Descartes se tornou conhecido por seus notáveis trabalhos nas áreas filosófica, física e matemática. É considerado personagem importantíssimo da época da modernidade e sua filosofia ficou conhecida como racionalismo.
Os aspectos da vida de Descartes aqui expostos, escolhidos após a leitura da obra de Ivan Lins, sob o título “Descartes: época, vida e obra”, datada de 1964, são aqueles que ressaltam o empenho do filósofo por encontrar fundamentação irrefutável para suas idéias. O caminho escolhido pelo autor foi dedicar-se a estudos que se baseavam em princípios matemáticos, já que este passou a considerá-los um meio confiável e racionalmente plausível de comprovação. Inclusive as idéias que serão objeto central do próximo item (e que são, como já mencionado, as consideradas mais fundamentais para este trabalho) foram estudadas sob o prisma matemático e racionalista, para, assim, constituírem um conhecimento verdadeiro.
O filósofo provinha de uma família de posses, pertencente ao primeiro grau de nobreza. Ele e seus dois irmãos foram criados por sua avó materna, devido ao falecimento de sua mãe, um ano e meio depois do nascimento do autor. Seu pai casou-se novamente, mas sempre manteve contato.
Foi matriculado com oito anos de idade no Colégio Real de La Flèche, em Anjou, e passou neste colégio jesuíta quase dez anos, sob um ensino fundamentalmente escolástico. As disciplinas por ele cursadas foram física, lógica, metafísica e moral, (englobadas sob a denominação de “filosofia”), medicina e jurisprudência (estas pertencendo a um bloco chamado “filosofia aplicada”), além de matemática.
Descartes, posteriormente, em “O discurso do Método”, declara sua decepção e descontentamento com os saberes naquela etapa recebidos.
Tendo sido educado nas letras desde a minha meninice e, como me tornassem convencido de que por meio delas podia alcançar um
conhecimento claro e certo de tudo quanto é útil à vida, tive extremo
desejo de aprendê-las. Assim que concluí, entretanto, todo esse
curso de estudos ao término do qual se costuma ser tido na classe
de doutos, mudei totalmente de opinião. (...) Isso me dava a
liberdade de julgar por mim os outros e pensar que não houvesse no
mundo nenhuma doutrina tal como anteriormente me tinham feito esperar (1978, p.16-17).
Somente a matemática estava isenta desta visão que Descartes havia construído sobre os estudos realizados no colégio. Diferenciando-a dos demais conhecimentos sem fundamentos racionalmente comprováveis, a matemática revelava-se um conhecimento seguro. A busca pelo conhecimento absoluto, verdadeiro, parece, lendo apenas a obra do autor, ser uma característica particular de Descartes, mas, na realidade, esse ceticismo e procura da verdade que pudesse ser comprovada eram constantes no pensamento do final do século XVI e início do século XVII.
Para contrapor sua experiência no colégio e acreditando poder achar conhecimento verdadeiro e certo ou, ao menos, conseguir formulá-lo observando diferentes lugares e pessoas, inicia um período de viagens. Porém, destas viagens, sintetiza que a cultura, os costumes, não permitem o desenvolvimento de conhecimentos exatos, nem aptos a verificações, pois encontra nesta forma empírica a mesma incerteza, que criticava, anteriormente sentida no La Flèche.
Graduou-se em Direito, mas não exerceu a profissão. Decidiu estabelecer experiências no âmbito militar e, assim, alistou-se como soldado voluntário no exército de Maurício de Nassau, na Holanda. Ali eram desenvolvidas atividades voltadas por excelência ao campo das matemáticas, como o aperfeiçoamento de armas e a construção de prédios e fortalezas. O interesse de Descartes por este tipo de atividades fez com que o filósofo achasse a permanência naquele ambiente uma escolha conveniente. Nessa época iniciou uma amizade com o duque filósofo, doutor e físico Isaac Beeckman, que também era conhecido por seus conhecimentos em mecânica e matemática. Paralelamente ao fortalecimento desta amizade, também ganhava força o interesse de Descartes pelas ciências matemáticas.
Viu-se, não exclusivamente, mas também por esta relação amistosa com Beeckman, motivado e impulsionado a propor uma fórmula que pudesse ter aplicação geral, baseada no racionalismo, e que fosse capaz de permitir a obtenção
indiscutível, comprovada e universal de conhecimento através de regras gerais que suprissem estes preceitos sem importar qual fosse o assunto abordado.
O filósofo dedicou a seu amigo o “Compêndio de Música” que era totalmente voltado para as indagações matemáticas encontradas nas composições musicais. Beeckman, por sua vez, atualizava-o dos progressos matemáticos e isto permitiu a Descartes avançar na área da álgebra e da geometria, sendo também reconhecido historicamente pela habilidade em ambas e por suas novas propostas de fusão entre as duas, gerando a geometria analítica e o sistema de coordenadas que levam seu nome, as coordenadas cartesianas.
Alistou-se em outros exércitos, concluindo sua carreira militar definitivamente em 1623. Esteve um período novamente na França e voltou à Holanda, já que o país oferecia mais tranqüilidade e liberdade de pensamento e expressão. Neste período, Descartes produziu uma seqüência de obras sempre respeitando as características básicas de desenvolver raciocínio procurando a demonstração dos fenômenos. Assim são redigidos “Eu caminho mascarado” e “Regras para a Direção do Espírito”, além de suas experiências de ótica feitas também seguindo estes princípios.
Sabendo da perseguição sofrida por Galileu pela Inquisição e da retratação que este teve que fazer para se salvar da condenação, Descartes decidiu não publicar o “Tratado do Mundo”. Mesmo vivendo na Holanda, país protestante no qual a Inquisição não poderia condená-lo, optou por agir com prudência e não tornar públicas suas idéias através da obra. Esta obra englobava estudos de Física e tinha como tema central o heliocentrismo, o mesmo abordado por Copérnico e Galileu. Também nesta época, dois anos após a morte de sua filha Francine, – que falecera precocemente, com cinco anos de idade – desenvolveu o “Discurso sobre o Método para Bem Conduzir a Razão e Buscar a Verdade através da Ciência”, texto mais famoso do filósofo, que era na realidade um prefácio de três estudos denominados “A Dióptrica”, “Os Meteoros” e “A Geometria”.
Conhecido atualmente como “Discurso do Método” ou “Discurso sobre o Método”, as idéias nele contidas ganharam extremo impacto e reconhecimento na época, chegando seus reflexos até os dias de hoje. Principalmente graças a este texto é que Descartes é denominado usualmente “o pai da filosofia moderna”, e sua frase “penso, logo existo”, que sintetiza o crédito máximo que o autor confere ao ato de duvidar, é de enorme reconhecimento.
Após esta obra mais algumas se sucederam, sempre levando em conta o modelo por ele desenvolvido que buscava, constantemente, a comprovação daquilo que era objeto de estudo. “Meditações sobre a Filosofia Primeira”, com as seções de “Objeções” e “Respostas” é um exemplo disso. Nas “Objeções”, os autores, que eram eruditos ligados à Filosofia e à Teologia além de outras áreas científicas das áreas exatas, levantavam questionamentos a pedido de Descartes e nas “Respostas” o filósofo os esclarecia, remetendo-se ao método elaborado para esclarecer as objeções que lhe eram formuladas.
Descartes, apesar de ser católico, envolveu-se em controvérsias de cunho teológico geradas pelas “Meditações”, sendo acusado de ateísmo pelo presidente da Universidade de Utrech e condenado pelas autoridades holandesas em 1642 e 1643. O filósofo teve ajuda do Príncipe do país, evitando que as conseqüências fossem mais severas.
Em 1645, a mesma universidade proibiu qualquer manifestação ou trabalho defendendo ou atacando os princípios cartesianos, já que estes haviam causado grandes tumultos depois da publicação dos “Princípios da Filosofia”. O “Tratado das Paixões”, última obra em vida, também data dessa época.
Nos anos de 1644, 1647 e 1648, viaja a França, onde conhece Pascal. Após aceitar lecionar sobre sua filosofia para a Rainha Cristina, da Suécia, muda-se para Estocolmo e leciona para a rainha todos os dias antes do amanhecer, o que acarreta o desencadeamento de uma pneumonia fatal no filósofo, que acaba por falecer em 1650.
Atualmente, após três mudanças de local, seu túmulo está na igreja de St. Germain-des-Près, localizada na França.
As obras de Descartes foram colocadas pela Igreja Católica Romana no Índice dos Livros Proibidos, em 1667, após seu falecimento. Foram achadas, também após sua morte, além de seus textos oficiais, inúmeras correspondências que o filósofo mantinha com outros estudiosos. Nelas, o tema mais abordado é relacionado com as questões de interação entre o corpo e o espírito, trazendo explicações de aspectos fisiológicos, anatômicos e mecânicos que pudessem explicá-la.
Partindo destas primeiras considerações que relatam o contexto histórico- social em que se encontrava inserido Descartes e havendo tratado também, sintetizadamente, da vida e formação do filósofo, passamos a focalizar no próximo
tópico as idéias principais defendidas por ele. Isto foi feito, principalmente, através de leituras diretas de suas obras, mas também de estudos sobre análises terciárias encontradas em outros textos e livros. Isto foi um ponto muito importante na pesquisa, pois permitiu descobrir passagens que o autor colocou em suas obras, que refletem verdadeiramente suas idéias; a partir, apenas, de estudos de outros autores sobre o filósofo e sua obra, não seria possível alcançar o âmago dos pensamentos deste e, se fosse feito somente desta maneira, a análise e compreensão dos aspectos desenvolvidos pelo autor, em relação ao dualismo humano e racionalismo, ficariam incompletos e/ou alterados da realidade. É importante esclarecer que as idéias que aqui serão descritas e analisadas não são as únicas desenvolvidas por Descartes, mas que foram escolhidas para o desenvolvimento da pesquisa por sua ligação direta com o tema tratado.