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Como dissemos, é na chamada segunda fase do pensamento Heideggeriano que a poesia e a linguagem ganham importância primordial. Poesia, para Heidegger, tem uma conotação completamente diferente do que reza o senso comum ou os meios intelectuais.

Temos que ter cautela e mantermo-nos um passo atrás

(90,127,129,132,136,156,169,176,184) quando nos depararmos com essa palavra em seus escritos.

O que Heidegger chama de dichtung, termo traduzido aproximadamente por ditado

poético (105,195) ou discurso poético, é algo que se encontra em toda e qualquer

manifestação artística e “chega, até mesmo, nesse autor, a ultrapassar os limites da própria arte, constituindo uma crítica à noção moderna de técnica, esta que manteria estreita vinculação com o domínio da ‘estética’” (WERLE, 2010, p. 97). O ditado poético extrapola o que compreendemos por arte, e através da composição desse campo outro, Heidegger critica o campo da estética como uma disciplina entre outras no seio da metafísica ocidental. Em outro trabalho (CLINI, 2010) já discorremos sobre as críticas que Heidegger faz à estética como disciplina e área de conhecimento, na esteira das críticas que tece à metafísica. Não é nosso objetivo retomar essa discussão agora. Precisamos ter claro, apenas, que Heidegger se refere à arte fora do horizonte da estética. Compará-lo com autores teóricos sobre arte, ou mesmo críticos de arte, é ignorar o lugar a partir do qual Heidegger situa suas críticas. Arte, para Heidegger, diz de um acontecimento e um convite, de um lugar emblemático de condensação ôntico-ontológica.

Poderíamos iniciar nossa aproximação do significado de dichtung, com um passo atrás (90,127,129,132,136,156,169,176,184), lembrando que para compreender algo dessa

69 Grifo da autora.

magnitude devemos apenas escutar o que se deixa vislumbrar entre um passo e outro. “Dou uma pequena pista para quem quiser escutar: Não se trata de ouvir uma série de frases que anunciam algo; o que importa é acompanhar a marcha de um mostrar (HEIDEGGER, 1999d, p. 252)”. Assim, dichtung éum modo de fala que não exclui o silêncio, é um modo de expressão que não depende de um sujeito que se expresse, é um gesto que não se institui em feito, é um ato que se dispersa nos interstícios do mundo, é uma palavra que escapa de qualquer tentativa de explicação teórica. É um ditado que se esquiva dos axiomas, é um provérbio que se mostra se escondendo. É linguagem sem ser linguística. É frase sem ser sintaxe. É poema na acepção mais densa e sublime, e ao mesmo tempo mais simples, que podemos alcançar.

Poesia, para Heidegger, não tem a ver apenas com o poema como conhecemos vulgarmente, em oposição à prosa. “O que se opõe ao puramente dito, ao poema, não é a prosa. Prosa em sentido puro nunca é ‘prosaica’. A prosa é tão poética e, por isso, tão rara como a poesia” (HEIDEGGER, 2003b, p. 24). Poesia, nesse sentido, para Heidegger, também não é oposição ao discurso cotidiano. “Poesia nunca é propriamente apenas um modo (melos) mais elevado da linguagem cotidiana. Ao contrário. É a fala cotidiana que consiste num poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa” (HEIDEGGER, 2003b, p. 24). Há algo no discurso cotidiano banal que se mostra se escondendo, o ditado poético é algo raro, porém nunca nulo, no dia-a-dia.

Para entendermos o que Heidegger quer dizer com ditado poético – dichtung, precisamos lembrar do vínculo intrínseco entre familiaridade e negatividade, que são oriundas de todo acontecer (41,34). O Dasein é esse ente estranho a si mesmo, que vive numa casa vazada, num ninho hesitante, e tem os poros abertos preenchidos pelo nada.

O que então temos é o fato de o homem ser um ser estranho, tomado pelo distanciamento. Ele não está no início de sua existência em casa, junto à sua origem, mas se encontra exilado de si mesmo. A familiaridade, a essência da proximidade, deve ser conquistada a partir dessa distância em relação a si e às coisas. O discurso poético será para Heidegger uma potência que buscará combinar essa distância com a proximidade, o estranho com o próprio, a fim de que o ser histórico de um povo possa ser pensado em toda a sua extensão (WERLE, 2010, p. 105).

Poderíamos afirmar que o ditado poético pode revelar-se no “dizer projetante”70, que

é dizer privilegiado, exalta a tensão entre familiaridade e negatividade, entre ser e nada. O

70 Dichtung é um termo que já foi traduzido por ‘ditado poético’, ‘discurso poético’, e que também pode

ditado poético conjuga atores opostos que, de tão íntimos, parecem inconciliáveis. Mais à frente, Werle afirma que “para captar o incaptável é necessário o dizer poético, que está sempre acima dos mortais”. O ditado poético não é uma criação humana, ele existe para além do que qualquer humano é capaz. São os humanos, os mortais, porém, que podem consagrá- lo e venerá-lo naquilo que consentem. “O dizer projectante é o que, no pôr à disposição do dizível, traz simultaneamente ao mundo o indizível enquanto tal. É um tal dizer que, para um povo histórico, são pré-cunhados os conceitos do seu estar-a-ser, i.e., da sua pertença à história do mundo” (HEIDEGGER, 2012, p.79).

O ditado poético não formula preceitos de como algo deve acontecer, uma vez que, para Heidegger, o belo não está referido a qualquer padrão, gosto ou sensação, mas sim, é aquilo que vem à tona (176).

Na obra de arte, não tem lugar uma determinação específica do belo que pode ser alcançada objetivamente ou experimentada subjetivamente. Ao contrário, a obra de arte é um espaço no interior do qual algo acontece. A este algo, por sua vez, Heidegger dá o nome: verdade. No vir-a-ser propriamente dito da obra, a verdade se dá, ou seja, ela se põe em obra. Não é o belo que interessa aqui ou mesmo os juízos estéticos do sujeito da fruição. Ao contrário, o que está em jogo aqui é uma nova determinação da verdade (CASANOVA, 2013, p. 151).

O ditado poético é algo que consagra a linguagem cunhada na verdade, entre mistério e ser. A união entre verdade e linguagem, levada a termo no pensamento do segundo Heidegger, evidencia a importância de não deixarmos esse pensamento de lado quando procuramos inspiração para uma prática clínica. Verdade, cabe lembrar, permeada pela

Aletheia (63). Cabe a nós pensarmos, por exemplo, se há dichtung no acontecimento clínico,

ou se poderíamos, ao menos, buscar por ele. Melhor ainda: aguardar por ele, tê-lo como horizonte e base. Não estamos nos referindo a fazer poesia (strictu senso) na clínica, algo que seria, no mínimo, ingênuo, para não dizer patético. Vattimo (1996, p.140) nos lembra que linguagem poética não quer dizer, necessariamente, linguagem da poesia, mas sim, linguagem em toda sua força originária e criadora (33).

Heidegger fala do poetar do ditado poético como um dizer no sentido de uma revelação indicadora (Heidegger, 2004, p. 37). “A poesia é apenas um modo de projetar clareante da verdade, i.e., do poetar [ditar poético – Dichten] neste sentido alargado” (HEIDEGGER, 2012, p.77). Podemos pensar o ditado poético como algo que nos provoca e invoca, nos inspira ao trânsito entre proximidade e distância, presença e ausência. Algo que

passa por nós e nos leva para o mundo o qual já sempre somos. “Provocar é evocar uma proximidade. Mas evocar é retirar o que se evoca da distância que o resguarda quando é evocado. Evocar é sempre provocar e invocar, provocar a vigência e invocar a ausência” (HEIDEGGER, 2003b, p. 16). O ditado poético provoca a vigência da familiaridade que precisamos para ser, e invoca a ausência no mistério e no nada que funda e permeia a nossa existência.

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