Figure 3.1. Energy models for the study
6. COMPARATIVE ASSESSMENT ANALYSIS OF ENERGY OPTIONS AND STRATEGIES UP TO 2025 AND STRATEGIES UP TO 2025
6.2. Final energy consumption
6.3.4. Emissions of GHG’s
A captura da multiplicidade epistêmica como um dos dispositivos de subordinação impostos pela racionalidade Eurocêntrica constituiu uma das principais características da
colonialidade do saber, a qual influenciou as bases da formulação das ciências sociais e
humanas. Durante a colonização, e como resultado das conexões entre colonialidade poder/ser/saber, desdobrou-se uma única racionalidade, que como já foi dito colocou ao colonizado na zona do não Ser, legitimando as relações de dominação e exploração que incluíram o desconhecimento e a negação de outras racionalidades, linguagens, vínculos com a natureza, com o divino, em geral, de suas cosmologias.
Os dispositivos da colonialidade do saber programaram-se e foram ativados a partir de diversas manifestações que incluíram, entre outras, as formas de construção e difusão das ciências, o predomínio de umas línguas sobre outras, a criação e transmissão dos universais (história universal, pensamento universal, etc.) como o ideal de verdade e legitimidade, a configuração de sistemas de organização sociopolítica, e a projeção de ideias de mundo, de sociedade e de cultura, baseadas numa racionalidade hegemônica, totalmente excludente.
O pensamento da ciência moderna, segundo Lander (2000), é resultado de uma construção histórica baseada em pretensões de universalidade e neutralidade que se transladou das ciências naturais para as sociais, mas que a partir da tradição do pensamento latino- americano (Martí, Mariátegui, Kusch, Dussel, Escobar, Quijano, Mignolo, Castro-Gómez, Grosfoguel, Maldonado-Torres, entre outros), e das contribuições dos estudos pós-coloniais e subalternos vêm explorando perspectivas não Eurocêntricas.
A crítica contemporânea às estruturas de poder/saber,43 instaladas nas formas de
construção de conhecimento, num exercício de desconstrução, desvela a eficiência dos mecanismos que permitiram sua naturalização. Trata-se das visões dicotômicas de fragmentação do mundo (corpo/mente, sujeito/objeto, natureza/cultura, etc.) que orientaram as separações das teorias e métodos de construção de conhecimento da complexidade do mundo real, articuladas às estruturas do poder colônia-império.
Nesta lógica de produção de conhecimento, as compreensões de mundo, as leituras da realidade e as formas de comunicação de saberes e conhecimento que não respondem às dinâmicas instaladas são silenciadas e desconhecidas como forma de dominação epistêmica.
As estruturas contemporâneas da colonialidade do saber mostram o predomínio da rentabilidade econômica na produção de conhecimento tanto na ciência quanto na tecnologia 43 Lander se refere aos estudos feministas, à interpelação da “história universal”, ao desentranhamento da
natureza do orientalismo, à necessidade de abertura das ciências sociais, aos estudos subalternos, pós-coloniais e culturais.
– como foi referido no Capítulo 1 – levando a cientistas e filósofos a denunciar as imbricações entre o desenvolvimento dos sistemas técnico-científicos e as estruturas de poder econômico de transnacionais, e os mecanismos de produção e legitimação de conhecimento que cada vez mais fortalecem os sistemas de dominação e expropriação (como saberes ancestrais, tradicionais etc) que estão além dos alcances do poder exercido tradicionalmente pelos Estados.
Diante disso, é preciso compreender as conexões múltiplas do exercício de poder contemporâneo, que visivelmente, conecta as estruturas do sistema de produção econômico com sistemas de dominação ideológica e subjetiva.
Fazer explícitos os mecanismos empregados pela ciência moderna, que contribuíram para privilegiar uns conhecimentos sobre outros, e para transladar a lógica racional do “método científico” na compreensão dos fenômenos sociais e culturais permite identificar as conexões que foram desligadas para construir uma ideia do mundo fragmentado. Neste sentido, as contribuições de Lander (2000) mostram:
– Dispositivo da tradição Judaico/Cristã que conseguiu separar o sagrado (Deus) do humano (homem) e da natureza, onde o homem tem faculdades de domínio sobre a natureza e consolida-se a visão antropocêntrica e prioritariamente androcêntrica (o homem/macho no centro do universo). Esta fratura constitui uma das rupturas mais relevantes que, na perspectiva de fazer leituras outras das tecnologias, precisam ser revisitadas.
– O mundo captado pela razão na obra de Descartes parte a unidade do corpo/mente, razão/mundo, gerando um afastamento do cosmo, e semeando os fundamentos do conhecimento sem corpo, e sem contexto.
– As especificidades da modernidade cultural, propostas por Weber, constituíram campos definidos e separados entre: ciência, na lógica de racionalidade cognitivo- instrumental; moral na relação moralidade/prática; e arte como manifestação estética expressiva, através das quais se foi traçando o abismo entre saber experto-especializado e a sociedade ou público em geral.
– A herança do projeto da modernidade que na base da filosofia e do iluminismo suportou as ideias de ciência objetiva e moral universal, privilegiando “a” narrativa universal.
Seguindo as análises da crítica decolonial, nos aportes de Lander, a articulação dos saberes na estrutura de poder colônia/império contribuiu para naturalizar a hegemonia da estrutura liberal (posteriormente neoliberal):
O processo que culminou com a consolidação das relações de produção capitalista e modo de vida liberal, até que estas adquiriram o caráter das formas naturais da vida social, desenvolveu simultaneamente uma dimensão colonial/imperial de conquista e/ou submissão de outros continentes e territórios por parte das potências europeias, e uma encarniçada luta civilizatória interna ao território europeu na qual finalmente terminou por se impor a hegemonia do projeto liberal (LANDER, 2000, p. 20) (tradução nossa).44
Como refere o autor, as condições histórico-culturais que naturalizaram a consolidação do modelo da sociedade liberal de mercado assentaram as bases nas quais se fundaram as ciências sociais como articuladoras do projeto moderno: uma visão universal da história associada às ideias de progresso como percurso natural, resultado do desenvolvimento; a naturalização de aspectos que conectam o sistema econômico à produção de conhecimento, isto é, a naturalização das relações sociais e da natureza humana da sociedade liberal- capitalista, a naturalização das fragmentações e divisões da sociedade, e a naturalização do saber científico como dominante frente a outros saberes e conhecimentos.
Diante disso, reconhecem-se como as polaridades entre as compreensões de mundo e as cosmologias diferenciadas, impedem que sejam feitas leituras do diverso quando a matriz de leitura é a hegemonia imposta pela racionalidade moderna que traça como horizonte de sentido e lugar de chegada para todas as nações, culturas e povos; o progresso resultante do desenvolvimento que, como foi analisado no Capítulo 1, prolonga a ideia de dependência e atraso para as culturas e sociedades que não operam nessa lógica.
A crítica da socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui (2008) é ainda mais contundente ao destacar que o critério da razão instrumental predominante nas ciências sociais: a compreensão cientificista da sociedade não garante nem o conhecimento, nem entendimento confiável de fatos sociais que são invalidados por privilégios “auto-outorgados” pela suposta cientificidade. Suas contribuições na crítica ao colonialismo interno pedem 44 El proceso que culminó con la consolidación de las relaciones de producción capitalistas y modo de vida
liberal, hasta que éstas adquirieron el carácter de las formas naturales de la vida social, tuvo simultáneamente una dimensión colonial/imperial de conquista y/o sometimiento de otro continentes y territorios por parte de las potencias europeas, y una encarnizada lucha civilizatoria interna al territorio europeo en la cual finalmente terminó por imponerse la hegemonía del proyecto liberal. (LANDER, 2000, p, 20)
avançar na linha de um perfil epistemológico que estabelece tanto uma atitude científica quanto uma atitude ética.
Na perspectiva crítica dos estudos decoloniais, a leitura das estruturas de poder instaladas a partir da matriz colonialidade/modernidade facilitou (e facilita) a identificação das formas de dominação que apagaram universos simbólicos, de representação, de compreensão, produção e difusão de saberes e conhecimentos não centrados no eixo do Norte – enfoque conhecido como epistemicídio, ou racismo epistêmico – e convidam à desobediência epistêmica baseada no reconhecimento das histórias múltiplas, diversas, não lineares que ponderam a geopolítica do conhecimento.
Neste sentido, reconhecem-se contribuições como os trabalhos de Kusch (nos campos da filosofia e antropologia) que, embora fossem prévios aos estudos da subalternidade e das epistemologias de fronteira, constituem uma crítica à racionalidade moderna e uma reivindicação da “América Mestiça”, em capacidade e condição de desenvolver um pensar situado, localizado, na convivência do simbólico, do mágico, do mítico, do natural e da natureza com o Ser; na possibilidade de produzir leituras e escrituras do mundo a partir da realidade própria em diálogo com os modos de produção de conhecimentos externos.
Os subsídios das perspectivas subalternas étnico-raciais e feministas em torno das epistemologias reivindicam a importância do sujeito falante na composição de seu lócus de enunciação, ou seja, desde a geopolítica e corpo política (FANON, 1963, 1973; ANZALDÚA, 1987; SPIVAK, 1998) que validam o conhecimento e o pensamento situado e encarnado em corpos diversos femininos, masculinos, heterossexuais, homossexuais, negros, índios, e brancos em contraponto ao silenciamento e esquecimento das especificidades e particularidades dos sujeitos.
Na filosofia e nas ciências ocidentais, o sujeito que fala está sempre escondido, disfarça-se e apaga-se da análise. A “ego-política do conhecimento” da filosofia ocidental sempre tem privilegiado o mito do “Ego” não localizado. A localização epistêmica étnica/racial/de gênero/sexual e o sujeito que fala está sempre desligada. Ao desprender a localização epistêmica étnica/racial/de gênero/sexual do sujeito falante, a filosofia e as ciências ocidentais podem produzir o mito sobre o conhecimento universal fidedigno que encobre quem fala, assim como sua localização epistêmica geopolítica, e corpo – política, nas estruturas do poder- conhecimento a partir do que ele fala (GROSFOGUEL, 2011, p.3) (tradução nossa).45
45 En la filosofía y las ciencias occidentales, el sujeto que habla siempre está escondido, se disfraza, se borra del
Como parte do processo de descolonização epistêmica, que reconhece essa diversidade, Grosfoguel (2011) e outros autores, referem-se à importância de nomear e identificar as categorias que tornem visíveis os sujeitos com identidade, história, com corpos e desejos que, além dos totalitarismos do ocidente, contribuam para a construção e legitimação de visões pluri versais.
Um pensamento de fronteira não totalizante se movimenta na identificação das conexões múltiplas (históricas e geopoliticamente localizadas) dos sistemas de poder nos diferentes níveis que se manifesta, ou seja, as expressões de dominação diversas que impõem outros universais (por exemplo, as lutas do feminismo, dos indígenas, dos negros, que têm dentro dessas grandes categorias manifestações diferenciadas); no reconhecimento das lógicas próprias de racionalidade e produção de saberes e conhecimentos que possam estabelecer diálogos com outras epistemologias, incluindo as produzidas nos centros de poder.
A descolonização não implica em criar novos conceitos, não precisa de novos conceitos, ela implica entrada em outras genealogias de pensamento, que não são novas, são velhíssimas. O “mandar obedecendo” ou “andar perguntando”, por exemplo, são velhos, têm cerca de 1000 anos! Acontece que desde essas cosmologias outras ressignificam elementos da modernidade Euro centrada.
É o caso da premissa “mandar obedecendo”, dos Zapatistas. É um conceito de democracia a partir dessa outra cosmologia. Isto é, o pensamento fronteiriço não fundamentalista, que não rechaça a democracia, mas que a ressignifica desde outra cosmologia (Grosfoguel, apud MONTOYA, BUSSO publicada 2007) (tradução nossa).46
Como forma de síntese, a rede de estudos Latino Americanos Modernidade/Colonialidade expõe as relações complexas e as conexões múltiplas das formas como o poder se expressa, desvelando a colonialidade como o rosto oculto da modernidade,
no situado. La ubicación epistémica étnica/racial/de género/sexual y el sujeto que habla están siempre desconectadas. Al desvincular la ubicación epistémica étnica/racial/de género/sexual del sujeto hablante, la filosofía y las ciencias occidentales pueden producir un mito sobre un conocimiento universal fidedigno que encubre quién habla así como su ubicación epistémica geopolítica y corpo-política en las estructuras del poder/conocimiento coloniales desde las cuales habla”. (GROSFOGUEL , 2011, p. 3)
46 La descolonización no implica crear nuevos conceptos, no necesita de nuevos conceptos, ella implica meternos
en otras genealogías de pensamiento, que no son nuevas, son viejísimas. El “mandar obedeciendo” o el “andar preguntando” por ejemplo, son viejísimos. ¡Tienen como 1000 años!, lo que ocurre es que desde esas cosmologías otras se resignifican elementos de la modernidad eurocentrada.
Es el caso de la premisa “mandar obedeciendo”, de los zapatistas. Es un concepto de democracia donde ellos están resignificando la democracia desde esa otra cosmología. Esto es, el pensamiento fronterizo no fundamentalista, que no rechaza la democracia sino que la resignifica desde otra cosmología. (Entrevista Grosfoguel, 2007)
com os efeitos que perduraram até hoje, auspiciando a corrida desenfreada pelo desenvolvimento.
Na perspectiva de Castro Gómez, apoiado na teoria do poder de Foucault, identifica-se o poder como uma cadeia que opera em rede, um tecido de ligações entre micro e macro, ou seja, uma estrutura molar e molecular (histórias locais em conexão com a diversidade e multiplicidade), como parte de um mesmo sistema que precisa ser pensado na complexidade de seus vínculos, uma “teoria heterárquica do poder”, onde os regimes do poder manifestam relações diversas, e nos micro-poderes as práticas de subjetivação refletem essas estruturas.
Assim, orienta-se, de novo, a reflexão sobre as imbricações nos três níveis de articulação da colonialidade e a relevância das análises críticas para explicitar as formas nas quais ela é naturalizada, levando em consideração a importância da decolonização epistemológica, como expressão da desobediência epistêmica que contribui no desenvolvimento de propostas analíticas construídas decolonialmente.
Trata-se de gerar alternativas aos discursos e suas formas de agenciamento, segundo Grosfoguel: além dos universalismos é preciso considerar as possibilidades de manifestações múltiplas de pensar decolonial, analisar criticamente o poder, os sujeitos, e os conhecimentos como entrelaçado de relações complexas.
Em palavras de Castro-Gómez (2007), os vínculos entre as sabedorias ancestrais e o pensamento complexo comprovam a impossibilidade de pensar uma divisão ou discriminação dos contrários porque eles tendem à união; a interseção é um exercício de transgressão das relações dicotômicas para trabalhar na perspectiva do “terceiro incluído” (LUPASCO) acima das posturas dicotômicas e excludentes.
Outras contribuições na linha do pensar decolonial se encontram no trabalho de Boaventura de Sousa Santos sobre Epistemologias do Sul, como contribuições importantes na estruturação das ciências sociais distantes dos princípios ordenadores do pensamento científico herdado da modernidade que pensa criticamente desde um sul que não é geográfico. As Epistemologias do Sul contribuem para resgatar tanto as culturas, quanto as epistemologias que foram silenciadas após anos de colonialismo, o que traçou uma linha divisória entre norte e sul. Segundo Boaventura de Santos é nessa divisão que emergem as possibilidades de ser e pensar fora da matriz eurocentrada.
Para esta tese de doutorado, intitulada “Cartografia do saber/fazer das marisqueiras. Leituras outras das tecnologias, técnicas artesanais como potência”, busco projetar espaços de construção desde dentro e desde fora, isto é, uma tentativa de partir dos saberes e conhecimentos dos sujeitos imersos em culturas concretas, que permitam interatuar em condições outras com a exterioridade, ou seja, explorar as conexões entre o micro e o macro desde a interioridade desconhecida.
Nesta tese trago para o centro do debate a imperiosa necessidade de pensar as tecnologias – como manifestação de conhecimento – em contextos situados e localizados geopoliticamente, as formas de construção de saberes e conhecimentos e as relações com os objetos técnicos.
Isto me remete à análise da matriz contemporânea do saber/poder agenciada pelas tecnologias, apresentada no Capítulo 1, a partir da qual se privilegia uma noção do universo tecnológico fortemente imbricado com o projeto da economia global, e na conivência da racionalidade tecnocientífica, levando-me a focalizar as conexões entre Cultura/Tecnologia/Conhecimento, em comunidades de saber, concretamente mulheres marisqueiras, paraampliar a compreensão desses vínculos como estratégia de reconhecimento das singularidades, da diversidade cultural e epistêmica diante das propostas totalizantes que já foram debatidas.
Para isto, apresento no capítulo seguinte uma discussão em relação com as tecnologias, trazendo enfoques críticos que tentam compreensões distantes das impostas pela hegemonia do mercado, e aventuro um diálogo possível – para procurar conexões e identificar pontos dissonantes – entre as contribuições do pensamento de Kusch e os apoios de Gilbert Simondon para pensar a técnica e a relação com os objetos técnicos. Acredito na alternativa de avançar por trilhas que procuram conexões múltiplas para tentar fugir dos dualismos e dicotomias que tem fragmentado o pensamento e anulado racionalidades outras.