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: Droits des Parts

Dans le document NOTE D INFORMATION MARS 2021 (Page 41-44)

No século XIX, essa percepção do sertão como espaço de espoliação tanto da Igreja quanto de bandeirantes parecia bastante difundida. Discorrendo sobre a mesma bandeira que Bernardo Berredo trata em seu Annaes, José Martins Pereira de Alencastre, presidente da província de Goiás, escreve, em 1863, que ―uma partida de paulistas ter [ido ter] à margem do rio Tocantins‖ no ano de 1672 colocou os jesuítas sediados na Capitania do Maranhão e Grão-Pará de sobreaviso (ALENCASTRE, 1863). Para reforçar o alcance da preocupação com a investida paulista, Alencastre recorre à narrativa do historiador inglês Robert Southey, que, no início do século XIX, escreveu terem sido ―as tribos do [rio] Tocantins cruelmente perseguidas por esses tão desapiedados quanto infatigáveis caçadores de homens‖ (SOUTHEY, 1958. p. 343).

A argumentação de Alencastre remete aos mesmos acontecimentos, mantém a urdidura base, ouro/apresamento indígena, e mobiliza quase os mesmos personagens que Berredo. Pedro Cesar aparece planejando agir contra os paulistas e esses surgem apresando os indígenas, ―que imploram por socorro à cidade de Belém‖ (SOUTHEY apud BERREDO, 1980, p. 26). Contudo, Alencastre institui uma mudança em seu enredo: os índios deixam de ter uma participação direta na ação; sua presença é introduzida no texto por meio da referência a Southey.

Além disso, a interferência do governador do Maranhão e Grão-Pará é apresentada por Alencastre como uma medida tomada pelos jesuítas, o que teria feito com que o governador ―considerasse como insulto a entrada de Pascal Paes de Araújo em terras que supunha da sua jurisdição‖ (ALENCASTRE, 1980, p. 26). Nesse ponto, temos um deslocamento muito claro, pois na narrativa de Berredo o responsável por fazer com que Pedro Cesar, o então governador, tomasse como ofensa a atuação do paulista Pascoal Paes foi um militar que atuava sob as ordens do mesmo governador.

Cabe expor que a narrativa original desses acontecimentos está em Berredo e que tanto Alencastre quanto Southey, em quem o segundo corrobora algumas interpretações, baseiam seus relatos no primeiro. Assim, quando Alencastre muda alguns aspectos da narrativa e institui, por exemplo, a participação dos jesuítas que não aparecem no relato original ele está ficcionalizando a narrativa ao dar um contorno imaginado à trama. Seguindo a mesma ordem de acontecimentos de Berredo, Alencastre conta que a expedição foi organizada, mas que não realizada devido à chegada de padre

Antônio Raposo Tavares, ―que vinha em comissão explorar o Tocantins que, segundo notícias dadas por Pascoal, era rico em metais preciosos‖ (ALENCASTRE, p. 1980, p. 26).

E aqui o ordenamento dos fatos muda de foco. Se no relato de Berredo a centralidade era a composição realizada por Pedro Cesar em torno dos interesses coloniais nos sertões, em Alencastre há um deslocamento de intenção: esse escreve que o que era uma força preparada para socorrer os indígenas, pois os jesuítas ―opunham-se com o maior fervor a essa guerra de extermínio‖, transformou-se, por iniciativa dos próprios padres da Companhia de Jesus,

desde logo em comissão mineralógica. O ódio contra o mestre de campo desarmou-se, tornando-se desde então o ídolo de ouro, em que todas as esperanças se depositavam. Porém, é fama que essa expedição malogrou-se completamente. Quando o padre Raposo chegava às margens do Tocantins, já Pascoal Paes de Araújo era falecido e seus companheiros tinham se retirado [com] a grande presa que fez daqueles gêntios que vendeu na cidade de São Paulo e suas vizinhanças como lucro não pequeno (ALENCASTRE, 1980, p. 26-27).

Quando diz que de inimigo o paulista Paes de Araújo havia se tornado em ―ídolo de ouro‖ para padre Raposo, Alencastre obviamente recorreu à ironia para expor o que ele entendeu como as contradições dentro da Companhia de Jesus. A centralidade da política de preservação do indígena, com efeito, podia ser descolada do horizonte de interesses da companhia conforme prerrogativas mais imediatas surgissem e as minas do Tocantins parecem ter sido um desses casos prioritários para os padres. Podemos depreender alguns aspectos que se transformam aqui sobre a relação entre salvação/riqueza e apresamento indígena/minas de ouro que metaforizam os sertões e forjam sua narrativa.

O apresamento indígena como instrumento da riqueza nos séculos XVI e XVII, que foi contraposto nas narrativas a partir de uma dissociação abstrata e simples do ponto de vista teológico e político, embora não do ponto de vista prático, passa no decorrer do século XVIII a ser parte de um exercício de convergência que diz muito mais sobre os sertões em função da estrutura narrativa na qual está inserida essa compatibilização do que da prática em si.

Berredo, para narrar essa compatibilização, recorre à trama que envolve personagens em ação no sertão, evidenciando, de um lado, a materialização do sertão como cenário da história onde personagens históricos ficcionalizados podem ser distinguidos vivamente como parte do mundo colonial. Nesse sentido, ao contar uma

história que ocorria no sertão trançando um conflito que remetia a sentimentos e sentidos, ele propôs que a história – narrativa construída – dos sertões concebesse um lugar político e poético para o sertão, embora a estrutura profunda dos significados de sertão como lugar da riqueza alcançada por meio da escravização ainda se mantivesse, pois Berredo não desloca em nenhum sentido a compreensão da urdidura básica: consolidando a normatização do cativeiro como prática consensual entre jesuítas, colonos portugueses e bandeirantes.

Por outro lado, a abertura dada por Berredo para que na sua ―arquitectura histórica‖ outras vozes participassem da trama é que oferece os elementos necessários para que Alencastre proponha um deslocamento quanto à compreensão da prática discursiva dos jesuítas um século depois. Porém, diferentemente de Berredo, Alencastre emite um juízo de valor sobre a atuação dos padres jesuítas e isso é fruto, obviamente, das transformações culturais e políticas por que passou o Brasil ao longo do século XIX, mas tem um aspecto que precede a argumentação das mudanças políticas: uma liberação das formas de representar o mundo poeticamente permitiu que Alencastre criasse personagens e forjasse o tom irônico para dizer o que pretendia dizer e se fazer entender.

Se em Berredo o sertão é concebido como um lugar de conflito, em cujo cenário as vozes eram organizadas e domesticadas por um discurso monológico, em Alencastre o dissonante – lugar das incertezas - é colocado como pedra de toque da política colonial: quem deveria proteger o sertão, e até fins do século XVIII quase todo ele era apenas os povos indígenas, fazia parte de engrenagem colonial e atuava, inclusive, como um dos seus principais pilares. O significado é importante, mas fundante mesmo é o tropo mobilizado por Alencastre para vazar sua concepção sobre o sertão: a ironia. E aqui podemos esclarecer as razões para que ele tenha recorrido àquele trecho específico de Robert Southey: a referência à expressão ―caçador de homens‖ foi considerada por Alencastre uma vigorosa metáfora capaz de difundir todo o paradoxo discursivo de uma sincronia política perfeita que, seguramente, só poderia ser escrita em um tom irônico.

Mesmo tendo buscado em Southey a metáfora perfeita para designar paulistas e padres, Alencastre encontrou no letrado inglês mais que isso, encontrou um modelo narrativo por meio do qual poderia vazar histórias que iam além da descrição sucessiva de acontecimentos. Sobre o estilo e o tropo narrativo adotado por Robert Southey, André da Silva Ramos, no artigo Robert Southey viajante: da (im)possibilidade de se

aprender com a história de Portugal (2014), defende que esse letrado foi influenciado por historiadores e filósofos como Adam Smith, David Hume, Edward Gibbon e William Robertson, intelectuais esses que, afinados com as transformações no campo discursivo do século XVIII, propunham narrar a história ceticamente (RAMOS, 2014).

Impregnado por esse ceticismo em frente ao passado, Southey faz de Portugal um exemplo satírico do que uma sociedade que desejava estar em progresso não deveria ser, e esse modelo foi de certa forma estendido à história do Brasil-Colônia. Tomando como referência a construção narrativa de Gibbon, de quem Hayden White enfatiza o caráter ambíguo e bipolar das interpretações marcadas pela negação e sedução pelo passado que são vazadas como sátiras, Ramos (2014) ressalta em Southey o tom estético-formal estruturado como uma ironia.

É exatamente esse tom irônico que Alencastre captura na expressão ―caçador de homens‖, pois embora Southey tenha apresentado os bandeirantes e os índios na relação caçador/homem, o termo caçador relaciona por elisão o sujeito caçador ao predicativo caça, ou seja, animal. A ironia é o fato de homens estarem sendo caçados, mas existe aí também uma sátira: os jesuítas, que consideravam os ―gentios‖ não como animais, mas como seres com alma, colaboraram ativamente para que a caçada tivesse sucesso.

Southey, obviamente, permitiu-se narrar a história de uma forma bastante diferente daquela dos cronistas coloniais ou mesmo daquela de Berredo, que havia se esforçado por caracterizar sua narrativa como ―história verdadeira‖. O letrado britânico tinha em mente uma história na qual os juízos e julgamentos irrompiam nas narrativas por meio das ironias, que eram a estrutura narrativa do ceticismo e da desconfiança da época, século XVIII/XIX, em relação ao passado. Essa relação conflitante entre julgamentos, imaginação e racionalismo também está presente em Alencastre em alguma medida, pois ele trouxe para sua narrativa, e não apenas nesse momento, o juízo de valor acerca do passado colonial e escolheu colocar-se ao lado dessa ou daquela versão, mesmo que sua própria concepção se mostrasse como parte do conflito estético e discursivo da época.

Seguindo essa senda, os sertões dos vales dos rios Araguaia e Tocantins foram forjados pela primeira vez, desde o achamento, como uma possibilidade crítica, porém essa criticidade presente no relato de Alencastre se volta apenas para os sujeitos e grupos que tinham se tornado obsoletos na nova ordem imperial, caso dos jesuítas, mas não dos paulistas. Alencastre parece ter consciência dessa dificuldade em seu texto, mas

mesmo tentando modular sua interpretação, o conflito está no centro de sua escrita e emerge dramaticamente em sua estrutura de linguagem, pois apenas o passado é passível de julgamento; o presente deve ser festejado.

Em relação às metáforas por meio das quais os sertões são vazados, os pares de urdidura básica já não serão suficientes, porque alguns deles não estão mais presentes no registro de cognoscibilidade do século XIX, como, por exemplo, o polo da salvação, tendo contribuído muito para isso a expulsão da Companhia de Jesus, em 1759, mas não somente isso. Os interesses práticos da Coroa portuguesa entre os séculos XVII e XVIII deliberam a exclusão da questão anima (alma) como ponto determinante para a definição do tratamento que deveria ser dado ao autóctone, e o tênue equilíbrio entre os discursos que animavam as práticas de ―salvação‖ é substituído pela prática da redução/apresamento.

O século XVIII seria, sobretudo, o século da ―caçada‖: o sertão, absorvido pela ideia da gentilidade e todos os elementos que lhe davam sentido, seria caçado, e o pragmatismo eivou as narrativas com aquela dúvida que marcou todo o conteúdo sobre ele desde que o fazer histórico passou a ser uma atividade que enumerava acontecimentos, datas e argumentos, organizando-os conforme fosse possível narrar suas inter-relações e conflitos, em uma hierarquia que não julgava importante as contradições e elisões interpretativas, mas que primava pela generalização em torno do fortalecimento da política colonial, caso de Berredo.

O tom irônico de Alencastre movia-se tanto em direção ao que ele julgou ser uma ―displicência‖ de Berredo em relação à verdadeira situação da política colonial, cujo desenrolar afastava qualquer possibilidade de ―salvação‖ para o indígena do sertão maranhense, quanto à leviandade dos Jesuítas que defendiam antes seus próprios interesses. Durante o século XIX, o sertão só poderia ser entendido como um lugar no passado colonial, e a crítica irônica feita acerca dele irradiava um sintoma que se desenvolveria durante o século XIX e XX: o repetir-se dentro de determinado padrão da marca da barbárie, deixada para trás e retomada a todo o momento. Em contrapartida, a fabulação miticamente dos relatos fantásticos retroalimentaria as ambições de paulistas e da administração colonial a partir do século XVII, forjando a constituição de outros

1.3 Os sertões devassados: o deslocamento do Eldorado e o ceticismo dramático

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