lisboa em 1566, relativamente à fundação de novas paróquias estabeleceu as seguintes condições: a existência de um número igual ou superior a 30 fregueses e a distância de pelo menos uma légua em relação à respectiva igreja matriz.

112Frei Henrique Perdigão, Subsídios para a História da Ribeira de Palheiros, ed. do autor, Braga, 1992, pp.96- 110. Este autor baseou-se num trabalho sobre a História da Lourinhã redigido, em 1934, por Fortunato José de Carvalho, o qual teve acesso a uma pequena monografia intitulada «Crónica do Mosteiro de S. Lourenço», datada de 1685 e entretanto desaparecida, de Frei João de Santo Estevão natural da Joaria (povoação já extinta), do termo da Lourinhã. Os textos de Fortunato J. de Carvalho, foram posteriormente entregues pela família à imprensa regional, e publicados numa série de artigos intitulados «Elementos para a História da Vila e Concelho da Lourinhã» («Redes e Moinhos», 25.10-10.11.1955; «Alvorada», 20.11.1961-25.12.1965). Frei Henrique Perdigão também consultou o cronista da ordem dos Agostinhos (Fr. António da Purificação, Chronica da

Antiquíssima Província de Portugal, da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho […], Parte Primeira, Lisboa,

A iniciativa da fundação da freguesia partiu da confraria de S. Lourenço dos Francos, cuja origem está associada à história do mosteiro e formalizada através de uma petição a D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos, arcebispo de Lisboa. Autorizada a sua constituição, foram desanexadas da freguesia da Lourinhã as povoações de Miragaia, Joaria, Ribeira de Palheiros, Papagovas (actual freguesia de Miragaia) e Marteleira, Vale de Lobos, Carrasqueira e Cabeça Gorda (actual freguesia da Marteleira) e casais vizinhos.

A localização desta igreja na várzea, junto ao rio Grande, no vale que separa as povoações de Miragaia e Marteleira, fora portanto de qualquer povoação, atesta certamente a sua origem conventual e o aproveitamento de um edifício para servir as duas localidades. Quanto ao nome da nova freguesia,113 herdado do mosteiro, a tradição remete para a

existência nas proximidades de uma cidade denominada “Monardo dos Francos”, cuja origem

é atribuída aos cartagineses. Rui Cipriano considera, no entanto, a hipótese de se tratar de uma vila romana, atendendo aos vestígios encontrados nas proximidades, nomeadamente lápides funerárias.114 O topónimo “francos” está associado ao papel desempenhado por esta

comunidade no povoamento da região, já referido no início deste capítulo. O mártir S. Lourenço teria sido escolhido para orago do mosteiro pelos seus fundadores.

Constituída a nova paróquia, a igreja do mosteiro, parcialmente em ruínas, foi reconstruída e ampliada a expensas da confraria de S. Lourenço dos Francos. Entretanto, a igreja foi de novo restaurada entre 1681 e 1687, por iniciativa do pároco de então, P.eManuel Henriques. Diz Frei Henrique Perdigão que a igreja estava em quase total ruína, encontrando- se incapaz de nela se celebrar o culto. Em 1737, esta igreja foi ampliada com a edificação da capela-mor, tendo sido incorporados, nos cunhais da parte exterior da cabeceira, duas das lápides romanas, acima mencionadas.115 Contudo o Terramoto de 1755 afectou particularmente a igreja paroquial. Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco disse que houve várias ruínas nos lugares e ermidas, especialmente na freguesia que ficou muito destruída. Contudo, as obras necessárias foram realizadas com alguma brevidade, porque o visitador, em 1761, testemunhou que já se tinha reedificado a capela-mor, embora a igreja ainda se achasse arruinada. Ordenou que se cobrassem os dinheiros que andavam por mãos alheias para as obras que a igreja necessitava.116

113A freguesia de São Lourenço dos Francos passou a chamar-se freguesia de Miragaia após a implantação da República, por ser a povoação mais importante e porque a Junta de Paróquia se encontrava aí sedeada.

114

Rui Marques Cipriano, Vamos falar da Lourinhã, pp. 226-229. 115Idem, Ibidem, p. 224.

116 AHCPL, Treslado dos capítulos das Visitas das igrejas dos arciprestados de Torres Vedras, Alenquer, Lourinhã e Peniche, lv. 509, 1760-1761, fl. 32v.33.

Para esta paróquia, à semelhança da de N. S.ª da Anunciação da Lourinhã, não dispomos dos capítulos das visitações, que ficavam obrigatoriamente registados em livro próprio no cartório da igreja, os quais desapareceram devido à incúria dos homens.117 Estes seriam o tipo de documentos que nos poderiam dar informações mais pormenorizadas sobre o quotidiano da freguesia. Apenas dispomos dos livros de devassas e de admoestações, que se encontram no arquivo patriarcal e os autos de posse da comenda, que se encontram na Torre do Tombo, para além das corografias e memórias paroquiais que foram realizadas a nível nacional.

Quadro VII - Pensões pagas pela comenda ao pároco de S. Lourenço dos Francos (séculos XVII a XIX)

1677/78 1721 1806* 1812, 1821/23 e 1829 - 2.500 réis em dinheiro; -15 alqueires de trigo. - 2.500 réis em dinheiro; - 15 alqueires de trigo, (a 300/alqs. = 4.500); - 7,5 almudes de vinho, (a 240/alms. = 1.800). - 2.500 réis em dinheiro; - 30 alqueires de trigo; - 13,5 almudes de vinho. - 2.500 réis em dinheiro; - 15 alqueires de trigo**; - 7,5 almudes de vinho**.

* Os valores deste ano, foram mencionados pelo próprio pároco, que os recebia a título de côngrua. ** Em 1821/23 é dito especificamente que estes valores são para a fábrica da igreja.

Os autos de posse da comenda contêm algumas informações importantes sobre esta paróquia. O prior e o prioste da igreja matriz, informam o provedor da comarca de Torres Vedras, nos autos 1806, que as duas igrejas filiais, S. Lourenço dos Francos e S. Miguel do Vimeiro, também pertenciam à comenda e eram ambas curatos amovíveis.118 Não há, no entanto, qualquer referência a quem apresentava o pároco desta freguesia. Contudo as Memórias Paroquiais de 1758 são muito claras a este propósito, o cura é apresentado e pago pelos fregueses e tem de rendimento 190 alqueires de trigo, 30 de cevada e 100 almudes de vinho.119 Estas não fazem qualquer menção à comenda, mas sabemos, pelos referidos autos de posse, que o comendador tinha alguns encargos relativamente a esta igreja, como se pode ver no quadro.

117

Excepto os já referidos capítulos de 1761.

118IAN/TT, Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Cristo, Autos de Posse da Comenda de Nossa Senhora da Anunciação da Lourinhã, 1677-1829, cx. 62, cap. 8, fls.4-5. 119IAN/TT, Memórias Paroquiais (1758), Dicionário geográfico de Portugal, vol. 16, nº 153,fl. 965v.

Os valores apresentados mantêm-se constantes ao logo dos três séculos, exceptuando alguns géneros como o trigo e o vinho em 1806 e o vinho que só aparece referido a partir de 1721. É provável que algumas destas prestações fossem para a fábrica da igreja, pois isso vem especificado nos autos de 1821. Nos autos de posse de 1812, o cura e duas pessoas antigas desta freguesia, questionados pelo provedor da comarca, declararam que a capela-mor e o baptistério pertenciam à comenda, mas logo acrescentaram que as alfaias litúrgicas não tinham sido feitas pela comenda apesar de ter essa obrigação.120 Seja como for, os fregueses tinham que dar uma comparticipação relevante para a fábrica e côngrua do pároco: cada fogo contribuía com um alqueire de trigo, meio de cevada e um almude de vinho, e cada meio fogo com meio alqueire de trigo, uma quarta de cevada e um pote de vinho. Das sobras da fábrica e da côngrua do pároco, assim como das contribuições do povo saíam ainda todas as despesas de conservação do templo.121

Apesar de os párocos desta igreja, por vezes, se lamentarem dos atrasos na realização das obras por falta de recursos financeiros, a leitura dos documentos dão-nos uma imagem positiva acerca do seu estado de conservação. Em 1806, o provedor achou «a sua Capella Mor

bem reparada, forrada […] e bem pintada, e ornada com toda a decência», «o retabulo da

Capella Mor, Tribuna e Sacrario tudo modernamente reformado bem pintado dourado»122 assim como os retábulos dos altares colaterais. Em 1812, é o próprio pároco e as duas testemunhas locais que afirmam que a capela-mor e o baptistério se acham em bom estado.