3 Description du produit
4.5 Dispositions de mesure - tubes
No Terreiro do Paço, desgraciosa e pesadona, erguia-se a vasta mole do Palácio Imperial. Era aí, como dizia o povo, o Paço da Cidade. Típico, verdadeiramente típico, o cenário que o enquadrava. Em frente, animando o panorama, o mar crespo, engaivotado, dum azul vaporoso. Dum lado, como enfeite de arte, o clássico chafariz colonial. Nos fundos, ligado por singelo passadiço, o convento dos carmelitas, transformado em Capela Imperial. De outro lado, rígido e massudo, o casarão da Câmara e Cadeia. Foi aí, no recinto da Câmara, nesse antigo aljube da Corte, que se instalou, em 1823, a Assembléia Constituinte.
Naquele dia, ao voltar da casa do padre, o Chalaça deu com desusada massa de povo, barulhenta e arruaceira, a bramir nas imediações da Constituinte. A agitação era desordenada. Tumulto bravio e ameaçador. Só se ouviam exclamações coléricas:
- Morra o "pé-de-chumbo"!
- Abaixo a canalha portuguesa!
Eis que chega um popular. Vem flamante:
- Antônio Carlos está soberbo! Exige a prisão imediata dos agressores...
- Que está dizendo?
- Imediatamente! E disse mais, com toda a razão, que o insulto não foi feito só ao Pamplona: foi a todos os brasileiros!
Que delírio! Daquela horda de amotinados, tocados com ferro em brasa no seu bairrismo, partiu vasta exclamação de júbilo:
- Viva Antônio Carlos!
- Viva!
O Chalaça viu aquela efervescência. Compreendeu logo as vantagens que iriam tirar os Andradas dessa rusga entre brasileiros e portugueses. Nada mais fácil do que, naquele momento de tempestuosa paixão, fazer vibrar o nacionalismo dos brasileiros. O perigo era iminente.
O valido, saltando em São Cristóvão, galgou a quatro e quatro as escadarias do Paço. Mas não conseguiu falar com o Imperador. Sua Majestade, fechado no Salão de Despachos, conferenciava reservadamente com o Ministro da Guerra.
A notícia do motim já havia estourado na Quinta. Por isso, formigando por saguões e corredores, ia grande alvoroço de gente, entra e sai cortesãos, vaivém de oficiais. Estavam todos sôfregos por notícias.
O Chalaça pôs-se a passear pela antecâmara. Eis que o João Carlota entra afobado:
- Faça entrar...
A encantadora paulista, numa elegância de sedas e de rendas, derramando em torno sadio aroma de água-de-cheiro, penetrou, como radiosa primavera, na antecâmara onde estava o Chalaça. Trazia ao lado, como escudeiro, o Moraizinho. O lindo moço, muito esbelto e muito louro, faiscava na sua farda de Tenente. O Secretário recebeu-os com júbilo:
- Deus a salve e guarde, Sra. D. Domitila! E você, Moraizinho? Como vai isso? Bons olhos o vejam!
Ambos apertaram amistosamente a mão do valido.
- Viva Chalaça!
D. Domitila, com o seu sorriso capitoso, com aquela sua graça envolvente, foi indagando muito interessada:
- Então, Chalaça, que há?
D. Domitila, desde que se alçara às culminâncias de Primeira Dama, não mais tratava o Secretário Privado com aquela deferência de antigamente: Sr. Francisco Gomes! Agora era simplesmente Chalaça. Chalaça, você.
- Então, Chalaça, que há? Que história de motim é essa?
- Pois Vossa Senhoria ainda não sabe? É um motim grave..
- Conte-me as notícias! Eu soube apenas do espancamento do Pamplona. E agora, vindo pelo Terreiro do Paço, vi grande algazarra na Praça. E "vivas". E "morras". O caso, ao que parece, está tomando vulto.
- É um caso muito sério, Sra. D. Domitila! Imagine que os Andradas levaram o "caso Pamplona" ao conhecimento da Assembléia. E já agora, diante do barulho que estão fazendo, não se trata mais dumas simples bordoadas num boticário: trata-se - imagine um pouco! - dum ultraje feito à Nação. Foram os portugueses que espancaram os brasileiros. E lá estão eles, na tribuna, a incendiar com o seu palavrório o bairrismo dos nacionais.
- E D. Pedro? indagou D. Domitila. Que diz D. Pedro de tudo isso?
O Chalaça não pôde responder. O sr. Ministro da Guerra, com ar preocupado, atravessou a antecâmara. O Tenente Morais perfilou-se.
O Ministro, ao avistar D. Domitila, saudou-a com afável sorriso. A paulista dirigiu-lhe uma palavra:
- Sua Majestade ficou só, sr. Ministro?
- Ficou, Excelentíssima.
Numa reverência, muito gentil, o Ministro desapareceu sob o reposteiro que o Chalaça, pressuroso, suspendia.
D. Domitila, sempre cativadora, sempre com o seu fino sorriso a esvoaçar-lhe nos lábios, virou- se para o Tenente:
- Adeus, Moraizinho! Vou falar ao Imperador. Não se esqueça de levar a Mataporcos todas as notícias do motim.
E estendeu-lhe a mão. O Moraizinho seguiu, com os olhos muito lânguidos e muito compridos, aquela mulher embriagante que sumia sob o reposteiro.
Instantes após, seguida do Chalaça, D. Domitila beijava, com leveza e graça, a mão do Imperador. E com um interesse ansioso:
- Então? Que há? É um motim muito grave? É?
- - Vosmecê não se assuste, redargüiu D. Pedro. Os Andradas é que estão envenenando o caso. Aqueles homens são adversários implacáveis.
E ali, em presença de ambos, Sua Majestade, depois de narrar o espancamento do Pamplona, explicou a situação:
- O caso, como estão vendo, é muito simples. Umas bordoadas, nada mais. Era só prender os agressores, duas semanas de xadrez, e pronto. Estava liquidada a história. Mas surgiu, infelizmente, uma complicação séria. É o que vai embaraçar a solução do acidente. Imagine que os militares, à vista do motim, tomaram decididamente o partido dos seus camaradas. E agora, coligados e solidários, já fizeram sentir ao Ministro que não admitem punição alguma aos espancadores.
- Nesse caso, aparteou a paulista, a situação tornou-se melindrosa...
- Melindrosíssima! resmungou o Imperador.
- O que é preciso é dar uma lição aos Andradas. E fazer calar a boca desses desordeiros. Aquilo é uma corja. Não há quem os ature! E sopitoso, com ar sombrio:
- Hoje, à noite, há conselho. Mandei reunir o Ministério. Vou dizer aos Ministros, bem claramente, tudo que penso e tudo que quero.
D. Domitila atalhou sorrindo, com um jeito brejeiro e trêfego:
- Se houver necessidade dum Ministro, Vossa Majestade não se esqueça do Desembargador!
O Chalaça soltou uma gargalhada. Gargalhada sonora, saída da alma.
- Quem? O Desembargador? O Ferreira França? Meu Deus!
O próprio D. Pedro achou graça no pedido. E rindo-se:
- Que idéia! Mas vosmecê não sabe, então, que o Ferreira França é o juiz mais sem autoridade da Corte? (22)
D. Domitila não se perturbou. Antes, com uma vozita cativante:
- Que gente sem coração! Não digam isso do meu pobre amigo. Coitado do Desembargador! Um homem tão agradável! Ainda ontem, em minha casa, ele dizia a meu pai: a minha maior ambição, sr. Coronel, é ter uma ocasião, qualquer que seja, para mostrar ao Imperador o quanto eu sou dedicado a Sua Majestade!
- Pois a ocasião há de chegar, disse D. Pedro, continuando a rir. Há de chegar! Quem espera sempre alcança.
Nisto, afogueado e anelante, o João Pinto rompe pelo salão adentro. E estacando diante do grupo:
- Grandes novidades! À sessão da Constituinte foi tumultuosíssima. Os populares invadiram o recinto. E que berreiro! Que gritaria do inferno! Todo o mundo clamava por justiça.
- Quê?
- O pior é que a maioria dos deputados está com os Andradas. Tudo contra o Governo! Os paulistas arrastaram a Constituinte inteira. E os deputados, acuados pelo povo, exigem a punição dos espancadores...
- Meu Deus! bradou D. Domitila, assustada. E agora? Como vai ser?
- Agora, continuou João Pinto, para liquidar a questão, vêm marchando para São Cristóvão vários regimentos de infantaria. Parece que esses regimentos, diante da atitude dos deputados, querem fazer calar os papagaios da Constituinte.
Mal acabara de contar essas retumbantes coisas, que já, ao longe, reboando na distância, começou a ecoar confuso rumor de cometas e tambores. Pelas janelas do salão, donde se descortinava o horizonte, todos os do grupo, com o olhar sôfrego, divisaram as fardas empenachadas dos regimentos que vinham tingindo de vermelho o caminho da Quinta. Todos, ao contemplarem lá embaixo aquele ondear de uniformes, aquele marchar estrepitoso de soldados, compreenderam nitidamente a gravidade do momento. D. Pedro, os dentes rilhantes, exclamou, sombrio e ameaçador:
- Ah! Estes Andradas! Estes Andradas! É preciso acabar com essa corja...
A situação tomou um aspecto angustioso. D. Domitila sentiu bem o melindroso do instante. Levantou-se de pronto:
- Vou-me embora. O imperador precisa de todos os seus momentos.
D. Pedro estendeu-lhe a mão. A favorita beijou-a com a mais brejeira gentileza. E saiu. Saiu, deixando no coração-borboleta do Imperador luminosa impressão de sedas e de jóias.
* * *
Nessa noite, em São Cristóvão, houve conselho. O assunto a deliberar era dos mais graves. A situação, no momento, das mais críticas. Os ministros, ao penetrar no Salão dos Despachos, vinham sombrios e taciturnos. Tinham todos, a lhes sulcar a testa, fundo vinco de preocupação.
As oito, precisamente, o Ministério estava completo. O reposteiro verde, que caía sobre a porta do fundo, franziu-se de súbito: D. Pedro surgiu. Com uma solenidade que lhe era pouco habitual, assumiu, seco e ríspido, a presidência do Conselho.
- Meus senhores! A Constituinte deixou de ser a Assembléia dos representantes da Nação. E agora, na mão dos Andradas, um antro de facciosos. Uma casa de arruaceiros. Esses homens, depois de apeados do poder, só pensam em levar o país à desordem e ao terror. Sacrificam tudo, até o bem da Pátria, pela ambição política. Ora, para os grandes males, grandes remédios. Assim sendo, eu só vejo, para resolver a situação criada pelos deputados, este único alvitre: dissolver a Constituinte.
Os Ministros arrepiaram-se. Nenhum tugiu. A deliberação era de alta responsabilidade. E todos, no fundo do peito, sentiram bem o atrevimento e a gravidade da medida. Dissolver a Assembléia! Sufocar a mais velha aspiração dos brasileiros! Voltar, de novo ao regime absoluto! Dissolver a Assembléia... Oh, era seríssimo!
Mas Sua Majestade fingiu não compreender o silêncio de morte que caíra entre aqueles homens. Abriu a sua grande pasta de couro. Tirou de dentro um decreto já lavrado. E apresentando-o ao velho desembargador Tinoco, Ministro da Justiça, ordenou autoritariamente:
- Senhor Desembargador! Queira referendar, como Ministro da Justiça, o decreto da dissolução.
D. Pedro molhou a pena no tinteiro. Depois, com um gesto incisivo, gesto de mando, apresentou a pena ao Ministro. D. Pedro, aquele moo tão liberal e tão constitucional na aparência, era, no fundo, tão despótico e tão absoluto como a longa fieira dos seus avós.
Todos os olhares fixaram-se avidamente na pessoa veneranda de Sebastião Luís Tinoco. Uma angústia, um peso na consciência, uma repugnância, sufocava a todos. O Ministro da Justiça ouviu a ordem.
E ali, como um autômato, pegando na caneta, curvou-se sobre a mesa para referendar o decreto.
Súbito, no momento em que ia lançar a primeira letra do seu nome, violento assomo de revolta sacudiu-o. Arremessou a caneta ao chão. Resoluto e impávido, o velho exclamou com dignidade:
- Senhor, a pena treme! Não posso assinar este decreto! (23)
Foi um alívio! Um desabafo! Carneiro de Campos, Primeiro-Ministro, recobrou o animo. Levantando-se, com pausa e acerto, ousou ponderar várias coisas criteriosas. E terminou:
- Dissolver a Assembléia, Majestade, é voltar ao regime absoluto. É retrogradar. Ora, como Ministro do Império, eu acho essa medida um erro. Sou contra a medida.
João Vieira de Carvalho, Ministro da Guerra, levantou-se também. E singelo, sem oratória:
- Voto contra! O povo pediu a Constituição, foi-lhe prometida essa Constituição. Não se pode, portanto, faltar à palavra.
D. Pedro tornou-se sombrio. A sua vontade, o desejo que o acutilava, era o de esganar, ali, aqueles três homens. Impulsivo, com aquele seu despotismo ingênito, sem poder jamais tolerar, como nunca tolerou, que alguém se antepusesse à sua vontade, bradou, em pleno conselho, borrascosamente:
- Pois aqueles, dentre os senhores, que não estiverem de acordo com as minhas idéias, só têm um caminho a seguir. Um único e bem claro...
Os três ministros, diante da alusão, não hesitaram: todos os três, movidos pelo mesmo ímpeto, pediram imediatamente a demissão de suas pastas. Foi-lhes concedida ali mesmo, sem titubear.
E o Conselho de Ministros, a um gesto de D. Pedro, dissolveu-se, naquela noite, taciturnamente.
O Imperador fremia de cólera. Aquela recusa espetaculosa acirrou-lhe ainda mais o autoritarismo. Mas não se entibiou um minuto. Naquela mesma noite, em companhia do Chalaça, recompôs o Ministério:
- Primeiro-Ministro, o Paranaguá.
- Ótimo, bradava o Chalaça. Não pode ser melhor!
- Guerra, o Rio Comprido.
- Muito bem lembrado!
- Fazenda, o Maricá.
De repente, cruzando os braços, sem saber como resolver um grande embaraço:
- E Justiça, Chalaça? E Justiça? Quem me há de referendar o diabo deste decreto?
O Chalaça sorriu. Maldoso, com um clarão pérfido nos olhos:
- Vossa Majestade tem um homem a calhar.
- ?!
- A calhar!
- Não atino...
O Chalaça então, com um gesto de triunfo, lembrou com ênfase:
- É verdade! Nem me lembrava mais... A Titília teve uma grande idéia! Vamos lá, Chalaça, corra a casa do homem.
E nessa mesma noite, horas mortas, o Desembargador Clemente Ferreira França referendava, como Ministro da Justiça, o decreto da dissolução...