3. Résultats
3.2. Projet ex vivo
3.2.2. Les effets du palmitate et de DUSP4 sur l’expression des DUSPs et des marqueurs
“Só um caminho se impõe”, no Panfleto, é um texto em que Brizola questiona sobre quem exercia o poder no período estudado. Para ele ninguém exercia esse poder, a não ser pessoas, grupos ou correntes que possuíam ou exerciam apenas uma parte desse poder, porém ninguém detinha a hegemonia total do poder. Ele escreve em seu artigo:
Estabeleceu-se uma espécie de equilíbrio pernicioso entre as forças e correntes que formam e compõe a atual realidade política brasileira. Todos desejam, num ou outro sentido, uma saída para o atual e deplorável estado de coisas, mas ninguém até agora, teve condições de fazê-lo; todos estão contra a inflação, ainda que por motivos diverso, mas ninguém consegue detê-la. E isto ocorre, exatamente, porque nenhuma das correntes e forças políticas em jogo tem o poder para realizar o que pretendem preconiza.182
Para Brizola, esse equilíbrio pernicioso era nocivo para o país, pois a estrutura econômico-social não mudaria e o Brasil continuaria aberto ao saque internacional, o que era percebido no agravamento e na aceleração da crise econômica, da inflação e do custo de vida. Criticando o presidente João Goulart, por não ter o controle do poder em suas mãos, exercendo-o apenas parcialmente, Brizola afirmava que, para poder ter potencialmente esse poder, o presidente deveria se decidir a exercê-lo, voltando-se aos “autênticos interesses dos brasileiros”, não a interesses de “minorias privilegiadas”. Goulart, na opinião de Brizola, tivera poder em sua total plenitude em duas vezes: na crise de agosto de 1961 e no plebiscito.
Para Brizola, em 1962 três correntes lutavam para obter o controle do poder: as minorias dominantes e reacionárias que estavam fora do governo, representadas pelo Carlos Lacerda e UDN, e as minorias dominantes e reacionárias que estavam dentro do governo, representadas pelo PSD e pelo próprio presidente Goulart, com apoio do oficialismo, carreiristas e oportunistas. Por último, citava as forças populares da maioria esmagadora. Brizola registrava:
Instaurou-se uma verdadeira guerra entre estas correntes. Guerra psicológica e guerra de organização. Cada uma das correntes com suas estruturas e potencialidades. Esta luta sem tréguas que se desenvolve em todos os campos, surda ou ostensiva e radical, é que irá decidir e esclarecer a qual ou a quais daquelas correntes passarão o controle e a hegemonia do poder [...] as das maiorias conservadoras e reacionárias tenderão a se unificar e agir em frente única.183
No mesmo artigo, Brizola ainda tratou de prever o final do governo Goulart, em razão da perplexidade, do desgaste, das frustrações, das vacilações, da indefinição e da inoperância, o que levaria o presidente a negociar a entrega do governo às minorias, as quais estariam com a hegemonia do poder. As vacilações de Goulart condenadas por Brizola desencadeariam um processo de regressão na vida brasileira, numa crise que poderia acontecer antes ou após 1965, mesmo com as disputas eleitorais neste ano, as quais já se projetavam. Brizola ainda observava que o Brasil marchava para o agravamento da crise econômica, que determinaria o seu momento de ruptura do equilíbrio e, com isso, o desfecho da crise. Sobre as forças políticas, ressaltava que desejavam o poder e estariam divididas em dois campos: a conquista da opinião pública, com o conseqüente apoio popular, e a organização. Brizola acreditava que, assim que conseguisse uma situação melhor, mais favorável, no julgamento popular e em matéria de organização, teria as condições necessárias para o controle e hegemonia do poder, o que seria importante para a libertação da nação. E acrescentava:
Logo após a Legalidade e o Plebiscito, o Presidente João Goulart e seu Governo e as Forças Populares eram uma frente única. Com o tempo foi se verificando um distanciamento cada vez maior, da parte do Governo das áreas e aspirações populares, em conseqüência dos rumos que passou a seguir e de sua política de conciliação com as minorias e grupos conservadores, além da sua inoperância em face da espoliação internacional, que vem fazendo o desespero de nosso povo e a degradação de nosso país [...] entre nós não há lugar para dúvidas, nem vacilações. [...] Os nossos rumos estão, desde 1954, na grande mensagem de convocação que nos deixou o Presidente Getúlio Vargas [...] só um caminho se impõe: é aquele por onde segue o nosso povo, com suas lutas e sofrimentos, em busca de sua libertação [...] Nesta luta global e sem tréguas que aí esta estabelecida, o que temos a fazer, acima de tudo, é contar exclusivamente com nossas próprias forças e com o apoio e a solidariedade do nosso povo [...] onde quer que se encontrem, levando-lhes a nossa mensagem de orientação e esclarecimento. Sobretudo, as grandes tarefas que devem absorver a nossa tenacidade e as nossas energias são: organização, organização, organização. Só assim estaremos preparados para enfrentar os instantes cruciais que se aproximam. Ainda que com instrumentos pobres e precários, em meio a dificuldades e sofrimentos, estou certo de que venceremos, por que de nosso lado estão a verdade, a justiça, o idealismo, os verdadeiros interesses de nosso povo e da soberania de nossa Pátria.”184
183 BRIZOLA, Só um caminho se impõe. Panfleto, 2 ed., 24 fev. 1964, p. 2. 184 Idem.
Uma das estratégias centrais do brizolismo foi a construção de uma oposição da esquerda do PTB, apoiada por outros segmentos sociais, ao governo Jango. Assim, Brizola não poupava críticas ao distanciamento que o governo Goulart assumira em relação aos interesses da população brasileira e da pátria, bem como observava que havia a “política de conciliações”, que beneficiava grupos conservadores da política nacional, os quais contribuíam para o que ele chamava de “espoliação internacional”, que levaria o Brasil à “degradação”. Não deixava, ainda, de observar os preceitos de Vargas quanto à necessidade de atender aos “anseios da nação brasileira”, buscando, assim, a “libertação”. Contudo, para tanto, Brizola atentava para a necessidade de união de forças, de solidariedade, de orientação, esclarecimento, organização, pois, mesmo com condições desfavoráveis e sofrimentos, a vitória seria certa, pois, para Brizola, a “justiça”, a “verdade”, o “idealismo” eram defendidos como sendo de interesse da nação e da soberania do Brasil.
Assim se constituía, em parte, o discurso de oposição a Jango, e a chave central de Brizola era lembra-lo em todas as lutas empreendidas por ele (Brizola) e os setores da sociedade civil organizada que apoiavam Goulart para mantê-lo no poder. Por isso, entendia que Jango não poderia esmorecer, nem entregar o poder popular que haviam conquistado. Contudo, Jango mostrava-se temeroso, e era disso que decorria a oposição de Brizola a este. Quando refere no texto a “autenticidade das lideranças”, indiretamente, Brizola está cobrando de Jango a participação dele no “clube amável da política”, pois ele teria se “esquecido” dos compromissos políticos com o Brasil.
Em outro texto publicado no Panfleto, “A autenticidade das lideranças”, Brizola afirmava que era muito fácil aparecerem líderes populares, pois a situação era de desespero, em razão das dificuldades que se refletiam no cotidiano da nação, que vivia sob o “império do medo”. Esse império do medo abrangia vários condicionantes sociais, ou seja, doenças, o futuro, que estava constantemente ameaçado pelo aumento do custo de vida e pelo espectro do desemprego, o qual “rondava como uma vigilante sentinela cada lar operário, cada palhoça de camponês”.185 Para Brizola, quando surgem pessoas que falam a linguagem popular, a tendência natural é que o povo as siga, pois na sua voz veria descrita a própria aflição. Seria necessário, então, separar o joio do trigo, identificar os falsos líderes e acompanhar os autênticos, o que não seria tarefa fácil para a compreensão do senso comum.186
Leonel Brizola lembrava que muitos líderes saídos dos mais distantes lugares do Brasil tinham acabado esquecendo suas origens e suas idéias em relação à população; esquecendo 185 BRIZOLA, A autenticidade das lideranças: Panfleto, 3. ed., 3 mar. 1964. p. 2.
suas populações, ingressavam no que Brizola chamava de “clube amável da política”, que conseguiria amortecer o ímpeto dos lutadores e teria predileção especial por aqueles que conseguem arrastar as massas. O “clube amável da política” favorece os que nele ingressam, as escalas de posições políticas e, conseqüentemente, melhora as suas imagens diante da opinião pública; movimenta outros setores que seduzem os políticos, dando-lhes importância pelo exercício de funções que vão galgando progressivamente nos poderes Legislativo e Executivo. Dessa maneira, os líderes populares, esquecendo-se da população e de suas ideologias, melhoram suas vidas e, quando começam a participar dos conchavos da política convencional e ceder às seduções daquela “vida alegre” que tão bem se reflete nas colunas sociais, é quase certo que o povo perdeu um líder e que o “clube amável da política” adquiriu mais um membro”.187
Brizola, no texto em foco, afirmava que até mesmo os companheiros do PTB teriam virado as costas para os eleitores e partidários, mas outros líderes permaneciam fiéis aos compromissos assumidos diante da nação, com o que estes tinham sua capacidade política minada, pois eram tachados de radicais, de extremados e, até mesmo, de “comunistas”. E acrescentava:
Talvez nenhum partido sofra tanto este processo – este desgaste permanente que decorre da alienação progressiva de líderes – quanto o PTB partido essencialmente revolucionário, com as raízes plantadas nas grandes multidões humildes, cristalizou seu ideário com a Carta Testamento de Getúlio Vargas. Alguém poderá afirmar, honestamente, que a derradeira palavra de ordem de Getúlio foi acomodatícia, foi conciliadora? Não. Mas há dezenas de líderes, nascidos no PTB, que pregam a acomodação e a paciência, que afastam o povo do caminho das suas conquistas sociais. Considero este problema o maior entrave à ação das forças populares. Por isto penso que é dever dos líderes autênticos a vigilância permanente e a coragem da denúncia que, longe de ser divisionista, combate o divisionismo, alertando o povo para o mais grave dos obstáculos à sua luta e lhe oferecendo condições para distinguir as lideranças legítimas e aniquilar as que se abastardaram.188
Brizola pedia aos brasileiros que ficassem atentos não às palavras, mas à ação daqueles a quem as massas populares seguiam, acrescentando:” [...]porque uma ação corajosa vale mil vezes mais do que um milhão de palavras, mesmo igualmente corajosas.”189
Brizola tinha uma grande base de apoio para fazer seu discurso político e expor suas idéias, com o que construiu o mito do brizolismo. Paulo Lemos190, ao se reportar à crise 187 BRIZOLA, A autenticidade das lideranças: Panfleto, 3. ed., 3 mar. 1964. p. 2.
188 Idem, p. 3. 189 Idem.
militar quando da tentativa dos marinheiros de montarem um sindicato e também quando Brizola chamou os comandantes das Forças Armadas do Brasil de “gorilas”, escreveu: “Desagravamos o deputado Leonel Brizola, dos ataques sórdidos desferidos pelo general Murici. A gorilada, sentindo a deposição dos subalternos das Forças Armadas de enjaulá-la recuou [...]”.191
Os marinheiros eram importantes na medida em que Leonel Brizola necessitava de militares, e não seria o alto escalão do Exército nacional que empreenderia a luta para enfrentar o momento de instabilidade política pelo qual o Brasil estava passando. Essa luta estava alicerçada na ação dos marinheiros, movimento que teria muita ênfase no jornal
Panfleto, com o objetivo de congregar mais forças, além dos movimentos sociais; os militares apoiadores da causa seriam, na maioria, os de baixa patente, como os marinheiros e sargentos.