3.4 Results
3.4.1 The effects of skills
Na leitura psicossociológica, as organizações e, em especial, as empresas, passariam a ocupar, no contexto contemporâneo - marcado pelo déficit de ideais, desregulamentação, fragilização dos vínculos sociais - um lugar central na vida social, passando a ser a fonte de referência, de identificação e idealização, funcionando como defesa contra o desamparo. Ganha grande destaque na análise crítica de Enriquez quanto à gestão pelo afetivo, a dinâmica imaginária (constituição de um imaginário enganoso) e inconsciente que atravessa os processos organizacionais, fonte da adesão dos indivíduos às organizações.
Embora Enriquez ao longo de seus trabalhos de análise psicossociológica das organizações tenha seguido este eixo de análise, o autor em seu último texto publicado no Brasil, relativo à Transgressão(ENRIQUEZ, 2002), mostra-se crítico e cético quanto à possibilidade de construção de ideais no contexto atual, no qual torna-se central o apelo à performance individual, o jogo do gozo e a busca do sucesso individual.
Assim, retomo algumas questões por mim levantadas no capítulo teórico anterior, quando foram interrogadas as possibilidades de destinos partilhados nas organizações no contexto atual de fragmentação, fluidez, luta pela sobrevivência e alta competitividade. Afirma- se, então, mais uma vez, as restrições atuais às ilusões, à idealização, à construção de uma identidade coletiva .
Será que ainda teríamos a possibilidade de construir um imaginário organizacional que leve os indivíduos a “vestir à camisa da organização”, ou as relações que se estabelecem nas organizações são meramente voltadas para a sobrevivência? Será que existem condições para construção de um ideal partilhado, ou os indivíduos se prendem a pequenos ideais ou ganhos secundários, fruto de suas inserções no universo organizacional? Enfim, quais os destinos da idealização nas organizações nos tempos atuais? E nos Serviços Públicos de Saúde no Brasil?
Procurando aprofundar a reflexão sobre os vínculos entre indivíduos e as organizações no contexto contemporâneo, particularmente quanto as possibilidades das organizações funcionarem como pólo identificatório, buscarei estabelecer um diálogo com a perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho que examina a relação entre trabalho e mobilização subjetiva dos trabalhadores, tentado esclarecer o que se passa no mundo do trabalho atualmente. Desta abordagem, que volta-se para o exame do sofrimento e do prazer no trabalho, procuro particularmente considerar os efeitos da precarização do trabalho particularmente quanto às questões da cooperação, do reconhecimento e da autonomia .
Christophe Dejours (1999a), defende a idéia de que para se entender o que se passa na sociedade é preciso entender o que se passa no trabalho. Para ele, trabalhar, além de envolver a produção também diz respeito à convivência e à qualidade das relações sociais que se estabelecem entre os iguais e a hierarquia. Quanto ao sofrimento, a abordagem da Psicodinâmica do Trabalho compreende, a partir da psicanálise, que ele pré-existe à situação do trabalho, sendo originado na relações com os pais. No entanto, o trabalho tem efeitos importantes sobre o sofrimento psíquico: “ ou o trabalho contribui para agravar o sofrimento, (...) ou ao contrário,
o trabalho contribui para subverter o sofrimento, para transformá-lo em prazer...” ( DEJOURS,
1999a p.16-17)
Para atingir os objetivos de produção, são necessárias segundo Dejours (1999a) transgressões com relação às instruções e prescrições do processo de trabalho. Assim, o real do trabalho, supõe a mobilização do “zelo” individual, da inteligência, iniciativa e imaginação do trabalhador, conformando soluções de tipo “quebra-galhos” (Dejours,1999a p.27) O trabalho real resiste ao controle dos executivos e é para o referido autor “precisamente aquilo que os
trabalhadores devem acrescentar aos métodos e à organização do trabalho prescrita, para fazer face àquilo que não foi previsto e que por vezes não pode estar ao nível da concepção”
Retornando a nossa preocupação inicial, o que se passa então no âmbito do trabalho nas organizações e empresas contemporâneas? Quais as pressões do trabalho hoje?
O mundo do trabalho nas organizações empresariais atualmente impõe grande tolerância dos trabalhadores às pressões e ritmos de trabalho, que tornaram-se “infernais”. No entanto, afirma Dejours, “ninguém reclama”. (1999a ) O fantasma do desemprego e da exclusão impõe um sofrimento moral aos trabalhadores, que preocupam-se em resistir. Assim, a precariedade não atinge somente os trabalhadores em situação precária: tem conseqüência para os trabalhadores de modo geral. Todos vivem sob ameaça de demissão, surgindo então o medo e a submissão.
Dejours (1999b p.51) identifica quatro conseqüências das precarização do trabalho:
(1) intensificação do trabalho e aumento do sofrimento subjetivo(...);
(2) neutralização da mobilização coletiva contra o sofrimento, contra a dominação(...)
(3) [desenvolvimento da] estratégia defensiva do silêncio, da cegueira e da surdez, (...)negando o sofrimento alheio e calando o seu. Cada um deve se preocupar em ‘resistir’. Quanto ao sofrimento alheio, (...) ‘não se pode fazer nada’ (...) Para resistir, portanto, convém fechar os olhos e os ouvidos ao sofrimento e à injustiça infligidos a outrem(...)
(4) .. o Individualismo, o cada um por si.
A cooperação, na perspectiva da Psicodinâmica do trabalho, tem requisitos intersubjetivos e éticos. A condição atual do mundo trabalho, para Dejours (1999b), impõe uma fragilização da cooperação cuja origem está no próprio contexto de precarização que impõe medo e submissão. Para o autor, o ideal da cooperação implica o reconhecimento da contribuição de cada um, supõe acordos que só são possíveis, em condições em que se estabelece a confiança. A precarização da cooperação, embora ainda permita a mobilização subjetiva da inteligência, resulta da clivagem e dos afrontamentos no seio da equipe, e assim representa um clima de desconfiança e falta de reciprocidade.
Sob influência do medo, por exemplo, com a ameaça de demissão pairando sobre todos os agentes de um serviço, a maioria dos trabalhadores se mostra capaz de acionar todo um cabedal de inventividade para melhorar sua produção (em quantidade e qualidade) bem como para constranger seus colegas, de modo a ficar em posição mais vantajosa do que eles... (DEJOURS, 1999b p.58)
Os diferentes vínculos de trabalho existentes hoje nos hospitais públicos onde convivem funcionários públicos regidos por um regime trabalhista próprio que garante a estabilidade, funcionários contratados regidos pelo regime da CLT e funcionários prestadores de serviço sem qualquer direito trabalhista e inúmeras diferenças salariais, certamente tornam-se fonte para conflitos, disputas, enfrentamentos, gerando um clima de desconfiança .
Destaca também o autor que no âmbito das empresas contemporâneas, são utilizadas como estratégia defensiva a tolerância, a não-denúncia e até mesmo a participação em injustiças e sofrimento inflingidos a outrem, desde ameaças, manipulação, até mesmo imposição de realizar o que se reprova moralmente, opondo ao sofrimento oriundo dessas práticas, uma negação coletiva (DEJOURS, 1999b). Assim, instituem-se condutas de silêncio, eufemização e “banalização do mal” (1999b), que podem ser interpretadas como ideologias defensivas que visam ao apagamento dos conflitos de ordem moral.
A noção de autonomia no trabalho é também central para compreendermos as mudanças que se processaram no mundo do trabalho. Por longo tempo, a autonomia constituiu-se em uma das aspirações ou ideais do trabalhador, representando um potencial libertador (PÉRILLEUX, 1998). No entanto, aponta Périlleux (1998), nas organizações flexíveis, a autonomia no trabalho, paradoxalmente, tornou-se uma exigência gerencial, um meio de obter eficácia. O emprego de dispositivos como “trabalho em equipe”, “ausência de fronteiras entre categorias”, “implicação com o trabalho” impõe ao trabalhador antecipar problemas, propor ações corretivas, acentuando a necessidade de capacidades de negociação, comunicação, enfim - plasticidade - tornando-se a autonomia, um requisito de desempenho (PÉRILLEUX ,1998). Porém, adverte Périlleux (1998), ao uso da autonomia como princípio de gestão, corresponde a responsabilização individual dos trabalhadores, que colocam-se em risco, envolvidos na microgestão das decisões do trabalho.
Assim, percebemos que as mudanças na esfera do trabalho trazem novos efeitos, como é o caso da captura das possibilidades de autonomia, bem como à fragilização da cooperação e da reciprocidade entre trabalhadores, que vivem sob ameaças que os distanciam. Assim, perguntamos, até que ponto este contexto de ameaça pode constituir-se em fonte para a crença ?
Enfim, retomando mais uma vez o contexto geral da sociedade contemporânea caracterizada pela fragilidade de vínculos, individualismo, déficit de ideais, e também por aspectos relativos ao mundo do trabalho, tratados acima – precarização, alta competição e “ lutte
p.125), talvez seja importante relativizar ou olhar com cuidado as possibilidades das organizações funcionarem como fonte de identificação e idealização.
No contexto atual, alerta Fernandes, há uma fragilidade dos mecanismos que favorecem o pertencimento aos grupos sociais:
Todas estas “revoluções” colocam em cheque as crenças e os mitos que asseguram nosso pertencimento a um conjunto social , e abalam os alicerces de nossa identidade. Na medida em que as formações intermediárias, como as crenças e os mitos, não jogam mais seu papel, esses problemas e essas carências ampliam as dificuldades de integração seja no espaço psíquico seja no espaço social.” (FERNANDES, 2003
p.22)
Embora, tenha apontado Enriquez (1997a,b,2001) que a idealização do grupo contribua para a idealização de seus membros, e vá de encontro às necessidades narcísicas do sujeito, em um contexto de fragilização dos vínculos e predominância do individualismo e de pulsões egoístas, sob a ordem mais geral da fragmentação, talvez possam apenas ser constituídos pela organização pequenos ideais, ou ideais circunscritos, específicos, capazes talvez de mobilizar, mas de forma limitada, os indivíduos e grupos e de funcionar ainda como atrativo simbólico e imaginário.
Quanto aos serviços públicos de saúde, embora representem uma realidade particular, é importante alertar para sua inserção no texto mais geral, estando, portanto, submetidos às condições contemporâneas. Quanto às suas particularidades, é interessante ressaltar que embora os serviços públicos de saúde tenham vivido, no Brasil, em outros tempos, particularmente os hospitais públicos, momentos de grande reconhecimento e distinção social em função de sua qualidade, nas últimas décadas, como temos dito ao longo do trabalho, têm sido alvos de sucuateamento, desinvestimento e de todo tipo de acusação: paralisia burocrática, clientelismo, baixa qualidade e ineficiência. Deve ser destacado em particular, o desinvestimento ocorrido quanto aos recursos humanos, seja no âmbito das políticas de desenvolvimento, como também de substituição da força de trabalho e remuneração. Parte da força de trabalho é terceirizada e quanto aos funcionários públicos, a falta de planos de carreira e os baixos salários tem favorecido a inércia, a apatia e o desinvestimento. O individualismo, o corporativismo tem levado ao distanciamento entre categorias profissionais que disputam privilégios, vantagens, “esquemas”.
Neste contexto, será possível aos hospitais se constituírem como pólos de identificação e idealização?
Na década de 80, especialmente no contexto da 8a Conferência Nacional de Saúde e de fortalecimento do chamado “Movimento da Reforma Sanitária” se constituiu um ideal, no sentido empregado por Enriquez (1997b), o da construção de um sistema público de saúde universal, na contramão do ideário neoliberal, que ganhava fôlego. Hoje, no entanto, nos hospitais públicos de saúde, que imaginários seriam dominantes?
Venho sugerindo, ao longo de todo o trabalho, o domínio de um imaginário enganoso nas organizações públicas, fruto da desvalorização do serviço público e de seus funcionários, da precarização dos vínculos e das condições de trabalho, enfim, um contexto de reconhecimento negativo. Tal imaginário estaria perpassado pelo domínio da impotência, da descrença, da impossibilidade da mudança, determinando apatia e conformismo. Este imaginário dominante estaria sendo, de algum modo, confrontado com o imaginário, mesmo que enfraquecido, do Movimento Sanitário, que vem procurando produzir ruídos e fendas para uma outra construção. A nossa investigação pretende justamente examinar o que se passa no universo dos hospitais públicos, em particular nos de emergência, do Rio de Janeiro, na visão do seu dirigente, no tocante às possibilidades de constituição de processos de mudança e portanto também de construção de um imaginário de maior potência com respeito aos seus destinos.