A investigação apresenta a sua génese numa procura incessante da compreensão e interpretação da realidade e dos fenómenos mas deverá, de igual modo, promover o avanço da ciência. Que utilidade terão investigações e trabalhos, se apenas saciar-nos a sede do conhecimento? Quais os contributos desse conhecimento se o mesmo não proporcionar melhoria e evolução da condição humana?
Estamos cientes que a investigação é um processo muito complexo e que não é “só um processo de aplicação de conhecimentos mas … um processo de planificação e criatividade controlada” (Hill & Hill, 2000, pp. 20 -21). É um processo que deve, com rigor, promover um conhecimento fidedigno da própria realidade.
Indiscutivelmente, poderíamos divagar na diferenciação entre o conhecimento da realidade e a própria realidade, mas o mais assertivo é que pensemos na máxima construtivista: se “o mundo é observado ou construído?” (Ciccone, 2000, p.20), e percebamos que se analisarmos e processarmos a realidade já estamos a transformá-la, ou a construí-la de uma outra forma.
Esta procura do conhecimento, sobre realidade, é uma busca humana de longa data. Neste contexto, ao longo do tempo desenvolveram-se diversas perspectivas ou paradigmas de investigação. E determinou-se que o investigador tenha de percorrer o caminho numa busca, onde existem vários trilhos entre a partida até ao ponto de chegada e tenha de escolher qual aquele que quer caminhar. Dos paradigmas existentes, o paradigma qualitativo e o quantitativo são os paradigmas mais recorrentes na ciência, não porque a investigação se limite a estes mas porque nos parece adequado referi-los de forma a explicitar o porquê das nossas opções no presente trabalho de investigação.
A evolução da ciência e do conhecimento, (Thomas Kuhn,1998), é baseada na ruptura de um paradigma antigo e o surgimento de um outro. Esta ruptura não implica a anulação ou substituição de um paradigma em detrimento de outro, pois o processo de investigação e conhecimento não apresentam uma evolução contínua. São as rupturas que a fazem o avanço e a progressão da ciência.
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A perspectiva de Feyerabend (1989) no que concerne ao conhecimento e ciência é muito peculiar, defendo que deveria existir uma separação entre a própria ciência e o Estado. Na perspectiva de Althusser (1974) o Estado utilizou o aparelho ideológico escolar como aparelho de excelência da perpetuação da dominação do Estado. Nesta linha de pensamento Feyerabend defende o Estado utiliza a ciência para perpetuar o seu controlo e poder, limitando a liberdade da própria ciência. Ao condicionar a liberdade da ciência, o Estado estará a condicionar a possibilidade de novas formas de conhecer assim como a condicionar a liberdade Humana.
Feyerabend (1989), na sua visão anarquista epistemológico, defende que o progresso da ciência depende da existência de uma pluralidade de metodologias e, que o “cientista deve adoptar metodologia pluralista” (p. 40) e que “o anarquismo favorece a concretização do progresso em qualquer dos sentidos que a ele se decida emprestar. Mesmo a ciência que se paute pelo bem ordenado só alcançará resultados se admitir, ocasionalmente, procedimentos anárquicos” (Idem, op. cit., p.34).
A perspectiva de Thomas Kuhn a essência da evolução do conhecimento encontra-se na mudança de paradigma e nas rupturas paradigmáticas, onde o critério fundamental a ter em conta na escolha de um paradigma, em detrimento de outro, reside na sua adequabilidade aos propósitos da investigação.
Feyerabend (1989) afirma que o “único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale” (p. 27) e
o conhecimento, concebido segundo estas linhas, não é uma série de teorias coerentes, a convergir para uma doutrina ideal; não é um gradual aproximar-se da verdade. É, antes, um oceano de alternativas mutuamente incompatíveis (e, talvez, até mesmo incomensuráveis), onde cada teoria singular, cada conto de fadas, cada mito que seja parte do todo força as demais partes a manterem articulação maior, fazendo com que todas concorram, através desse processo de competição, para o desenvolvimento de nossa consciência (Idem, op. cit., pp. 40-41).
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A visão crítica às regras estabelecidas de Feyerabend, não tem como intuito a substituição das outras regras pelas suas regras, tendo o autor consciência plena que todas as metodologias apresentam limitações e que a riqueza da ciência consiste na diversidade de perspectivas e na procura da liberdade da ciência e do Homem cortando o cordão umbilical do poder do Estado.
O pensamento de Feyerabend é desfavorável à manutenção do poder do Estado no domínio da Ciência e da Educação, defendendo que os pais deveriam ter a liberdade de escolha na educação dos seus filhos.
Mas, na actualidade, ainda podemos verificar que existe uma preferência pela escolha do paradigma de investigação quantitativo ou do paradigma qualitativo.
O paradigma de investigação quantitativa, com base filosófica no positivismo de Augusto Comte, assenta na interpretação objectiva dos factos e da realidade, com a generalização dos resultados. Este paradigma, rebuscado das ciências naturais para as ciências sociais, apresentou-se como dominante e promoveu progressos significativos, nomeadamente na educação. Contudo, a sua principal limitação
relaciona-se com o facto do investigador, ao lidar com seres humanos, ser incapaz de manipular ou controlar certos aspectos, nomeadamente a variável ou variáveis independentes. Tal pode dever-se a razões de natureza prática, ética ou outra. Por isso, a questão do controle é seguramente uma limitação deste método (Fernandes, 1991, p. 3).
O paradigma da investigação qualitativo ou interpretativo, sustentado no idealismo kantiano, defende a existência não de uma perspectiva ou interpretação do real mas de várias possibilidades e interpretações. Segundo a investigação qualitativa o foco central reside não só nas interpretações mas também nas circunstâncias das mesmas:
é a compreensão mais profunda dos problemas, é investigar o que está “por trás” de certos comportamentos, atitudes ou convicções. Não há, em geral, qualquer preocupação com a dimensão das amostras nem com a generalização de resultados (Ibidem).
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O paradigma da investigação qualitativa apresenta, no entanto, alguns constrangimentos que se prendem com a questão da subjectividade do investigador. O sujeito, ao analisar e observar um fenómeno, inscreve na observação as suas crenças e valores. Tal facto pode deturpar ou distorcer a realidade e condicionar todo processo de investigação.
Independentemente da escolha de paradigma de investigação, importa-nos referir que, a nossa opção metodológica implica estarmos cientes da existência de limitações metodológicas e que procuraremos desenvolver o nosso estudo com rigor, objectividade e espírito crítico.