From Case Study Counting to Measuring 1
8 e arly results
As representações sociais dos cuidados com a saúde bucal dos bebês, como não poderia deixar de ser, apóiam-se em todas as representações que até aqui foram examinadas
e são acrescidas pelos desejos das gestantes de que seus filhos sejam saudáveis.
A educação dos filhos, desde cedo, através do ensino, auxílio, estímulo e conscientização sobre a importância das práticas de saúde bucal como uma rotina necessária, incluindo entre elas, basicamente, a escovação e a ida regular ao dentista, permeia a representação de todas as entrevistadas:
[...] incentivar já desde pequeno a escovar os dentes, por mais que ele escove errado, deixá-lo escovar errado, depois eu escovo certo. (gestante 5 – grifo nosso).
[...] conscientizando, dando uma estimulada [...] pra ver se desperta esse hábito nela como sendo uma coisa boa, né, não uma obrigação! [...] tentar incentivar e mostrar pra ela o porquê. Mas ser uma hora boa! [...] faz parte, é um hábito que tem que ser diário. (gestante 8 – grifos nossos).
Levar no dentista desde pequenininha, se já tiver idade pra ir no consultório, já pra ir acostumando pra não ter aquele medo [...] então pra crescer sem esse medo e depois de maior, ela mesma saber a hora que precisar ir ao dentista, ir cuidar. (gestante 10 – grifos nossos).
Apesar das gestantes considerarem que a busca pelo tratamento odontológico deve ser precoce, percebe-se que a maioria delas desconhece o momento ideal para o início do acompanhamento profissional, que seria ainda no pré-natal, seguido de uma primeira consulta por ocasião da erupção dos dentes decíduos (OLIVEIRA, 2002).
Não deixar, não demorar muito, né, não ficar pra muito tarde a consulta com a dentista [...] A partir que ela já começar na troca dos dentes [...] levar ao dentista regularmente e ver se vai sair todos perfeitos, então, a partir daí eu vou tentar levar sempre, cuidar [...] levaria antes, assim uma vez por ano pra dar uma olhada, mas depois sim eu, depois da troca [...] eu vou levar sempre com freqüência que puder né, sempre que der [sorri]. (gestante 6 – grifos nossos).
Este desconhecimento está relacionado, conforme já discutido, à representação do tratamento odontológico como sendo de caráter curativo...
Levar ao dentista toda vida, que precisar. (gestante 1 – grifo nosso).
E quando detectar algum probleminha, correr pro dentista. (gestante 12 – grifos nossos).
...muito embora a decisão de procurar o dentista para a obtenção de esclarecimentos e orientações com relação à saúde dos filhos também seja uma constante em seus relatos:
[...] levar no dentista pra verificar, ver se pode ou não pode passar fio-dental, qual o tipo de creme, essas coisas [...] o dentista pode ajudar, dar informações. (gestante 2 – grifos nossos).
Outro conteúdo presente e bastante consistente nas representações sociais que as gestantes constróem sobre os cuidados com a saúde bucal de seus filhos, é a necessidade de que estes cuidados sejam realizados desde o início por elas próprias, através da higiene da boca do bebê e, posteriormente, através da escovação dental:
[...] enquanto a criança é bebê, a gente tem que fazer a higiene na boca do neném, né, que o leite fica na lingüinha dele tal, então é bom pegar um [...] algodão ou é uma gaze, que tem que passar na boquinha dele pra que quando os dentes dele comecem a... nascer já tenha os dentes saudáveis, mesmo sendo os dentes de leite, né? [...] começou a se alimentar, ensinando a escovar, sempre tendo a higiene na boquinha dele, né? Pra quando perder os dentes de leite vem os dentes saudáveis, né? (gestante 7).
[...] pretendo limpar a boquinha agora quando neném, depois quando tiver dentinho já vou escovar, né? (gestante 4).
Este achado concorda com o de Tsamtsouris, Stack e Padamsee (1986) que relataram que a maior parte dos pais por eles entrevistados (75,7%) imaginava que a escovação dos dentes deveria ser instituída a partir da erupção dos dentes, sendo que 45% deles acreditavam existir um modo específico de escovar os dentes dos bebês, apesar de desconhecê-lo.
Oliveira (2002) ao entrevistar mães de crianças pequenas verificou que a maioria das mães realiza a limpeza da boca/dentes de seus filhos (85%), sendo elas próprias as responsáveis diretas por este procedimento em 66,9% dos casos.
Percebe-se que a necessidade da higiene bucal está bem difundida (BLINKHORN, 1978; 1981; BARBOSA, CHELOTTI, 1997) o que vem ao encontro da recomendação profissional no sentido da prevenção precoce da cárie dental, inclusive da cárie rampante, uma forma aguda de manifestação da doença que ocorre devido à falta de higiene após mamadas demasiadamente prolongadas, especialmente as noturnas que ocorrem com a criança dormindo, quando o reflexo da deglutição e a salivação estão diminuídas
(FERNANDES, GUEDES-PINTO, 1997; CASAMASSIMO, 2001). Nesta situação, o leite permanece mais tempo em contato com os dentes sendo fermentado, além do que, a saliva, responsável pela homeostase bucal através de sua capacidade tampão (remoção e neutralização dos ácidos da placa) e ação antimicrobiana (por meio de enzimas e imunoglobulinas), não exerce seu papel protetor, favorecendo intensamente o processo carioso (FERNANDES, GUEDES-PINTO, 1997).
Nenhuma gestante fez referência à cárie rampante, apesar de terem demonstrado conhecer a orientação para a higiene da boca do bebê após a amamentação. Nos trabalhos de Tsamtsouris, Stack e Padamsee (1986) e de Silva, Lopes e Menezes (1999), a cárie de mamadeira também demonstrou ser desconhecida por 83,8% e 98% das gestantes entrevistadas, respectivamente.
Sendo a escovação a principal prática de higiene bucal realizada pelas gestantes, esperava-se que ela também estivesse incluída nos cuidados com a saúde de seus futuros filhos, como realmente se pode verificar. Do mesmo modo, a ausência do fio-dental entre as práticas de cuidados das gestantes também foi notada em relação aos cuidados que pretendem realizar com seus filhos.
A restrição de alimentos cariogênicos para as crianças também foi coerente com as representações previamente apreendidas, tendo sido mencionada por algumas gestantes que parecem estar conscientes de que o importante é racionalizar o consumo do açúcar:
[...] não dando muito doce, muitas coisas para ela desde pequena, tentando evitar o máximo de doçuras, refrigerantes, coisas assim, né? (gestante 1).
[...] quando ele quiser comer um doce ele pode comer, mas vai escovar os dentes [...] (gestante 3).
O cuidado com a transmissibilidade de microorganismos entre mãe e filho também foi mencionado...
(gestante 2).
[...] não beijar assim na boca da criança porque é bonitinho [...] isso dá aquele sapinho (gestante 12). ...assim como a escolha de instrumentos apropriados para os cuidados com a saúde bucal de bebês e crianças, atentando para o fato das gestantes estarem conscientes da existência de recursos especiais que colaboram para o desenvolvimento saudável de seus filhos:
[...] tem uma escova própria pro bebê de quatro a seis, sete meses, não sei [...] eu quero tentar, eu quero comprar a escova. (gestante 3).
[...] já ganhei até aquela escovinha [sorri] que a gente coloca no dedo [dedeira para limpeza dos dentes de bebês]. (gestante 8).
[...] procurar usar também as coisas certas, né? Eu sei que chupeta não importa [...] qual seja, é ruim! Mas procurar aquela que é menos ruim, né? O biquinho da chupeta também daquele jeito, da mamadeira. Procurar ser o menos ruim, né? Que bom eu sei que não, é, mas... qual a criança que não chupa um chupeta, né? Mas eu não vou tirar do meu filho isso, né? [...] ter os cuidados com a chupeta, né? Não deixar muito tempo. (gestante 5).