Rita Canaipa, João Manuel Moreira
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Lisboa, Portugal
Resumo
Na obra de Piaget, os argumentos de Identidade, Reversibilidade e Compensação re- cebem considerável destaque como manifestações do pensamento operatório nas provas de conservação. Estranhamente, porém, Piaget pouco se debruçou sobre a sua psicogénese. Neste estudo, acompanhámos um grupo de crianças ao longo de quatro meses, utilizando quatro provas de conservação. Das 68 crianças da amostra inicial, apenas 17 completaram todas as avaliações. Verificou-se que o argumento de Identidade foi o mais frequentemente invocado, parecendo ser também o mais comum na transição para o pensamento operató- rio. Em contraste, o argumento de Reversibilidade foi o menos utilizado. Constatou-se, ainda, que o tipo de prova influencia a utilização dos argumentos. Estes resultados contra- dizem as afirmações de indiferenciação e interdependência formuladas por Piaget.
PALAVRAS-CHAVE:Argumentos operatórios, Piaget, conservação, desenvolvimento cogni-
tivo.
A descrição Piagetiana do desenvolvimento cognitivo, apesar da sua re- conhecida profundidade e rigor, deixa em aberto algumas questões importan- tes, nomeadamente as relativas aos processos de transição e aos meandros pelos quais se dá a aquisição de novidade e a substituição de construções cognitivas mais simples por outras mais complexas. Nessa perspectiva, a fase de transição entre o pensamento pré-operatório e o pensamento operatório reveste-se de particular interesse. É nela que se dá a conquista das primeiras operações cognitivas e da reversibilidade, que é a característica que melhor
Morada (address): João Manuel Moreira, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1649-013 Lisboa, PORTUGAL. Tel.: +351 217 943 863, Fax: +351 217 933 408. E-mail: [email protected]
Nota dos autores: O presente artigo é baseado numa Tese de Mestrado em Psicologia (Área de Especialização em Desenvolvimento Humano) apresentada à Universidade de Lisboa, através da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, pela primeira autora. Esta tese foi co-orientada pelo Prof. Orlando Lourenço, ao qual se deve a concepção inicial do estudo, facto que aqui queremos reconhecer. Problemas de saúde, porém, impediram-no de participar na elaboração deste artigo, pelo que o seu conteúdo é da exclusiva responsabilidade dos autores, só a eles sendo imputáveis as afirmações nele contidas, bem como eventuais erros e imprecisões.
reflecte a diferença entre o pensamento do adulto e o pensamento da criança pequena (Piaget, 1976).
Na teoria de Piaget, são os argumentos ou as justificações operatórias que permitem situar o pensamento da criança nos níveis de desenvolvimento considerados (Lourenço e Machado, 1996). Piaget identificou três tipos funda- mentais de argumentos, Identidade, Reversibilidade e Compensação, através dos quais a criança com pensamento operatório justifica os seus juízos de conservação (i.e., o conhecimento de que, independentemente de certo tipo de transformações, como a alteração dos recipientes onde se encontram os ob- jectos, do espaço que separa os elementos, etc., algumas das propriedades destes, como a quantidade de substância, o peso e o volume, permanecem inalteradas). Por exemplo, na prova de conservação da substância, a resposta é considerada operatória quando a criança verbaliza um de três tipos de ar- gumentos: “Há a mesma quantidade de barro, não se tirou nem acrescentou nada” (argumento de Identidade); “Podemos voltar a transformar a salsicha em bola” (argumento de Reversibilidade); ou “A salsicha tem mais em compri- mento, mas tem menos em largura” (argumento de Compensação).
A referência a estes três argumentos surge com frequência na obra de Piaget (por exemplo, Piaget, 1964, 1967, 1972; Piaget e Inhelder 1968, 1973). Estranhamente, contudo, Piaget quase não se questionou sobre a psi- cogénese dos argumentos operatórios, sendo mesmo perceptível uma certa in- definição relativamente ao seu papel no desenvolvimento cognitivo. Há, por exemplo, passagens onde a Reversibilidade parece ser um antecedente da Compensação (e.g., “antecipar as perturbações… e compensá-las graças à total reversibilidade”; Piaget, 1964, p. 116), enquanto noutras se parece afir- mar o contrário (“compensações prefiguram a reversibilidade”, Piaget, 1964, p. 122).
Por tudo isto, considerámos que um estudo mais detalhado da psicogéne- se dos argumentos operatórios seria importante para uma melhor compreen- são dos mecanismos de transição nesta etapa do desenvolvimento cognitivo.
Identidade
De acordo com a perspectiva de Piaget, a Identidade apenas poderá ga- rantir a conservação da quantidade quando se tornar numa Identidade quan- titativa, isto é, quando a criança for capaz de compreender não apenas que é a “mesma plasticina”, mas também que é a “mesma coisa de plasticina”, ou seja, a mesma quantidade. A Identidade quantitativa baseia-se no desenvolvi-
mento da multiplicação das transformações, ou seja, e como veremos, na Compensação e na Reversibilidade, e não na generalização da Identidade qualitativa. “O carácter particular dessa identidade é que ela se torna um ar- gumento de conservação apenas quando os outros dois foram descobertos” (Piaget e Inhelder, 1969, p. 120). Esta linha de raciocínio conduz à conclusão de que a Identidade apenas constitui argumento para afirmação da conserva- ção quando imbricado nos restantes argumentos.
A mesma opinião não tem, no entanto, um amplo conjunto de autores, defensores da chamada “Teoria da Identidade” (e.g., Acredolo e Acredolo, 1979, 1980; Bruner, 1966; Gelman e Weinberg, 1972; Hamel, Van der Weer e Westerhof, 1972; Larsen e Flavell, 1970). Inicialmente proposta por Bruner (1966), esta perspectiva assenta na ideia de que a Identidade representa o papel central na construção inicial da conservação. Assim, é possível que a criança alcance a conservação das quantidades antes de ser capaz de pensa- mento reversível. Para isso lhe bastará apoiar-se no princípio da Identidade e ignorar as alterações perceptivas que se produzem nas provas de conserva- ção. Esta Identidade dará lugar, progressivamente, às conservações baseadas em aspectos mais quantitativos.
Compensação
A Compensação parece ter em toda a obra de Piaget um papel central na construção das noções de conservação (por exemplo, Piaget, 1976; Piaget e Inhelder, 1968; Piaget e Szeminska, 1980), com a tarefa de anular ou neutra- lizar as perturbações exteriores. Esta compensação não pode ser simplesmen- te constatada através da verificação perceptiva das diferenças nas dimensões em jogo, pois implica a construção de instrumentos lógicos que permitam coordenar a exacta proporção entre ganhos e perdas. Tal implica a passagem de uma quantificação intensiva (não numérica) a uma quantificação extensiva (numérica) e, portanto, à multiplicação das relações (e.g., comprimento e es- pessura; Piaget, 1976). A compensação surge, assim, como o mecanismo que garante a aquisição das noções de conservação.
Na perspectiva dos defensores da “teoria da Identidade” (Acredolo e Acredolo, 1979, 1980; Bruner, 1966; Larsen e Flavell, 1970), no entanto, não é raro o surgimento de crianças que defendem a conservação por simples Identidade, anteriormente à conservação conseguida a partir da Compensa- ção. Assim sendo, não pode ser a Compensação o mecanismo essencial da conservação.
Reversibilidade
Na perspectiva Piagetiana, a Reversibilidade parece marcar a finalização do processo de construção das estruturas operatórias, garantindo-lhes um ca- rácter de necessidade lógica (Piaget e Inhelder, 1969, p. 119). Este argumen- to, no entanto, parece-nos ser o que mais facilmente dá azo a confusões con- ceptuais, talvez devido ao facto de não se distinguir claramente entre a Reversibilidade enquanto característica fundamental do pensamento operató- rio e enquanto argumento invocado para justificar as respostas de conserva- ção.
A Reversibilidade, sendo talvez a característica mais distintiva e a aquisi- ção mais importante do pensamento operatório, parece, nesta fase, estar ain- da na estreita dependência da aquisição da Compensação. É a Reversibilida- de que garante a coerência do pensamento e permite interligar diferentes raciocínios como elementos de um todo integrado. No entanto, na discussão em torno dos possíveis processos que conduzem à aquisição da conservação, a Reversibilidade tem sido o argumento mais negligenciado. O debate tem-se centrado sobretudo, como já vimos, em torno do papel da Identidade e da Compensação (Piaget, 1976).