Section 13. Ordering Information
11.7 Power Considerations
Jean Baptiste Debret nasce em Paris em 18 de abril de 1768, filho mais velho de Jacques Debret, escrivão do parlamento da Capital, e de Elizabeth Joudain. Como Jacques-Louis David16, Debret teve uma educação humanista primorosa e de forte influência enciclopedista no Lycée Louis-le-Grand, considerado o estabelecimento de ensino mais moderno de seu tempo. Foi lá que se formaram dois notórios jacobinos: Robespierre e Camille Desmoulins, os companheiros revolucionários de David. Em 1783, após terminar os estudos no Liceu Louis-Le-Grand, Debret torna-se aluno de David no mesmo ano em que seu mestre foi recebido na Academia. Em 1785 ingressa como estudante de pintura na Academie Royale de Pinture et Sculpture. Em outubro de 1793 é aceito na École Nationale des ponts et Chaussées, graças as recomendações de David. Em 1807, ocorre a viagem a Roma e realização da série Costumes Italiens, gravada em 1808 (BANDEIRA; LAGO, 2009).
De acordo com essa informação, podemos dizer que Debret deu início a sua pintura pitoresca nesse momento em que esteve na Itália, lugar de origem desse termo.
Já em paralelo à sua atividade como pintor da glória napoleônica, Debret organiza um pequeno álbum de gravuras, onde encontramos personagens típicos italianos que retratam, em cores, os hábitos e costumes da população. Mais tarde, ao observar a população brasileira, Debret vai retomar essa experiência “vestindo” seus tipos de trajes de escravos, índios e brancos livres (LIMA, 2004, p.14).
Da mesma forma ocorre quando Debret está no Brasil, a pintura pitoresca em suas aquarelas ocorre também em paralelo a sua atividade na corte portuguesa.
Lima (2004) frisa que Debret foi um artista inserido em seu tempo: frequentou um ateliê de pintura, realizou a imprescindível experiência de estudos na Itália, ingressou na Academia de Belas-Artes francesa, esteve presente nos Salões organizados por essa instituição e recebeu alguns prêmios por suas cenas históricas. Na infância, desfrutou de um ambiente em que o pai, funcionário público, demonstrava grande interesse pela história natural. Esse fato sugere uma certa
16 Jacques-Louis David foi um pintor francês, o mais característico representante do neoclassicismo. Controlou, durante anos, a atividade artística francesa, sendo o pintor oficial da corte francesa e de Napoleão Bonaparte.
55 familiaridade de Debret com os debates em torno dessa disciplina, fundamental para sua experiência futura como “artista-viajante”. Ainda adolescente, Debret passa a frequentar o ateliê de Jacques-Louis David (1748-1825), seu primo, que viria a ter uma das trajetórias mais importantes e mais conhecidas da arte francesa. Aos 16 anos, Debret vai com o primo para Roma. E em 1784 Debret entra para a Academia Real de Pintura e Escultura da França (LIMA, 2004).
É possível perceber a influência que David, mestre do Neoclássico17 e primo de Debret, teve em sua vida. Podemos, assim, afirmar que a influência está presente em dois sentidos no que diz respeito ao seu trabalho: na sua pintura “oficial”, neoclássica, ligada às encomendas da corte e/ou alguma instituição; e na “extra - oficial”, livre das regras dos ateliês, pintando também o que se via e o que se sentia, contribuindo dessa forma para a originalidade da sua pintura, do seu trabalho, assim como recomendou seu primo e mestre David. É exatamente isso que Debret faz ao chegar ao Brasil, quando vai mergulhar na sua segunda faceta, a “extra-oficial”. De acordo com Bandeira, ele retoma uma prática que havia iniciado na Itália, a de pintar “cenas do cotidiano” e “figuras populares” (2008, p. 09). Dessa forma, e ainda segundo o mesmo autor, graças a Debret somos informados sobre como se vestiam, trabalhavam e se divertiam gente rica e gente simples, livres e escravos.
O ano de 1806 marca a entrada de Debret no âmbito das representações pictóricas dedicadas à glória de Napoleão. O objetivo era informar a população a respeito das campanhas napoleônicas e exaltar a figura daquele que foi o grande general do exército francês, primeiro-cônsul e, por fim, imperador. Esse foi um momento especial na carreira de Debret, que se tornou, a partir de então, um dos artistas mais estimados entre seus contemporâneos (LIMA, 2004, p. 12).
Feita uma retrospectiva da vida e carreira de Debret, agora se faz viável mencionar quais os supostos motivos que levariam Debret a emigrar e como esse artista veio ao Brasil, bem como qual o propósito da sua vinda.
Podemos começar colocando como um dos motivos primeiros da vinda desse artista o fim do império napoleônico. Em 1815, um ano antes da decisão de Debret vir para o Brasil, aconteceu a Batalha de Waterloo e a derrota definitiva de Napoleão, fato esse que contribuiu para que houvesse o retorno da dinastia dos Bourbon na França.
17 Foi um movimento artístico. Surge nas últimas décadas do século XVIII e nas primeiras do século XIX. Tinha a história como modelo, valorizava as academias; os artistas deveriam fazer cópias das obras antigas; marcado pela era napoleônica.
56 Os artistas associados à figura de Napoleão não seriam bem-vindos. Com a queda de Bonaparte, Debret perdeu seu principal mecenas, o que certamente o motivou a integrar-se à Missão Francesa que chegaria ao Brasil em 1816. Veremos, a seguir, que a opinião de diversos autores coincide no que diz respeito aos motivos de sua vinda. De acordo com Bandeira (2000, p. 44), Debret fora levado a partir para o Brasil diante de uma dupla perda: Waterloo e a morte de seu único filho.
Outro possível motivo encontrado diz respeito ao exílio de David em Bruxelas. Coagido que foi este último a refugiar-se na Bélgica por suas ligações políticas , certamente deve ter influenciado na decisão de Debret viajar para o Brasil. Aqui acabaria se tornado, junto com Grandejean de Montigny, a mais influente voz entre os artistas componentes da Missão Artística Francesa (BANDEIRA, 2003).
Lima (2004) aborda que Debret passava nesse momento por um abalo psicológico causado pela desestruturação familiar, sua carreira viu-se prejudicada pelo retorno da monarquia dos Bourbon ao poder na França. Os artistas associados a Napoleão não seriam bem-vindos entre os monarcas restaurados.
Taunay (1956) aponta que Debret vira morrer-lhe o filho único e queria viajar para distrair-se.
Encontrava-se Debret não só deprimido pelos acontecimentos, como em más condições econômicas, estancadas as antigas fontes de bem-estar (PRADO, 1989, p. 33).
A Jean Baptiste, aconselhavam parentes e amigos o que ele mesmo desejava: que viajasse para atenuar desgostos e conseguir novos meios de vida. Providencialmente, apareceu a ocasião suscitada por convite para trabalhar na Rússia. Na mesma altura, surgiu uma segunda oferta aos artistas mal vistos em Paris pela “legitimité”. Diante de tantos desconfortos, cogitaria o Conde da Barca, ministro de D. João, contratar os parisienses que estavam ansiosos para virem ao Brasil (PRADO, 1989, p. 34).
Prado (1989) ainda aponta que Debret e seus companheiros preferiram o Brasil. Além do mais, afigurava mais interesse o país descrito pelos numerosos franceses que acorriam ao Rio de Janeiro, os quais narravam os atrativos da paisagem, da fauna e da flora do trópico e o pitoresco dos usos e costumes de seus habitantes.
57 Como podemos ver, era um momento bastante delicado e doloroso de sua vida. E, talvez, ele tenha se sentido como se não tivesse mais nada a perder, aceitando fazer parte da viagem ao Brasil, terra conhecida pelo seu exotismo e longínqua. De certa forma, a aventura brasileira ao lado dos companheiros até então sem perspectivas parecia lhe ter devolvido a alegria, ou pelo menos a alegria de viver uma nova vida em novo contexto. Sob a qualificação de “pintor de história”, Debret juntou- se à Missão Artística.
Esclarecidos os motivos de sua decisão de vir ao Brasil, faz-se necessário apontar como este artista chega ao Rio de Janeiro, por meio da “colônia Lebreton”, também conhecida como missão artística francesa. De uma forma geral, pode-se dizer que a Missão Artística Francesa se constituiu num grupo de artistas e artífices franceses que, deslocando-se para o Brasil, trouxe novidades no âmbito das artes18 ao país, introduzindo o sistema de ensino superior acadêmico (Artes). Esse era o objetivo primeiro da Missão: fundar uma Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Schwarcz (2008) cogita duas perguntas sobre o que seria essa missão, se vinha a ser um plano estratégico de D. João e de sua corte ou uma espécie de exílio, um afastamento compulsório de artistas ligados as lides napoleônicas? Supõe ainda que a Missão Francesa de 1816 pode ter surgido através da conjunção de duas situações:
de um lado uma série de artistas, formados pela Academia de Artes Francesa, no mais estrito estilo neoclássico, vinculados ao Estado napoleônico e inesperadamente desempregados. De outro, uma corte estacionada nos trópicos, longe, portanto da metrópole europeia e carente de uma representação oficial (SCHWARCZ, 2008, p.13).
A referida autora diz ter sido dessa maneira e das conjunções dessas duas situações que surgiu aquela que é hoje conhecida como a Missão Francesa de 1816, ou então a colônia francesa, denominação que naquele contexto se deu ao atual grupo de artistas, o qual aportou no país em inícios do século XIX. E discorre: nada como um casamento feliz de eventualidades (SCHWARCZ, 2008, p.14).
Porém, Bandeira (2003) aponta em seu ensaio sobre a missão artística francesa a colocação do historiador Taunay19, na qual ele menciona que a iniciativa
18 Que até então era voltada para temáticas religiosas apenas.
58 teria partido de Antônio de Araújo Azevedo, o conde da Barca, com o apoio de Dom João VI.
De acordo com Taunay (1956), O Conde da Barca, que era homem de cultura, escreveu ao Marquês de Marialva, embaixador recentemente (1815), e mandou-lhe ordens para que contratasse quanto antes os docentes da nova academia e alguns hábeis mestres de ofícios de que também muito precisava o Brasil, onde as indústrias estariam atrasadíssimas. Só não se sabe em que questão ele estava pouco inteirado, como frisa Schwarcz (2008). Seria com relação a situação pessoal e política que envolvia esses artistas ou sobre a vinda, a qual ele mesmo ordenou a contratação?
Xexéu frisa como um dos maiores motivos da vinda da missão a situação política que estava desfavorável: tratou-se de uma hipótese com a probabilidade de ser a mais correta, já que Lebreton e Taunay já não eram jovens e somente uma situação-limite, o desfavor político, os fariam tomar a drástica decisão de abandonar a França, a Europa, e aventurar-se em um lugar pouco conhecido e considerado exótico como o Brasil (XEXÉU, 2003, p. 68).
Como mais um dos motivos referentes à vinda desses artistas, o autor expõe a colocação do historiador Taunay sobre o objetivo da vinda desses artistas franceses:
A série de ilustríssimas fundações, devidas à ação real desde 1808, quis o ilustre homem de estado ajuntar um instituto artístico: uma Academia de Belas-Artes que viria a ser a primeira criada na América do Sul (XEXÉU, 2003, p. 67).
Ainda de acordo com o mesmo autor, consta-se que ele evidencia que a ideia original que norteou a seleção de artistas e artesãos fora a fundação de um Liceu de Artes e Ofícios, mas do que uma Escola de Belas-Artes, o que se evidencia no primeiro nome da instituição, que teve outras denominações até sua inauguração tardia, dez anos depois da chegada dos franceses.
A organização da Missão de 1816 ocorreu quando D. João, príncipe regente de Portugal, se viu obrigado a refugiar-se no Brasil. O Rio de Janeiro, agora capital da monarquia portuguesa, necessitava de estabelecimentos de educação que
59 completassem iniciativas levadas a cabo desde 1808. D. João tomou medidas que favoreceram o país, a abertura dos portos20 foi uma delas (TAUNAY, 1956, p. 7).
De acordo com Gomes Pereira (2008), a vinda do príncipe regente e da Corte portuguesa em 1808 promoveu, no Brasil, uma grande transformação política, econômica e cultural.
É apenas em 1808, logo após a abertura dos portos do Brasil, que a curiosidade estrangeira, durante tanto tempo represada, ganha oportunidade para finalmente conhecer e reconhecer a famosa natureza do Brasil. Até então, os portugueses, ciosos em preservar sua rica colônia, haviam feito de tudo para evitar que os estrangeiros dominassem, invadissem ou simplesmente conhecessem suas terras americanas (SCHWARCZ; VAREJÃO, 2014, p. 155).
Sobre a abertura dos portos, podemos dizer que ocasionou consequências importantes também no plano cultural, já que, além dos comerciantes, passaram a entrar livremente no Brasil cientistas e estudiosos de variados tipos, interessados em conhecer o país. Nesse momento, passam a ocorrer importantes expedições científicas, promovendo um levantamento sobre a realidade do país.
Debret chegou ao Brasil em 25 de março de 1816, no veleiro Calpe, junto com outros participantes de que se convencionou chamar Missão Artística Francesa. O grupo era chefiado por Joachim Lebreton, antigo secretário da classe de Belas-Artes do Institut de France. Vieram, inicialmente, organizar o ensino das artes e ofícios no Rio de Janeiro, que era então a sede da monarquia portuguesa (XEXÉU, 2003, p. 73). De acordo com Schwarcz (2008), os artistas traziam na bagagem uma arte neoclássica, cujo modelo implicava buscar na Antiguidade os rastros das glórias perdidas e os modelos de virtude. Dessa maneira, Debret acompanhou todo processo político de aclamação de D. João VI, declaração de independência e coroação de D. Pedro, organização do império, abdicação do primeiro imperador e aclamação do seu filho D. Pedro II. É esse o contexto histórico em que se situam os artistas vindos na missão.
Então, como podemos ver, o objetivo principal do grupo era implantar no Brasil a educação artística com caráter oficial. Franco (1974) assim discorre:
20 Ocorre em 28 de janeiro de 1808 a “abertura dos portos às nações amigas”, fato esse que muito contribuiu para a vinda das chamadas “Missões científicas e artísticas” ao Brasil. Como também assegurava aos estrangeiros o direito de receber sesmarias (terras) nas mesmas condições que os portugueses.
60 Mas, de um lado, havia os franceses, levados pelo empenho louvável de executar com esmero a missão que lhes havia sido confiada, e, do outro, a inépcia interesseira de medíocres artistas portugueses, chefiados pelo pseudo pintor Henrique Silva, artista incompetente, mas cortesão combativo e ambicioso, conhecedor dos meandros da emperrada e ignorante burocracia de D. João VI. Henrique Silva, nomeado diretor da Academia, durante anos entorpeceu a ação dos franceses, provocando intrigas e providências administrativas contraditórias e longas polêmicas de imprensa, nas quais Debret se envolveu (FRANCO,1974, p. 44).
Todo esse conflito atrasou, portanto, a inauguração da Academia, que, de acordo com Lima (2004), só veio ocorrer em cinco de novembro de 1826.
Depois de longas marchas e contra-marchas, disputas com funcionários da coroa e artistas locais, tais como o pintor português Henrique José da Silva (1772- 1834), os franceses, liderados por Debret e Grandjen de Montigny, materializaram o sonho embalado desde 1816 com a inauguração do prédio da Academia Imperial de Belas Artes (BANDEIRA, 2006, p. 73).
A atuação de Debret como professor no Brasil foi notável, sobretudo levando - se em consideração as enormes dificuldades enfrentadas pelos mestres franceses na implantação da Academia, motivadas em grande parte pela rivalidade com o pintor português Henrique José da Silva, designado diretor da Academia após a morte de Lebreton, em 1818.
Dessa maneira, Franco (1974) menciona que Debret só conseguiu estabelecer sua aula de pintura depois da derrota de Henrique Silva. Pois, antes disso, Debret era como se fosse um funcionário fantasma, recebia, mas não tinha lugar para lecionar como professor de pintura histórica.
Segundo aponta Vilaça (1993), “Como uma das consequências da missão, pode-se dizer que marcou, desde suas primeiras atividades, a ruptura, sob as influências de uma concepção nova da arte de tradição colonial, de origem portuguesa, e o conflito entre a arte de expressão litúrgica e o laicismo21 francês, importado pela missão” (VILAÇA, 1993, p. 453).
Bandeira (2003) frisa que há prós e contras apresentados por historiadores e críticos na avaliação dessas consequências que ocorreram no Brasil com a chegada dos artistas franceses no âmbito das artes. Aponta um argumento clássico contrário à
21 Que rejeitava a influência da igreja considerando que os assuntos religiosos devem pertencer somente à esfera privada do indivíduo.
61 influência dos artistas franceses e seus imediatos seguidores brasileiros, mencionando que o desenvolvimento natural da arte brasileira dentro dos princípios formais do Barroco foi interrompido abruptamente por uma proposta alienígena que impediu a continuidade da trajetória natural da nossa arte, formulada no período colonial.
Ainda sobre as supostas consequências positivas e negativas, Bandeira afirma que pessoalmente concorda com o historiador de arte e crítico Mário Barata, em seu ensaio As Artes Plásticas de 1808 a 1889, quando diz que: “A missão não pode ser culpada de haver cortado o desenvolvimento do Barroco no Brasil. Este corte foi devido à própria situação histórica” (2006, p. 69).
O mesmo autor ainda argumenta que foi a ação dos membros da missão e da Academia por eles estruturadas que possibilitou a profissionalização em grande escala de inúmeras gerações de artistas brasileiros durante o transcorrer do século XIX.
A Missão trouxe um sistema de ensino em academia ainda inexistente na própria metrópole lusa, que não havia atingido esse estágio de educação e representatividade artísticas, que no século XVII já se generalizava em tantas cidades europeias de importância, ampliando-se no século XVIII, mas não chegando a Portugal. “Nenhum país na Europa produzia número tão limitado de poetas e pintores como Portugal” (WEFFORT, 2000, p. 46).
Podemos dizer que a missão de fato abriu uma era nova para a arte brasileira. Houve terríveis dificuldades concretas, intrigas, difamações mesquinhas, até que conseguissem os franceses criar aqui a primeira Academia de Belas Artes. Foi uma batalha surda e terrível. E Debret, de uma coragem, de uma persistência notável. Uma quase obstinação. Havia nele entusiasmo pelo Brasil. E pela sua tarefa (VILAÇA, 1993, p. 22/23).
A ação dos artistas franceses também nos legou um tesouro de obras de arte, de imagens:
Cenas urbanas, paisagens, composições que dão testemunho de eventos históricos, que retratam personagens importantes do período, que ilustram os usos e costumes do Brasil de então e que, hoje, nos fazem conhecer melhor a nós mesmos. Os artistas, que partiram do Havre em 22 de janeiro, no veleiro norte-americano Calpe, fazem parte de um capítulo formativo e inesquecível da nossa história cultural e artística (XEXÉU, 2006, p. 70).
62 Debret é visto pelos autores como sendo o maior pintor da missão, como podemos ver em mais de uma opinião. São mencionados como sendo uns de seus maiores membros Nicolas Antoine Taunay e Jean Baptiste Debret. O primeiro, por sua representatividade no cenário artístico francês do final do século XVIII e início do XIX, e o segundo por sua importância para o conhecimento da sociedade brasileira do começo deste último século, que descreveu em centenas de desenhos e aquarelas, plenas de vivacidade e elegância, feitos para serem incorporados à sua obra máxima, a Voyage Pittoresque et Histórique au Brésil (1834-1835-1839) (XEXÉU, 2003, p. 73). Corrêa do Lago (2017) discorre sobre a questão da fama de Debret, se teria ficado conhecido caso não tivesse lançado o Livro da Viagem Pitoresca22, frisando que ainda que Debret não tivesse publicado este ambicioso álbum de gravuras, conhecido no Brasil como Viagem Pitoresca23, e tivesse preferido se contentar em nos deixar apenas sua imensa obra gráfica de mais de 830 esboços, aquarelas e desenhos o pintor francês seria mesmo assim reconhecido hoje como o maior de nossos artistas viajantes do século XIX.
Está claro que o livro produzido por Debret é mais ressaltado do que suas aquarelas. E que o pitoresco é quase sempre a ele associado com relação à viagem descrita no livro. Mesmo que a ideia do livro tenha sido paralela à produção das aquarelas, e que para o livro conter imagens tenha sido preciso que antes ele reproduzisse as aquarelas, mais tarde usadas como base para as litografias.
Sobre a litografia, Lima (2004) aponta ser uma técnica de impressão que revolucionou o mercado das gravuras no início do século XIX, permitindo maior rapidez e recursos mais diversificados no processo de reprodução de imagens.
Debret transformou suas aquarelas em litografias, exercendo, ele mesmo, a