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Firma-se, desde já, que a exemplo do que diz Lévi-Strauss, a cultura não é justaposta à natureza, pois aquela é que impõe significado ao fluxo da experiência. A cultura é o grande agente transformador da natureza. Assim, as questões da natureza, da cultura, das proibições e interdições, são problemas sociológicos e antropológicos que muitas vezes coincidem no estudo das sociedades. Este ponto é fundamental, por exemplo, para o estudo do parentesco: onde termina a natureza e onde a cultura tem início? Superficialmente pode ser observado que o comportamento dos animais, baseado no instinto, quando comparado ao do ser humano, deixa claro que este é o único que pode desenvolver cultura. O exemplo mais denso é o da linguagem, já que a língua é a imposição de significados aos sons. A observação da sexualidade é também um bom caminho. Sabemos que as sociedades podem ser caracterizadas pela monogamia, poligamia ou poliandria. No caso dos seres humanos, as imposições, permissões e interdições sexuais são resultados culturais que modelam o trato social e familiar, evidenciando também o domínio e a “manipulação” da natureza pela cultura (Lévi- Strauss, 1976, pp. 43-47).
De igual forma, Boas argumenta que há vários comportamentos humanos que encontram semelhança aos dos animais, como, por exemplo, a proteção contra as intempéries e contra inimigos, o relacionamento entre membros do mesmo grupo social e o armazenamento de comida, este descrito por ele como “requerimentos biologicamente determinados e ajustados ao meio-ambiente geográfico no qual vivem” (Boas, 1982, p. 261 – minha tradução).
O largo abismo entre o comportamento social do animal e do homem aparece somente no que podemos chamar de relações subjetivamente condicionadas. Mesmo aqui o abismo não é absoluto. Amor paternal, subordinação do indivíduo às necessidades sociais, proteção do indivíduo ou da propriedade podem ser observados no comportamento de animais, e não parece possível distinguir claramente entre as bases psicológicas do comportamento animal e humano (...). Mesmo o que nós designamos na sociedade humana como invenções, o gozo da beleza, podem não estar completamente ausentes nos animais (Boas, 1982, p. 262 – minha tradução).
Para Boas, o que distingue os homens dos animais é exatamente a capacidade do ser humano de produzir e se modelar através da cultura. Segundo ele, a conduta do animal é “estereotipada” e instintiva, diferente do ser humano que depende da tradição local e do seu aprendizado (Moura, 2002, p. 139). Cultura é por ele especificada como:
a totalidade das reações e atividades mentais e físicas que caracterizam a conduta de indivíduos que compõem um grupo social, coletiva e individualmente, em relação ao ambiente natural, a outros grupos, aos membros do próprio grupo e a cada indivíduo consigo próprio. Ela também inclui os produtos dessas atividades e seu papel na vida dos grupos. Contudo a mera enumeração destes vários aspectos da vida não constitui cultura. Ela é mais. Seus elementos não são independentes, eles têm uma estrutura [...]. É peculiar ao homem a grande necessidade de condutas no que diz respeito à sua relação com a natureza e com seus semelhantes.2
Boas postou-se diametralmente contrário à sequência evolucionista que preconizava estágios ou etapas de evolução para as línguas e etnias, reconhecendo-as como expressões culturais de igual valor (Moura, 2002, p. 223). Certamente, isso nos confere alguns pontos necessários para entender mais à frente, o porquê da preferência de Antonio Candido pela utilização do termo “caipira”, exatamente por significar e conter aquilo que nos parece ter sido afirmado por Boas, no caso, o modelo cultural do morador específico do sertão paulista.
De fato, o estabelecimento de um grupo social, quer grande ou pequeno, pressupõe uma relação de equilíbrio com o meio, ou seja, o local tem que dispor de recursos que suportem e viabilizem a existência de uma povoação qualquer. De igual forma, tem que haver por parte dos moradores as habilidades necessárias para que soluções sejam encontradas. Estas, por sua vez, serão possíveis de acordo com a quantidade e as especificações das necessidades a serem satisfeitas. Por isso, entende-se que o progresso e o aperfeiçoamento das sociedades aparentemente ocorram como resultado de um processo de necessidades que se renovam e se multiplicam, em ambiente natural que oferece os meios para a satisfação de cada uma delas mediante o desenvolvimento de novas técnicas resultantes do esforço coletivo. Assim, será pela solidariedade que os problemas serão enfrentados e vencidos (Candido, 1982, p. 23). Por isso, diz Antonio Candido, “os meios de subsistência de um grupo não podem ser compreendidos
2 BOAS, Franz. “Early Cultural Traits”, in The Mind of Primitive Man, p.159 – Apud MOURA,
separadamente do conjunto das ‘reações culturais’, desenvolvidas sob o estímulo das ‘necessidades básicas”. Em sua opinião, é na alimentação que este princípio mais se destaca, por ser o recurso vital por excelência. Ela não apenas impõe a constante satisfação, como requer uma adequada organização social. A alimentação exemplifica a continuidade ininterrupta que existe entre as relações do grupo e o meio no qual se estabeleceu, vinculando-os em profunda solidariedade. O meio é para o homem o seu primeiro e mais importante mediador, muito anterior à técnica (Candido, 1982, p. 28).
Assim, o meio natural aparece de início como grande celeiro potencial, que não será utilizado indiferentemente, em bloco, mas conforme as possibilidades de operação do grupo; pois os animais e as plantas não constituem em si, alimentos do ponto de vista da cultura e da sociedade. É o homem quem os cria como tais, na medida em que os reconhece, seleciona e define. O meio se torna deste modo um projeto humano nos dois sentidos da palavra: projeção do homem com as suas necessidades e planejamento em função destas – aparecendo plenamente, segundo queria Marx, como uma construção da cultura (Candido, 1982, p. 28).
O homem é natureza! A dicotomia entre o ser humano e o ambiente é completamente imprópria. A cultura deve ser concebida percebendo o homem integrado ao meio onde vive e dependente dele. Na colonização ficou claro o quanto os portugueses dependeram dos ameríndios para saberem lidar com a terra. Embora seja a cultura uma imposição de significado ao meio natural, é o ambiente quem impõe ao homem um modelo de vida, portanto, quem formatará sua cultura. De igual forma, os africanos, embora mais “aclimatados” que os portugueses, também aprenderam com os ameríndios. Certamente, não há melhor forma de adaptação que o cruzamento, a interação que faz se tornar o outro.