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4. Handshake Protocol

4.2. Extensions

4.2.10. Early Data Indication

Criado em 2005, o YouTube (www.youtube.com), surgiu como site para o compartilhamento de vídeos na internet. Seu primeiro slogan foi “Your Digital Video Repository” (“Seu Repositório de Vídeos Digitais”), ou seja, havia a proposta de um “espaço” para a armazenagem de conteúdos pessoais em vídeo. No entanto, as possibilidades do site logo foram mais longe: além das facilidades para que os usuários fizessem uploads sem maiores dificuldades, a plataforma também permitia conexões com outros usuários, havia espaço para comentários e respostas a vídeos e, em especial, o site foi arquitetado de modo que sua estrutura fosse compatível e incorporada por qualquer tipo de site. Estes fatores fizeram com que o YouTube se destacasse em relação aos concorrentes existentes na época (BURGESS; GREEN, 2009) e tivesse um rápido crescimento. O desempenho atraiu atenção de grandes companhias e, em 2006, o Google adquiriu o YouTube em uma operação bilionária (US$ 1,65 bilhão), fato amplamente noticiado na ocasião.

31 YouTube is not merely an archive of moving images. It is much more than a fast-growing collection os millions of home-made videos. It is an intense emotional experience. YouTube is a social space. This virtual community reflects the cultural politics of the present times and thus is rife with both cooperation and conflict. (STRANGELOVE, 2010, p.4).

57 Como parte do Google, o YouTube ganhou, no mesmo ano em que foi adquirido, um novo lema: “Broadcast Yourself”, o que revela, na visão de Djick (2013), um novo paradigma.

O lema referia-se não apenas à capacidade do site de distribuir globalmente conteúdo pessoal caseiro (“transmita-se”), mas também à capacidade da plataforma de redistribuir conteúdo profissional já transmitido pela televisão (“você pode transmiti-lo você mesmo"). (DJICK, 2013, p.114, tradução nossa32). O site, portanto, solidificou-se como uma plataforma para a geração de conteúdo e interação dos usuários que são, ao mesmo tempo, produtores e audiência; figura como um espaço cada vez mais plural de participação e produção de sentidos, nos quais elaboradas produções de grandes estúdios, propagandas publicitárias e a produção amadora dividem atenção da audiência de cada vez mais participativos usuários. No YouTube, é possível assistir, compartilhar, comentar e publicar vídeos. Trata-se de um site com múltiplas funções: é uma plataforma de veiculação, um arquivo de mídia e uma rede social. Os diversos usos desta plataforma vêm produzindo mudanças substanciais na forma como se produzem vídeos e, por conseguinte, na cultura contemporânea em si.

O YouTube é muitas coisas, mas, talvez acima de tudo, é um benchmark histórico. É um símbolo da transformação da Internet em uma crescente mídia de produção de filmes - nossos e deles. Marca a globalização das práticas de vídeo amador. É mais um prego (uma grande estaca) no caixão da privacidade. Trouxe os filmes da obscuridade das salas de nossas casas para os holofotes da cultura midiática global. (STRANGELOVE, 2010, p. 185, tradução nossa33).

Na sua origem, com o forte papel de repositório de filmes, comerciais antigos e cenas do cotidiano, o YouTube costumava ser uma plataforma de passagem, em que as pessoas verificavam algum link de vídeo indicado por outros sites ou plataformas e logo saíam. A partir da produção de conteúdo específica para o site, seja pela indústria ou pelos próprios usuários, intensificou-se a característica do YouTube como uma plataforma de destino, em que as pessoas acompanham determinados canais e passam cada vez mais tempo assistindo aos conteúdos ali presentes.

32 The motto referred not only to the site´s capacity to globally distribute homemade personal content (“broadcast your Self”), but also to the platform´s ability to redistribute professional content already broadcast on television (“you can broadcast it yourself”).

33 YouTube is many things, but perhaps most of all it is a historical benchmark. It is a symbol of the Internet´s transformation into a burgeoning medium of motion pictures - our and theirs. It marks the globalization os amatour video practices. It is one more nail (a big spike) in the coffin os privacy. It has brought home movies out of the obscurity of our living rooms into the limelight of global media culture.

58 Embora não produza vídeos, o YouTube auxilia na promoção de conteúdos, apresenta os vídeos mais acessados em sua primeira página, bem como anúncios, de modo que se torna importante frisar que o conteúdo que chega até o usuário sofre mediações - não se trata de um processo neutro, portanto.

O site controla o tráfego de vídeo não por meio de programações, mas por meio de um sistema de gerenciamento de informações que orienta a navegação do usuário e seleciona o conteúdo a ser promovido. Mesmo que os usuários sintam que têm controle sobre o conteúdo a assistir, suas escolhas são fortemente direcionadas por sistemas de referência, funções de busca e mecanismos de classificação. (DJICK, 2013, p.113, tradução nossa34).

A disponibilização e compartilhamento do conteúdo, seja ele profissional ou amador, capaz de gerar visualizações nos vídeos (audiência) é crucial para a plataforma como um todo. Cada usuário Google, atualmente, tem à sua disposição um canal do YouTube, a partir do qual poderá publicar vídeos e buscar “inscrições” (não amizades, como acontece em outras plataformas) de outros usuários interessados nas suas produções. A conquista de inscrições é uma conexão que permite que o usuário inscrito receba notificações e atualizações de conteúdo do respectivo canal. As conexões, portanto, nesta rede social não ocorrem através de “perfis pessoais”, mas através de canais - que podem ou não ser identificados com alguém. Neste contexto, os conteúdos postados, ou seja, os vídeos, são determinantes para as “relações” que se estabelecem na plataforma.

Cabe destacar alguns aspectos estruturais no que se refere à interação. Há os “Comentários”, que ficam localizados abaixo de cada vídeo, e também uma aba “Discussão”, uma espécie fórum único e fixado em que usuários podem deixar mensagens sobre o canal para seu proprietário. Estas ferramentas, contudo, não são obrigatórias, de modo que o proprietário do canal pode permitir ou não que seus vídeos sejam comentados assim como pode estabelecer que os comentários recebidos não sejam automaticamente publicados, devendo passar por algum tipo de mediação. O mesmo ocorre com a aba “Discussão”. Além disso, existem os botões “Gostei” e “Não Gostei”, logo abaixo do vídeo, representados por um ícone de uma mão com o dedo polegar para cima e outro com o polegar apontando para baixo, respectivamente.

34 The site controls video traffic not by means of programming schedules, but by means of an information management system that steers user navigation and selects content to promote. Even though users feel like they have control over which content to watch, theis choices are heavily directed by referral systems, search functions, and ranking mechanisms.

59 Já a possibilidade de ganhos financeiros a partir da produção de conteúdo para o YouTube reside na estratégia comercial da empresa, que, desde 2007, divide os lucros de anúncios com os usuários que atingem um determinado número de visualizações dos vídeos postados. É na capacidade de engajamento e mobilização de espectadores, consequentemente, que está o sucesso de um canal, que, ao alcançar grande audiência, se tornará mais interessante para o investimento de anunciantes. Visualizar um vídeo, clicar em “Gostei”, inscrever-se em um canal e fazer comentários constituem em manifestações que podem ser efetivamente quantificadas pelo site e, por isso, passíveis de “venda” a interessados em anunciar.

O YouTube, portanto, figura como espaço em que aparecem múltiplos conteúdos, das produções amadoras às profissionais; daquelas geradas pela grande mídia ou a partir da iniciativa própria dos usuários. Contudo, para além de apenas diferenciar a origem das produções (amadora ou profissional, por exemplo), cabe a reflexão acerca dos usos que são feitos e do que revela o material disponível nesta plataforma.

Para entender a cultura popular do YouTube não basta tentar criar distinções claras entre a produção profissional e a amadora, ou entre práticas comerciais e de comunidade. [...] É mais útil mudar o pensamento sobre produção, distribuição e consumo de mídia para um pensamento sobre o YouTube como um processo contínuo de participação cultural (BURGESS; GREEN, 2009, p. 82-83).

A criação e os compartilhamentos de vídeos postados na internet ganham importância acentuada na construção social da realidade, da inteligência coletiva e do estabelecimento de laços sociais entre indivíduos. Neste contexto, evidencia-se a relevância da análise de conteúdo dos vídeos online gerados pelos próprios usuários.