A infância, em contraste com outras fases da vida do ser humano, é aquela em que se concretizam maior número de aprendizagens. Como já foi referido anteriormente, neste curto período de tempo, as crianças adquirem as competências básicas necessárias para a sua sobrevivência, como a aquisição da fala, da marcha, da motricidade fina, entre outras.
Como a sua integração no mundo é, ainda, bastante recente, a sua ânsia de descoberta é enorme. Por este motivo, é comum colocarem muitas questões e serem bastante receptivas a novas aprendizagens. Interrogam-se sobre diversos assuntos, desde os mais simples, aos mais complexos. Quase tudo é, para si, uma novidade. Precisam de conhecer e explorar bem o seu mundo para nele se conseguirem adaptar.
O jardim-de-infância deve ser capaz de estimular e aprimorar o desenvolvimento de todas estas novas competências e conseguir responder de forma lúdica e didáctica a todas as suas dúvidas e curiosidades.
O Ministério da Educação (1997) refere que os educadores devem criar meios para facilitar a aprendizagem das crianças, através da auto-exploração e, consequente, descoberta. Realça a importância da criança aprender através da acção, o que implica a necessidade de se envolver plenamente na sua aprendizagem, mediante a utilização da sua capacidade de pensar e de compreender.
Quando as crianças se envolvem activamente na procura do conhecimento, desenvolvem as suas aptidões cognitivas e a sua auto-estima, uma vez que passam a valorizar as suas capacidades.
A sociedade actual, assente no neoliberalismo global dos países ricos, tornou-se bastante exigente. Nos dias de hoje, já não basta a instrução da criança com vista à simples acumulação de conhecimentos. É importante que as escolas preparem os seus alunos para uma integração plena no mundo, procurando desenvolver certas competências, entre as quais se destacam: o espírito crítico, a criatividade, o pensamento, o raciocínio, a autonomia, a ousadia, bem como aptidões para lidar com as dimensões sociais, afectivas e profissionais (Xavier, 2007).
A aquisição de todas estas habilidades, exige a descoberta e implementação de novos métodos de aprendizagem. Existem muitas propostas que visam a colmatação da maioria das actuais práticas do ensino, assentes no instrucionismo, pugnado pela introdução de métodos inovadores que têm como objectivo o desenvolvimento integral do ser humano.
Uma das abordagens mais recorrentes, muitas vezes aplicada no domínio das TIC, é o modelo construtivista desenvolvido por Piaget. Este autor considera que a aprendizagem resulta da interacção entre o sujeito e o objecto. O ser humano dispõe de inteligência e é a partir dela que aprende, interagindo com o meio e procurando soluções para ultrapassar os obstáculos que este lhe impõe (Marques, 1999). Esta actividade é exercida pelo sujeito de forma consciente, pelo que a compreensão do problema é um
meio necessário para chegar à sua resolução. No entanto, é importante fazer a distinção entre a compreensão do modo de actuação para solucionar um desafio e a compreensão mental desse mesmo processo, através da descoberta do porquê e do como se atingiu um determinado resultado (Piaget, 1978, cit. Costa, 2010).
A aprendizagem praticada deste modo, pressupõe que o aluno desempenhe um papel activo na construção do conhecimento. Este deve, então, investigar, reflectir e dispor dos seus conhecimentos prévios, de forma a ser capaz de associá-los com as novas descobertas, através de processos de assimilação, acomodação ou rejeição. Para apoiar todo este trabalho de auto-investigação é necessário dispor-se de diferentes tipos de ferramentas, recursos e contextos. A troca de saberes e descobertas, através do processo de interacção social, com outros colegas, é outro marco importante para a obtenção de sucesso neste tipo de investigação (Dimock e Heath, 1998).
Seguindo tal perspectiva, este tipo de ensino, muito centrado na auto- aprendizagem e na aquisição de conhecimentos significativos, implica, da parte do estudante, um grande empenho e uma compreensão profunda dos factos. Este deve desenvolver um pensamento critico e analítico, através da descoberta de informação efectuada a partir de diferentes recursos e da sua posterior análise e divulgação por via de uma apresentação (Sikdar e Bhojwani, s/d).
Papert (1993), estabelece uma comparação entre a aprendizagem construtivista e um provérbio africano que refere que se um homem tem fome pode-se dar-lhe um peixe,
mas é preferível dar-lhe um linha e ensiná-lo a pescar. Com isto, pretende fazer a
oposição entre o instrutivismo e o construtivismo. De acordo com o primeiro, os alunos não têm oportunidade de escolha em relação à temática de estudo e são obrigados a “armazenar” os conhecimentos transmitidos pelos professores. Contrariamente a isto, o segundo defende que são as crianças que devem investigar aquilo que desejam saber. Para tal, é necessário que sejam apoiadas a nível moral, psicológico, material e intelectual.
Buckingham (2007) acrescenta que o construtivismo permite fazer desabrochar as capacidades de cada aluno e conectá-lo com o mundo real, que transgride as fronteiras da instituição escolar.
Jonassen (2007) corrobora com Buckingham ao afirmar que o construtivismo implica que os alunos sejam capazes de raciocinar sobre aquilo que os professores dizem e interpretá-lo de acordo com as suas experiências, convicções e conhecimentos prévios. Este processo deve incluir uma negociação social onde, através da partilha de
interpretações, se procura promover um consenso. Este autor reconhece os computadores como excelentes recursos para auxiliar os alunos na organização e na representação dos seus conhecimentos, pelo que os nomeia de ferramentas cognitivas.
Papert (1993), também, enfatiza a ideia de que, para que a aprendizagem efectuada por descoberta do aluno tenha resultados positivos é importante fornecer-lhe recursos adequados, como é o caso do computador, e proporcionar-lhe actividades enriquecedoras que lhe facilite um apoio adequado.
Black e McClintok (1999, cit. Nanjappa e Grant, 2003) desenvolveram um projecto designado de Interpretation Construction Design, baseado no construtivismo. Este introduz as capacidades de interpretação e de argumentação como factores importantes para a aprendizagem cognitiva. Tal, é incrementado por via da concepção de produtos autênticos, através da utilização de bons materiais de trabalho, o que por sua vez, abrange diferentes áreas de ensino.
Num ambiente construtivista, o professor, também, desempenha um papel fundamental, na medida em que se torna um mediador da aprendizagem, incentivando as crianças a analisarem e a reflectirem sobre os seus trabalhos (Piaget, 1964, cit. Fugimoto, 2009). Uma vez que estas são o centro da aprendizagem, o educador deve procurar conhecer os seus interesses e necessidades para conseguir implementar esta prática de forma adequada.
Witfelt (2000, cit. Nanjappa e Grant, 2003) atribui novas competências ao professor que incluem: a sua qualificação como um supervisor, um apoiante e um facilitador do trabalho dos alunos, um perito na matéria, um inspirador, um encorajador, um organizador nas discussões de grupo, um crítico e um avaliador que procura melhorar a aprendizagem das crianças. Mattar (2010), salienta que o factor mais importante do construtivismo não é o conteúdo, mas sim o processo para a aprendizagem que os professores adoptam de acordo com os conhecimentos que desenvolveram sobre o seus alunos. Através do convívio diário com as crianças os educadores de infância podem descobrir não apenas qual o seu foco de interesse, mas também reflectir sobre porquê e como determinado factor desperta tanto entusiasmo e aderência por parte destas. É, no fundo, um processo que exige muita reflexão e criatividade, mas que procura a integração de aprendizagens assentes na motivação e propícias à obtenção de resultados eficazes.
Tal como mencionado anteriormente, o computador constitui uma das ferramentas favorecedoras do desenvolvimento de uma abordagem construtivista no
âmbito escolar, na medida em que estabelece um importante impacto no progresso e aperfeiçoamento das práticas de pesquisas com crianças de diferentes idades e em diferentes níveis de ensino.
Ao longo do tempo muitos pesquisadores têm procurado evidenciar a importância do computador no domínio da aprendizagem construtivista. Um dos pioneiros dentro desta área foi Papert (1993). Este autor afirma que um dos princípios fundamentais para a aquisição de conhecimentos diz respeito ao envolvimento pleno do sujeito. Considera que a iniciativa e a vontade são os passos fundamentais para atingir competências. Defende que tal não implica necessariamente que o sujeito tenha de ser ensinado, pois a aprendizagem, também, pode resultar de uma auto-descoberta. Valoriza, então, uma construção do conhecimento mental e concreto, sobre o qual o computador, de forma simples mas significativa, constitui um óptimo recurso para a concretização de todos os objectivos.
O computador é, então, visto como um forte suporte para o desenvolvimento da actividade cognitiva da criança, proporcionando-lhe diferentes oportunidades de aprendizagem. Utilizando as palavras de Jonassen (1994, cit. Nanjappa e Grant, 2003: 42) “(...) Learners function as designers using the technology as tools for analysing the
world, accessing information, interpreting and organizing their personal knowledge, and representing what they know to others”.
Jonassen (1996, cit. Sikdar e Bhojwani, s/d) utiliza o termo mind tools7 para se
referir à utilização de diferentes tipos de programas de software como meios promotores do desenvolvimento cognitivo. Na sua perspectiva, quando os alunos se envolvem activamente em actividades de pesquisa e têm oportunidade de estabelecer uma manipulação directa sobre o computador, desenvolvem numerosas tarefas onde dispõem da sua capacidade intelectual.
É o próprio aluno quem exerce o poder sobre a máquina. Ele procura, selecciona a informação relevante e, partindo desse ponto, adquire a noção de diferentes conceitos, o que estimula o desenvolvimento da auto-estima, do sentido crítico e da liberdade responsável (Almeida, 1999, cit Fugimoto, 2009).
Muitos autores valorizam a utilização da Internet pela quantidade de recursos virtuais que possui e pela capacidade de estabelecer conexões entre pessoas, quebrando barreiras temporais e espaciais. No entanto o seu uso requer a aplicação de uma
pedagogia efectiva, robusta e flexível. Pelo que o construtivismo se apresenta como uma solução, uma vez que pressupõe uma constante concepção, refutação e modificação de pensamentos, ideias e entendimentos através de experiências sucedidas em contextos sócio-culturais (Doolittle e Hicks, 2003).
A Internet, sendo um sistema interactivo e multidimensional, permite ao aluno motivado, analisar e desenvolver um pensamento critico relativamente aos resultados das suas pesquisas. Este princípio pressupõe que, posteriormente, o sujeito seja capaz de reconstruir o erro, ou seja, corrigi-lo e utilizar a sua criatividade para aplicar as suas descobertas em situações imprevistas na realidade (Xavier, 2007).