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IV. Propriétés du matériau de cathode Nd 2 NiO 4+
Com a finalidade de compreender como o jornalismo de Eliane Brum se insere e subverte as regras do paradigma jornalístico, adotam-se como aporte teórico as discussões propostas pelos pesquisadores Jean Charron e Jean de Bonville (2016). O debate mostra-se frutífero por possibilitar entender de que forma a autora de O olho da
rua se desvia da prática cognitiva usual do fazer jornalístico, direcionando-se para uma nova configuração de regras e postulados.
Em contraposição a uma visão histórica de jornalismo apresentada por Chalaby (2003) e Neveu (2006), os quebequenses Charron e Bonville (2016) mapeiam as marcas do paradigma jornalístico dentro de uma perspectiva mais ampla, abarcando uma historiografia do jornalismo e da imprensa. Os autores canadenses não concebem o caráter historiográfico do jornalismo como instância “teleológica” (inscrita numa marcha rumo à liberdade) e tampouco acedem ao caráter “profissional/cronocentrista” (centrado no modelo anglo-americano de profissionalização).
Os pesquisadores canadenses apontam como desafio investigativo a compreensão das condições sociais de produção do discurso jornalístico e as relações complexas que as permeiam. Nessa acepção - para Charron e Bonville - o surgimento da imprensa situa-se na confluência de quatro fases da história do jornalismo, cada uma delas caracterizada por um modo particular de perceber e de exercer o jornalismo. Dispostas no tempo e no espaço, as etapas caracterizam paradigmas jornalísticos, cuja centralidade estão ancoradas no: 1) Jornalismo de transmissão (século XVII)8; 2)
Jornalismo de opinião (século XIX)9; Jornalismo de informação (1880-1910)10 e 4)
Jornalismo de comunicação (1970-1980)11.
8 Com o surgimento dos primeiros jornais no século XVII, os impressores configuram-se como os encarregados de reunir, assinalar e propagar as informações, anúncios e correspondências que lhe chegam. Nesse modelo, a figura do impressor funciona como uma ligação entre as fontes e os leitores. Contudo, nem os gazeteiros e tampouco os jornalistas usufruem de uma autêntica identidade discursiva – que apenas surge com o Jornalismo de opinião, no século XIX.
9O jornalismo de opinião é resultado das mudanças políticas e sociais por que passou o XIX. Isso implica em um modo particular de lidar com as questões referentes ao direito ao voto, ao desenvolvimento do sistema partidário e à responsabilidade ministerial. Desse modo, o jornal inclina-se mais fortemente à discussão das lutas políticas, é financiado por seus leitores e por siglas partidárias, não atingindo os reais focos comerciais. O jornal emerge, em suma, como expressão de luta e combate políticos.
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Para Charron e Bonville com a intensificação das trocas comerciais e com a industrialização de bens de consumo foi possível criar novos mecanismo de negócio e ampliar os investimentos em publicidade. Com o tempo, os empresários perceberam que ao denegar os embates políticos (motivo de divisão entre a população) em favor de temas mais interessantes para o maior número de pessoas, eles poderiam obter mais ganhos publicitários. Pesam nesse sentido, as condições técnicas e econômicas (ferrovia, telégrafo,
Cada uma das fases demarcam modelos de práticas. Os paradigmas jornalísticos estão alicerçados sob a insígnia do discurso (transmissão, opinião, informação e comunicação) em detrimento dos aspectos políticos, econômicos e técnicos. O jornalismo é afetado por diversos processos extradiscursivos como a economia, a política e a inovação técnica; entretanto, conforme enunciam Charron e Bonville (2016), na medida em que o paradigma jornalístico direciona-se para uma prática discursiva - seus valores de identificação se modificam – passando a não ser mais guiados pelos critérios econômicos ou políticos, mas por referências particularmente discursivas:
Assim, não é a predominância das considerações comerciais que caracteriza o jornalismo do século XX, mas a maneira como essas considerações influem no discurso jornalístico. A busca pelo lucro já era muito forte no fim do século XIX na indústria da imprensa norte- americana, mas as formas discursivas que a manifestavam eram singularmente diferentes daquelas do final do século XX. Por isso, os paradigmas jornalísticos devem ser caracterizados preferencialmente pelos atributos distintivos do discurso jornalístico nos diferentes paradigmas do que por considerações extradiscursivas. (CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 33)
A ideia de paradigma aponta para o conceito normativo de referência, alicerçado sobre as bases de práticas reprodutíveis. O sistema de regras é clivado por preceitos discursivos e por esquemas interpretativos assimilados pelos jornalistas. Tais postulados condicionam a inteligibilidade e a leitura do “real”.
Dentro do ambiente de redação, o jornalista adota por mimetismo as premissas de socialização profissional, conformando uma ordem de comportamentos e esquemas cognitivos cuja tendência é “reproduzir mais ou menos fielmente, quer dizer, adaptando-os eventualmente às condições concretas e particulares do exercício de seu ofício” (CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 46).
Nesse sentido, o jornalismo emerge sob duas características principais: a primeira abrange uma prática discursiva (factualidade, construção social da realidade e interesse público) e a segunda evoca uma prática interdiscursiva (pressupõe o encontro
telefone etc.), o aumento das páginas e tiragens do jornal e a ampliação da distribuição. O jornalismo também adquire algumas características focalizadas no lead e na pirâmide invertida, centralidade no fato e, ainda, os critérios de objetividade, imparcialidade e neutralidade que se configuram como as bases da identidade jornalística.
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O jornalismo de comunicação é caracterizado pela diversificação de mercados midiáticos e de serviços de informação, o que põe em xeque as normas e as práticas usuais de produção, difusão e de consumo da informação, ou seja, a relação entre produtores e consumidores é modificada. Nessa fase, a figura do jornalista busca estabelecer laços de cumplicidade e de intersubjetividade com o público.
de distintos discursos e fontes como, por exemplo, o relato oficial da polícia, do juiz, de políticos, de sujeitos comuns ou dos bombeiros).
Charron e Bonville (2016) recorrem aos conceitos presentes na Sociologia do Jornalismo e nas Ciências Sociais para estabelecer as características e os processos de produção do discurso jornalístico – que variam no âmbito espaço-temporal - e são clivados por regras, códigos e paradigmas. Os autores canadenses inspiram-se nas teses de Thomas Kuhn (1998) para definir o que é um paradigma. Nessa direção, o conceito é assimilado como um conjunto de valores, técnicas e crenças partilhadas por membros de uma mesma comunidade científica:
Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma. (...) De acordo com essa concepção, uma comunidade científica e formada pelos praticantes de uma especialidade científica. Estes foram submetidos a uma iniciação profissional e a uma educação similares, numa extensão sem paralelos na maioria das outras disciplinas.
Neste processo absorveram a mesma literatura técnica e dela retiraram muitas das mesmas lições. Normalmente as fronteiras dessa literatura- padrão marcam os limites de um objeto de estudo científico e em geral cada comunidade possui um objeto de estudo próprio. (KUHN, 1998, p. 219-220)
Sob essa premissa, Charron e Bonville compreendem o paradigma jornalístico como um sistema normativo formado por esquemas de interpretação, modelos exemplares e valores com os quais os sujeitos se identificam como membros de uma comunidade jornalística em um espaço e tempo específicos. O paradigma apresenta duas vertentes: uma teórica e outra empírica. A versão teórica articula duas classes principais: 1) um saber comum ou saber enciclopédico específico aos jornalistas e 2) um conjunto de regras de produção discursiva.
O saber comum pressupõe um apanhado circunscrito de informações – que se ligam a referentes jornalísticos, como instituições, figuras políticas e instâncias econômicas, sociais e culturais. Ao sistema tipológico de referentes cabe o ordenamento do saber enciclopédico, que em sua estrutura abrange diversas categorias, dentre elas atores, Estados, instituições e eventos. A união da esfera jornalística (centrada no lead e na pirâmide invertida) com o sistema tipológico de referentes articula o que se define por “doxa jornalística” (CHARRON; BONVILLE, 2016).
Os autores quebequenses destacam que os periodistas retêm na memória um conjunto de informações acerca do tema de suas reportagens. Esses dados são hierarquizados e justapostos na forma de esquemas de referentes.
Percebe-se, sob essa ótica, que os esquemas de referentes reúnem um saber comum e por meio deles emergem outros esquemas, como o de reportagem e os esquemas textuais. O primeiro centra-se nos processos, incluindo-se as formas de coleta, avaliação, desenvolvimento e formatação da informação pela redação. O segundo termo, refere-se aos gêneros jornalísticos, tais como o formato do lead e da pirâmide invertida em uma notícia, a escolha e apresentação de uma fonte, etc.
Pode-se compreender esse saber comum a partir de uma situação. Um jornalista encarregado de cobrir o Congresso Nacional necessita dispor de conhecimentos iniciais como, por exemplo, entender que o poder legislativo brasileiro é exercido na instância federal por duas casas: o senado federal e a câmera dos deputados; saber quais são os principais temas em discussão nas duas instâncias, assimilar como se articulam e votam as siglas partidárias, as alas evangélicas, os ruralistas, etc. O saber comum ou enciclopédico se encarrega, como se percebe, de categorizar e hierarquizar as informações cognitivamente mais acessíveis.
Nessa senda, destacam-se também as regras de produção discursiva, que apresentam dois formatos: do editor (regras de edição) e dos repórteres (regras de redação). Conforme Susan B. Shimanoff, a regra constitui uma prescrição a ser imitada e “que indica qual comportamento é obrigatório, preferível ou proibido em um determinado contexto” (SHIMANOFF, 1980, p. 57 apud CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 77). A regra, por esse viés, é prescritiva, contextual e visa a comportamentos. As regras de edição dizem respeito aos recursos empregados, à seleção dos fatos e ao enfoque dado aos eventos. Esses parâmetros podem ser percebidos em diversos segmentos do jornal, conforme atestam Charron e Bonville:
Essas regras são perceptíveis (...) na definição do objeto referencial (eventos recentes, em jornalismo contemporâneo), na distribuição de temas (mais ou menos política, economia, esporte, etc.), na exploração dos gêneros jornalísticos – editorial sobre um evento de política nacional, notícia (hard news) sobre um acidente na estrada, reportagem (soft news) sobre o problema da evasão escolar, breve sobre um evento artístico, etc., na formatação das informações (manchete em seis colunas na “primeira página” ou uma nota curta na página 27, etc.). (CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 74)
Já as regras de redação abrangem a natureza dos gêneros e dos estilos jornalísticos (seleção, coleta, processamento e difusão da informação). As regras também podem ser discriminadas em semânticas (seleção e interpretação da informação, no âmbito macroestrutural ou microestrutural), procedimentais (enunciam o
modo como se desenrolam as atividades profissionais) e normativas (prescrevem comportamentos profissionais).
Em sua dimensão empírica, o paradigma jornalístico apresenta-se sob duas formas básicas: uma cognitiva (presente como estrutura cultural no mundo dos jornalistas) e outra discursiva (resultado das mensagens produzidas pelos repórteres ao longo de sua atividade profissional).
O procedimento discursivo compreende uma operação de práticas e convenções regulares. A relação que os repórteres mantêm com os outros jornalistas se configura como uma arena de observação e de reprodução. Os jornalistas iniciantes conformam seu discurso a partir da “decodificação” e apreensão dos métodos operativos dos colegas de profissão e dos repórteres dos veículos concorrentes.
John Soloski (2016) explica que as instâncias de busca e de relato das notícias também são afetadas pelo profissionalismo jornalístico. Para o pesquisador estadunidense, o profissionalismo se apresenta como um método competente e pouco dispendioso por meio do qual os veículos de comunicação exercem seu domínio sobre os repórteres e editores. Para evitar o caráter discricionário dos periodistas são adotadas regras que se configuram nas chamadas políticas editoriais das organizações jornalísticas. Soloski ratifica que para uma profissão subsistir ela deve exercer o controle sobre a base cognitiva da profissão:
Para fazer isto uma profissão exige: 1) que um conjunto de conhecimentos esotéricos e suficientemente estáveis relativamente à tarefa profissional seja ministrado por todos os profissionais; e 2) que o público aceite os profissionais como sendo os únicos capazes de fornecer os serviços profissionais. Ao assegurar o controle sobre a base cognitiva da profissão, a profissão também exerce um monopólio no mercado profissional. (SOLOSKI, 2016, p. 136)
O controle da base cognitiva também se dá por meio da aprendizagem profissional, com o controle das instâncias educativas nos institutos superiores e universidades. As escolas profissionais permitem que os futuros jornalistas assimilem a base cognitiva da profissão; estimula a padronização dos serviços profissionais e, por fim, apontam para a adoção dos ideais da profissão pelos novos jornalistas. É durante essa fase que os repórteres se tornam “membros sociais das suas profissões”, assimilando normas e procedimentos. Segundo Soloski (2016), tal atitude significa algo mais do que a aplicação de uma técnica apreendida, “significa a aprendizagem do modo como estruturar e viver a vida como profissional” (SOLOSKI, 2016, p. 137).
A cultura da profissão, segundo Robson Dias (2014), articula táticas, códigos, símbolos, rituais e convenções que abarcam tanto o mundo dos mass media quanto dos jornalistas na sociedade. Soloski (2016) diagnostica que o comportamento dos repórteres é influenciado pelo profissionalismo jornalístico de dois modos: ao estabelecer normas e padrões de comportamento e ao determinar o sistema de recompensa profissional.
Dias (2014) dialoga com Soloski (2016) ao apontar que os padrões de conduta e as normas de comportamentos relacionam-se de forma transversal com os definidores primários12 no que diz respeito às assimetrias “cognitivamente induzidas nos jornalistas
em suas redações e rotinas produtivas” (DIAS, 2014, p. 597).
Dentro do cotidiano de produção da notícia de cada profissional, existem as rotinas cognitivas: percepções que o jornalista tem da realidade, podendo, posteriormente, favorecer a avaliação do que é noticioso, além do fato das rotinas produtivas estarem confinadas nos limites cognitivos da racionalidade (Traquina, 1993, p. 93). (DIAS, 2014, p. 597)
O segundo modo, relativo ao sistema de recompensa profissional, aponta o prêmio como bônus ou agrado, isto é, “aquilo que se ganha (simbólica ou materialmente) ao chegar a um objetivo” (DIAS, 2014, p. 597). Dias (2014) cartografa um mapa de recompensas a partir de diversos conceitos localizados em variados matizes de pesquisas e autores:
Os prêmios em Jornalismo operam em relação a diversos conceitos identificados em Teorias da Comunicação, tais como: controle do seu trabalho (Breed, 1993) nas rotinas produtivas (Tuchman, 1993), a questão da ação pessoal e seleção de notícias (Wolf, 2001) por um filtro (White, 1993; Senra, 1997), o profissionalismo (Soloski, 1993), sofrimento com a pressão do tempo (Schlesinger, 1993), relacionamento entre fontes e os jornalistas (Molotch e Lester, 1993), poder das fontes como definidores primários (Hall et al., 1993), além de questões relativas à visão de mundo e cultura profissional (Schudson, 1993). (DIAS, 2014, p. 597-598)
O profissionalismo jornalístico – como se observa - é atravessado por um conjunto de normas. A objetividade emerge, nessa seara, como um importante elemento de estandardização, aliando-se ao ritual estratégico que envolve o news judgment (a 12 O quadro social determinado pelos definidores primários e pelo aparato dos media engendra uma ótica
em que os promotores das notícias estabelecem a definição ou interpretação primária dos fatos e acontecimentos. Desse modo, a taxinomia de todas as futuras coberturas ou discussões passam pelo relé heurístico dos definidores institucionais. Isso implica que a definição primária alberga um conjunto de referências e interpretações primordiais – cuja indexação está assentada na dinâmica das fontes.
decisão do que é notícia), a seleção das fontes e a estrutura dos news beats (resultado da interação do profissionalismo jornalístico com os recursos da empresa noticiosa).
Para Soloski (2016), a objetividade colocada em prática pelos repórteres apresenta a vantagem de englobar as necessidades dos jornalistas, das organizações e dos públicos. Segundo esse raciocínio, os acontecimentos podem ser apresentados de forma segura, sem a necessidade de explicar o significado político dos fatos.
Ao deslocarem as notícias como séries de fatos, as organizações jornalísticas sedimentam suas bases de proteção de duas maneiras. A primeira é que “as fontes e não os jornalistas são responsáveis pela exatidão dos fatos” (SOLOSKI, 2016, p. 140). Sob certo aspecto, essa premissa colabora para afastar dos jornalistas e de suas organizações as denúncias de parcialidade e imprecisão das reportagens. A segunda vantagem é “assegurar sua posição de monopólio no mercado” (SOLOSKI, 2016, p. 140). Isso ocorre graças ao “apagamento” das marcas políticas e ideológicas nas organizações jornalísticas. Conforme Soloski (2016), a máxima da objetividade sustenta-se na “eficácia da cobertura jornalística, nos custos de assinatura, nos serviços de distribuição ou em qualquer outro fator tangível que um jornal consegue controlar” (SOLOSKI, 2016, p. 140).
Isso impacta na escolha das fontes noticiosas pelos jornalistas – que em sua maioria – optam pelos “personagens” centrados na estrutura do poder da sociedade, cujo sistema político-econômico emerge como um dado natural.
As fontes noticiosas surgem então da estrutura do poder existente; por isso, as notícias tendem a defender o status quo. Mas os jornalistas não se põem a relatar conscientemente as notícias de modo a que o atual sistema político-econômico seja mantido. A seleção de acontecimentos e de fontes noticiosas corre “naturalmente” do profissionalismo jornalístico. (SOLOSKI, 2016, p. 140-141)
Soloski (2016) pondera que o fato de os jornalistas inclinarem-se para as fontes hegemônicas não quer dizer que o news judgement não sofra alteração. Contudo, fica evidenciado, que as distinções aparecem dentro de uma estrutura paradigmática, “nomeadamente a das normas predominantes do profissionalismo jornalístico” (SOLOSKI, 2016, p. 141). A definição do que se julga ser notícia sofre as injunções do conceito de normalidade em sociedade, uma vez que o critério de noticiabilidade de um acontecimento nutre-se do distanciamento do que se concebe como normal. Na concepção de Soloski (2016), ao fixar-se no desvio e no insólito, “os jornalistas
defendem implicitamente as normas e os valores da sociedade” (SOLOSKI, 2016, p. 141).
A seleção, a apresentação dos acontecimentos e as fontes noticiosas constituem elementos que se conjugam ao profissionalismo jornalístico; além destes, a empresa jornalística também desempenha papel importante no processo ao estabelecer as rotinas de cobertura noticiosa por meio dos news beats. Nesse sentido, o profissionalismo jornalístico se encarrega de autenticar e determinar o valor das instituições a serem cobertas pela pauta noticiosa. O foco desvia-se do ambiente de redação e direciona-se a outros espaços, em que os jornalistas compartilham experiências e informações, como é o caso das entrevistas coletivas e das coberturas em assembleias legislativas, por exemplo, que são planejadas com a finalidade de agrupar vários profissionais.
Charron e Bonville (2016), em diálogo com David Mathieu (2003), apontam que o processo cognitivo apresenta similitudes e nexos com as investigações e testemunhos dos jornalistas. Nessa direção, podem ser distinguidos três níveis de esquemas jornalísticos. O mais elementar, denominado por Mathieu, como “principiante”, é formado pelo conjunto de informações básicas acessíveis a qualquer ente cognitivo. Nesse estágio, o regime de práticas jornalísticas fica restrito às suas representações mais superficiais. Abrange, assim, as imagens convencionadas acerca da atividade jornalística que os sujeitos formam sobre os media de modo geral. Como exemplo pode ser mencionada a noção de que a estrutura da página de um jornal apresenta fotos para compor as matérias, que o jornalista faz perguntas a uma fonte, que as notícias apresentam título e assim por diante. São dados que os sujeitos cognitivos comuns percebem na dinâmica dos media.
O segundo nível abrange conhecimentos peculiares aos jornalistas. Os esquemas de referentes e de reportagens são aprimorados com as informações adquiridas na prática profissional. Nessa fase, os esquemas alinhavam saberes e narrativas, como forma de interpretar os aspectos sociais, culturais e políticos. O exercício da prática jornalística abre novas possibilidades para a compreensão e problematização das informações – que passam a ser enriquecidas pelos procedimentos de observação, análise e cotejamentos de dados, fontes e situações.
Mathieu (2003) destaca, por fim, os esquemas de acontecimentos. Esse nível é caracterizado por práticas específicas da atividade jornalística – ao concentrar informações relativas ao referente e aos procedimentos de como noticiar determinado fato. Os esquemas de acontecimentos são compostos por roteiros específicos – que permitem ao jornalista pinçar em meio a um compósito de fatos e notícias possíveis –
um acontecimento, isto é, buscar na miríade difusa do social, aquilo que se desvia da rotina e que repercute no cotidiano.
O jornalismo, como a língua, não se petrifica numa redoma, mas se organiza sob um conjunto de regras suscetíveis de se modificarem ao longo do tempo. Resultado disso são as transformações nas condições concretas da prática. As cesuras que ocorrem no paradigma jornalístico são relevantes para se pensar como os desvios possibilitam a ascensão de novos usos e de novas consciências no âmbito do jornalismo.