brigadeiro Machado de Oliveira, trabalho que foi divulgado como a única história de São Paulo escrita no período monárquico anteriormente aos anos 1870.
desprezou os apelos da plebe e dos estrangeiros e abriu mão da independência de São Paulo por fidelidade à coroa bragantina.125
No período de crise da monarquia e instauração do republicanismo no Brasil, elaborou-se um novo discurso de paulistanidade que difundia três principais vícios da formação brasileira: o absolutismo das instituições políticas herdadas da colônia e perpetuadas pela centralização monárquica, o meio tropical pujante e impositivo que impedia o desenvolvimento da civilização no Brasil e fazia com que o homem fosse menor que a natureza e a formação racial mestiça que, pela presença de tipos negros e índios, considerados inferiores pelo racismo científico vigente, inviabilizariam o progresso do país. No mesmo contexto em que essas ideias se consolidavam como instrumento de legitimação das propostas republicanas, territorialistas e imigrantistas, a província de São Paulo se transformava no setor mais dinâmico da economia nacional por conta da afirmação da agroexportação cafeeira que possibilitou à elite regional assumir um lugar dependente, porém privilegiado na divisão internacional do trabalho e se apresentar internamente, em período que se procurava romper com o atraso material brasileiro, como original exemplo de progresso material.
Esse foi o período em que os setores mais anticentralizadores da elite paulista aderiram ao republicanismo e esboçaram um projeto nacional que, mediante a defesa de ampla autonomia regional, propunha a transformação do estado de São Paulo em uma verdadeira utopia liberal, pautando-se no exemplo norte-americano. Esse ideal implicava o incentivo a uma política econômica de caráter agrário e territorialista e que objetivava ocupar o sertão, estabelecer ligações ferroviárias e povoar o território com imigrantes europeus. Além disso, era necessário, para essa elite dirigente, que se estabelecesse a liberalização do Estado brasileiro de maneira que fossem contempladas as formas republicana e federativa de governo. Ao mesmo tempo em que defendiam um projeto
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Ao analisar os projetos políticos republicanos, Ferretti estudou a identidade ianque e esboço de uma visão republicana do passado de São Paulo, elaborada entre 1870 e 1894, além do papel do IHGSP, a atuação dos paulistas no poder federal, as analises de Teodoro Sampaio e Orville Derby, autor que compreendia o bandeirante como conquistador do sertão. Na última parte do seu trabalho, analisou as críticas e afirmações da visão republicana do passado paulista, discussão que ocorreu entre os anos de 1916 e 1930 e da qual participaram intelectuais como Paulo Prado, Oliveira Viana e Alfredo Ellis Jr., entre outros (FERRETTI, 2004).
econômico e político que satisfizesse seus interesses, rompiam como a visão monárquica e elaboravam a própria identidade, apresentando o paulista de elite como o agente por excelência da modernidade americanista, uma espécie de ianque do Brasil.
As elites paulistas se apresentavam como uma exceção de progresso e fizeram uso do passado para tal. Dessa forma, mostraram que São Paulo estava livre dos entraves do progresso elencados, inventando uma origem livre e democrática para eles através da representação de eventos como a expulsão dos jesuítas, a Guerra dos Emboabas e a importância das câmaras municipais, provando, dessa forma, a existência de um self government em terras paulistas que minimizava os efeitos do absolutismo colonial ibérico. Alberto Salles defendeu a originalidade climática do planalto paulista que livrava São Paulo do efeito pernicioso da tropicalidade e que garantia ao homem paulista uma força maior do que a da natureza. Por fim, afirmavam que a ausência do negro e o caráter predominantemente branco do tipo tradicional paulista anulavam os efeitos negativos da mestiçagem.
Dessa forma, se o Brasil era arcaico por causa das suas instituições políticas absolutistas, pelo clima e pela formação étnica mestiça, São Paulo, ao contrário, era moderno e progressista devido a sua formação diferenciada. O estado emergente, para sua elite, se pautava nas noções de liberdade, independência, tinha um clima ameno e era constituído por uma população branca. Dessa produção que foi forjada no calor do debate político republicano e que visava contestar o sentido centralizador e monarquista da historiografia indianista, emergiu o esboço da uma nova imagem do colono paulista, do bandeirante. Foi no bandeirante que a elite paulista projetou os valores que se atribuía, apresentando-o não apenas como definidor dos limites territoriais, mas também como povoador do sertão e paladino da liberdade brasileira. Ele estava ligado a um processo mais amplo de criação de uma identidade regional que apresentava o paulista como que fadado à implantação da modernidade no Brasil (FERRETTI, 2004).
Assim, a elite paulista se colocava como caracterizada visceralmente pelos valores de uma certa modernidade: iniciativa individual, energia, movimento, espírito empreendedor e liberdade frente ao Estado e à Igreja e se apresentavam como os demiurgos da modernidade brasileira. Com a implantação da República e a elaboração de uma história brasileira escrita por olhos paulistas, institucionalizada em 1894 com a criação do IHGSP, se produziu uma visão paulista do passado nacional que se traduziu no veículo privilegiado de um destino manifesto paulista em que se ressaltava a
missão dos paulistas de se ocupar o território e levar a bandeira da liberdade para todo o país. É desse debate historiográfico, que pode ser entendido como suporte simbólico da hegemonia política, que desfrutava a elite regional e que definiu o estado como líder na construção da nação. Também foi dessa água que Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia beberam nos anos 1920, período que a figura do bandeirante já estava consolidada como herói regional de dimensões nacionais.
Todavia, tais poetas, embora influenciados por essa construção advinda de duas ou três gerações que ancoraram o elemento bandeirante como representativo do que o Brasil possuía de melhor em termos de prosperidade econômica, convivência harmoniosa, espírito cívico e empreendedor, autogovernabilidade, independência, etc., a década de 1920 estava envolvida em uma conjuntura distinta daquela que elaborou essa pauta e que data do final do Brasil Monárquico e início do Brasil Republicano. A atmosfera política e intelectual dos anos 1920 era de descrença na funcionalidade das instituições liberais e republicanas e que elas pudessem resolver os problemas do Brasil já que a República dos sonhos de muitos defensores do regime não se concretizou.
O descontentamento com a organização política da república brasileira e com a forma de governo que as oligarquias regionais conduziram o Brasil foi explicitado já no início do regime republicano por intelectuais que colaboraram com a sua construção. Além disso, na medida em que os anos passaram, a desigualdade, a corrupção e as crises econômicas colaboram com a insatisfação e geraram mobilizações de setores de direita e de esquerda. A profunda regionalização do país que a Política dos Governadores estimulou, a miséria em que viviam os brasileiros, a ineficiência do Estado em atingir e atender as necessidades básicas do povo, os mandos e desmandos dos coronéis e os abusos a que estavam submetidos os operários que organizados em sindicatos que exigiam melhores condições de trabalho foram alguns dos elementos que a crítica interna ao modelo político brasileiro se apoiou para avaliar a estrutura política brasileira (AMADO, 1981).
Descrentes em relação às instituições republicanas, alguns críticos defendiam que no Brasil as ideias estavam fora do lugar e que os regimes europeus não se adequavam a nossa realidade. Dessa forma, uma geração profundamente influenciada por Alberto Torres se propôs a identificar os problemas brasileiros, descobrir as origens e criar soluções nacionais para eles. Entre os intelectuais da “geração que Alberto Torres sonhou” (PIAZZA, 2007) estava Oliveira Viana, antiliberal que apresentou sua representação original do bandeirante. Para ele, o
bandeirante era socialmente um aristocrata, racialmente um ariano e politicamente um caudilho turbulento. Oliveira Viana tomou o desbravador paulista como personagem central de uma interpretação da história nacional que tinha como propósito mostrar como as instituições políticas liberais e federalistas eram inadequadas à realidade nacional.
Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia se apropriaram do bandeirante de forma diferente da elite paulista que elaborou o discurso propugnado às vésperas da proclamação da República. Para os intelectuais em questão, o bandeirante era um vigoroso brasileiro que, desrespeitando as ordens da Coroa já demonstrava seu espírito nacionalista, integrando as afastadas regiões do Brasil, desenhando nossas fronteiras e se miscigenando com as populações africanas e indígenas.126 Cabe notar que no período em que Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia produziram suas obras, as teses eugênicas não encontram mais ressonância no Brasil, embora a questão racial ainda fosse central nas produções dos poetas em detrimento da ideia de cultura. (CAMPOS, 2007). Segundo tais intelectuais, além de promoverem essas benfeitorias à nação, os astutos bandeirantes eram dotados de espírito cooperativo e de autogovernabilidade, sem que isso significasse um desprezo pela iniciativa individual que era o que movia esses heróis em busca das riquezas do solo, principalmente ouro e diamantes.
Segundo Ferreira, a temática do bandeirantismo ganhou terreno durante os anos de 1910 e 1920, momento em que os cronistas dos séculos anteriores foram relidos, além de um interesse coletivo, comungado por diversos estudiosos que se dedicaram a recolher e analisar documentos que compreendiam manuscritos, mapas e roteiros de deslocamentos, inventários, etc. Assim, os bandeirantes foram compreendidos por historiadores e romancistas desse período como artífices do progresso regional, que refletia na cafeicultura, nas locomotivas, na metropolização da capital e nas indústrias. Os membros do IHGSP, ao tomarem parte nesse processo, publicaram na revista da instituição e elaboraram uma história épica cujos ingredientes eles mesmo delinearam: a busca das origens, as fontes da tradição, o
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Se o Jeca Tatu de Lobato era degenerado pela sua origem mestiça, a partir da década de 1910 ele pode se regenerar já que não era mais o fator biológico que fazia dele um eterno doente, mas a falta de cuidados com a saúde, com a higiene, com hábitos alimentares, etc. Dessa forma, o Estado passou a intervir na esfera da vida privada criando mecanismos que garantisse o controle dos surtos de doenças, tanto nas zonas urbanas quanto nas áreas rurais.
enaltecimento do passado regional, o elogio às grandes personagens históricos, o culto ao bandeirantismo, a retomada do indianismo e a romantização da cultura popular, especialmente do mundo rural,
simbolizando a permanência de valores antigos no fluxo
contemporâneo.127
O Instituto Histórico Geográfico de São Paulo foi fundado em novembro de 1894 no salão nobre da Faculdade de Direito. Buscando abalar a história da nacionalidade até então construída pelo IHGB, os membros dessa instituição ambicionavam reescrevê-la de ponta a ponta, tirando de foco os debates indianistas e regionalismos românticos a partir de novos patrocínios. No primeiro volume da revista do IHGSP, esse objetivo foi anunciado sem disfarces: "a história de São Paulo é a própria história do Brasil" (RIHGSP, 1895, p. I apud SCHWARCZ, 1993, p. 126) e o mito bandeirante, por sua vez, surgido no final do século XIX, se coadunava sobremaneira às intencionalidades desses intelectuais ao ser compreendido a partir de uma conotação heroica, onde foi atribuído ao bandeirante o papel central na integração nacional e no reconhecimento da terra.
Na literatura, o caso de Júlio Ribeiro, autor da primeira leva de romances paulistas e que tinha como temática a sociedade regional nos interessa para discutirmos o papel do bandeirantismo na formação de uma identidade regional e a inserção desse debate em relação ao conjunto da nação. Ribeiro definiu um lugar privilegiado aos paulistas na formação da nacionalidade brasileira ao dilatar o território, descobrir riquezas, criar instituições e formas culturais próprias. Lançando as bases de argumentos que foram retomadas posteriormente pelos membros da vertente verde-amarela, esse autor contribuiu para a formulação de uma narrativa que articulou o isolamento no planalto e o desafio da procura do sertão, exuberante e monstruoso.
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A expansão bandeirante e o povoamento de São Paulo foram estudados de modo a compreender os processos de colonização do Brasil – e daí a importância dos levantamentos geo-históricos sobre as capitanias, seus donatários e sesmeiros, além dos roteiros dos bandeirantes, esses compreendidos como fruto da fusão entre o nativo e o europeu e aclamados como desbravadores do território nacional. Essa criação ocorria no interior das letras históricas, mais do que nos domínios científicos e muitas foram elaboradas como parte dos preparativos e na esteira das comemorações do centenário da Independência do Brasil, no auge do ufanismo paulista (FERREIRA, 2001).
Para o romancista, o sertanejo era o único tipo humano capaz de dominar o mundo selvagem devido aos seus conhecimentos, portando-se com robustez frente aos desafios cotidianos e mantendo vivas suas forças instintivas. Entretanto, embora encontremos nesses romances inaugurais da literatura de São Paulo as primeiras análises dos costumes locais e a fixação dos pilares de um enredo histórico paulista, foi somente a partir da metade da década de 1910 que ganhou corpo uma produção nitidamente propensa a enraizar e expandir o modelo de um imaginário regional (FERREIRA, 2001).
O grande filão da literatura paulista, sucesso de público e de crítica, estava justamente relacionado aos escritores regionais e era composto por contos, novelas, romances e versos ambientados na roça, sobretudo, ou em pequenas cidades do interior. As personagens dos enredos eram normalmente os caboclos e a obra se alimentava de uma ótica folclórica ou das culturas do povo, pitoresca e anedótica. A literatura caboclista, já vislumbrada em textos dos três últimos decênios do século XIX, se relacionava aos estudos etnológicos e históricos promovidos pelo IHGSP e pelo Museu Paulista, sendo impulsionada pelo olhar científico do homem letrado urbano que a irradiava em enfoques naturalistas, sem que isso acarretasse na eliminação de uma sensibilidade romântica, perceptível no fundo nostálgico e nos tons idílicos com que se descreviam as paisagens rurais. A obra Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, publicada em 1917, foi comumente considerada pela crítica uma produção caboclista. Porém, foi na década de 1920, no auge do ufanismo modernista, que o poeta se inseriu definitivamente no debate regionalista iniciado meio século antes.
O caboclismo foi uma das facetas da pregação patriótica e jornada da qual participavam diversos intelectuais paulistas, como Júlio de Mesquita Filho, Amadeu Amaral e Monteiro Lobato, além de estudantes de Direito, políticos e outros membros da elite regional. Todavia, entre as décadas de 1920 e 1930 foi Paulo Setúbal o maior expoente desse gênero literário, publicando diversas obras que contavam a história do Brasil de forma romanceada e realizava, assim, um trabalho educativo, cultural e patriótico na divulgação de um saber anteriormente reservado a poucos. Promovendo uma história comovente a partir de análises documentais, Paulo Setúbal pretendia apanhar o leitor a partir de uma identificação afetiva com o passado brasileiro e paulista e, sucessivamente reeditados, seus livros foram sucesso de público e constantemente elogiados pela crítica especializada, pelo menos até a
década de 1940.128 Cassiano Ricardo não poupou elogios à esteira de produção literária de Setúbal ao assumir sua cadeira na ABL, em 1937.129
No Brasil, foi na segunda metade do século XIX que se formularam as bases para a elaboração de uma narrativa sobre a nação e a constituição de um Estado-nacional, onde haveria de ter um território, um governo e um povo organizados dentro de uma unicidade.130 Todavia, como bem questiona Velloso, como criar essa unicidade para um povo com características tão diferentes? O que era o Brasil? Um país dividido pelas diferenças regionais ou um conjunto homogêneo? E o regionalismo? Era um sinal do nosso atraso, um obstáculo à atualização da cultura brasileira ou o local da verdadeira identidade nacional? Foi passada a primeira fase do modernismo que esse embate se aprofundou entre as vertentes dissidentes da Semana de Arte Moderna de 1922 (VELLOSO, 1993).
É nessa esteira de debates que Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia se inseriram nas primeiras décadas do século XX,
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Segundo Ângela de Castro Gomes, durante o Estado Novo, Paulo Setúbal era saudado como o mais lido e popular entre os romancistas históricos brasileiros. Embora não fosse um historiador tout court, ele era reconhecido como um escritor vocacionado para divulgar a história por meio de uma ficção que não prejudicava o que ela tinha de essencial (GOMES, 1996, p. 120)
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Entre suas obras com filão regionalista, destacam-se: A marquesa de Santos (1925), O príncipe de Nassau (1926), As maluquices do imperador (1927), A bandeira de Fernão Dias (1928), Nos bastidores da História: episódio históricos (1928), Os irmãos Leme (1933), O ouro de Cuiabá: crônicas históricas (1933), El-Dourado: episódio histórico (1934), O sonho das esmeraldas (1935), O Romance do Prata (1935). Em relação ao livro A marquesa de Santos (1925), Plínio Salgado publicou, no 11º número da revista Novíssima, uma crítica elogiosa à obra em que valorizou a tentativa de criar um novo método histórico (Novís. n.11, 8/9.25, p. 13-6)
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Praticamente um século divide as obras de Cassiano Ricardo, Marcha para Oeste (1940) e do naturalista e viajante bávaro Karl F. Philipp von Martius, Como escrever a história do Brasil (1844) e entre elas, o que temos em comum é um projeto de identidade coletiva a partir da mistura entre três elementos raciais - português, índio e negro. Foi von Martius que traçou o que seria as linhas mestras de um projeto histórico que poderia garantir uma identidade ao Brasil a partir de uma compreensão sobre o nosso povo e sobre o nosso território, debate que foi sendo construído ao longo do século XIX e XX por diversos intelectuais, como Paulo Prado, em seu Retrato do Brasil (1928) e Sérgio Buarque de Holanda, na obra Raízes do Brasil (1936), entre muitos outros.
principalmente a partir dos anos 1920. Mergulhados nas questões regionalistas, tais intelectuais buscaram compreender as especificidades do Brasil no plano cultural, sem que isso acarretasse o abandono da tradição discursiva que estava sendo fermentada em São Paulo há décadas. Dos anos 1930 em diante, esses intelectuais ampliaram seus debates e a partir das mudanças necessárias, adaptaram suas propostas regionalistas de modo a defender a hegemonia paulista no ideário estadonovista. Nota-se que, embora discutissem em campos diferentes, primeiramente abordando a questão cultural e em um segundo momento a questão política, a retórica que legitimava os seus discursos era a mesma: o Brasil era original graças à intervenção do elemento bandeirante que forjou uma sociedade sem precedentes e garantiu o sucesso da nação, que deveria reencontrar seu verdadeiro sentido, cultural, social e político. Durante o Estado Novo, esses articuladores buscaram interpretar a realidade brasileira com os olhos de intelectuais paulistas e ofereceram ao conjunto da nação uma análise que contemplava as suas discussões sobre a cultura, a política e a formação nacional da década de 1920, quando mergulhados no regionalismo da corrente verde-amarela do modernismo.
2.2 A nação aos olhos dos bandeirantes: Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e a proeminência paulista
Embora não tenham sido as produções de Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia que iniciaram o debate sobre o legado dos bandeirantes, nem foram eles os principais expoentes da literatura regionalista paulista, suas trajetórias intelectuais e suas históricas aproximações com os círculos de poder nos ajudam a compreender a inserção de elementos da paulistanidade no discurso ideológico do regime autoritário. Assim como outros debates que estavam em pauta anteriormente à instauração do Estado Novo, o mito bandeirante foi apropriado pelo regime que buscava se afirmar e se legitimar; cabe resgatarmos, mesmo que de forma sintética, a defesa de um ideal de Brasil defendido por Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia, este calcado em um projeto regionalista para a nação.131
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Segundo Ângela Alonso, ao analisar a geração da década de 1870, período de crise do Brasil Monárquico, concluiu que não havia autonomia no campo intelectual, mas sim sua submissão ao universo da política. Segundo a autora, era impossível distinguir intelectuais de políticos no período. Assim, essa
Mailce Magri defendeu em sua dissertação Juntos mais
desiguais: um desejo de "nação" paulista não-realizado, que o modelo
de nação paulista não vingou. Sem cair em relativismos, podemos dizer que, embora não tenha se realizado na sua completude, aspectos da tradição paulista foram incorporados pelo Estado Novo como forma de