presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arru- madinha no seu vestido pobre, que se instalou também à mesa [...]”. O que está em destaque possui uma explicação ampliada com função adjetiva do substantivo negrinha. Essa expressão pode ser retirada do texto sem prejuízo do efeito de sentido pretendido pelo narrador? Justifique sua resposta.
Dessa forma, para que as questões de AL mencionadas anteriormen- te fossem elaboradas, pensamos de forma criteriosa em cada efeito de sentido dos recursos gramaticais adjetivais utilizados na crônica pelo locutor-narrador, a fim de que os alunos resgatassem sentidos cons- truídos durante as atividades de leitura do texto, e adquirissem um agir responsivo ativo frente às questões-enunciados da prática de AL.
Como exemplificação, descrevemos a nossa intencionalidade apenas das questões (Q) 1, 2 e 3 (epilinguísticas) e das questões 7, 9 e 11 (metalinguís- ticas). Com a Q1, introduzimos os alunos na compreensão dos efeitos de sentido dos adjetivos “curtas” e “grandes” usados pelo narrador na carac- terização da menina, para que começassem a delinear a partir dessas duas palavras qualificativas, a intencionalidade discursiva do narrador-locutor do texto, compreensão necessária à resolução da Q2 e Q3. Com a Q2, tivemos o propósito de instigar os alunos, novamente, a refletirem sobre o efeito de sentido na compreensão do texto, ancorados na finalidade do discurso do narrador-locutor, por meio agora de uma característica atribuída à famí- lia, porém, a partir de uma expressão da língua, da locução adjetiva “de pretos”, para que percebessem que as locuções adjetivas também qualifi- cam da mesma maneira como os adjetivos. Com a Q3, a prática de leitura do efeito de sentido do adjetivo “esquivos” esteve voltada às características
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psicológicas da família, ancorada ainda à intenção do narrador-locutor, já que na Q1 e Q2 os adjetivos e a locução adjetiva foram empregados como características físicas das personagens, dessa maneira nosso objetivo foi também fazer os estudantes perceberem que os adjetivos têm a função de atribuir tanto qualidades físicas quanto psicológicas aos substantivos. Aspectos esses instigados durante as atividades do antes, do durante e do depois da leitura da crônica, o que proporcionou respostas ativas dos discentes durante a aplicação na turma de 9º ano, o que podemos observar na seguinte reação-resposta do aluno A3 à Q3 (epilinguística): “O narra- dor usou o adjetivo esquivos porque a família age com muita simplicidade, medo, insegurança e parecem estar assustados no botequim porque são pobres e negros” (GOMES, 2016, p. 171), cuja resposta expressa compreen- são responsiva ativa com expansão explicativa e exemplificativa.
Em relação às questões metalinguísticas, com a Q7, tivemos a finalidade de fazer os discentes refletirem sobre a posição que o adjetivo ocupa na língua por meio das cinco frases-enunciados presentes na questão, como o uso do adjetivo “pobre”, palavra qualificativa selecionada para a elaboração das frases por estar vinculada à classe social da família de A última crônica, de Fernando Sabino, e que esse lugar selecionado pelo narrador-locutor na elaboração de enunciados acarretou diferen- tes efeitos de sentido. Com a Q9, permitimos que os estudantes refle- tissem sobre a flexão de gênero do adjetivo com o uso de “simples” no enunciado, a fim de que percebessem de forma contextualizada que há adjetivos na língua que apresentam duas formas, uma para cada gênero e outros somente uma. Com a Q11, o trabalho de compreensão sobre a estrutura e o funcionamento da língua foi desenvolvido via locução adje- tiva, “de pretos”, com a finalidade dos discentes analisarem que o adje- tivo “preto”, núcleo da locução adjetiva, não poderia ser passado para o singular e muito menos sem o uso da preposição que o antecede, visto que mudaria o efeito de sentido pretendido pelo narrador-locutor, além de fazê-los refletir sobre a flexão de número do adjetivo, quando locuções adjetivas são empregadas com substantivos coletivos. Aspectos estes também resgatados por meio dos sentidos construídos por ocasião da leitura do texto, o que demonstramos com a reação-resposta do A2 à Q11 (metalinguística): “Não, porque quando ele fala ‘casal preto’ já fica um ar preconceituoso. E na regra do português, um casal é mais de uma pessoa por isso ‘de pretos’ tem que ficar no plural” (GOMES, 2016, p. 181).
Portanto, ao implementarmos o Módulo I na turma de 9º ano, concebemos o ensino de língua portuguesa que se configurou focado à aprendizagem dos alunos, desenvolvido progressivamente em todas as etapas e ativi- dades desenvolvidas em sala, em um processo de ensino e aprendizagem dialógico, de trocas recíprocas, em que professor e alunos se viram refle- tidos durante toda a intervenção. Instauramos, na turma, um processo de interação verbal, em que fizemos os alunos se sentirem importantes, ao instigarmos que se posicionassem ativamente durante todo o processo por meio de seus conhecimentos prévios sobre os conteúdos temáticos
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dos textos selecionados para leitura e reflexão sobre a língua. Estabele- cemos, assim, uma relação professor-aluno muito mais próxima, para que o processo de ensino e aprendizagem de língua se efetivasse produtivo.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acreditamos que a pesquisa ancorada na perspectiva dos gêneros discursivos (BAKHTIN, 2003), abordados, não como objetos de ensino, mas como eixo de progressão e de articulação curricular, abrange, de forma mais eficiente, o processo de compreensão de texto, visto que o trabalho desenvolvido com o enunciado A última crônica, de Fernando Sabino, foi centrado no ato dialógico da relação comunicativa e na linguagem como manifestação ininterrupta que se concretiza nas rela- ções socioculturais. Além disso, consideramos ainda que a abordagem gramatical reflexiva e contextualizada a partir do exercício da leitura e da prática de AL propicia o ensino da língua no processo de interação verbal (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1992).
Dessa forma, delimitamos como tema da pesquisa, um estudo teórico- -prático sobre o processo de compreensão responsiva discente com atividades de análise linguística (AL) a partir do trabalho com o gênero discursivo crônica em uma turma de 9º ano, ao considerarmos o gênero como eixo de progressão e articulação curricular. A partir da análise das respostas-diálogos dos discentes, percebemos que os alunos consegui- ram se posicionar ativamente em relação às questões-enunciados da prática de AL, a nosso ver porque foram construindo sentidos nas etapas e atividades anteriores à aplicação das questões-enunciados, em sala, por meio de socialização, debates e discussão entre eles. Resgataram, inclusive, seus conhecimentos prévios por meio das questões elaboradas para os momentos antes, durante e depois da leitura de A última crôni-
ca, ocasião em que eles discutiram sobre a função social do cronista, o conteúdo temático do texto, se o narrador trazia um tom preconceituoso ao narrar o fato etc. Portanto, consideramos que todas as etapas ante- riores com as quais construíram sentidos, foram essenciais para que os estudantes se manifestassem com compreensão responsiva ativa.
Assim, consideramos que os alunos só conseguiram se posicionar ativa- mente diante das questões-enunciados que foram elaboradas para a últi- ma etapa do Módulo I do projeto, porque são interligadas às condições de produção do enunciado A última crônica, de Fernando Sabino. Além disso, foram inseridas em uma sugestão didática ampla que primou pela cons- trução de sentidos do enunciado no processo e não de forma imedia- tista, uma vez que com a aplicação das quatro oficinas, organizadas em várias etapas e com a resolução de muitas atividades de leitura, os estu- dantes foram inseridos em um contexto dialógico de ensino e aprendiza- gem de língua. Assim, aprendemos com a elaboração da proposta e com a implementação, na turma de 9º ano, a fazer uma abordagem reflexiva
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e contextualizada dos recursos gramaticais adjetivais empregados no enunciado, durante a pesquisa, o que foi de extrema importância para que nós não nos limitássemos ao ensino estruturalista, mecanizado dos recursos gramaticais da língua na crônica de Sabino, um ensino de gramática tradicional, centrado em regras, por meio de muita nomencla- tura e classificações, abordagem que nos acompanhou até iniciarmos as aulas no ProfLetras/UFPA.
Desta feita, o módulo de leitura e reflexão sobre a língua, desenvolvido durante a pesquisa na escola, com todas as etapas e atividades, contri- buiu, eficientemente, para que os alunos pudessem construir sentidos com o texto a partir das atividades epilinguísticas e metalinguísticas em sala de aula. Portanto, ao apresentarmos uma sugestão didática para o trabalho com a gramática, de forma contextualizada e reflexiva, acredi- tamos poder contribuir para que outros professores da educação bási- ca possam repensar suas práticas e, a partir da sugestão apresentada, desenvolver outras propostas pautadas na visão dialógica da linguagem, visando a um trabalho mais significativo com a Língua Portuguesa.
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REFERÊNCIAS
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