Frei José Maria Audrin é um dos narradores que evocaram Euclides da Cunha e ao mesmo tempo buscaram distinguir o ―seu sertão‖ dos vales dos sertões euclidianos. Recorrendo desde o título de Os Sertanejos que eu conheci (1963) aos pronomes
pessoais destacados na expressão ―o sertão que foi nosso66‖, o frade defende tratar-se
seu relato de um texto pessoal, eximindo-se, assim, da responsabilidade de assumir um gênero de escrita (AUDRIN, 1963). Não escrevia literatura ou ciência e nesse sentido poderia manter a integridade de sua memória e desviar-se das cobranças de estilo. Certamente, Audrin estava a par das querelas que envolviam a definição do caráter narrativo da obra de Euclides da Cunha. Segundo o autor de Os Sertões (1902), a linguagem técnica era sagrada para a
Ciência e - sendo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica o sistemático desprezo que lhes votam os homens de letras – sobretudo se considerarmos que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer dos aspectos, é hoje a tendência mais elevada do pensamento humano (CUNHA apud SANTANA, 2001, p. 22).
Segundo José Carlos Santana de Barreto, em Euclides da Cunha e as Ciências Naturais (2001), a defesa do caráter dúbio da obra do escritor, apesar das polêmicas surgidas em trabalhos consistentes, parece persistir nos estudos especializados (BARRETO, 2001, p. 24). De fato, embora com algumas variações, o caráter ambivalente de Os Sertões é reconhecido por Gilberto Freire (1966), Antônio Cândido
(1965), Alfredo Bosi (2006), Nicolau Sevcenko (1989) e Leopoldo Bernucci (1995).
Audrin, por outro lado, abandona qualquer pretensão de aproximar sua narrativa a qualquer dos dois campos, procurando escrever um texto ―destituído de qualquer feição literária e científica‖, mas que fizesse ―reviver o sertão [...] e, assim, matar a saudade de um passado cheio de encantos [...] revelando-lhes (aos leitores) a fisionomia e os costumes de seus irmãos do interior‖ (AUDRIN, 1963, p. 03).
Como escreveu Alceu Amoroso Lima, seu prefaciador na Os Sertanejos que eu Conheci (1963), esses encantos naturais eram um ―compêndio de ecologia sertaneja‖ no qual estariam registradas ―tanta verdade, tanta beleza, tanta emoção‖ (LIMA, 1963, p. XII). A beleza, nesse sentido, configuraria-se como uma estética da verdade na qual a única verdade possível era aquela delineada com a beleza das paisagens. Leitor de Euclides da Cunha, para Audrin desvincular-se desse caráter dúbio representava
também desvencilhar-se da obrigação de confirmar tanto as paisagens naturais descritas pelo autor de Os Sertões quanto os significados que essas paisagens evocavam:
Se não podemos dizer nada de certo de muitos sertanejos do Brasil, estamos em condições de afirmar que os sertanejos que chamamos ‗nossos‘ não vegetam em recantos desolados, onde crescem apenas mandacarus, rasga- gibões e xiquexiques. Não são vítimas de secas periódicas que aniquilam criações, inutilizam lavouras e obrigam-nos a expatriar-se à procura do ‗Inferno Verde‘. Não estão sujeitos à lamentável necessidade de disputar ao gado e outros animais a água escassa das cacimbas (AUDRIN, 1963, p. 08). Esse frade contrapõe a paisagem natural e cultural de uma Bahia interiorana construída por Euclides da Cunha a uma outra imagem do mundo natural, aquela na qual os sertões são ―um país de florestas, de verdes campinas e várzeas onde correm águas permanentes, onde o solo é rico e fartas as pastagens, onde nunca faltam caças nas matas, onde rios e lagos são piscosos‖ (AUDRIN, 1963, p. 08-09). Esse ―país verdejante‖ é uma imagem antitética que revela uma oposição entre paisagens: os sertões dos vales verdes e fluviais que negariam os sertões secos do nordeste, mas remetem também aos artifícios narrativos mobilizados por ambos os autores. Audrin tinham consciência de que sua narrativa possuía uma função desconstrucionista e aproveita a linguagem para caracterizar sua diferença, além do deslocamento espacial – ao definir seus interlocutores e a crítica que lhes destina:
Era indispensável esta indicação para justificar, de início, a nota geralmente otimista destas páginas e para prevenir os possíveis protestos daqueles que pretendem pensar e falar baseados nas descrições um tanto acerbas de Euclides da Cunha, nas narrativas injustas de Monteiro Lobato, nos relatórios pessimistas de certas comissões oficiais (AUDRIN, 1963, p. 08).
Quanto a Euclides da Cunha, a qualificação como ―descrições um tanto acerbas‖ pode ser centralizada no significado do signo acerba o qual se refere a algo áspero, ácido, ou então pungente, cruel, lancinante. O que Audrin denomina como ásperas são as descrições euclidianas das paisagens naturais nordestinas, pois em outro momento de sua obra reafirma que as regiões descritas por ele ―não conhecem os flagelos das secas periódicas‖ (AUDRIN, 1963, p. 31). Por outro lado, mas na esteira dessa diferenciação das paisagens, há a perseguição de metáforas diferentes para narrar o mundo natural. A dureza do solo e a tentativa de tornar objetiva a descrição do relevo em Os Sertões – A Terra euclidiana – são substituídas por Audrin por imagens de ―verde campinas‖, havendo nesse um olhar para o mundo natural mais bucólico e naquele mais naturalista.
Se a linha entre ciência e arte em Euclides da Cunha era tênue e transposta muitas vezes, também o era a fronteira que separava os sentidos científicos dos efeitos
literários por meio da metaforização dos termos. Nos estudos geológicos que compõem A Terra, primeira parte de Os Sertões, a identificação com o mundo das ciências naturais é marcada pela tradição naturalista dos viajantes do século XIX – como Von
Martius e Spix67, Aires Casal68 e Richard Burton69 –, mas o naturalismo não surge
apenas como sinal da vocação científica dos trabalhos de Euclides da Cunha.
Os quadros da natureza são mais do que emblemas da objetividade do pensamento desse escritor, são elementos de seu estilo, e José Maria Audrin, com refinada perspicácia, demonstra conhecer a estrutura narrativa de Euclides da Cunha ao usar o termo acerba, cujo um dos significados é áspero, para qualificar as descrições contidas em Os Sertões (1902).
A palavra acerba70 reporta à aspereza com a qual Euclides da Cunha qualifica o
mundo dos sertões baianos e, nesse caso, saía do campo da descrição e adentrava no campo simbólico, fazendo surgir uma ―natureza [que] já aparece antropomorfizada como partícipe da própria luta e, pelas características de suas rochas, solo e vegetais‖, como esclarece Santana ao discutir a relação entre formação científica e criação literária
no artigo A nossa Vendeia71, publicado por Euclides em 1897 (AUDRIN, 2002, p. 206).
Audrin questiona as descrições ásperas de Euclides menos pelo determinismo do que pela correlação que poderia ser feita entre essas descrições e os sertões dos vales, que ele considerava ―o seu sertão‖ e, nesse intrincado, ao mesmo tempo que recusava que seus sertões fossem áridos e estéreis, parece copiar o modelo figurativo da linguagem do autor de Os Sertões para construir suas paisagens:
Ao consignar estas informações, recordamos, com saudade, as noites cheias de poesia passadas nas praias, sob o céu estrelado e límpido do verão. Estendido na areia, ou deitado na rede suspenso entre duas forquilhas, o viajante adormece e acorda aos sons variados da floresta e do rio. São gaivotas que cortam os ares piando, mutuns a soltar gemidos, jacurutus com o seu misterioso dialogar, inhumas a soluçar, ciganas a debaterem-se nos ramos dos saranzais, enquanto na imensa largura do rio passam os botos
67Carl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868), naturalista alemão, viajou pelo Brasil entre 1817 e
1820. Entre suas obras encontra-se Reise in Brasilien, escrita inicialmente com Johann Baptist von Spix (1781-1826) e publicada entre 1823 e 1831, e os 46 fascículos da Flora Brasilienses, publicados entre 1840 e 1868 (SANTANA, 2000)).
68 Padre Manuel Aires de Casal (1754? 1821?), nascido em Portugal ou em Cachoeira (Bahia), publicou
em 1817 a Corografia Brasílica (SANTANA, 2000).
69 Richard Francis Burton (1821-1890), cônsul britânico em Santos, realizou de julho a dezembro de1867
viagem de 2000 milhas iniciada no Rio de Janeiro e desceu o São Francisco até sua foz. Escreveu o livro
Explorations of the Highlands of the Brazil whit a Full Account of the Gold and Diamond Mines,
publicado em Londres em 1869 (SANTANA, 2000).
70 Grifo nosso.
71 CUNHA, Euclides da. A nossa Vendeia. In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Euclides da Cunha: obra
resfolegando e pulam por cima da água gigantescas piratingas, ao passo que, bem distantes, se percebem, vindos do fundo das matas, os rugidos da onça e os latidos do guará... Como é maravilhoso o sertão! (AUDRIN, 1963, p. 27). Na descrição da fauna, assim como na descrição da flora, a caracterização do universo natural de Audrin contorna o naturalismo por meio da construção da cena natural que interligou características humanas ao reino animal, antropomorfizando a natureza com o uso da prosopopeia, algo muito comum na prosa euclidiana, mas vinculando suas imagens a uma matriz de estilo diverso. As características humanas atribuídas aos animais permitiram que esses entabulassem um diálogo com Audrin, que compreendeu seus soluços e gemidos e por meio deles pôde reviver a poesia do cosmo sertanejo. Trata-se, com efeito, de um estilo diferente do de Euclides da Cunha. A personificação em Audrin evoca um estilo que encontra seu eco nos relatos do sertanista
goiano Couto de Magalhães72, com quem partilha algumas ideias sobre os sertões dos
rios Araguaia e Tocantins:
As margens do último destes córregos oferecem paisagens de uma grande beleza. No lugar chamado Feixo, o grandioso da natureza virgem toca ao sublime; duas enormes massas de rochedo elevam-se uma em frente da outra [...]. A cabeça vetusta destas pedras, as escavas que nelas existem, o sombrio de sua cor, a melancolia do sítio [...]. A alma reconcentrada, eu perguntei a mim mesmo se a felicidade não devia existir ali, no meio daquelas cenas grandiosas da natureza, daquela paz imponente, tão diversa do ruído inquieto e buliçoso das grandes cidades. [...] A noite era serena; armei a minha maca ao relento e, deitado nela, adormeci em êxtase, contemplando a abóbada azulada e serena do céu, vista através da arca das sussurrantes, ornada pela plumagem verde dessas palmeiras. [...] Há na grandeza dessas águas [do rio Araguaia] uma calma tão serena [...]. Tudo concorre para que as impressões sejam aqui profundas. O Espírito vagueia por essas solidões, a imaginação figura esses milhares de léguas sem uma só habitação de homem civilizado. Que enceram estes paramos? Ninguém sabe... tudo é misterioso ainda (MAGALHAES, 1974, p. 84-95).
A concepção dos sertões dos vales como uma paisagem de ―grande beleza‖ contrastando com a imagem de aspereza euclidiana remete ao construto que ―imagina‖ os sertões como um lugar melancólico plasmado na imensidão do firmamento ou nos soluços da fauna, como concebeu também Audrin. Mas o que a imaginação figura não tem o tom ardente das paixões, porém a singeleza das ―almas reconcentradas‖ e que atingiriam calma e serenidade nesses lugares.
72 José Viera Couto de Magalhães foi militar do Império que, assumindo a presidência da província de
Goiás em 1963, percorreu a região Norte dessa província por via fluvial, fazendo o reconhecimento das margens do rio Araguaia. Suas impressões dessa viagem ficaram registradas na obra Viagem ao
Araguaia, cuja primeira edição é de 1863, coincidentemente ou não exatamente um século antes de José
Com feito, esse reencontro com a natureza é figurado no texto do frade como o enlevo do espírito que vagueia, nas palavras de Couto de Magalhães, a contemplar o ―animal que se alimentava exclusivamente de frutinhas perfumadas das florestas‖
(1963, p. 20). Diferindo do Romantismo73, quase toda imagem construída por Audrin
tem o intuito de fazer ―mais conhecida a realidade pitoresca dos sertões‖, realidade esta que é preenchida por diminutivos de onde afloram sentimentos e significados pastoris (1963, p. 03).
No lugar do determinismo de matriz naturalista presente em Euclides da Cunha, Audrin busca compor uma paisagem natural que atenue o conflito presente nos espaços inóspitos. Tudo que gera tensão na ambiência natural, como os regimes de chuva ou a aspereza do relevo, é corrigido por uma linguagem amena. Desde a urdidura da sensorialidade – o perfume das flores, o sabor de frutinhas – todos os signos são mobilizados em um estilo árcade que emolduraria as lembranças do frade de ―um sertão maravilhoso‖. A exposição de Alfredo Bosi acerca da vertente árcade-ilustrada no Brasil setecentista nos dá algumas indicações sobre o uso que José Maria Audrin faz das metáforas bucólicas e da prosopopeia:
‗A paisagem‘, que nasceu para a arte como evasão das cortes barrocas, recorta-se para o neoclássico nas dimensões menores da cenografia idílica. Esta prefere ao mar e à selva, o regato, o bosque, o horto e o jardim. A natureza vira refúgio (locus amoenus) para o homem do burgo oprimido por distinções e hierarquias. Todas as culturas urbanas do Ocidente, nos estágios mais avançados de modernização, acabam reinventando o natural e fingindo na arte a graça espontânea do Éden que os cuidados infinitos da cidade fizeram perder (2006. p. 71-72).
Nessa exposição, contida em História concisa da literatura brasileira (2006), Alfredo Bosi explica o caráter árcade da poesia setecentista de Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga. Para Bosi, a vertente árcade no Brasil compreende e figura a natureza como um panorama onde se desdobrariam imagens de uma vida longe da opressão das cidades; esse cenário emolduraria ―uma tênue história sentimental‖. Essa expressão ―tênue história sentimental‖ diferenciaria os árcades dos românticos justamente porque nos primeiros a natureza seria uma pintura de cores
73Via de regra, na matriz romântica a natureza é figurada com a energia da pujança e da exuberância que
conecta o leitor à intensidade de sentimentos e das paixões. No texto de José Maria Audrin, a exuberância da natureza, embora reconhecida em alguns momentos, é figurada com a suavidade dos sentimentos delicados. Sobre a matriz romântica das representações naturais a partir do século XIX, ver NAXARA, Marcia Regina Capelari. Cientificismo e sensibilidade romântica em busca de um sentido explicativo
para o Brasil no século XIX. Brasília: UNB, 2004; ver SÜSSEKIND FLORA. O Brasil não é longe daqui: o narrador, a viagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
suaves e remeteria à nostalgia, caso de Audrin, enquanto nos últimos evocaria a paixão e o excesso: a exuberância (BOSI, 2006, p. 72).
Nessa explicação tomada de Bosi, criva-se em nossa interpretação a construção do estilo em Audrin expondo ainda as razões da sedução que Couto de Magalhães exerceria sobre o frade: a semântica, presente no sertanista, de uma natureza impermeável à civilização. A natureza antropomorfizada pelo uso da figura prosopopeica não apenas dá vividez ao universo natural como parece afastar o próprio homem – que se refugia nos sertões – do mundo civilizado. A visão de mundo de Audrin quanto aos males do progresso pode ser mais bem compreendida nesse trecho:
Queremos, no princípio deste capítulo, apresentar aos nossos leitores eloquente contraste. De um lado, os nossos sertanejos (aqueles, tão somente, a que nos referimos no presente estudo), quando se mostram fiéis e corajosos nos recantos de seu sertão bravio e, de outro lado, os seus irmãos por demais numerosos que se desanimam e vão à procura das grandes cidades. Estes, quando não entregues à preguiça, são muitas vezes vítimas de criminosas explorações e obrigados a curtir fome ou a lutar, quase sempre, para conseguir o alimento indispensável, nessas épocas de carestia cada dia mais premente. Aqueles, pelo contrário, encontram sempre o necessário, não só para sustentar a sua vida, mas ainda para gozar de fartura (AUDRIN, 1963, p. 53).
Indicando inicialmente a existência de um sertanejo forte nos moldes euclidianos, na sequência Audrin afasta-se totalmente do autor de Os Sertões (1902) ao figurar os sertões dos vales como ambiente naturalmente farto. O refúgio, figurado como locus amenus, desconstrói a aspereza natural e ao mesmo tempo evidencia uma ruptura interpretativa entre o frade e os médicos de quem escreve fazerem parte daquele grupo de cientistas que, ―escuta[ndo] sem paciência, anotaram respostas inexatas‖ sobre os vales (AUDRIN, 1963, p. 07-08). Audrin recorre aqui ao lugar privilegiado de narrador que estaria qualificado a fornecer informações exatas sobre os vales por ter vivido na região por mais de 30 anos e por isso mesmo sua valorização do detalhe subjetivo: o perfume da flor, a cor da fruta, o rugido da onça.
Quanto às informações que ele refutou, trata-se daquelas visões contidas ―nos relatórios pessimistas de certas comissões oficiais‖. O pessimismo que o frade refuta é aquele que considerou o universo sertanejo como um espaço de homens ―condenados a miserável destino‖, cujos precursores a partir do século XX são os médicos Artur Neiva e Belisário (AUDRIN, 1963, p. 08- 09).
2.1.2 O naturalismo descritivo e a figuração irônica da aridez em Artur Neiva e