Nd 2 NiO 4+δ
III. Choix du matériau de cathode : Nd 2 NiO 4+
Os estudos sobre os contextos circunscritos comunicam de forma tangencial com as abordagens da antropologia e da história – discussões prodigamente empreendidas nas páginas dos Quaderni Storici. A aproximação entre os dois campos permitiu o aparecimento de novos conceitos e problemáticas. Desenvolveu-se, sob esse prisma, uma crítica ao etnocentrismo das investigações históricas tradicionais cuja perspectiva
“muitas vezes teleológica, isto é, partindo de um ponto de vista que colocava os desenvolvimentos posteriores como o ponto a partir do qual se entender o passado” (LIMA, 2006, p. 94).
A antropologia foi ancilar para os debates promovidos no âmbito da micro- história, principalmente, por meio das reflexões de Fredrik Barth, Karl Polanyi e Clifford Geertz. No tópico anterior, observou-se que os pressupostos defendidos por Barth colaboraram para a articulação da noção de escala às premissas de organização social.
Barth compreende que a tessitura da realidade social é resultado de uma interação incessante entre pessoas e grupos – cujos interesses embatem-se continuamente para a realização de distintos objetivos e variadas formas de ação. Desse modo, o autor norueguês entende a sociedade como “o resultado cumulativo de um número de escolhas separadas e decisões tomadas por pessoas que agem frente a frente a outras pessoas” (BARTH, s/d, p. 2 apud LIMA, 2006, p. 261). Barth utiliza a metáfora da rede para escrutinar a composição interativa do tecido social:
Relações sociais formam redes, e não cadeias ou trilhas, precisamente porque cada pessoa e grupo constitui um ponto de encontro, ou nó, de muitas relações. Assim, cada ator pode ser olhado como o centro de uma “estrela de primeira grandeza” (...) de relacionamentos. A complexidade de toda a rede na qual certo número de estrelas se emaranha é enorme; mas as imagens nos permitem ao menos provisoriamente falar de sociedades como um todo nesses termos. (BARTH, s/d, p. 166 apud LIMA, 2006, p. 262)
As reflexões empreendidas por Giovanni Levi partilham do mesmo recorte de observação promovido por Fredrik Barth. Raphael Cesar Lino (2017) assinala que ao se ancorar em Barth, Levi redimensiona “o olhar em seus estudos a fim de dar voz à complexidade social” (LINO, 2017, p. 34). Esse aspecto vai influenciar nas investigações desenvolvidas por Levi na pesquisa circunscrita na região do Piemonte, centrado na formação urbana de Turim. Lino (2017) aponta que o estudo de Levi busca lógicas que conduzam a comportamentos individuais e de grupos:
Levi se distancia das questões tradicionais da demografia, e se aprofunda nas relações migratórias nestas regiões nos períodos pré- industrialização. Essas questões também se relacionam com aspectos característicos do “mundo camponês”, oferecendo dados “não apenas quantitativos, mas também sociais, culturais e demográficos”. (LINO, 2017, p. 34)
Apreende-se, portanto, que a angulação dos estudos de Levi focalizam os aspectos culturais e históricos, em um primeiro plano, e a singularidade das sociedades, isto é, a centralidade da redução da escala de observação – em um segundo momento. Conforme Lino (2017), os aportes advindos de Barth permitiram a Giovanni Levi organizar as bases microanalíticas de seus estudos, cotejando para isso os pressupostos da antropologia, os aspectos culturais singulares de cada fragmento social e, por fim, a articulação dos dados fornecidos pelas fontes seriais.
Outro representante da corrente micro-histórica influenciado pelo arcabouço teórico da antropologia foi Edoardo Grendi. Seus trabalhos publicados na década de 1970 nos Quaderni Storici problematizam os aspectos culturais e estabelecem um diálogo acentuado com a antropologia de Karl Polanyi. O pesquisador húngaro desempenha papel importante na configuração das bases dos pressupostos microanalíticos de Grendi. Desse modo, o autor genovês conjectura que as hipóteses defendidas por Polanyi em A grande transformação poderiam ser utilizadas para compreender o contexto historiográfico italiano – indicando, notadamente, para uma correlação com a antropologia.
Lino (2017) acentua que a oposição de Polanyi a Marx é benéfica para a perspectiva microanalítica adotada por Grendi, porque aponta o caráter econômico “como determinante por meio da perspectiva antropológica”, confere maior destaque aos aspectos sociais, e, por conseguinte, “dar visibilidade às questões culturais e simbólicas” (LINO, 2017, p. 32).
Conforme Rojas (2012), o processo empreendido por Grendi no deslocamento das investigações históricas italianas para o campo da microanálise têm a finalidade de “superar os limites dos antigos “modelos gerais” funcionalistas, estruturalistas e “marxistas vulgares” – limites que se tornaram evidentes (...) depois de 1968 -, com vistas a sua renovação radical a partir da descida ao plano micro-histórico” (ROJAS, 2012, p. 56).
Em 1972, Grendi publica A antropologia econômica, conjunto de ensaios em que deixa patente sua proposta analítica, sumariando as bases de uma união entre antropologia e história, etnologia e história e entre sociologia e história. Seu olhar direciona-se ao caráter micro dos estudos sociológicos, antropológicos e etnológicos. Rojas (2012) acentua que o objetivo era estimular, no historiador, “o esforço de sua “imaginação concreta”” (ROJAS, 2012, p. 56). O autor de Micro-história
Isso permitirá aos historiadores superarem a visão de que a história é uma súmula de processos abstratos e automáticos, na qual se impõem fatalmente leis e tendências gerais em que [é] impossível ver, estudar, examinar e resgatar a ação concreta dos homens, o papel ativo dos sujeitos e movimentos sociais, a função concreta e atuante das classes e grupos sociais e, portanto, os processos reais da geração e
construção da mudança social. (ROJAS, 2012, p. 56, grifos do autor)
Em resenha publicada em 1974, na Rivista Storica Italiana, acerca do livro A
grande transformação, de Polanyi, Grendi destacava a atualidade da obra, as
potencialidades analíticas suscitadas pela aproximação entre antropologia e história e o caráter crítico assentado sobre o etnocentrismo. Acerca da obra de Karl Polanyi, Grendi destaca que
(...) a valorização das “civilizações diversas” é o princípio de uma crítica radical da nossa civilização, uma subversão dos seus presumidos “fundamentos naturais”, sobre os quais se fundou a economia política, o verdadeiro vilain de la pièce. (...). Deste modo, o autor reencontra no estudo das sociedades primitivas e no assim chamado “socialismo utópico” a inspiração fundamental necessária para conquistar a “distância” do drama da sociedade presente (...). (GRENDI, 1974 apud LIMA, 2006, p. 179)
No percurso delineado por Grendi, a antropologia econômica deslocava-se das análises etnocêntricas, propondo a compreensão das problemáticas europeias segundo categorias contrastantes e distintas dos paradigmas da história europeia ocidental. Segundo Lima (2006), o raciocínio organizava-se em torno da ideia de que a investigação das sociedades não-europeias “empreendido pela antropologia” desvelaria “instrumentos conceituais novos que pudessem ser também utilizados para estudar a realidade do passado pré-industrial europeu” (LIMA, 2006, p. 181).
A abordagem da antropologia difere da teoria econômica por trazer à baila a relevância da interação entre os sujeitos, o ambiente e a organização social. Nessa acepção, mesmo quando a antropologia econômica utiliza os paradigmas da teoria econômica – observa-se o condicionamento às injunções microdescritivas, em que os “comportamentos sociais constantes e regulares são elaborados em termos de estruturas e modelos, não em dimensões quantificáveis – e estas elaborações são constantemente confrontadas com as realidades sociais observadas no campo” (GRENDI, 1972 apud LIMA, 2006, p. 181-182).
Como se examina, a antropologia econômica foge à tradição de se pensar a realidade social unicamente a partir da base dos processos de produção. Suas
explicações abarcam distintas variáveis, como as dimensões culturais, simbólicas, religiosas e cerimoniais, por exemplo.
A correlação entre os campos da antropologia e da história – abalizada aqui na perspectiva de Polanyi – permitiu a Grendi contrapor-se de forma crítica aos paradigmas macro-históricos de investigação vigentes em princípios da década de 1970.
Suas perspectivas apontavam para a arquitetura de mediações conceituais que permitissem novas análises empíricas. Sua grade investigativa não perdia de vista – como ressalta Rojas (2012) – “que o que estudamos são sempre dimensões, etapas, fenômenos e variantes de distintas estruturas sociais na história, tais análises empíricas devem representar o esforço de concretização das categorias e das análises” (ROJAS, 2012, p. 56-57, grifo do autor), que redundam no regresso ao âmbito micro dos processos histórico-sociais.
A abordagem micro-histórica de Grendi permite a reflexão sobre as práticas sociais e ainda a valorização topográfica de seu corpus de investigação e das relações sociais. Conforme o historiador genovês é intensificado o “olhar histórico ao microscópico” que possibilita “esclarecer aquelas relações contextuais que a história por setores remove” (GRENDI apud LIMA, 2006, p. 219).
A contextualização da vida social promovida pela micro-história abre uma gama de possibilidades – abrangendo múltiplas perspectivas e caminhos analíticos. Apreende- se que o tom profuso dos atores sociais, suas práticas e linguagens políticas já não cabem nas análises e conclusões da historiografia tradicional.
Os pressupostos da micro-história abalam as hierarquias de relevância, recolocam os elementos de incerteza no processo histórico e optam pelos valores sociais alternativos – como forma de compreender as dinâmicas, as problemáticas e as perspectivas dos sujeitos marginalizados.
Raciocínio semelhante pode ser inferido quando se observa as problemáticas de grupos sociais subalternos nos textos de O olho da rua. De modo geral, as reportagens sobre as pessoas comuns configuram instâncias narrativas que tendem a uniformizar e essencializar as bases dos contextos sócio-culturais.
Na perspectiva adotada aqui, constata-se que a junção dos campos da antropologia, da micro-história e do jornalismo podem convergir seus instrumentos de análise com a finalidade de compreender, articular e questionar as bases das instâncias sociais. Ao conjugar distintas ferramentas de investigação e correlacioná-las no âmbito da escala e dos contextos sócio-histórico-culturais, o jornalismo pode aprimorar o seu
olhar e inquirir sobre os rastros e minúcias narrativas que compõem o lócus de distintas realidades sociais e também sobre a vida dos sujeitos.
Além dos pressupostos advindos de Barth e Polanyi, a antropologia hermenêutica e interpretativa de Clifford Geertz (2008) desempenhou papel central nas investigações da micro-história italiana. A obra A interpretação das culturas lançada, inicialmente, em 1973, propunha o relativismo cultural e não se organizava unicamente contra o etnocentrismo, mas “desconfiava” dos postulados que estabeleciam uma hierarquização das culturas.
Geertz (2008) adotou como metodologia a descrição densa (thick description). Assim, a figura do etnógrafo se encarregava de registrar o discurso social e o inscrever. O movimento constitui uma operação hermenêutica na medida em que textos e códigos são assimilados sob o vértice analítico do observador.
Essa perspectiva é tributária da forma como Geertz (2008) conceitua cultura – que para ele alcança sentido “essencialmente semiótico” (2008, p. 4). O homem – desse modo – é compreendido como um animal imerso em uma rede de significados engendrados por ele mesmo. A antropologia arquiteta-se entre costuras e análises “como uma ciência interpretativa, à procura do significado” (GEERTZ, 2008, p. 4). Desse modo, o antropólogo busca na etnografia as chaves com as quais irá escrutinar os dados socioculturais e interpretá-los. Disso redunda a noção apresentada por Geertz (2008) de que a “etnografia é uma descrição densa”:
O que o etnógrafo enfrenta (...) é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas uma às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de propriedade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado. (GEERTZ, 2008, p. 7)
A descrição etnográfica do contexto cultural investigado equilibra-se sob quatro características fundamentais: 1) é interpretativa; 2) o que ela interpreta é o fluxo do discurso social; 3) a interpretação consiste em salvar o discurso social e fixá-lo em modelos pesquisáveis; e, por fim, 4) é microscópica.
Giovanni Levi (1992) admite, com as devidas ressalvas, que a antropologia interpretativa de Geertz (2008) exerce grande influência na angulação da microanálise histórica. A proposta hermenêutica apresentada pelo antropólogo estadunidense emerge como modelo investigativo para análises relacionadas à uma perspectiva histórica e antropológica.
Apesar da proximidade dos pressupostos da antropologia hermenêutica com a micro-história, Levi (1992) questiona alguns percursos do pensamento de Geertz. Para o autor de A herança imaterial, a descrição densa é processada sem uma criticidade e sem uma complexidade mais aprofundada. Como resultado, as conjecturas oriundas do relativismo cultural absoluto poderiam orientar os processos históricos a auto- explicações sem nexos justificáveis no contexto social.
A advertência de Levi direciona-se também ao pouco caso conferido às teorias explicativas – cujo foco está nas leis e conceitos gerais. Não obstante, as marcas antropológicas mais destacáveis da micro-história são aquelas oriundas da corrente geertziana. Ao longo do tópico 4.2 foi constatado que Polanyi e Barth exerceram influência sob os conceitos da micro-história, contudo, os pressupostos de Geertz aparecem com mais saliência e destaque sob os umbrais narrativos, analíticos e também nas problemáticas sobre os sujeitos marginalizados e suas vozes amortecidas. Esses traços podem ser notados na redução da escala de observação ao âmbito microscópico, na recusa à contextualização geral, na negação ou ausência de comparações e, finalmente, no repúdio a justificativas universalizantes.
Geertz (2008) enuncia que a cultura é um “documento de atuação” – dessa forma, a pesquisa etnográfica configura-se como “experiência pessoal”. A constituição da presença marca o “texto antropológico como empreendimento científico” (GEERTZ, 2008, p.10). Analisada por esse viés verifica-se que a finalidade da antropologia é a abertura do “universo do discurso humano”:
Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (...), a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com densidade. (GEERTZ, 2008, p. 10)
Desse modo, a correlação que se estabelece na tríade jornalismo, antropologia e micro-história fia-se na conjuração dos processos de observação, descrição e interpretação. Mara Ferreira Rovida (2015) ressalta – em consonância com os preceitos
de Geertz – que os relatos, os diários e as anotações dos investigadores vêm carregados com impressões que vão além da mera exposição do acontecimento. Busca-se, por conseguinte, captar os rastros e as situações vividas em campo – não como um ato trivial, descritivo – mas como percepção interpretativa dos significados, sublevando os gestos e os comportamentos, alçando-os à instância cultural. A trama cultural articulada sob os significados – garantem a descrição densa empreendida pelo etnógrafo. Tal perspectiva implica no reordenamento do olhar:
A famosa absorção antropológica com o exótico (para nós) (...) é, assim, praticamente um artifício para deslocar o senso de familiaridade embotador com o qual o mistério da nossa própria habilidade em relacioná-los compreensivelmente uns aos outros se esconde de nós. Procurar o comum em locais onde existem formas não-usuais ressalta não, como se alega tantas vezes, a arbitrariedade do comportamento humano (...), mas o grau no qual o seu significado varia de acordo com o padrão de vida através do qual ele é informado.
Compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir sua particularidade. (...). Isso os torna acessíveis: colocá-los
no quadro de suas próprias banalidades dissolve sua opacidade. (GEERTZ, 2008, p. 10, grifo nosso)
O processo de interpretação das culturas emerge como ‘construções imaginadas’. A consequência imediata – conforme Geertz (2008) – é que a descrição sobre os berberes, judeus ou franceses não diz quem eles são, mas delineia parte da realidade enunciada, articula uma definição sobre o que lhes acontece.
O autor de A interpretação das culturas afirma que as descrições são antropológicas, ou seja, originam-se de “um sistema em desenvolvimento de análise científica. Elas devem ser encaradas em termos das interpretações às quais pessoas de uma denominação particular submetem sua experiência, uma vez que isso é o que elas professam como descrições” (GEERTZ, 2008, p. 11).
Rovida (2015) entende que mesmo que o processo esteja sedimentado em uma interpretação, “o resultado apresentado pelo etnógrafo é um texto criado e fictício, embora factual” (ROVIDA, 2015, p. 79). Para Geertz (2008), os textos antropológicos são interpretações de segunda e terceira mão. Segundo o autor apenas o “nativo” faz uma interpretação primeira, porque se estabelece uma correlação com a sua cultura, com o seu “documento de atuação”.
Desse modo, a leitura que se faz das realidades sociais, é uma leitura ficcional. Geertz (2008) compreende que são ficções no sentido de “algo construído” e “modelado”. Não se trata aqui de um dado falso – pelo contrário, o trabalho do
etnógrafo consiste claramente em “um ato de imaginação”, de “uma fabricação” (GEERTZ, 2008, p. 11).
Nesse sentido, constata-se uma aproximação entre as bases da literatura, do jornalismo e da história no que se refere ao ‘verismo da ficção’, entendendo-a “como experimento do pensamento” (GEERTZ, 2008, p. 11). Cabe aqui uma analogia com a perspectiva de Peter Gay (1990):
A ficção pode, sem dúvida, oferecer a veracidade dos detalhes; os romancistas e poetas não são estranhos à pesquisa. Balzac, em Les ilusions perdues [as ilusões perdidas], conta aos leitores talvez mais do que estes se interessassem em saber sobre as atividades gráficas; Melville acumula informações técnicas exaustivas sobre as baleias e a caça a elas em Moby Dick; Thomas Mann discorre com um prazer indisfarçado sobre as causas e o tratamento da tuberculose em Zauberberg [A montanha mágica]. Tais fatos, em si, são reportagens; retirados do contexto ficcional em que ocupam sua função, seriam textos jornalísticos, especializados ou mesmo históricos (GAY, 1990, p.172).
Pensar os contextos sociais sob a ótica da fictio desvela uma miríade de possibilidades, de problemáticas e diálogos que apontam para o processo de constituição ‘imaginativa’ das instâncias sociais, da experiência antropológica, histórica e da representação dos sujeitos em sociedade. Lloyd Kramer (2001) discorre sobre os laços de proximidade entre história e literatura. Não constitui, evidentemente, o mote da discussão empreendida até aqui, mas vale como exercício inferencial, como discussão sobre o fictício.
Para o historiador estadunidense, a literatura moderna emerge como catalisadora para explorar o deslocamento da linguagem, dos significados da experiência social, política e individual. Assim como os romancistas constataram que não cabia mais se referir à realidade como entidade estática, percebe-se que o movimento traçado pela antropologia e pela história se lança para a perspectiva de compreensão do mundo como contestação e interpretação. É necessário se afastar dos antolhos que buscam enxergar a narrativa antropológico-histórico-social na forma do “como realmente existiu, em vez de admitirem que suas descrições parciais sempre excluem inúmeros outros tipos de informações importantes” (KRAMER, 2001, p. 160). Kramer (2001) complementa:
O ponto de partida mais apropriado a essas narrativas históricas deveria ser o reconhecimento, “de que não há nada que se possa considerar como uma única concepção correta de qualquer objeto de estudo mas (...) muitas concepções corretas, cada uma das quais
exigindo seu próprio estilo de representação” (KRAMER, 2001, p. 160, grifo do autor).
Em O olho da rua, as marcas etnográficas emergem na interpretação das cenas e gestos captados pelo olhar de Eliane Brum. Observa-se nas dez reportagens a presença de elementos como a narrativa, a tessitura temporal, a linguagem, os laivos representativos e a ‘modelagem da realidade’.
Essa perspectiva aproxima-se do entendimento de Luiz Costa Lima (2006) de que “a linguagem combina percepção e ativação das faculdades mentais” e “deixa de ser entendida como simples mediadora para se tornar engendradora; não de ilusões, mas, antes de ficções” (LIMA, 2006, p. 264). Compreende-se, assim, que a ficção projeta óticas de interpretação e de urdidura nas bases histórico-culturais do mundo - que se traduzem pela narrativa, pela linguagem e como experiência ficcionalizada. Como salientam Monica Martinez e Mara Rovida (2017), as narrativas etnográficas se configuram como representações da realidade, como criações sociais e devem ser assimiladas nestes termos.
A aproximação da micro-história aos estamentos da antropologia hermenêutica e interpretativa de Clifford Geertz colaboraram para a configuração de zonas de compreensão do contexto sociocultural. A figura do etnógrafo se encarrega de coser um conjunto de cenas e valores culturais – atuando como observador metonímico da realidade, isto é, o etnógrafo inscreve o discurso social a partir do ponto de vista circunscrito dos informantes, de sua especificidade complexa e circunstancialidade.