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4.4 Consignes de montage
O Barão de Mareschal, ministro diplomático da Áustria, levantou-se pelas onze, como de costume. (19) Tomou a sua canequinha de café, acendeu o charuto, abriu o "Diário
Fluminense". Mas ao correr os olhos pelo jornal do Governo, sempre tão enfadonho e sensaborão, o austríaco, naquela manhã, não pôde reprimir uma exclamação:
- Donnerwetter!
Mareschal acabava de ler esta coisa inconcebível: a nomeação da Sra. D. Domitila de Castro e Meio, "senhora paulista das mais altas e das mais apreciáveis virtudes", para o cargo de Primeira Dama da Imperatriz.
Aquele ministro rabugento, que o Imperador da Áustria mandara ao Brasil para servir na Corte da filha, o amigo íntimo e fiel de D. Leopoldina, sentiu dentro de si áspera rajada de indignação. Amarrotou o jornal e arremessou-o longe. Azedo, o ministro gritou para o criado:
- Faça atrelar a sege!
Enfiou às pressas o seu fato de pano inglês, retorceu ao espelho, com cosmético cheiroso, as pontas retorcidas do seu bigode grisalho e, já na rua, frisado e elegante, ordenou ao boleeiro:
- São Cristóvão.
Afundado na sege, uma ruga na testa, o velho diplomata partiu para o Paço. Lá se foi a raciocinar sobre a gravidade daquele caso. A favorita, não havia dúvida, culminara nas boas graças. Aquela nomeação era afrontosa. E, sobretudo, achincalhante ao decoro da Imperatriz. Chamar a amante, a amante pública, para Primeira Dama da mulher! Oh, era de revoltar... E Mareschal, imaginando a cruciante mágoa da Ama e amiga, já ia conjeturando como bom diplomata, a .maneira mais jeitosa e mais polida com que pudesse consolá-la daquele ultraje.
Ao chegar à Quinta, Mareschal fez-se logo anunciar. A espera foi rápida. D. Francisca de Castelo Branco, Viscondessa de Itaguaí, ergueu o reposteiro de veludo. D. Leopoldina apareceu. Vinha toda de claro, à caçadora, botas altas, chapéu largo, chicotinho de prata dependurado no pulso. Mareschal beijou-lhe respeitosamente a mão. E Sua Majestade, com um sorriso jovial:
- Viva, Barão! Bons olhos o vejam! Então, que é isso? Não há quem mais o aviste cá pela Quinta!
E sem esperar resposta:
- E é hoje que eu vou à caça, hoje, exatamente, que o meu caro Mareschal aparece!
- Vou. Vou até o sítio do Vahia. Levo comigo dois batedores e o Kloss. O Kloss é um excelente picador! D. Pedro está contentíssimo com ele.
E, com irradiante bom humor, mudou bruscamente de assunto:
- Já leu o "Tamoio" de hoje?
- Ainda não, Majestade.
- Pois leia. Está feroz! Eu me rio bastante daquelas coisas. Mas D. Pedro não suporta!
- De quem é o artigo?
- De um dos Andradas, certamente. Aqueles homens, depois que saíram do Governo, fazem oposição a tudo. Não perdoam coisa alguma. E D. Pedro anda furioso com isso.
- A oposição deles é um tanto justificável, comentou Mareschal. Que queda tremenda! José Bonifácio, dum dia para outro, sai do ministério. Martim Francisco também. Até a irmã, pelo que eu acabo de ler, deixou de ser Primeira Dama!
- É verdade. Deixaram todos o poder.
- A propósito, continuou Mareschal, curioso e discreto: li a nomeação da Sra. Domitila de Castro para substituir D. Maria Flora.
- É verdade. Foi hoje nomeada minha Primeira Dama.
- Parece que se espanta, Barão?
- Espantar? Espantar, propriamente, não me espanto. Mas, com franqueza, não compreendo muito a razão dessa escolha.
- Pois é fácil compreender.
Com tocante ingenuidade, o coração nos lábios, D. Leopoldina narrou isto ao amigo e confidente:
- Esta senhora pertence a distinta família de São Paulo. Gente muito conceituada na Província. O irmão mais moço desta dona, Francisco de Castro Canto e Melo, foi até ajudante-de-ordens do Imperador. D. Pedro, na jornada de 7 de Setembro, recebeu em São Paulo grande agasalho
da parte dos Canto e Melo. Acontece que essa dona, chegando agora na Corte, mostrou muito desejo de ouvir o Mont'Alverne. D. Pedro, sabendo disso, consentiu que ela viesse ouvir o franciscano na Capela Imperial. As damas do Paço, porém, ao verem a desconhecida na tribuna, mostraram-se muito abespinhadas e tiveram a coragem de desacatá-la em plena Capela! Imagine um pouco... D. Pedro, ao saber do caso, encolerizou-se muitíssimo. E quis, como era natural, desafrontar essa senhora de tão grosseiro vexame. Sua Majestade, por isso, rogou-me para que a aceitasse como minha Primeira Dama. Eu acedi de boa vontade. É uma pessoa agradável, de sangue limpo, e, com franqueza, uma provincianazinha bonita. O que já é boa qualidade para Primeira Dama... Não acha, Barão? (20)
Mareschal ouviu aquilo estupefato. E D. Leopoldina, sem esperar resposta, estendeu a mão ao velho amigo.
- Adeus, meu caro Barão. Nós aqui a tagarelar, e o Kloss à minha espera! Nestes tempos de complicações no Governo, é difícil haver um dia de folga. E eu não quero esperdiçar o de hoje. Vou à minha caça. Adeus, Barão!
Mareschal, curvando-se, beijou a mão que a Imperatriz lhe estendia. E ela, ao sair, com um sorriso:
- E notícias da Áustria?
- Tudo em paz, Majestade...
Mareschal desnorteado, foi descendo vagarosamente a escadaria de São Cristóvão. E já estava a subir na sege, quando uma voz bradou com insistência:
- Sr. Barão! Sr. Barão!
Era o Chalaça.
- Perdoe, Barão! Mas eu preciso ir à cidade e não tenho sege. Vossa Excelência permite que eu vá em sua companhia?
- Oh, Sr. Gomes, com prazer...
Com um gesto polido, apontando a portinhola da carruagem, ofereceu amavelmente:
- Faça o favor! Entre.
Aboletaram-se. E lá foram ambos, o diplomata e o favorito, a palrar pelo caminho. A conversa caiu logo em política. O Chalaça comentava:
- Acho muito grave a situação, Barão! Os Andradas estão intratáveis. Não há oposicionistas mais intransigentes.
- Vossa Senhoria diz isso, Sr. Gomes, por causa dos ataques que fizeram ao título de Marquês, que D. Pedro conferiu a Lorde Cochrane?
- Pois veja lá, Barão, esse caso do Cochrane, por exemplo. Haverá maior injustiça? José Bonifácio, o próprio José Bonifácio, quando Ministro, mandou buscar o Lorde no Chile para vir
salvar o País, como ele então dizia. Vem o homem, derrota os portugueses, Pacifica o Norte,
consolida a Independência. Salva, enfim, o Brasil. Pois bem: D. Pedro, para premiar tão bons serviços, confere a Cochrane o título de Marquês do Maranhão. Haverá nada mais justo? Pois foi suficiente para os Andradas fazerem na Assembléia aquele berreiro do inferno.
- Foram exagerados, não há dúvida. Mas eu penso que a oposição deles há de passar. É uma nuvem apenas.
- Não é tão fácil assim, Barão, atalhou o Chalaça. Esses homens são perigosos. Veja um pouco os artigos do "Tamoio". Vossa Excelência não lê o "Tamoio"? Pois é ler! Não há nada mais violento. D. Pedro, toda a manhã, ao dar com aquelas coisas, tem acessos de cólera...
A sege disparava. O Chalaça, discutindo política, trazia à baila os últimos sucessos. Era o caso do Rio Maior. O caso do Marechal Pinto França. O discurso irritante de Muniz Tavares. Mil coisas!
E lá se foram até a cidade. Ao penetrarem, porém, no Largo da Carioca, a sege que os levava foi obrigada a parar em frente à botica de mestre David Pamplona. Aí, com surpresa de ambos, aglomerava-se negra massa de populares. E havia gritos estranhos.
- Fora os "pés-de-chumbo"!
- Fora a canalha!
- Morra Portugal!
De instante a instante engrossava aquela onda. O boleeiro, vendo que não podia passar, virou a sege e embicou pela Rua das Violas.
- Que será isto, Sr. Gomes?
- Não posso compreender, Barão. Mas estou ansioso por saber a razão deste motim. E vou saltar aqui, no Botequim da Corneta, para saber notícias frescas.
O Chalaça saltou no botequim. Ao entrar, o Secretário Privado topou logo com o "Corta-Orelha". O mulato, num grupo, discutia com imponência. Tinha ares de grande eminência política. O favorito fez-lhe um aceno. O capoeira acorreu imediatamente. Os dois abancaram-se, camaradas, em torno duma mesa.
- Que diabo de motim é esse em frente à botica do mestre Pamplona?
- Vossa Senhoria ainda não sabe?
- Não sei.
- Pois é história crêspa.
E arrancando do bolso um amarfanhado exemplar do "Sentinela", jornalzinho de oposição, violentíssimo, passou-o às mãos do Chalaça.
- Leia isto primeiro.
O Chalaça começou a ler. Havia no jornal uma carta atrevida, transbordante de insultos, em que se diziam, numa linguagem nua, os mais copiosos desaforos aos oficiais portugueses incorporados ao exército do Brasil. O Chalaça leu-a toda. E ao fim da leitura:
- Então?
- Então, explicou o "Corta-Orelha", dois oficiais portugueses (21), pensando que o David Pamplona fosse o homem que escreveu a carta, entraram hoje na botica do diabo. Esbordoaram o bicho sem dó. Deixaram o tar amarrotado de pancada, quase morto. O povo, quando soube do caso, arrevoltô-se. Tudo quanto é brasileiro pulô a favor do Pamplona. E por isso o motim tá fervendo. Aquilo é só: "abaixo os pés-de-chumbo!", "morra Portugal!" Já foi uma comissão a casa de José Bonifácio. E José Bonifácio prometeu que hoje, na Assembléia, vai tratá do caso. Que é que vassuncé diz, seu Chico Gomes?
O Chalaça ouviu o capoeira. E arguto, sabendo bem da velha e incurável animosidade entre brasileiros e portugueses, compreendeu, num relance, o que de grave havia no incidente. Mas sem o menor indício de inquietação, bateu amistosamente no ombro do mulato:
- Ora, seu "Corta-Orelha"! Isto é motim sem importância. Amanhã - você verá - todas as coisas estão concertadas. Um caso à-toa!
Levantou-se. Mas o "Corta-Orelha" ofereceu-se logo, serviçal e pressuroso.
- Não é preciso. Eu vou aqui, à Rua do Piolho, falar ao Cônego Caetano...
- Ah! cortou o capoeira, piscando os olhos maliciosamente; vassuncê vai sabê notícia do divórcio?
O Chalaça ficou passado. Mas o "Corta-Orelha" continuou, com uma risadinha sarcástica:
- Não se assuste, seu Chico Gomes! Toda a gente já sabe. Só se fala, na Corte, do divórcio da paulista. O negócio foi arranjado muito em segredo. Muito escondido. Mas ché! Segredo nisso? Impossível!
O Chalaça cortou cerce a conversa:
- Deixe de falatório, homem! Você lá entende dessas coisas?
E lá se foi exótico, muito alto e muito esguio, a caminho da Rua do Piolho, onde morava o Reverendíssimo Dr. José Caetano Ferreira de Aguiar, vigário do Rio de Janeiro.
* * *
O divórcio de D. Domitila! Um divórcio no Primeiro Império! Pode-se lá imaginar escândalo maior? Todo o velho Rio, aquele Rio de chafarizes e de rótulas, arrepiou-se de horror.
O processo correu vertiginosamente. Fez-se tudo às lufadas. Tudo debaixo do maior sigilo. Agora, depois de concluídas as provas, subira a papelada para a sentença. E o Cônego Caetano era o juiz.
O Chalaça entrou ansioso. O padre recebeu-o com efusão. Abriu a boceta de rapé, sorveu uma pitada e foi logo entrando em assunto:
- Tudo pronto, Sr. Gomes! Os autos vieram conclusos ontem. E ontem mesmo lavrei a sentença. Vossa Senhoria disse-me que Sua Majestade se interessava muito em ver este caso liquidado o quanto antes...
- De fato, Cônego, Sua Majestade interessa-se vivamente!
- Pois eu, de minha parte, prosseguiu o padre, melífluo, fiz tudo o que pude para contentar o Imperador. E quer que lhe diga a verdade? Não me foi nada difícil. A prova dos autos é abundante. Está tudo muito bem documentado. Vossa Senhoria quer ler a sentença?
Levantou-se, abriu a gaveta dum velho armário, retirou lá do fundo um calhamaço de papéis. Folheou com pausa. Afinal, achando o que queria, passou às mãos do Chalaça a peça rebuscada. Francisco Gomes leu, jubiloso, a sentença. Era simples e dizia:
"Vistos estes autos etc. Requer a Autora, D. Domitila de Castro Canto e Meio, ser divorciada perpetuamente do seu marido, o Alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, principalmente porque este tem tal ódio a ela, Autora, que a quis matar, dando-lhe duas facadas, sendo uma delas mortal; e mais, porque o Réu tem cometido adultérios. Prova a Autora a sua intenção, por maneira que se manifesta o seu direito para o divórcio, que pede, porque prova, pelas testemunhas inqueridas a fl. 16, que tendo ela boa conduta e, amando seu marido, este atentara contra a vida dela, Autora, dando-lhe duas facadas, do que resultou a Autora ficar em perigo de vida. Prova mais a Autora, pelas certidões de fís. 12 a fls. 20, que o Réu lhe tem cometido adultérios, e que, do seu punível coito, o Réu teve duas filhas que reconheceu como suas. Por tudo, e o mais dos autos, julgo provada a ação, e hei a mesma Autora divorciada perpetuamente do Réu, seu marido, com divisão de bens competentemente. Pague o Réu as custas. J. Caetano Ferreira de Aguiar."
O Chalaça, com fina adulação, felicitou muitíssimo o juiz:
- Vossa Reverendíssima apanhou atiladamente os pontos. Muito atiladamente! O Imperador vai ficar agradecido a Vossa Reverendíssima.
E o padre, dócil e modesto:
- Pois eu, no que puder, aqui estou para servir a Sua Majestade!
- Vossa Reverendíssima não ficará esquecido. Afianço-o a Vossa Reverendíssima!
E risonho, o coração intumescido de gosto, o Chalaça despediu-se com muitos agradecimentos.
Ah, a prova dos autos! Por elas, D. Domitila de Castro tornara-se a vítima. Sim, a vítima! Era ela que, ferida na sua dignidade, se divorciava do marido, porque o marido era um adúltero. Não podia haver nada mais risível.