Os estudos sobre valores humanos recorrem a vários sistemas epistemológicos dentro das ciências humanas, porém as suas raízes com resultados mais significativos estão dentro da sociologia e psicologia, especialmente a partir dos anos 50 (Ros, 2006a). É nesse estágio diferenciado de análise dos valores que os psicólogos sociais explicam a interação entre o nível individual, grupal e cultural.
Os valores humanos são um constructo central na psicologia e têm fundamental importância para a compreensão dos processos sociopsicológicos (Schwartz, 2006). Dentro da Psicologia Social, os valores humanos são definidos como princípios-guia gerais, que transcendem objetos ou situações particulares. Portanto, os valores são um conjunto de princípios fundamentais que transcendem situações específicas, que orientam as necessidades e guiam as ações. Apesar de terem evoluído ao longo da história da humanidade, podem ser pensados como um marco referencial de comportamentos, praticamente imutável como tal (Gouveia et al, 2011a).
O número de valores é limitado e supera o de necessidades. Os valores são resultado do processo de socialização e são pessoalmente adotados e não construídos (Gouveia, 2003).
Os valores implicam necessariamente uma preferência entre o que tem valor e o que não tem. A organização hierárquica dos valores pressupõe graus de valor e uma escala de valores ao longo de um continuum de importância em relação ao tempo e os desejosos esforços do indivíduo para alcançar as metas transituacionais ou valores (Tamayo, 2007).
Na análise histórica sobre o tema, Ros (2006a) indica os autores que apresentaram contribuições de impacto e as perspetivas inovadoras sobre o assunto. Destaca-se William Isaac Thomas, Florian Witold Znaniecki como representantes pioneiros da tradição sociológica e psicológica no início do século XX; e Milton Rokeach, Abraham Maslow, Shalom Schwartz e Talcott Parsons expoentes das décadas de 70 e 90.
Na compreensão de Ros (2006a), os sociólogos Thomas e Znanieck, na obra The polish peasant (1918), apresentam a pioneira conceituação de atitude como o processo da consciência individual, determinante da atividade real ou possível do indivíduo no mundo social, ou seja, “[..] o processo no qual alguém capta cognitivamente uma situação e depois
decide como tem de agir [,..]” (p.25). Assim, as atitudes presumem um “eu” reflexivo e racional, seguindo a tradição de Kant e Hegel, e em contraponto, incluem o sentido emocional e o comportamento. Nesse sentido, Ros (2006a) complementa a sua reflexão ao dizer que “[..] a intencionalidade ou a qualidade atitudinal permite que se aborde melhor o “eu” na ação [..]” (p.25); e os valores fazem a ligação entre atitudes e estrutura social. Assim, qualquer dado ao alcance dos membros de um grupo social que tenha conteúdo experimental e significado em relação ao que seja ou possa ser objeto de atitude, diz-se ser valor social.
Na opinião de Gouveia et al (2011a) há dois aspetos nessa teoria que merecem destaque: a) As atitudes e os valores estão relacionados, embora compreendam constructos diferentes, e b) As atitudes têm natureza intrassubjetiva, enquanto os valores são intersubjetivos e extrasubjetivos, isto é, precisam ter seu significado compartilhado com os demais.
A relação entre atitudes e valores tem sido consolidada a partir da segunda metade do século XX, sobretudo a partir dos estudos relativos à Teoria da ação social de Talcott Parsons e das contribuições de Milton Rokeach (1973) o qual afirmava que mudam as prioridades valorativas, mas não os valores em si (Gouveia et al, 2011a).
Na interpretação de Ros (2006a), o conceito de valor utilizado por Parsons é diferente daquele expresso pelos teóricos Thomas & Znaniecki e Clyde Kluckhohn. A ideia Kluckhoniana é de que valor é uma representação implícita ou explícita acerca do desejável que influencia a escolha das formas, meios e fins existentes de ação, e que os valores são hierarquicamente organizados e instigadores do comportamento e estão internalizados por quem pratica a ação. Fica patente que valor já não mais significa o desejado ou um objeto,
mas o princípio do desejável. Os estudos de Parsons & Shils (1951) ajudaram a traçar uma “teoria da ação social”
e a conformar o conceito de valores, hoje prevalente na Psicologia Social. Para eles, a ação não se dá de forma isolada, mas sim formando sistemas, com três possibilidades de ação: o de personalidade, o social (interpessoal) e o cultural. Mas, é o sistema cultural que possibilita o sistema social e o pessoal. Eles também acrescentaram o conceito de ação motivada, no qual sugere que a ação se dá a partir de metas a serem atingidas, consonante
com a ideia de que os valores representam metas motivacionais (apud Gouveia et al, 2011a).
Gouveia et al (2011a) cita um texto publicado em revista espanhola de autoria de Talcott Parsons (1959) no qual ele conclui que “[..] pode-se denominar valor a um elemento de um sistema simbólico compartilhado que serve de critério para a seleção entre as alternativas de orientação que se apresentam intrinsecamente abertas em uma situação [..]” (p.443).
Outro americano estudioso da psicologia social, contemporâneo de Parsons, Abraham Maslow se destaca com sua obra clássica Motivation and personality. Ele chama a atenção para a estreita relação entre os valores e as necessidades humanas e propõe uma teoria da motivação ou Teoria da Hierarquia das Necessidades, a partir de experiências clínicas com pacientes (Maslow, 1954).
Na opinião de Gouveia et al (2011a), Abraham Maslow acrescentou duas noções importantes ao assunto, quais sejam: a) Todos os valores precisam ser positivos, pois o homem é um ser benevolente e dedicado à autorrealização; e b) Os valores podem representar necessidades deficitárias (por exemplo, fisiológicas) e de desenvolvimento (por exemplo, autorrealização).
A teoria de Rokeach propõe uma abordagem interdisciplinar e diferencia os valores de outros constructos, tais como atitudes e traços da personalidade. Na avaliação de Ros (2006b), Rokeach (1973) define valores como crenças transituacionais hierarquicamente organizadas e que servem de critério para o comportamento. Que o número total de valores que uma pessoa tem é relativamente pequeno, e que todas as pessoas possuem os mesmos valores, ainda que em graus variados e que os valores são organizados em sistemas (Ros, 2006b). Além disso, as suas principais contribuições foram a criação de um primeiro instrumento para medir valores, o Rokeach Value Survey (RVS) que consta de dezoito valores terminais e dezoito valores instrumentais, e do Método de autoconfrontação, o qual foi testado e validade no Brasil (Gouveia et al, 2001). Porém, destaca-se três aspetos que são considerados limitantes para a teoria apresentada e que são: a) o tipo de medida empregada; b) a indefinição da estrutura e organização dos valores; e c) estudos com amostras restritas, principalmente estudantes americanos (Gouveia et al, 2001).
Em resumo, na cronologia inicial dos acontecimentos destaca-se o pioneirismo de Thomas e Znaniecki (1918) que propuseram, no começo do século passado, a terminologia referente aos valores, identificando-o como constructo diferente de atitude e de comportamento. Por volta da década de 50, essas teorias se solidificaram e se complementaram com conceções-chave, como: o princípio do desejável de Clyde Kluckhohn (1951); a ação motivada de Talcott Parsons (1951); e, os valores como repre- sentação de necessidades, de Abraham Maslow (1954).