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A energia cin´etica de uma part´ıcula de massa m que, no instante t, move-se a uma velocidade de m´odulo v em rela¸c˜ao a um referencial, ´e dada por 12mv2. Para um

meio cont´ınuo, a forma mais gen´erica da energia cin´etica, K(Pt) ´e dada por

K(Pt) = 1 2 Z Pt ρ ˙x(x, t) · ˙x(x, t)dV. (5.4.1)

Admite-se que a energia cin´etica, fornecida pela equa¸c˜ao 5.4.1, n˜ao fornece toda a energia da regi˜ao Pt, de modo que, para se obter o total da energia nessa regi˜ao, definimos

tautologicamente a energia n˜ao-cin´etica Γ(Pt). Alguns textos de mecˆanica dos meios

cont´ınuos, como [4], [2] e [9], denominam esta segunda parcela como energia interna. A fim de distinguirmos a energia interna j´a estabelecida nos textos de termodinˆamica e f´ısico- qu´ımica daquela estabelecida nos textos de mecˆanica dos meios cont´ınuos, utilizaremos o termo energia n˜ao-cin´etica aprioristicamente.

Postulamos que a energia n˜ao-cin´etica obede¸ca `as condi¸c˜oes de continuidade e aditividade, sendo poss´ıvel definir uma energia n˜ao-cin´etica espec´ıfica (raz˜ao entre energia e massa), γ(x, t) (nos mencionados textos, u(x, t)), tal que

Γ(Pt) =

Z

Pt

ργ(x, t)dV. (5.4.2)

Escrevendo v2 = ˙x · ˙x, definimos a energia total E(P

t) como a soma da energia cin´etica

com a energia n˜ao-cin´etica, logo

E(Pt) = K(Pt) + Γ(Pt) = Z Pt ρ(1 2v 2+ γ)(x, t)dV. (5.4.3)

No balan¸co de massa, foi postulado que a massa do corpo jamais se altera, portanto sempre se conserva. J´a nos balan¸cos de momento linear e angular n˜ao foi apresentado postulado an´alogo, portanto estes momentos podem variar, por influˆencia do exterior. Entretanto, se as for¸cas e torques que o exterior exercer sobre o sistema forem nulos, respectivamente o momento linear e angular se conservar˜ao. Isto pode ser facilmente notado anulando t e b nas equa¸c˜oes 3.2.11 e 3.2.12.

O balan¸co de energia ´e an´alogo aos balan¸cos de momentos linear e angular, ou seja, a energia n˜ao precisa se conservar mas, para que ela varie, ´e exigido que haja trocas energ´eticas com o exterior, caso contr´ario ela se conserva. Em termodinˆamica, consideram-se dois tipos de trocas energ´etica, os quais diferem fisicamente no que se refere ao movimento das part´ıculas, quando sujeitas a tais trocas. S˜ao elas calor e trabalho ou, utilizando as respectivas taxas temporais de transferˆencia, a potˆencia t´ermica, Q(Pt) e a

potˆencia at´ermica, P (Pt). Assim, escrevemos o balan¸co de energia

dE(Pt) dt = dK(Pt) dt + dΓ(Pt) dt = Q(Pt) + P (Pt). (5.4.4) Mas note que, como a mecˆanica dos meios cont´ınuos n˜ao lida com part´ıculas (entende-se aqui part´ıcula por uma por¸c˜ao discreta de mat´eria, tais como ´atomos e mol´eculas, por

exemplo), analogamente ao que ocorre com a energia n˜ao-cin´etica tamb´em a potˆencia t´ermica ´e apenas uma desconhecida parcela aditiva, cuja existˆencia ´e admitida como poss´ıvel. Note que dK(Pt)

dt 6= P (Pt) e dΓ(Pt)

dt 6= Q(Pt).

A potˆencia at´ermica ´e a taxa temporal de trabalho realizado no corpo ou pelo corpo. Este trabalho resulta da a¸c˜ao, sobre o corpo, das for¸cas de corpo e de tra¸c˜ao em um determinado instante, sendo a potˆencia realizada pelas for¸cas de tra¸c˜ao transmitida nas fronteiras do corpo e a efetuada pelas for¸cas de corpo produzida nos pontos interiores do mesmo. Assim, P (Pt) = I ∂Pt ˙x(x, t) · t(x, t, n)dS + Z Pt ρ ˙x(x, t) · b(x, t)dV. (5.4.5)

Foi postulado que a energia n˜ao-cin´etica seja tratada `a semelhan¸ca da energia cin´etica. Analogamente, a potˆencia t´ermica ser´a tratada `a semelhan¸ca da at´ermica. Por isto, a potˆencia t´ermica pode ser decomposta em dois termos aditivos, sendo um deles a raz˜ao, h(x, t, n), entre a potˆencia t´ermica que atravessa uma ´area superficial e esta ´area, para uma vizinhan¸ca infinitesimal do ponto x localizado na superf´ıcie ∂Ptda representa¸c˜ao espacial

do corpo. Note que foi imposto postulado an´alogo ao de Cauchy, mas ao contr´ario do que ocorre com o vetor t, tem-se que h ´e um escalar, sendo sua unidade energia por tempo e ´

area.

Mantendo analogia com tratamento dado ao vetor t, ocorre que h(x, t, n) = −q(x, t) · n, logo h(x, t, n) ´e a proje¸c˜ao do vetor fluxo de calor, q(x, t), na dire¸c˜ao do vetor unit´ario n, o qual ´e normal `a superf´ıcie no ponto x. O sinal negativo ´e devido `a conven¸c˜ao de que toda energia que ingresse no corpo, independentemente das caracter´ısticas f´ısicas de tal energia, seja positiva, enquanto que n ´e orientado positivamente para o exterior do corpo.

O outro termo proveniente da decomposi¸c˜ao ´e a raz˜ao r entre a potˆencia t´ermica absorvida ou emitida (por exemplo, via radia¸c˜ao, rea¸c˜oes qu´ımicas, etc.) e a massa, em um ponto interior da regi˜ao Pt. A unidade de r ´e energia por tempo e massa. Portanto,

Q(Pt) = − I ∂Pt q(x, t) · n dS + Z Pt ρr(x, t)dV. (5.4.6)

Ent˜ao, substituindo as equa¸c˜oes 5.4.3, 5.4.5 e 5.4.6 na equa¸c˜ao 5.4.4, obtemos d dt Z Pt ρ(1 2v 2 + γ)(x, t)dV =

I ∂Pt (−q(x, t) · n + ˙x(x, t) · t(x, t, n))dS + Z Pt ρ(r + ˙x · b)(x, t)dV. (5.4.7)

A equa¸c˜ao 5.4.7 ressalta a proposital semelhan¸ca entre os tratamentos ma- tem´aticos dispensados `as desconhecidas energia n˜ao-cin´etica e potˆencia t´ermica, respec- tivamente em compara¸c˜ao `a energia cin´etica e potˆencia at´ermica, ambas estas ´ultimas bem conhecidas desde o desenvolvimento da dinˆamica dos fluidos. Em outras palavras, as diferen¸cas entre os dois tipos de energia e os dois tipos de potˆencia s˜ao de car´ater f´ısico, explicadas em termos de part´ıculas e, como em meio cont´ınuo estas n˜ao existem, ´e mantido o formalismo matem´atico da dinˆamica dos fluidos.

Usando o teorema de Cauchy, t(x, t, n) = T(x, t)n e comparando a equa¸c˜ao 5.4.7 com a forma integral da equa¸c˜ao de balan¸co geral, 5.1.4, temos

ϕ(x, t) = ρ(1 2v

2+ γ)(x, t),

ψϕ(x, t) = T ˙x(x, t) − q(x, t) e

σϕ(x, t) = ρ(r + ˙x · b)(x, t).

Portanto, para a energia total, a forma local da equa¸c˜ao de balan¸co geral, 5.1.8, ´e dada por ∂ ∂tρ( 1 2v 2+ γ)(x, t) + div(ρ(1 2v 2+ γ) ˙x − T ˙x(x, t) + q(x, t)) − ρ(r + ˙x · b)(x, t) = 0. (5.4.8) Tem-se que ∂ ∂tρ( 1 2v 2 + γ)(x, t) = = d dtρ( 1 2v 2 + γ)(x, t) − ˙x · ∇ρ(1 2v 2 + γ)(x, t) (equa¸c˜ao 2.3.3) = ρd dt( 1 2v 2+ γ)(x, t) +dρ dt( 1 2v 2+ γ)(x, t) − ˙x · ∇ρ(1 2v 2+ γ)(x, t) = ρd dt( 1 2v 2+ γ)(x, t) − [ρ(1 2v 2+ γ)div ˙x(x, t) + ˙x · ∇ρ(1 2v 2+ γ)(x, t)] (eq. 5.2.2) = ρd dt( 1 2v 2+ γ)(x, t) − div[ρ(1 2v 2+ γ) ˙x]. (5.4.9)

Na ´ultima equa¸c˜ao foi utilizada uma conhecida propriedade do operador divergente, de- monstrada na nota de rodap´e da p´agina 43. Substituindo a equa¸c˜ao 5.4.9 na 5.4.8 obt´em-se a forma local alternativa do balan¸co de energia total

ρd dt(

1 2v

Seja o produto escalar de cada termo da equa¸c˜ao de movimento de Cauchy 3.4.1 pela velocidade ˙x. Assim,

˙x · ρ¨x(x, t) = ˙x · div(T)(x, t) + ˙x · ρb(x, t).

Observe que dtd( ˙x · ˙x) = ˙x · ¨x + ¨x · ˙x = 2 ˙x · ¨x, logo ˙x · ρ¨x = ρ2dtd( ˙x · ˙x). Considere tamb´em que, como T ´e sim´etrico, a identidade div(Tv) = v · div(T) + T : ∇v (conferir a nota de rodap´e da p´agina 36). Logo ˙x · div(T) = div(T ˙x) − T : ∇ ˙x (O significado do operador : ´

e dado pela equa¸c˜ao A.33). Utilizando essas identidades na equa¸c˜ao acima, obtemos ρ

2 d

dt( ˙x · ˙x)(x, t) = div(T ˙x)(x, t) + ρ ˙x · b(x, t) − T : ∇ ˙x(x, t). (5.4.11) A equa¸c˜ao 5.4.11 ´e a forma local da equa¸c˜ao do balan¸co de energia cin´etica. Os dois primeiros termos no lado direito da equa¸c˜ao, quando tomamos sua integral na regi˜ao Pt,

podem ser identificados como a potˆencia at´ermica, P (Pt), dada pela equa¸c˜ao 5.4.5. O ter-

ceiro termo, quando integrado nessa mesma regi˜ao, fornece a potˆencia de interconvers˜ao. O lado esquerdo da equa¸c˜ao, quando integrado, fornece a potˆencia cin´etica dK(Pt)

dt .

Subtraindo a equa¸c˜ao 5.4.11 da equa¸c˜ao 5.4.10 obt´em-se

ρdγ

dt(x, t) = −div(q)(x, t) + ρr(x, t) + T : ∇ ˙x(x, t), (5.4.12) a qual ´e a forma local da equa¸c˜ao do balan¸co de energia n˜ao-cin´etica. Perceba que, tanto na equa¸c˜ao 5.4.11 como na 5.4.12, fazer t = b = q = 0 e r = 0 n˜ao impede que varia¸c˜oes de energias cin´etica e n˜ao-cin´etica ocorram, enquanto que tal impedimento acontece para a energia total, de acordo com a equa¸c˜ao 5.4.10. De fato, como

Z Pt div(T ˙x)dV = I ∂Pt T ˙x · ndS = I ∂Pt ˙ x · tdS,

ent˜ao t = 0 exige div(T ˙x) = 0. Entretanto, t = 0 n˜ao implica em T : ∇ ˙x = 0. Esta fundamental diferen¸ca, portanto, ´e causada pela existˆencia da energia de interconvers˜ao entre as energias cin´etica e n˜ao-cin´etica. Em resumo, pode-se afirmar que:

a massa se conserva em qualquer corpo, sob quaisquer condi¸c˜oes;

os momentos linear e angular, bem como a energia total, conservam-se no corpo sempre que este estiver completamente isolado do seu exterior, ou seja, nada existente fora do corpo interfira nele e vice-versa;

as energias cin´etica e n˜ao-cin´etica n˜ao se conservam mesmo que o corpo esteja completa- mente isolado do seu exterior, porque se convertem uma na outra, dentro do corpo, sem que se altere a energia total do mesmo.

Cap´ıtulo 6

Discuss˜ao

Conforme colocado ao final da se¸c˜ao para balan¸co de energia, as energias cin´etica e n˜ao-cin´etica n˜ao se conservam nem sequer em corpo totalmente isolado, porque podem converter-se uma na outra sem que a energia total seja modificada, enquanto que esta ´

ultima n˜ao se pode alterar em corpo sujeito a isolamento. Entretanto, a parti¸c˜ao da energia total nas duas parcelas somativas cin´etica e n˜ao-cin´etica, evidentemente n˜ao ´e a ´unica poss´ıvel. Assim, podemos transferir uma por¸c˜ao da energia de uma das duas parcelas para a outra, mantendo a mesma soma, mas mudando as parcelas aditivas.

Tal transferˆencia, por´em, n˜ao pode ser arbitr´aria e, para ter car´ater geral e in- dependente das caracter´ısticas espec´ıficas do corpo em quest˜ao, precisa envolver energias fisicamente bem definidas. Por isto, como a energia n˜ao-cin´etica ´e desconhecida sob o ponto de vista das ra´ızes hist´oricas da mecˆanica dos meios cont´ınuos, n˜ao h´a como quan- tificar uma por¸c˜ao dela a ser transferida. Mas sabemos que a energia cin´etica corresponde ao movimento e que, este, pode ser decomposto em r´ıgido e deformativo puro.

Os movimentos r´ıgido e deformativo puro foram definidos na se¸c˜ao 2.5. O pri- meiro foi utilizado na 3.5 para demonstrar a simetria do tensor de Cauchy e novamente citado na se¸c˜ao 5.3, onde mostrou-se que os balan¸cos de massa, momentos linear e angular, junto com a separa¸c˜ao de qualquer movimento em dois componentes aditivos, sendo um r´ıgido e o outro deformativo puro, s˜ao conceitos coerentes entre si. Portanto, a energia cin´etica pode ser dividida em duas por¸c˜oes, cada uma delas correspondendo a um dos

dois tipos de movimento fisicamente bem definido.

A potˆencia de interconvers˜ao, mencionada no final do balan¸co de energia, na se¸c˜ao 5.4, ´e dada pela integral volum´etrica, sobre a regi˜ao espacial Pt, do escalar −T :

∇ ˙x(x, t). Este pode ser decomposto em duas parcelas, uma devida ao movimento r´ıgido e outra `a deforma¸c˜ao, porque

T : ∇ ˙x(x, t) = T : ∇w(x, t) + T : ∇d(x, t).

Entretanto, como T ´e sim´etrico e ∇w ´e antissim´etrico, o produto interno entre eles ´e nulo, isto ´e, T : ∇w(x, t) = 0, logo

T : ∇ ˙x(x, t) = T : ∇d(x, t).

Este fato fortemente sugere uma outra divis˜ao em parcelas aditivas para a energia total do corpo, alternativa `aquela em cin´etica e n˜ao-cin´etica.

Suponha, ent˜ao, que a energia cin´etica da deforma¸c˜ao pura seja retirada da parcela de energia cin´etica, nesta permanecendo somente a de movimento r´ıgido, enquanto que `a parcela de energia n˜ao-cin´etica seja adicionada a cin´etica da deforma¸c˜ao pura. Neste caso, a forma local da potˆencia de interconvers˜ao entre as duas novas parcelas ser´a T : ∇w(x, t) = 0 porque o valor de tal escalar depende do tipo de velocidade utilizada na equa¸c˜ao 5.4.11, a qual ´e subtra´ıda da 5.4.10 para produzir a 5.4.12. Logo, ambas as duas parcelas referentes a esta nova divis˜ao da energia total n˜ao poder˜ao sofrer altera¸c˜ao em corpo isolado, assim como a energia total e os momentos linear e angular. Podemos chamar a estas novas duas parcelas de energia cin´etica de movimento r´ıgido e energia interna.

´

E preciso, por´em, lembrar que, conforme mostra a equa¸c˜ao 5.4.12, a ´unica ma- neira de transferir energia n˜ao-cin´etica de fora para dentro do corpo, ou vice-versa, ´e por meio do tipo de troca energ´etica que denominamos calor. Al´em disto, de acordo com a equa¸c˜ao 5.4.11, apenas trabalho pode efetuar trocas energ´eticas entre a energia cin´etica e o exterior. Ao se alterar o modo de divis˜ao da energia total em duas parcelas, apenas trabalho referente a movimento r´ıgido consegue alterar a energia cin´etica de movimento r´ıgido, enquanto que tanto calor como trabalho de deforma¸c˜ao pura podem modificar a energia interna.

Ali´as, a termodinˆamica tradicional considera que a energia interna n˜ao se altere caso haja isolamento e, n˜ao ocorrendo este, sua altera¸c˜ao possa ser efetuada tanto por interm´edio de trabalho como de calor. Al´em disto, se formos analisar as express˜oes ma- tem´aticas que a termodinˆamica tradicional admite para o que denomina apenas trabalho, veremos que, em todos os casos, trata-se de um trabalho deformativo puro, ou seja, que n˜ao inclui movimento r´ıgido. Isto ´e especialmente f´acil de perceber ao se considerar a bem conhecida express˜ao matem´atica que a termodinˆamica tradicional utiliza para o trabalho volum´etrico.

Em resumo, a alternativa divis˜ao em parcelas apresentada nesta discuss˜ao ´e aquela considerada pela termodinˆamica tradicional, enquanto que a separa¸c˜ao em energia cin´etica e n˜ao-cin´etica ´e utilizada pela mecˆanica dos meios cont´ınuos. Isto n˜ao cria difi- culdades para nenhuma das duas disciplinas. De fato, como o balan¸co de energia cin´etica ´

e consequˆencia dos balan¸cos de massa e momentos linear e angular, sua imposi¸c˜ao nada acrescenta para ajudar na resolu¸c˜ao dos problemas solucionados pela mecˆanica dos meios cont´ınuos. Por isto, na resolu¸c˜ao de tais problemas imp˜oe-se o balan¸co de energia total, ou o de n˜ao-cin´etica, dependendo da preferˆencia do autor, j´a que o resultado ser´a o mesmo. Geralmente, ´e algebricamente mais conveniente impor o balan¸co de energia n˜ao-cin´etica.

No que se refere `a termodinˆamica tradicional, este texto nada adiciona ao seu formalismo. Acreditamos, por´em, que ele tenha significativo valor conceitual, no tocante a esta teoria. De novo, basta verificar as express˜oes matem´aticas daquilo que ´e inclu´ıdo na primeira lei da termodinˆamica, sob o nome de trabalho, para perceber que a mencionada lei se restringe ao trabalho deformativo puro, logo n˜ao ´e a lei da conserva¸c˜ao de energia total em sistema isolado. Portanto entendemos que, ao tentar esclarecer melhor o que ´e energia interna, este texto produza significativa contribui¸c˜ao conceitual `a termodinˆamica tradicional.

Apˆendice

´

Algebra Vetorial e Tensorial

Este apˆendice n˜ao visa tratar `a exaust˜ao todos os objetos de estudo da An´a- lise Vetorial e Tensorial, mas t˜ao somente fornecer subs´ıdios ao leitor que n˜ao estiver familiarizado com conceitos destas ´areas ou relembr´a-los ao leitor que j´a possui algum conhecimento do tema. Uma abordagem mais completa pode ser encontrada em diversas fontes, como em [2], [9], [3] e outras. ´E suficiente, no entanto, um conhecimento preliminar de ´Algebra Vetorial, Matrizes e no¸c˜oes de C´alculo Diferencial e Integral para entender os conceitos aqui expostos. Com a mesma intens˜ao de relembrar ao leitor, s˜ao a seguir apresentados os significados de s´ımbolos matem´aticos utilizados neste texto.

Lista de S´ımbolos Matem´aticos

E3 Espa¸co euclidiano tridimensional

V Espa¸co vetorial euclidiano

LinV = VN V Espa¸co vetorial dos tensores que operam em V α, β, γ... Escalares reais x, y, z... Pontos do espa¸co tridimensional euclidiano

u, v, w... Vetores do espa¸co euclidiano

T, S, U... Tensores que operam em V

ui Componente contravariante de um vetor u

ui Componente covariante de um vetor u

Tij, Tij, Tji, T j

i Componentes covariantes, contravariantes e mistas de

um tensor T, respectivamente

G Base de um espa¸co vetorial covariante

G0 Base de um espa¸co vetorial contravariante

gi Elemento de uma base vetorial covariante

gi Elemento de uma base vetorial contravariante

gij Tensor m´etrico

δji, δij, δij, ... Delta de Kronecker

ijk S´ımbolo de Levi-Civita ou Tensor Permuta¸c˜ao

g(., .) Produto interno de um espa¸co vetorial normado · Produto escalar de um espa¸co vetorial euclidiano

: Produto interno de dois tensores

⊗ Produto tensorial ou di´adico de dois vetores

tr(.) Tra¸co de um tensor

T−1 Tensor inverso de T TT Tensor transposto a T

dev(.) Parcela desviante de um tensor sym Parcela sim´etrica de um tensor skw Parcela antissim´etrica de um tensor

o(h) Erro de uma fun¸c˜ao em rela¸c˜ao `a aproxima¸c˜ao linear dado um acr´escimo h em seu argumento

∇ Operador gradiente

∇· ≡ div Operador divergˆencia ∇× ≡ rot Operador rotacional

R, S, P.... Regi˜oes limitadas do espa¸co tridimensional ∂R Fronteira da regi˜ao R.

n Vetor unit´ario normal orientado para o exterior de uma regi˜ao.

1

Vetores e Espa¸cos Vetoriais

O espa¸co tridimensional euclidiano E3 ´e um conjunto de pontos definidos por trˆes coordenadas. Dois pontos x e y ∈ E3 definem um vetor v ∈ V, sendo V denominado

espa¸co vetorial. O vetor v pode ser visto como o segmento de reta orientado que liga o ponto x ao ponto y no espa¸co tridimensional. Neste caso, todo vetor ´e definido por uma lista de trˆes n´umeros reais, chamados componentes, de modo que cada um desses componentes ´e dado de uma coordenada do ponto x da correspondente para o ponto y. Ent˜ao, pode-se escrever v = y − x, significando que, se y = (y1, y2, y3) e x = (x1, x2, x3),

ent˜ao v = (y1− x1, y2− x2, y3− x3).

Um espa¸co vetorial V ´e um conjunto dotado de duas opera¸c˜oes: A) Adi¸c˜ao: ∀u, v ∈ V, u + v ∈ V

B) Multiplica¸c˜ao por escalar: ∀α ∈ R e ∀u ∈ V e , αv ∈ V. Tais opera¸c˜oes satisfazem `as seguintes regras ∀α, β ∈ R e ∀u, v, w ∈ V:

A1) u + v = v + u

A2) u + (v + w) = (u + v) + w A3) ∃0 ∈ V tal que v + 0 = v

A4) ∀v ∈ V, ∃−v ∈ V tal que v + (−v) = v − v = 0 B1) α(βv) = (αβ)v

B2) (α + β)v = αv + βv B3) α(u + v) = αu + αv B4) 1v = v

Um conjunto de vetores {v1, v2, ..., vn} ´e denominado uma base de um espa¸co

vetorial de dimens˜ao n se:

1. For linearmente independente, isto ´e, se ∀α1, α2, ..., αn, αi ∈ R, ent˜ao α1v1+ α2v2 +

... + αnvn= 0 ⇐⇒ α1 = α2 = ... = αn= 0.

2. Gerar o espa¸co V, isto ´e, se cada u ∈ V puder ser escrito como uma combina¸c˜ao linear dos vetores desse conjunto.

Um espa¸co vetorial V pode ser gerado por infinitas bases de mesma dimens˜ao. Seja gi um vetor pertencente a determinada base de V. Considerando o que foi exposto

acima, podemos escrever qualquer vetor u ∈ V como a combina¸c˜ao linear u = n X i=1 uigi. (A.1)

Os n´umeros ui ∈ R s˜ao os componentes de u na base {g

i} e variam em virtude da escolha

da base do espa¸co V. Comparando a equa¸c˜ao A.1 com o colocado no primeiro par´agrafo, percebe-se a rela¸c˜ao entre coordenadas e bases.

Nota¸c˜ao Indicial (ou de Einstein)

Em ´Algebra Tensorial, somat´orios como o da equa¸c˜ao A.1 normalmente s˜ao suprimidos a fim de se obter uma nota¸c˜ao mais limpa, sem que o sentido matem´atico da express˜ao se altere. A esta nota¸c˜ao enxuta denominamos nota¸c˜ao indicial ou nota¸c˜ao de Einstein.

A nota¸c˜ao indicial compreende as seguintes regras:

a) Quando um ´ındice aparece repetido duas vezes em um somat´orio, uma vez como sub´ındice e a outra como super´ındice, o sinal de somat´orio pode ser suprimido. Por exemplo, considere o somat´orio

y =

3

X

i=1

cixi = c1x1+ c2x2+ c3x3.

Omitindo o somat´orio, podemos escrever a mesma express˜ao na forma enxuta

y = cixi, i = 1, 2, 3.

b) Quando um ´ındice aparece repetido uma ´unica vez em uma express˜ao, n˜ao operamos o somat´orio sobre este ´ındice. Tal ´ındice ´e denominado ´ındice livre, uma vez que podemos alter´a-lo como quisermos sem que isso altere o significado da express˜ao. Por exemplo, considere o somat´orio

yi = 3

X

j=1

Cijxj = Ci1x1+ Ci2x2+ Ci3x3.

Este somat´orio pode ser escrito de forma mais enxuta atrav´es da nota¸c˜ao indicial, isto ´e

O ´ındice livre ´e i, de forma que podemos alter´a-lo (para k, por exemplo), sem que isso altere o significado da express˜ao. J´a o ´ındice j, que aparece duas vezes na express˜ao, n˜ao pode ser alterado livremente, sendo denominado ´ındice mudo. Isto significa que se alterarmos o ´ındice j para m, por exemplo, somos obrigados a alterar de j para m os ´ındices dos dois termos onde j aparece.

c) Caso um ´ındice apare¸ca duas vezes, uma vez como sub´ındice e outra como super´ındice, e por raz˜ao de contexto n˜ao queiramos realizar o somat´orio, devemos deixar indicada tal inten¸c˜ao na frente da express˜ao. Por exemplo,

yi = cixi (sem somat´orio).

d) Caso um ´ındice apare¸ca repetido trˆes ou mais vezes, n˜ao suprimimos o sinal de so- mat´orio. A nota¸c˜ao indicial restringe-se a dois ´ındices repetidos apenas. Por exemplo,

y =

3

X

i=1

λicixi.

A express˜ao acima n˜ao pode ser simplificada pela nota¸c˜ao indicial como

y = λicixi,

porque as express˜oes acima n˜ao s˜ao equivalentes (na ´ultima, o ´ındice em λi ´e livre,

enquanto que em ci e xi ele ´e mudo).

Usando as regras apresentadas para a nota¸c˜ao indicial, podemos escrever a equa¸c˜ao A.1 como

u = uigi. (A.2)

Espa¸cos vetoriais podem ser dotados de uma opera¸c˜ao bilinear1, que mapeia dois argu- mentos vetoriais a um valor real, denominada produto interno. O produto interno ´e uma

1Uma fun¸ao f : x 7−→ f (x) ´e linear se obedecer `as seguintes condi¸oes:

1. f (x1+ x2) = f (x1) + f (x2)

2. f (αx) = αf (x)

Uma fun¸c˜ao pode ser bilinear, trilinear, ..., n-linear se as condi¸c˜oes de linearidade descritas acima forem observadas para cada um dos n argumentos.

A opera¸c˜ao mencionada no texto principal pode ser representada pela fun¸c˜ao bilinear g(u, v), g : V × V → R, que possui as seguintes propriedades: ∀u, v, w ∈ V e ∀α ∈ R,

1. g(u + αv, w) = g(u, w) + αg(v, w) (linearidade em cada argumento) 2. g(u, v) = g(v, u) (simetria)

propriedade gen´erica, a qual indica que um espa¸co vetorial ´e normado, isto ´e, que dentro deste espa¸co vetorial gen´erico existem as no¸c˜oes de comprimento e distˆancia. O conceito

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