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E3. DESCRIPTION OF TRANSPORT PROCESSES AND MODELLING APPROACHES

No que diz respeito ao recorte abaixo, a expressão a ser descrita e analisada é um ASPECTO LEXICAL INUSITADO. Nesse sentido, observemos a enunciação de dois radioamadores:

DUDU: Positiva145... [xxx] tem uns quinze a vinte dias que busco meu QT146 também pra vê se tá em ordem... Por enquanto, tô muito pouco tempo fora de casa, vai sendo ali só uns sete dias e vou ficá mais uns quinze, mais ou menos, um pouquinho mais fora, pra depois retorná a ele pra vê cumé que anda as coisa por lá, positiva147?!

BARRA FORTE: Ah, tá legal, tá bão, Dudu... Taí, né, uma quinzena fora aí, fora do QT148, né, mas num dá nada não, se dé é poca coisa, tá bão, Dudu?! E daqui prali completa a grega149 ali e vai em busca ali do rancho150, positivo?! 145 Positivo. 146 Casa. 147 Positivo. 148 Casa. 149 Viagem. 150 Casa.

DUDU: Positivo, né, arrumá UMA COSTELINHA FORA pra vê se vira alguma coisa porque pu lado de perto de casa foi difícil, tá ruinzinho pra banda de lá, e agora a safrinha da cebola tá pra banda de cá, e os ceboleiro aqui de cima batalhano melancia [xxx] fazê a busca ali no Ceasa, virá ali no São Paulo pra vê cumé que anda os movimento, positiva151?!

Fugir da solidão das estradas se configura como uma das características da prática de radioamadorismo do grupo PX. Uma prova cabal disso pode ser verificada por meio desse recorte, ressaltando marcas deixadas pelo radioamador motorista Dudu: tem uns quinze a vinte

dias que busco meu QT. Assim, o rádio amador pode funcionar como uma espécie de

“conforto” para os radioamadores que se encontram longe de leus lares.

Enfatizando os jargões enunciados pelos radioamadores Dudu e Barra Forte: positiva,

QT, grega e rancho, cumpre dizer que a norma do grupo PX permeou seus dizeres. Ou seja,

houve a prevalência do imaginário, isto é, a tentativa de se fazer o um.

Por outro lado, emergiu uma ocorrência do ASPECTO LEXICAL INUSITADO via a expressão UMA COSTELINHA FORA enunciada por Dudu. Conforme jargão do grupo PX, parece que era esperado que o Dudu enunciasse que iria tentar um basquete fora, ou seja, um

trabalho fora; no entanto, ocorreu deslize de significante, emergindo UMA COSTELINHA

FORA.

Todavia, ressaltando essa expressão, parece que o duplo sentido resiste pela equivocidade da palavra COSTELINHA. É a possibilidade de tocar em basquete e em outra coisa também: batonete, que significa mulher no jargão do rádio amador. Ou seja, é a possibilidade de construir para a expressão UMA COSTELINHA FORA um tom de traição, já que COSTELINHA, conforme o discurso religioso, remete à primeira mulher, Eva, que foi criada a partir da costela do primeiro homem, Adão. Nesse sentido, UMA COSTELINHA FORA aponta para, conforme o jargão dos radioamadores, uma batonete fora, ou seja, uma

mulher fora do lar onde está a esposa, a mulher, a cristal (conforme jargão do rádio amador).

Sob essa perspectiva do equívoco registrado pela expressão UMA COSTELINHA FORA, cumpre dizer que é um INUSITADO representando, a nosso ver, uma manifestação de ALÍNGUA, coadunando com nossa hipótese de pesquisa. Desse modo, construímos para

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essa expressão a categoria de INUSITADO EQUÍVOCO, ou seja, é o duplo sentido coexistindo, não se desfazendo, ocorrendo o “uns”.

Frisando o vocábulo COSTELINHA, este é produto derivacional constituído morfologicamente pela base costel- acrescido do sufixo -inh. Construindo um sentido possível para esse vocábulo, parece que esse sufixo teve a função de acrescentar à base costel- um valor semântico de pejoratividade. COSTELINHA, levando-se em conta o suíno, é um tipo de carne mais barato no mercado, já que é de uma qualidade outra se comparada, por exemplo, ao lombo. Nesse caso, o sufixo -inh não apresenta um valor de diminutivo, como tradicionalmente lhe é atribuído. Refere-se, antes, à forma popular “bico”, ou seja, um serviço a fim de complementar a renda, e à forma popular “rolo” ou ao jargão do rádio amador feijão

queimado (amante). Ou seja, entendemos que são particularidades (im)previsíveis interferindo

na semântica do produto derivado.

4.9 CODORNONA

No que se refere ao recorte abaixo, pontuamos um vocábulo que se configura como uma ocorrência do ASPECTO LEXICAL INUSITADO. Assim, observemos a enunciação de três radioamadores:

AMENDOIM: Barra?! BARRA FORTE: Oio?!

AMENDOIM: Ah, tá, boa noite aí... Tô acabando de fazer o teste na radiola152. [xxx] Teve alguma mudança daquela hora pra agora, ã?!

BARRA FORTE: Positiva153 que mudou, ficou bem pior, viu, Mendoim?! Agora que num tá entendeno quase nada, okapa154?!

AMENDOIM: Ficou pior, foi?!

BARRA FORTE: Bem pior! Agora tem uma CODORNONA aí dentro que tá braba...

MUSEU: O radinho155 dele tá pitimbado, véi...

152 Rádio amador. 153 Positivo. 154 Positivo. 155 Rádio amador.

A partir dessa materialidade linguística, gostaríamos de destacar que emergiram alguns jargões consubstanciados à prática de rádio amador do grupo PX: positiva, okapa e

radinho. Ou seja, compreendemos que é parte do efeito de unidade nessa prática.

De início, Barra Forte, referindo-se ao aparelho de rádio amador do Amendoim, disse que esse aparelho tinha ficado bem pior, ressaltando seu funcionamento. Detendo-nos no advérbio bem, este parece intensificar o argumento relativo à piora do rádio amador, havendo a justificativa: agora que num tá entendeno quase nada.

Sob essa perspectiva acerca do funcionamento do aparelho de rádio amador do Amendoim, parece-nos que há um tom lúdico nos dizeres do radioamador Barra Forte, que enunciou um ASPECTO LEXICAL INUSITADO via o vocábulo CODORNONA. Esse vocábulo parece apontar para a incidência do real, ocorrendo o funcionamento de não-um em meio ao jogo do um, ou seja, da regularidade. Entendemos que é o diferente fraturando o semelhante. Assim, cumpre ressaltar que há momentos, conforme o vocábulo CODORNONA, em que o amor na língua é registrado. CODORNONA, a nosso ver, é um exemplo de amor na língua, ou seja, de manifestação de ALÍNGUA, visto que rompeu com o esperado.

Barra Forte parece associar o barulho do rádio amador do Amendoim ao canto da ave codorna, enunciando o vocábulo CODORNONA. Esse vocábulo está para a ordem da efemeridade e da contingência, marcando uma diferença, isto é, um modo outro de subjetivação. A nosso ver, era esperado que o Barra Forte dissesse algo relacionado a um jargão já consubstanciado aos radioamadores: QRM, que significa algo ruim, dá um tom negativo. Isto é, que o rádio amador do Amendoim estava com QRM. No entanto, houve uma associação “diferente”, porém permitida pelo sistema linguístico. Vale lembrar que é via enunciação que a língua é afetada.

Cumpre destacar que CODORNONA é formado por derivação sufixal. Assim, o sufixo -ona agindo sobre a base codorn- parece remeter a uma codorna muito grande, emitindo um som muito alto, mas metaforicamente e com um certo tom irônico, a nosso ver. Ou seja, o produto derivacional CODORNONA parece apresentar, portanto, algumas propriedades comuns da base codorn- e do sufixo -ona, levando-se em conta para este o valor semântico de muito grande. Nesse sentido, construímos que o aparelho de rádio amador do

Amendoim emitia um barulho muito alto naquela conjuntura, diferente do barulho esperado, o que é possível verificar via de nossa gravação.

Face a essas questões, construímos para o vocábulo CODORNONA a categoria de INUSITADO METAFÓRICO, já que esse vocábulo, naquela conjuntura, não parece se referir ao animal “codorna”. Assim, para a construção dessa categoria, levamos em conta a relação entre os signos linguísticos expressos na enunciação e a própria enunciação. Ou seja, é a noção de valor linguístico, bem como o sentido em sua modalidade semântica afetando nosso olhar sobre o INUSITADO.