CHAPITRE 1 : Introduction générale
II. Dynamique du devenir des aliments dans le rumen
II.1. Ecosystème du rumen
Padre Deodato é personagem de uma das tramas secundárias do livro Os Caminhos
Coronel — rico e poderoso fazendeiro — com o progresso defendido pelo Padre em palavras e ações. O Coronel Raimundo não quer saber de estradas de ferro do governo passando por suas terras e, por este motivo, bate de frente com Deodato. Para o Coronel, essas novidades só podem ser idéias do Padre Deodato, que vive falando em civilização,
cristandade e bons costumes (enquanto vai empapando as índias). O padre e o coronel têm
uma relação tensa, já que Deodato dá apoio aos engenheiros e técnicos do governo que querem implantar uma linha de trem nessas terras. De um lado do rio ficam as largas terras do coronel. Do outro, a vila indígena sob os auspícios do padre: uma carreira de casas de um só lado, com a igreja ao fundo e, junto a ela, uma casa maior do que as outras, com um jardinzinho na frente, onde mora Deodato. O seu rebanho consta, em grande maioria, de mulheres e crianças índias.
Para o religioso, o progresso deveria abrir novos caminhos e perspectivas à pequena vila: traria a civilização, proporcionaria um fácil meio de transporte para o açúcar, encurtaria distâncias, viabilizaria as usinas, maiores que os bangüês, e traria o governo público para a vila, que passaria a ser cidade. Para a realização dessas mudanças, seria necessária a presença repressora de tropas do governo. Estas deveriam defender o encaminhamento dos trabalhos contra a reação conservadora dos arrancadores dos trilhos, liderados por André Monte (protagonista do livro). Embora, ao fim e ao cabo, o Coronel perceba que o progresso poderia trazer-lhe vantagens — o que o leva a apoiá-lo e, em conseqüência, virar o prefeito da nova cidade —, antes, o padre incorre na sua antipatia.
No púlpito, seus sermões são cheios de explicações aos índios sobre o que significa uma estrada de ferro ali na povoação, “que logo mais passaria a sede trazendo pessoas
outras que poderiam interessar-se pela fertilidade do vale, entregando-se ao plantio”.
Deodato fala também de “uma usina de açúcar já projetada para quando chegasse o
trem” que “continuaria, com o avanço dos trilhos, para a província vizinha, ligando as duas comunidades”. Fala ainda “da vinda de professores, padres como ele, para a instalação de uma escola destinada às crianças do lugar, dos benefícios da alfabetização”.
Tão enfáticos são os discursos de Padre Deodato que os índios, impressionáveis e impressionados, “não mais podiam viver sem pensar no dia em que tudo se realizasse.
Descuidaram-se das roças, da caça e da pesca, nem mais à igreja compareciam”. Os gentios promoviam discussões em sua língua, faziam desenhos nas paredes e esculturas no
barro, danças rituais e cenas de descontrole. Um dos engenheiros divertia-se dizendo que a civilização já começara (BORBA FILHO, 1987: 82/83).
Você, leitor, poderia perguntar-me qual o motivo de juntar uma personagem originalmente religiosa (Padre Deodato) com um jovem comunista (Airôn). Eu adianto-lhe que, de início, um ponto eles têm em comum: sua crença nos benefícios da técnica. Embora a Igreja católica tenha tradicionalmente demonstrado intransigência no que diz respeito à cultura, ao progresso e ao liberalismo moderno; embora ela tenha se recusado a compor com os princípios jurídicos e políticos modernos — afirmando que somente a Igreja constituía uma sociedade perfeita (meio-terrestre, meio-divina), salva das contingências que afetavam as sociedades políticas expostas ao acaso das mudanças (eleições e revoluções) —; apesar de todas essas questões, a Igreja pôs-se simpática à dimensão tecnológica da modernidade22. Quantos padres e papas não abençoaram inovações tecnológicas?
Os novos meios técnicos eram aceitos pela Igreja enquanto possibilidade de diminuição do sofrimento dos homens. Condenável era apenas qualquer tipo de sofrimento causado ou acentuado pelo progresso técnico, pois a pessoa humana deve sempre prevalecer sobre a máquina, sobre a matéria (LAGRÉE, 2002: 489). Enquanto o catolicismo combateu a modernidade política e ideológica — que ameaçava a comunidade religiosa perfeita —, ele conferiu legitimidade à técnica, prova da centelha divina existente no homem e capaz de diminuir o sofrimento humano (LAGRÉE, 2002: 490). Dessa forma, a proteção oferecida pelo Padre aos índios/crianças e a briga com o poder local ocorrem pela mesma finalidade geral: o engajamento numa luta em favor do benefício universal da civilização, mas baseada no que ela considera como uma comunidade ideal — a comunidade cristã, da qual sente-se responsável pelo seu destino.
Afora o apreço pela técnica, há mais dois pontos em comum entre Padre Deodato e Airôn — o aspirante a comunista: a idéia de eleição (ou vanguarda) e a idéia de uma
comunidade ideal. Para ambos, suas ações são pautadas por um fim supremo que é a
felicidade da humanidade. O leitor poderia objetar que, para o comunista, diferentemente do padre, essa felicidade só se alcança através da comunidade política. Ao que eu devo concordar. Contudo, o horizonte utópico do comunismo é a supressão do Estado e, conseqüentemente, da política — já que não restará conflitos. Nesse sentido, creio poder dizer que, para o ideal comunista, a política não é o fim da humanidade em si mesma, mas é o meio encontrado por uma humanidade cindida em classes antagônicas para superar essa cisão. E, nesta humanidade cindida, a classe operária é portadora dos fins coletivos.
Contudo, o alcance do ideal significa o fecho do horizonte histórico. Dessa forma, o padre e o aspirante a comunista tocam-se novamente: o fim da cisão pode significar também o fim da política e da história.
O pensionista Airôn, inspirado em padre Deodato, identifica-se com o arquiteto, o planejador: em seu discurso e ações ele pretende produzir consciência e cura para a sociedade humana através do planejamento e da negação da escuridão. Sua postura está vinculada a um projeto de transformação. Ele tem saudade do futuro, tempo em que os seus projetos realizam-se. O tempo histórico, para ele, tem uma lógica e o indivíduo eleito tem uma responsabilidade social. Nesse esquema, ele é dotado de um status inteligível, já que possui um mandato simbólico: o conhecimento, o planejamento, a utilização da técnica, o trabalho, são ações que compartilham de uma essência que transcende o indivíduo e amalgama a comunidade. Assim, ele insere-se na trama do destino: através de seu sentido de vocação. A implicação dessa forma de lidar com o mundo pode variar entre uma ênfase na ordem, em que as regras de funcionamento importam mais do que a comunidade, ou uma ênfase na bem-aventurança comum.
Algumas sutilezas peculiares à personalidade de Airôn são retiradas de outras personagens de Hermilo Borba Filho — como a sua obsessão pela decifração da aurora e seu jogo de desejo e candura frente às mulheres livres da rua da Guia, postura que lhe granjeia o apelido de não-me-queres23. O medo de corredores longos e escuros — como símbolo de movimento, tristeza, isolamento, escuridão e mistério — é-lhe emprestado por uma vivência de Joaquim Cardozo. A simulação do dia 21 de abril de 1960, dessa forma, inicia-se pela escuridão da noite onde, ou melhor, quando o mundo é apenas suposto e sugerido — Airôn sonha e o ambiente do sonho é retirado do conto Brassávola; pois, da casa em que morou na rua 24 de Maio, o que mais impressionava Joaquim Cardozo era o corredor, no qual ele “descobria na sua escura e larga e longa penetração até à sala de
jantar, qualquer coisa de esquisito e fantástico”. Era do corredor que lhe vinha uma
sensação de tristeza e isolamento, mistério e realidade: “Ao longo das suas paredes sem aberturas para os dois quartos da casa reinava sempre um silêncio, dentro de uma escuridão mais espessa quando, com as chuvas, mais cedo anoitecia. (...) Representava para mim uma aventura percorrê-lo”. (CARDOZO in GALLINDO, 1988: 76/77).
O passado de Airôn é-lhe concedido por Jarbas Araújo (entrevistado) — professor aposentado do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco,
nascido em 1935, na Paraíba, e vindo ainda pequeno para a cidade do Recife, acompanhado dos pais e da irmã mais velha. De Jarbas, Airôn compartilha a sua formação na escola técnica, sua família itinerante, de vida financeira apertada e incerta, o estudante que morava em pensões, o trabalho num escritório de arquitetura na Avenida Guararapes e sua paixão pelo Esporte Clube do Recife. A fé de Airôn no desenvolvimento social alcançado através do progresso tecnológico e do planejamento urbanístico — por meio dos projetos técnicos da SUDENE e dos projetos dos planos pilotos das cidades — é retirada das memórias do economista Celso Furtado e da tese de concurso de cátedra do urbanista Antônio Baltar. No que diz respeito à Brasília, Airôn compartilha dos sonhos dos arquitetos (alguns marxistas, como o próprio Oscar Niemeyer) encantados com a monumental cidade. Sua visão otimista acerca de Brasília — enquanto cidade arquitetônica e modelo capaz de promover transformações sociais — é questionada por seus interlocutores (que assumem outros discursos como, por exemplo, de Cid Sampaio ou de articulistas de jornal contrários às suas posições políticas). Em sua aspiração a filiar-se ao PCB, Airôn dialoga com documentos produzidos pelo partido; bem como se ancora nas vivências das querelas políticas narradas pelo comunista Paulo Cavalcanti e ambientadas na cidade. Seus valores de espírito-de-partido são questionados por outros discursos produzidos no período e que também propõem formas de transformação da sociedade — como o discurso de Francisco Julião. Airôn dialoga com os acontecimentos de seu tempo, como a revolução cubana, o castrismo e o guevarismo, a leitura da realidade nacional através da história econômica marxista e a hegemonia stalinista nas posições do Partido Comunista Brasileiro24.