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O recorte abaixo nos permitiu pontuar duas expressões que configuram como ocorrência do ASPECTO LEXICAL INUSITADO. Desse modo, observemos a enunciação de dois radioamadores:

VILA: Tá jóia... Agora memo tô aqui na pista do Monte Carmelo, em frente aqui do trevo, sigo em frente, entro pelos coqueiros aqui, ok?! As palmeiras, é palmeira, né?!

BARRA FORTE: Positiva160! Aí o senhor vai passar um hotel aí, um hotel DO LADO CANHOTO e logo na frente do hotel tá a agenciadora de carga aí. Cê vai vê um punhado de carguero ancorado161 aí. Ali vai dá um jeito procê ali, vai ajeitá procê aí.

VILA: Falô, falô, macanudo162! Muito obrigado! Cê tá doido, ajuda muito boa, por isso que é bão o rádio, né?! Ajuda a gente fazer amizade, né?! Com certeza, a hora que a gente precisa também é muito bão, ok?!

BARRA FORTE: Ok, Vila... Não, eu te comento que a radiola163 é O CARONA DA VEZ, positivo?!

Face às representações dos radioamadores Barra Forte e Vila, cumpre ressaltar a relevância de se apontar algumas características que constituem a prática de rádio amador: solidariedade, poeticidade, musicalidade, afeto, amizade e fuga da solidão das estradas. Desse modo, Barra Forte, de forma solidária, a nosso ver, forneceu uma informação para o Vila acerca de uma agenciadora de cargas, dizendo: logo na frente do hotel tá a agenciadora de

carga. Acontecem, também, via rádio amador, orientações ligadas a localidades de cidades,

borracharias, pousadas, restaurantes, postos de gasolina, etc.

Por outro lado, Vila, de forma poética e musical, a nosso ver, enunciou: falô, falô,

macanudo! e, por conseguinte, de forma afetuosa, a nosso ver, agradeceu o Barra Forte via os

dizeres: muito obrigado! Cê tá doido, ajuda muito boa, por isso que é bão o rádio, né?!. Também, ressaltamos a amizade via o dizer: ajuda a gente fazer amizade, né?!. Ademais, 160 Positivo. 161 Estacionado. 162

Bom operador de rádio amador.

163

frisamos a fuga da solidão das estradas, bem como a solidariedade novamente via o dizer:

com certeza, a hora que a gente precisa também é muito bão, ok?!, conforme nossa

compreensão.

Gostaríamos de chamar a atenção para a questão do semelhante no grupo PX via os jargões: positiva, carguero ancorado, macanudo e radiola. Ou seja, esses jargões sugerem a tentativa de se fazer o um nesse espaço enunciativo. Todavia, há o não-um desestabilizando sempre, mostrando-nos “flashes” do real, ou seja, algo da ordem da verdade do sujeito.

Sob essa perspectiva do não-um, enfatizamos a emergência de duas expressões presentes nos dizeres do Barra Forte: DO LADO CANHOTO e o CARONA DA VEZ. Essas expressões parecem apontar para a prevalência do real, já que vêm via contingência e efemeridade, fraturando o fio do dizer e apontando, a nosso ver, para uma das possíveis manifestações de ALÍNGUA, que toca no real.

Desse modo, destacando a expressão DO LADO CANHOTO, era esperada a expressão, conforme nossa concepção, do lado esquerdo; todavia, houve deslize de significante, emergindo aquela expressão no dizer do Barra Forte. Entendemos que canhoto é um adjetivo comumente enunciado para caracterizar a pessoa cuja mão ou pé mais hábil é o esquerdo. No futebol, por exemplo, quando um dado jogador costuma utilizar a perna esquerda com maior frequência, se comparada ao uso da direita, para chutar a bola, é dito que ele é canhoto. Além do mais, quando um jogador é direito, por chutar a bola com maior frequência com a perna direita, e faz um gol com a perna canhota, ressalta-se nos programas futebolísticos a façanha.

Nesse sentido, a expressão DO LADO CANHOTO parece dar um tom de exaltação, o que nos permite construir a categoria de INUSITADO HIPERBÓLICO para essa expressão, já que poderia ter emergido apenas um simples do lado esquerdo, mas há real desestabilizando, dando um tom, às vezes, de certo exagero aos dizeres, conforme nosso entendimento.

Sobre a emergência da expressão O CARONA DA VEZ, enunciada pelo Barra Forte, gostaríamos de destacar que esse radioamador parece ter sido afetado pelo léxico do futebol novamente, uma vez que é comum nesse esporte enunciar a expressão a bola da vez para se

referir a uma boa jogada, por exemplo. Assim, houve uma associação diferente entre os signos linguísticos, o que nos remete à possibilidade de essa relação diferente afetar o sentido.

Parece ser comum na cultura popular se dizer que alguma coisa é da hora, mas não da

vez. Dessa forma, a expressão O CARONA DA VEZ se configura como uma metáfora que

vem no lugar de outra metáfora, mantendo certa relação de sentido. Essa expressão nos leva a associar a alguns sentidos possíveis para ela, como, o carona da hora, do momento, ou seja, entendemos que o rádio amador é, portanto, uma boa companhia. Nesse sentido, esse fato enunciativo de linguagem nos mostra, de certa forma, algo do objeto de estudo com o qual trabalhamos.

Assim, construímos para a expressão O CARONA DA VEZ a categoria de INUSITADO METAFÓRICO. Tanto essa expressão como a expressão DO LADO CANHOTO remetem ao fato de o dizer ser heterogêneo, ou seja, o sujeito é descentrado, constituído por outros dizeres. É a presença do outro no fio do dizer, porém de forma implícita, articulando com a heterogeneidade constitutiva.

A despeito de essas expressões terem emergido no lugar de outros vocábulos e/ou outras expressões já estabilizadas socialmente, cumpre ressaltar que elas estão para ordem da (im)previsibilidade, uma vez a combinação delas foi permitida pelo sistema linguístico, marcando uma diferença.