Uma das facetas interessantes em estudos relacionado à história dos intelectuais consiste na análise das redes de sociabilidade constituídas entre eles. Esse campo de estudo nos possibilita apreendermos suas relações não apenas através dos inegáveis interesses sociopolíticos que os movem e os agrupam, mas também a partir da construção de laços pessoais de amizades duradouras ou afeições efêmeras. Além disso, pode-se mapear as ideias, tradições, comportamentos, projetos e formas de organização que relacionam os indivíduos aos grupos a partir das suas afirmações identitárias e seus esforços de reunião. (GOMES, 1996)
O meio intelectual constitui um pequeno mundo estreito onde os laços se atam em torno da redação de uma revista ou de um jornal, de um grupo literário ou de um conselho editorial (SIRINELLI, 1996). Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, ao se encontrarem na redação da revista Novíssima e do Correio Paulistano, criaram um espaço de sociabilidade que não estava apartado de interesses políticos. Assim, conforme Sirinelli,
As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão - pelas amizades que as subentendem, as fidelidades que arrebanham e a influencia que exercem- e de exclusões pelas posições tomadas (...). Ao mesmo tempo que um observatório de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são aliás um lugar precioso para a análise do movimento das idéias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nesta dupla dimensão. (SIRINELLI, 1996, p. 249)
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O autor se equivoca em relação às datas, sendo que o primeiro número de Novíssima foi publicado em dezembro de 1923, período em que o autor assume a sua mudança no que diz respeito à questão estética de seus versos.
Sirinelli nos explica que os grupos de intelectuais se organizam a partir de uma sensibilidade ideológica ou cultural comum e a partir de afinidades difusas, mas que nem por isso deixam de ser determinantes. 69 Assim, a sociabilidade, como expõe Gomes, é “um conjunto de formas de conviver com os pares, como um domínio intermediário entre a família e a comunidade cívica obrigatória” (GOMES, 1993, p. 64). Logo, as redes de sociabilidade formam um grupo permanente ou temporário, independente do grau de institucionalização, no qual o indivíduo escolhe participar. Tanto os jornais quanto as revistas são empreendimentos que reúnem um conjunto de indivíduos e agregarem pessoas em torno de ideias, crenças e valores que se pretende difundir a partir da palavra escrita.
Todavia, esses projetos coletivos representam interesses variados, que por vezes se apresentam como contraditórios. Essas publicações são entendidas, então, como fruto das relações, por vezes conturbadas, da empresa proprietária, do diretor da publicação, dos colaboradores, dos anunciantes, etc., de forma que, acredito não ser prudente encará-las como órgãos dotados de uma vontade coletiva livre de contradições internas, de interesses pessoais e de conflitos entre os envolvidos.
1.2.1 Grupo Verdamarelo: o modernismo em sua faceta político-autoritária
Grande parte dos trabalhos que discutem as aproximações entre Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia enfoca o período correspondente entre os meses finais de 1923, momento da gestão da revista Novíssima a 1929, com a publicação do manifesto Nhengaçu
Verde-Amarelo, em maio. Notadamente, devido a sua participação na
Semana de Arte Moderna de 1922, Menotti Del Picchia parece ter sido mais lembrado pela crítica literária e pela história da literatura em relação a Cassiano Ricardo, mesmo que muitas vezes rotulado jocosamente de falso modernista. O último, por sua vez, aparece recorrentemente nas discussões historiográficas como ideólogo do
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Outra ideia que corrobora para a compreensão dos vínculos entre os intelectuais é a proposta por Pierre Bourdieu. Segundo o sociólogo, a noção de campo intelectual é compreendida como um campo social que, embora possua suas especificidades, também é movido por lutas, estratégias, interesses, lucros. Esse campo estaria relacionado ao campo político que por sua vez atuaria na definição do estado do primeiro através da formação de um sistema de posições estéticas e políticas em relação aos intelectuais (BOURDIEU, 2002).
Estado Novo, além de poeta de Martim Cererê. Essas constantes aproximações entre Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia por parte dos analistas não ocorre por acaso: até chegarem à direção dos dois principais jornais de divulgação do regime, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia nutriram uma relação de longa data, iniciada, segundo o poeta de Juca Mulato, no período em que Cassiano Ricardo dirigia a revista Novíssima – momento que iniciam seus duradouros projetos coletivos.
Com trajetórias intelectuais próximas, ambos possuíam inclinações políticas e culturais que os atrelaram às mesmas instituições entre as décadas de 1920 a 1940. Essa amizade, segundo Cassiano Ricardo, poderia ser resumida em “onde eu estou, está Menotti. Onde está Menotti, estou eu.” Assim, na ABL, na APL, no DEIP, no grupo A
Noite, Bandeira e verde-amarelo e em muitos outros lugares, “numa
reciprocidade de admiração e afeto que só existe entre irmãos ou entre aquêles que sabem valorizar a amizade a qualquer hora. Sem hora certa. Porque ela é que é certa, quando verdadeira. Ela é que conta o tempo” (RICARDO, 1970, p. 138). Dessa forma, Cassiano Ricardo definiu Menotti Del Picchia, como seu “irmão mais próximo em poesia e brasilidade” (Ibidem, p. 252). Este, por sua vez, em 1956 para a Revista da ABL, assim se expressou:
Cassiano está ligado à minha vida mental de uma maneira íntima e absoluta, porque foi com ele que, em São Paulo, levantei, em 1923 e 1924, depois da Semana de Arte Moderna, a bandeira da revolução literária, iniciando o movimento de idéias que atingiu a todos os setores da vida intelectual brasileira (Rev. ABL, 1956, p. 170 apud CAMPOS, 2007, p. 103).
Essa aproximação entre os dois não se inscreve somente no plano literário e cultural, uma vez que para Menotti Del Picchia, a Semana de Arte Moderna de 1922 teria seu desdobramento político com o grupo verde-amarelo, formado entre o final de 1923 e o início de 1924: “O movimento literário de 1922 – gerador do grupo ‘verde e amarello’ – tomou uma direcção que não era de todo imprevista para alguns dos seus creadores: uma direcção politica” (DEL PICCHIA, 1935, p. 5). Em suas memórias, relembrando os acontecimentos que os separavam em meio século, o autor explica que
da nossa parte, formou-se a ala “verde-amarela” com Plínio Salgado, Cassiano, Cândido Mota Filho e Alfredo Elis Júnior. O movimento de início puramente estético, começava a fermentar um subconsciente político. Êsse já estava programado, em linhas gerais, no discurso do Trianon de Oswald e no artigo que escrevi no dia seguinte a essa festa revolucionária, ou seja, no dia 24 de janeiro de 1921, na “Maré das Reformas” (DEL PICCHIA, 1972, p. 165)
Mesmo que a festa em questão tenha ocorrido em 9 de janeiro de 1921, conforme exposto, com esse artigo intitulado Na Maré das
Reformas, publicado no Correio Paulistano, o poeta buscou delinear o
rompimento com o passado, além de proclamar a independência mental brasileira e o consequente abandono dos ditames europeus a partir de uma nova técnica de representação da vida e de expressão verbal na criação literária. Em reação ao status quo da cultura nacional, a reforma seria o repúdio das velhas técnicas e temáticas e a renovação da linguagem e sentimentos anacrônicos diante do uso reiterado de modelos estrangeiros e fórmulas poéticas ultrapassadas (DEL PICCHIA,
CP, 24.1.21, p. 1, c.1-2).
Foi na redação do Correio Paulistano que Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado,70 intelectuais ligados ao verde- amarelismo, se aproximaram. Compreendida como a corrente mais nacionalista e primitivista da Semana de 1922, da qual é considerada um desdobramento, estavam associados ao grupo, além desses três intelectuais, Cândido Motta Filho71 e Alfredo Ellis Júnior.72 (DEL
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Plínio Salgado foi escritor, jornalista e líder político brasileiro. Fundador e líder da Ação Integralista Brasileira (AIB), partido de extrema-direita inspirado nos princípios do movimento fascista italiano, na década de 1920 compôs a vertente verde-amarela do modernismo. Em relação à sua condição social, talvez seja o autor do grupo verde-amarelo que enfrentou maiores dificuldades financeiras, por ter perdido seu pai aos 16 anos. Nascido no interior de São Paulo, em São Bento do Sapucaí, assim como Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida, ingressou no curso ginasial em Pouso Alegre, Minas Gerais. Desde jovem colaborou em diversos periódicos, sendo convidado por Nuto Santana, orientador da seção literária do Correio Paulistano, para trabalhar na capital, inicialmente como revisor. Membro da APL, Plínio Salgado foi fundador e colaborador de diversos periódicos. (CÁPUA, 2000)
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Filho de advogado e professor de Direito Penal na Faculdade de Direito de São Paulo, além de deputado, senador e Secretário de Estado dos Negócios da
PICCHIA, 1972, p. 165). Além desses nomes que assinaram o manifesto do grupo em 1929, Raul Bopp,73 Francisco Pati74 e Alarico Silveira75