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V. La stratégie d’évolution expérimentale

II.2. Effets physiologiques des mutations du gène spoT

II.2.3. Effets des mutations spoT sur le fitness des bactéries

As matrizes de um outro modo de fazer o casal e a família foram desenhadas em torno do ideal de ser e fazer em conjunto, tecido pela vontade de comunhão de visões do mundo, gostos, projectos e vontades individuais, bem como de um relacionamento dialogante, próximo e paritário, que compõem a representação social do casal fusional e companheirista (Aboim 2006; Kellerhals et al., 1982; Kellerhals e Widmer 2005; Wall 2005). Com o nascimento dos filhos este ideal passou a incluir a aproximação negociada dos domínios de acção e dos contributos do pai e da mãe no relacionamento com os filhos e na partilha parental. Assim, partilhar e participar nos cuidados aos filhos de uma forma abrangente e continuada tornou-se desde cedo uma prática característica desta paternidade. Uns entrevistados cuidaram dos bebés desde o início e de forma desenvolta e segura. Outros, mais receosos, apoiando-se na companheira para aprender como fazer, mas procurando ser auto- suficientes gradualmente. Assim, acompanhar a mãe na amamentação (para assisti-la no necessário ou apenas para participar do momento), mudar fraldas, preparar biberões, levantar de noite e adormecer a criança, dar-lhe banho, vesti-la e dar-lhe de comer, levar ou buscar da creche, ir ao médico, etc., são actividades centrais no seu relacionamento com os filhos e que se esforçam por incluir no quotidiano. Voltemos às histórias de Miguel e Sérgio para ilustrarmos os percursos dos pais conjuntos nos cuidados à criança.

Tanto Miguel como Sérgio entraram cedo no mundo dos cuidados, com a finalidade de participarem e partilharem o mais possível, fosse a vida com as crianças, fosse os fardos, os aborrecimentos, o trabalho e as alegrias da parentalidade com as parceiras no quotidiano.

Quando a sua primeira filha nasceu, Miguel tinha em si o que aprendeu na sua adolescência, quando aos 12 anos teve que começar ajudar a mãe a cuidar dos irmãos: primeiro do irmão de 2 anos, depois de mais uma irmã que nasceu entretanto. Combinava a sua vontade de cuidar da filha e o sentimento de se sentir competente para o fazer, com a

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crença de que é a mulher quem sabe o que fazer e quando, e que deve liderar nos cuidados à criança e na vida doméstica, em geral. Sempre ouviu dizer que essas competências despertavam naturalmente nas mulheres quando se tornavam mães e cresceu a ver a sua mãe e outras mulheres a cuidarem das crianças. Contudo, apesar de encontrar em Maria José a confirmação dessa «disposição para crer» (Lahire 2003; 2004), também sentiu nela algumas hesitações e, sobretudo, a vontade de que ele partilhasse com ela as iniciativas e as práticas nos cuidados às filhas. Encontrou, assim, um terreno para activar e desenvolver as competências que já possuía e experimentá-las como uma forma diferente de ser pai:

«Por exemplo, os umbigos fui eu que tratei, porque ela não tinha coragem de olhar para aquilo. Se elas tivessem com a fralda suja, eu mudava-as, não era preciso: “Olha, elas tão sujas, vai mudar”, mudava eu. Se queriam comer eu também lhes dava. Só se não lhe apetecesse é que ela dizia: “Ó Miguel dá tu banho” ou “ajuda-me a dar banho”.»

Já Sérgio nunca tinha tido qualquer tipo de contacto com o mundo dos cuidados às crianças até ser pai. Mas, como queria participar, dispôs-se a aprender e foi ganhando confiança, aos poucos, com a orientação de Maria, mais experiente do que ele. Quando Maria voltou ao trabalho, depois da licença de maternidade, como tinha um horário que o permitia, Sérgio ficava todas as tardes com o filho. Quando foi pai pela segunda vez, embora continuasse a apoiar-se na experiência e nas orientações da sua parceira, era já auto-suficiente. Tal como Miguel, também sempre achou que os cuidados à criança são um domínio de especialização materna, mas sentiu, do mesmo modo, que a sua parceira o queria partilhar com ele. O cuidar foi para ele a porta de entrada para a inscrição da presença e do acompanhamento da criança na construção de uma paternidade conjunta:

«O meu primeiro filho, de facto, eu tive algum problema em pegar nele (…). Nos primeiros meses não lhe dava banho, porque acho que ele ia escorregar das mãos. Depois fui aprendendo. Mas, é evidente, que me suportei muito sempre na minha mulher, que tem esse instinto e mais experiência do que eu. Eu acho que os acompanhei de perto sempre.»

Com efeito, a auto-suficiência na prestação de cuidados às crianças é um terreno de afirmação identitária para estes homens, dado ser um elemento de construção de uma autonomia paterna no quotidiano parental e doméstico conjugalizada e, portanto, tendo como base a participação do homem na comunhão conjugal. Adicionalmente, sabem também que são poucos os homens auto-suficientes no cuidar e que se trata de uma fronteira que, ao demarcar a mudança no ser pai, abre espaços alternativos para o homem na parentalidade, o que significa questionar definições da masculinidade restritivas ao cuidar e à partilha parental (Coltrane 1996; Doucet 2001; 2006; Hayhood e Mac an Ghaill 2003; Segal 2007). No caso de Miguel, são precisamente essas definições de masculinidade que predominam nos contextos sociais que frequenta, e contra as quais estabelece novos sentidos identitários.

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«A maior parte dos rapazes que eu conheço, é mesmo, sentam-se no sofá à espera do jantar. Depois elas trazem o jantar, eles comem e depois vão para o café. A ideia deles de serem bons pais é ir ao café e dar um chupa ao filho e prontos: “agora vai ter com a tua mãe, sou o maior dei-te um chupa”. Acho que, a maior parte dos pais que eu conheço, é isso que fazem. Eu sou o contrário deles.»

Nos mundos com que Sérgio se cruza, a construção das masculinidades na parentalidade não é tão limitativa quanto ao cuidar no masculino. Mas, a seu ver, é restritiva quanto à partilha parental e conjugal, na medida em que está ancorada em modos de fazer o casal, a parentalidade e o próprio relacionamento com a criança mais centrados no bem-estar e na realização individual do que na comunhão conjugal. Porém, para ele, o cuidar masculino é um modo de afivelar a construção de uma paternidade próxima a uma partilha parental e conjugal fusional, tornando-a conjunta pela comunhão no casal. Por isso, não se identifica com esses modos de ser homem no casal e na parentalidade.

«Olhando para os casos que conheço, acho que talvez eu seja um bocado diferente. Mas acho que a principal diferença até está no próprio casal. (…) Cada vez mais se vêm os casais com contas separadas, com vidas completamente separadas. Até podem partilhar os cuidados. Mas não o é feito de uma maneira natural. Como já não partilham entre si, quando fazem para a criança há logo um medir de forças. Eu acho que o casal tem uma vida só, uma relação que é construída mesmo pelos dois.»

Para ambos o cuidar é significativo como uma partilha de experiências, e do significado dessas experiências, que são importantes para construir um sentido de união entre o casal e entre este e as crianças. Flui, assim, de uma ligação expressiva e é nessa medida que é acolhido como um elemento do papel paterno. A auto-suficiência do cuidar paterno é uma competência que a cimenta, ao estabelecer equivalências entre as práticas paternas e as maternas como uma matriz de partilha entre o casal. Contudo, nesta matriz a equivalência das práticas coexiste com “disposições para crer” (Lahire 2003; 2004) na essência natural da maternidade, ou seja, estes homens continuam a atribuir à mãe a mestria nos cuidados, nos afectos e na educação do dia-a-dia, bem como na organização da vida parental e familiar. É significativo o que diz Miguel quando se refere ao dar atenção à criança, por exemplo:

«Eu dou-lhes atenção, mas sou mais despassarado, ela …., as mães, dão mais atenção do que os pais, são maneiras diferentes de dar atenção.»

A matriz de acção paterna destes homens acolhe a partilha conjugal de domínios das práticas parentais usualmente femininos, mas mantendo-se ancorada em códigos culturais da maternidade tradicional, que aliás orientavam as práticas nas suas famílias de origem. Adicionalmente, também esperam das mulheres a partilha dos domínios de acção tradicionalmente masculinos, como o exercício da autoridade, permitindo ao pai experimentar

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a brandura, mesmo quando é preciso corrigir comportamentos, pois a mãe também pode e deve fazê-lo.

No seio deste universo de significados plurais, o género é tecido nas práticas quotidianas por interpretações flexíveis das diferenças e das semelhanças dos géneros na parentalidade. As fronteiras entre diferenças e semelhanças não desaparecem totalmente, mas tornam-se permeáveis e fluidas (Gerson e Peiss 2004; Segura e Zavella 2008) por estarem elencadas em interacções orientadas simultaneamente para o fabrico da igualdade, do diálogo, da parceria e da relação, componentes fundamentais ao enredo companheirista. Por isso, são reportadas a equivalências das práticas e não a indistinções, deixando em aberto a negociação da categorização de diferenças entre o pai e a mãe sem excluir a igualdade, ou seja, no plano das identidades e das representações é reafirmada a especificidade parental feminina no quadro da igualdade no casal (Castelain-Meunier 1997; 2002a; 2005). O que alude a um modo «fazer o género» (West e Zimmerman 1987) que procura reunir «novas» e «velhas» masculinidades (Wall, Aboim e Marinho 2007; 2010), aliando incorporações e predisposições heterogéneas numa mesma matriz de interacções, que ganham coerência apenas por serem acolhidas no enredo fusional do fazer em conjunto. Neste contexto, as masculinidades são

conjugalizadas, isto porque a definição das esferas de acção e dos lugares parentais segue o

pressuposto de que devem ser encontrados e ajustados no casal e pelo casal, consoante os patrimónios, as características e as disponibilidades de cada um.

No plano das interacções e actividades paternas, o que distingue a paternidade

conjunta é o fato de as rotinas de produção do quotidiano constituírem o principal contexto de

ancoragem das instrumentalidades e expressividades das acções paternas, tornando-a uma paternidade tecida pelo sentimento de coesão produzido pelo fazer em conjunto. Um segundo aspecto, interligado com o anterior, é a representação do relacionamento paterno aliar-se com a do casal fusional e companheirista. O que engendra uma mistura dos sentidos do ser pai, parceiro parental, marido e provedor, tanto nas identidades como na vida quotidiana destes pais. Um terceiro aspecto é a interdependência do relacionamento pai-filhos e das alianças autónomas que estabelece com a criança das que são estabelecidas entre a mãe e a criança (Bell e Bell 1982; Kellerhals e Montandon 1991) - o que é também um outro factor de

conjugalização das masculinidades tecidas na paternidade. Deste modo, aqui, ser pai não

supõe uma autonomia relacional com a criança independente da mãe ou da relação do casal. Ora, como vimos, o cuidar é um destes contextos de produção do quotidiano, mas não é o único (nem o mais relevante), uma vez que a finalidade de participar e de partilhar engloba o todo da vida familiar. Assim o acompanhamento da vida dos filhos pode concretizar-se nas

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mais pequenas coisas, como, por exemplo, no incentivo para arrumar o quarto, como refere Sérgio:

«Se eles não vão, tenho que ter a iniciativa. Eu próprio arrumo com eles.»

Ou no incentivo para estudarem, como refere Miguel, que faz do estudo das filhas também uma esfera de partilha familiar (ainda que seja sobretudo a sua parceira a acompanhar as tarefas escolares):

«Tento ajudá-las na escola, tento arranjar aí uns esquemas para elas gostarem de estudar. Às vezes, precisam de um empurrãozinho e dizemos: “vamos lá estudar”. Temos que estar sempre a puxar por elas.»

Outro contexto de implicação paterna na produção do quotidiano é o acompanhamento dos eventos da vida social das crianças (como os eventos desportivos, as festas de aniversário, dos filhos ou dos amiguinhos da escola, e as visitas e dormidas na casa uns dos outros), que são interpretados pelo pai como momentos importantes para a criança e, portanto, como formas de apoiar os seus projectos e interesses. Miguel dá o exemplo dos eventos desportivos:

«Tento estar presente na altura que elas precisam, acompanhá-las no que elas fazem, tipo, ir ver os saraus de ginástica, que é uma grande seca …, mas dou a cara e tento estar presente nos momentos importantes delas e ajudar.»

O ir levar e ir buscar à escola ou às actividades extracurriculares é um terceiro contexto de interacção relevante para estes pais. De facto, estes pais fazem das deslocações diárias momentos adicionais para dar atenção e mostrar interesse pela vida das crianças. E são particularmente valorizados nos períodos em que a vida profissional rouba outros momentos para estar com elas. Era o que tinha acontecido recentemente a Miguel que, durante um período, estendeu os seus horários de trabalho para aumentar o rendimento da sua família e só via as filhas nessas deslocações. Já Sérgio, como estava a chegar alguns dias por semana mais tarde a casa e sentia que não estava a acompanhar os filhos como desejava, fazia tudo para ter esses momentos com os filhos: embora soubesse que podiam dar pela sua falta no emprego, aproveitava momentos entre tarefas para sair da empresa e ir buscar um filho a uma actividade e levar o outro a outra.

Um quarto contexto de interacção paterna privilegiado é o das actividades de lazer do casal com as crianças. O relacionamento paterno não está ancorado no brincar com a criança, pois a participação do pai nas brincadeiras da criança resume-se, em grande parte, à ajuda na montagem de um brinquedo, à explicação do seu funcionamento ou à partilha do mesmo espaço em que as crianças estão a brincar. A sua participação tem lugar sobretudo nas actividades ou jogos ao ar livre e estes são sempre momentos familiares. De facto, estes pais têm uma interpretação familialista dos tempos lúdicos e de lazer, por isso não valorizam ou

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procuram ter actividades só de pai e filhos48. Embora as actividades escolhidas girem sempre em torno dos interesses e da formação dos filhos, estar e partilhar actividades com os filhos é também estar em casal, indicando a fusão entre a parentalidade e a conjugalidade.

«Tento participar, ter actividades lúdicas todos juntos, irmos ao jardim ou passear a outro sítio…»

Miguel «O que nós fazemos ao fim de semana é sempre à volta deles. Ou porque nós combinámos com os pais de alguém ou resolvemos todos ir para um sítio qualquer e vamos.»

Sérgio

Os laços de proximidade entre estes pais e as suas crianças baseiam-se sobretudo na abertura comunicativa para tecer afectos, cumplicidades e confiança, mutuamente reconhecidos. É uma proximidade que está também engajada numa orientação e numa disciplina dialogantes, tolerantes e protectoras. Já a proximidade mais íntima, a que é tecida por confidências e pela escuta emocional está mais reservada à mãe.

«Eu tento fazê-las ver as coisas antes de elas cometerem os erros, nem sempre elas ouvem mas eu tento. (…) Ela sabe levá-las de outra maneira que eu não sei. Conhece-as melhor.»

Miguel

Assim, ser guia e protector, papéis instrumentais do pai tradicionalmente ligados ao exercício de uma autoridade rígida e distante, corresponde a um centramento expressivo no acompanhamento da educação, da integração social e do sucesso dos filhos (Modak e Palazzo 2002; Singly, François 2000), que rompe com as hierarquias vividas na família de origem. A orientação e a disciplina não são despidas de firmeza, nem rompem completamente com o simbolismo do respeito pela figura paterna, mas são temperadas pela expressividade e, sobretudo, pela expectativa da sua alternância no casal, de que iremos falar no ponto seguinte. A relação entre paternidade e trabalho caracteriza-se pela sua ancoragem nas ideias da maior responsabilidade económica do homem, no quadro do igualitarismo da dupla carreira ou do duplo emprego, e do benefício para a criança de uma maior disponibilidade das mulheres para acompanharem os filhos. A aposta destes homens no trabalho ou na carreira é acolhida no seu ideal de forte participação na vida familiar e este, por sua vez, ajustado à gestão cuidadosa dos equilíbrios entre as necessidades financeiras da família, a realização do projecto parental do casal, o funcionamento da vida familiar e o investimento de ambos na vida profissional. Deste modo, mesmo os pais que investem fortemente numa carreira tendem

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Como veremos noutras paternidades, para alguns homens as actividades a sós com os filhos são fundamentais para o estreitamento de laços entre pai e filhos e o terreno de expressão da sua autonomia relacional em relação aos filhos.

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a equilibrar esse esforço com a prioridade de participarem e partilharem o quotidiano com os filhos. Mas, ao mesmo tempo, sentem que têm uma responsabilidade maior do que a mãe de adquirir recursos para a família, particularmente quando se trata de manter ou de alcançar um determinado estilo de vida que garanta a concretização do projecto parental do casal, ou uma vida mais desafogada, como é o caso dos pais com menores remunerações. Miguel, por exemplo, sempre que pode, acumula horas extraordinárias e agarra todos os trabalhos adicionais que lhe oferecem, pois manter as filhas numa escola privada implica um esforço financeiro suplementar:

«Faço mais horas assim a pensar: “bem, sempre é mais um dinheirinho, sempre dá para fazer isto ou para fazer aquilo para elas”. Se não as tivesse, não fazia nem metade das horas que faço.»

Este esforço adicional é, muitas vezes, criador de tensões, ao criar desencontros entre as aspirações de participar e partilhar o quotidiano com os filhos e a parceira e as possibilidades de as pôr em prática:

«Há alturas em que é complicado. Por exemplo, em Novembro via-as para aí, sei lá, umas 2 horas, se tanto. Porque era eu que ia buscá-las à escola, vinha do trabalho, ia buscá-las à escola e depois ia para outro lado [trabalhar]. Era o único tempo que eu estava com elas, era esse bocadinho, porque, de resto, nesse mês mal as vi.

E para ela [a mulher] é muito stressante, ela vem do trabalho e ela depois tem de estar a ensiná- las a fazer os trabalhos e depois há sempre coisas para fazer, e ela depois não tem tempo para estar a fazer as coisas e a ensinar.»

Miguel

Ora, em grande parte, são estes desencontros que levam a que as bases igualitaristas do companheirismo conjugal sejam atenuadas a favor dos valores da parceria e da entreajuda parental, em processos de ajustamento no casal mais focados na negociação da plasticidade das práticas paternas. O que também mostra uma paternidade fortemente ancorada nas dinâmicas relacionais e, por isso, nas interpretações variáveis e negociáveis do papel paterno no quotidiano, consoante as circunstâncias familiares. Por isso, a construção de uma paternidade focada em participar e partilhar o quotidiano acaba por conviver em parte com a ideologia do ganha-pão masculino e do cuidar feminino, ainda que os seus significados sejam reinterpretados no quadro da negociação do ser e fazer em conjunto.

1.3. «Quem está à mão é quem faz»: coparentalidades conjuntas

Aqui, a cooperação parental configura uma coparentalidade conjunta, precisamente porque o ser e o fazer em conjunto é o pilar das dinâmicas da paternidade. É pautada por uma partilha ampla, sintonizada, cúmplice e flexível entre o pai e a mãe, orientada pelos princípios de diálogo, ajuda e compreensão mútuas, que organizam a reciprocidade companheirista na

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troca parental. Esta é evidenciada pelo ajustamento continuado e de parte a parte das acções e concepções parentais no modo de agir, para e com a criança, que é interpretado como um «fazer em conjunto» e que se organiza pela construção de equivalências e interdependências entre as práticas paternas e maternas. Para estes homens, a parentalidade é uma das esferas privilegiadas de fusão conjugal, o que leva a que procurem condimentar a partilha parental com a dedicação, a solidariedade e a proximidade afectiva, esperando ainda que esta seja aberta e flexível à negociação e à variabilidade dos significados e das práticas da implicação paterna.

No plano da negociação das esferas de acção e dos lugares paternos e maternos na parentalidade, a coparentalidade conjunta é desenhada por lógicas de flexibilidade e de entrelaçamento normativo referenciadas à combinação de valores igualitaristas com os de parceria e de relação fusional e companheirista (Dienhart 1998; 2001). O «fazer em conjunto», que orienta esta negociação, está, como vimos, associado à exploração de maneiras de partilhar a parentalidade concebidos como diferentes, tanto em relação à matriz de acção da família de origem como a modos de fazer a parentalidade ancorados na autonomia individual. Desta forma, este implica edificar um guião de parceria escrito por incorporações suplementares nos repertórios de acção, individuais e de partilha, que acolhem ajustamentos dos significados e das práticas do ser pai e do ser mãe. Porém, embora tanto as esferas de acção paterna como materna sejam alvo da negociação de novos esquemas de acção, estes ajustamentos dão-se muito mais pela negociação da variação do papel paterno no quotidiano