6.4 M´ecanismes
6.4.1 Effet de ligne
empatia na moralidade? De acordo com Prinz (2011a, 2011b), uma moralidade baseada na empatia é prejudicial à sociedade. Ele argumenta que emoções empáticas podem levar a imprecisões em nossos juízos morais e não contribuem para boas práticas morais. Uma moralidade baseada na empatia tem muitas limitações como um guia para a motivação moral. A empatia pode não ter a força motivacional necessária para a condução de comportamentos pró-sociais e ações altruístas. A empatia é suscetível a distorções e tende a ser altamente seletiva. Ela também pode levar ao tratamento preferencial e a crimes de omissão. De acordo com Prinz, se a empatia produz distorções no juízo moral e interfere negativamente com a moralidade, então, ela deve ser evitada como um guia para a moralidade. Prinz conclui que a empatia deve ser desencorajada como o componente motivacional central de um sistema moral.
O argumento prescritivo de Prinz pode ser reconstruído assim:
P4. A empatia produz vieses [biases] no juízo moral e interfere negativamente na moralidade.
P5. Se a empatia produz distorções no juízo moral e interfere negativamente na moralidade, ela deve ser evitada como um guia para moralidade. C1. Portanto, a empatia deve ser evitada como um guia para a moralidade.
A premissa P4 baseia-se em pesquisas experimentais que sugerem que a empatia é prejudicial e produz vieses no juízo moral. Esses resultados levam Prinz à conclusão de que a empatia não deve ser cultivada. Eu argumento contra esta conclusão prescritiva ao rejeitar a segunda premissa P5.
O argumento deriva uma conclusão prescritiva (a empatia deve ser evitada) a partir de uma premissa epistêmica (a empatia é prejudicial ao juízo moral). Argumentos semelhantes foram defendidos por Holton e Langton (1999) e Struchiner (2011). Eles enfatizam as limitações e distorções que a empatia pode trazer à moralidade. Holton e Langton (1999) tem o uso da identificação imaginativa como ferramenta epistêmica para a moralidade. Uma das suas
principais preocupações é que a empatia leva ao paroquialismo17. A empatia é
propensa ao paroquialismo, porque ocorre mais facilmente diante indivíduos que são salientes, aqueles percebidos no momento presente e espacialmente mais próximos de nós, ou que se parecem com nós mesmos (Goldman, 2006). Como observa Hoffman (2000), embora tenhamos empatia por quase qualquer um em situação de perigo, é mais fácil termos empatia com aqueles semelhantes a nós mesmos.
Uma objeção que os defensores da empatia poderiam levantar ao argumento de Prinz é que a empatia poderia ser melhorada combinando-a com ferramentas epistêmicas adicionais e dispositivos úteis. Goldman (2006) mostra que a empatia, como processo envolvendo imaginação e simulação, pode ser aprimorada por informações derivadas perceptivamente para gerar representações mais precisas de um indivíduo anônimo e distante e para transcender o paroquialismo de uma perspectiva afetiva autocentrada. Prinz sugere que melhorias deste tipo podem levar a empatia a desempenhar um papel causal inerte neste processo e que ele poderia facilmente ser substituído por outras emoções, como raiva e ultraje.
Noel Struchiner (2011) também argumenta que a empatia não é necessária para juízos morais, desenvolvimento moral ou motivação moral. Em acordo com Prinz, Struchiner afirma que a empatia é uma emoção “perigosa” que leva a atos de crueldade e injustiça, e deve ser evitada, ou mesmo eliminada, nos sistemas legais. Ele argumenta que, nos sistemas jurídicos, um modelo de tomada de decisão baseado na empatia pode resultar em erros, distorções e abusos. Struchiner argumenta que a empatia é tão potencialmente prejudicial às decisões legais quanto à moralidade. Nessa base, ele conclui que um modelo de tomada de decisão baseado em regras capta a essência da lei, e um bom modelo de tomada de decisão para decisões legais deve invalidar qualquer componente empático18.
17 N.T. O termo paroquialismo é aqui usado no sentido de uma visão circunscrita a um grupo local,
ignorando perspectivas, atividades ou interesses mais vastos e abrangentes.
18 O modelo de decisão baseado em regras proposto por Struchiner (2011) baseia-se na concepção
Struchiner propõe que os sistemas legais devem ser guiados pelo raciocínio baseado em uma perspectiva autista. Ele defende o que chama de “a moralidade contingente da tomada de decisões autista baseada em regras”. A ideia essencial aqui é que as pessoas com autismo possuem as virtudes certas para um bom modelo jurídico – as virtudes das regras. Pessoas autistas adoram sistematizar; seguem regras rígidas, e levam a sério a literalidade na qual as regras são formuladas. Struchiner sugere que o sistema legal deve abraçar essas virtudes. O pensamento autista, do qual a empatia está ausente, produziria menos viés nos juízos morais e menos distorção nas decisões legais.
Claramente, há um problema com esta caracterização da mente autista. Como discuti anteriormente, a capacidade de seguir regras e detectar transgressões normativas que caracterizam o raciocínio autista não resulta em uma capacidade de detectar transgressões morais. Consequentemente, a presença dessas habilidades não resulta em competência moral em pessoas com autismo. Além disso, mesmo admitindo que possamos encontrar mentes autistas como Struchiner as descreve – nas quais a competência moral se baseia em seguir regras normativas – isso não vindicará o sistema legal baseado em regras. Mesmo que tal sistema funcione melhor em certas circunstâncias, ainda temos de considerar situações nas quais os sistemas legais não podem tomar decisões baseadas apenas em seguir regras. Existem situações que necessariamente requerem o nosso poder imaginativo e nossa capacidade de nos colocarmos na perspectiva afetiva daqueles afetados pela ação – por exemplo, as situações de conflito moral são uma dessas circunstâncias. Nessas situações, os sistemas jurídicos devem ser capazes de transcender as distorções das visões de uma perspectiva egocêntrica. Os juízes devem raciocinar como participantes desinteressados que podem tomar a perspectiva dos afetados e tomar decisões com base na flexibilidade imaginativa.
Existem duas ideias implícitas na abordagem de Prinz. A primeira idéia é que se a empatia não é necessária para todos os tipos de juízo moral, então a
empatia não é necessária para a moralidade; e, consequentemente, poderia ser sistematicamente substituída por outras emoções. A segunda ideia é que a moralidade é, no entanto, baseada em um único tipo de emoção. Prinz sugere que
o ultraje (a indignação) poderia ser o tipo de emoção que desempenharia o papel
central na moralidade, porque tem mais poder de motivação do que a empatia, e é menos susceptível a distorções. De acordo com Prinz (2011a, 2011b), devemos cultivar uma moral baseada no ultraje (na indignação)19.
Segundo a visão que defendo, a empatia é uma característica crucial do desenvolvimento moral. Importantes aspectos de nossa moralidade estão relacionados a sentimentos empáticos. Além disso, a empatia deve ser cultivada. O fato de que a empatia produz distorção e preconceito não implica que ela não seja benéfica para a moral em geral. Emoções empáticas podem distorcer a nossa percepção e são propensas aos vieses de uma perspectiva egocêntrica; porém, isso é verdadeiro para outras emoções também, como medo, vergonha, arrependimento, admiração, culpa, ultraje, raiva e ciúme. O ultraje, por exemplo, pode levar ao linchamento, uma violência coletiva em que um grupo pune um indivíduo que transgrediu as regras morais.
Nossas reações emocionais podem distorcer nossa visão e interferir negativamente com nosso julgamento moral, levando a juízos incorretos e ações moralmente erradas. Podemos ser mal orientados por nossas reações afetivas (Goldie 2002). Reações emocionais podem levar a equívocos no julgamento moral. Isso mostra que não devemos confiar em nossas reações afetivas como a única
19 Por exemplo, Prinz (2011a) afirma: “Nós devemos protestar contra o errado. [...] De uma
perspectiva prática, talvez seja melhor tentar cultivar um sentimento de indignação pela injustiça onde quer que ela ocorra, e um sentimento de alegria em ajudar os necessitados onde quer que estejam. A suposição de que a empatia é essencial para esses fins pode ser equivocada e os esforços para expandir nossos horizontes morais por indução empática podem nos tornar mais vulneráveis aos erros de alocação”. E em uma crítica à ética feminista (2011b), ele afirma “uma moralidade feminista inclinada à libertação não deve ser uma moralidade baseada na empatia se esse rótulo é destinado a descrever uma moralidade que faz da empatia o seu recurso emocional primário. Uma moralidade baseada na indignação pode ser mais eficaz”.
fonte de nossa atitude moral. Pensar moralmente [moralizing] envolve transcender nossa perspectiva afetiva egocêntrica (Rochat & Passos-Ferreira 2008) e levar em conta a perspectiva afetiva dos afetados pela ação.
Se excluímos todas as emoções que poderiam levar a distorções, limitações ou preconceitos no julgamento moral, os sentimentalistas morais serão deixados com muito pouco para contar como um guia positivo para aprovação moral e desaprovação moral. Os sentimentalistas precisam de emoções para distinguir o certo do errado. Para os não-sentimentalistas, a exclusão dessas emoções será menos problemática. Por exemplo, os kantianos e outros racionalistas morais podem contar com as habilidades de raciocínio para desenvolver a competência moral (como sugere Kennett (2002)). No entanto, sentimentalistas morais (como Prinz e eu) não têm outra alternativa senão contar com as disposições afetivas, incluindo algumas emoções tendenciosas.
Na visão sentimentalista que advogo, a empatia é um elemento crucial da moralidade, e com força moral motivacional. Em algumas circunstâncias específicas, é o nosso melhor guia para a moralidade. A explicação para isso é que a empatia nos permite transcender nossa perspectiva afetiva egocêntrica e simular as perspectivas daqueles afetados por uma ação. Transcender nossa própria perspectiva e tomar a perspectiva afetiva daqueles afetados por uma ação são requeridos para o juízo moral; e a empatia, na maioria das vezes, fornece a melhor maneira de acessar as perspectivas dos outros. Este acesso pode ser imperfeito, mas, no entanto, é altamente benéfico em geral.
Uma abordagem semelhante tem sido defendida por alguns proponentes da ética do cuidado. Esta tradição tem ajudado a enfatizar o papel das emoções relacionadas à empatia. Como observa Virginia Held (2006), a ética do cuidado valoriza emoções, como empatia e simpatia, como uma ferramenta epistêmica para determinar o que a moral recomenda. A ética do cuidado também rejeita a idéia de que você deve favorecer o raciocínio abstrato e a imparcialidade para evitar distorções e arbitrariedades (Held 2006). A empatia desempenha um papel fundamental nos contextos de ajuda e cuidado aos indivíduos que não podem expressar suas emoções, desejos e crenças.
Além disso, nesses casos de cuidado, a empatia imaginativa é muitas vezes benéfica. Mark Coeckelbergh (2007) analisa o processo de tomada de decisão em uma unidade de terapia intensiva para bebês e mostra que a empatia imaginativa desempenha um papel central nas decisões sobre a vida daqueles que não podem se expressar de uma forma transparente. As unidades de saúde infantil são contextos opacos onde não podemos confiar exclusivamente nas pistas perceptivas e na empatia perceptiva para decidir o que é moralmente certo ou errado. Temos que usar nossa imaginação e simular a perspectiva afetiva interna dos bebês para tomar decisões. Devemos exercer a empatia com pessoas que sofrem e não são capazes de expressar seus desejos e preocupações. Eles apelam para nossos poderes imaginativos e eles podem querer que compartilhemos de sua vulnerabilidade e sofrimento como companheiros humanos. Como afirma Coeckelbergh (2007): eles apelam a “um esforço imaginativo por parte do cuidador para imaginar como é ser a outra pessoa [what it
is like to be the other person] ao tomar a perspectiva interna (imaginar como seria
ser aquele que sofre) e pela comunicação desse esforço imaginativo”20.
Em nossa sociedade, cuidar daqueles que carecem de autonomia, incluindo aqueles que nunca desenvolveram autonomia e aqueles que estão temporariamente incapazes de agir como agentes morais autônomos, é um valor central. Como parte de nossa moralidade, aprovamos a prática de cuidar daqueles que, por várias razões, não são capazes de expressar suas preocupações e desejos. Este grupo inclui bebês, pessoas com deficiência e pacientes em estados terminais que perderam a consciência ou têm outras doenças mentais. Nessas situações, as habilidades empáticas são essenciais para evitar as distorções de tomar nossa própria perspectiva ou aplicar regras rígidas que possam potencialmente produzir erros e injustiças. Nos casos em que devemos prestar ajuda e cuidados àqueles cuja experiência afetiva é opaca a nós, a falta de empatia imaginativa levará a distorções no juízo moral e também nas decisões legais. Nesses casos, a empatia é moralmente benéfica.
Conclusão
Argumentamos que a empatia é um elemento crucial na moralidade e que em algumas circunstâncias específicas é o nosso melhor guia para a moralidade. Eu argumentei contra duas teses do sentimentalismo anti-empático de Prinz. Argumentei contra sua tese desenvolvimental, que diz que a empatia não é necessária para o desenvolvimento moral. Eu também argumentei contra a tese normativa de Prinz, que diz que a empatia deve ser evitada como um guia para a moralidade.
Para pensar moralmente, precisamos transcender nossa perspectiva afetiva egocêntrica para corrigir as limitações e distorções desta perspectiva. Podemos fazer isso compartilhando estados afetivos e imaginando as reações daqueles afetados por nossas ações. Desta forma, a empatia serve como guia positivo para o juízo moral.
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6
O PAPEL DA INDIGNAÇÃO DE UMA PERSPECTIVA
PERFECCIONISTA*
Jônadas Techio Introdução
A motivação inicial para a redação este capítulo foi o choque causado por um comentário de Stanley Cavell a uma cena do filme Mr. Deeds Goes to Town1. O
protagonista desse filme é Longfellow Deeds (Gary Cooper), um sujeito simples do interior que ganhava a vida escrevendo versos para cartões, até que inesperadamente herdou uma fortuna de um tio milionário e mudou para sua mansão em Nova York – uma história que causou bastante interesse na imprensa local, que chegou a apelidá-lo de “Cinderella Man”. Na cena que me interessa