Paulo Freire, uma criança pernambucana, alfabetizada pela mãe à sombra de uma árvore, com um graveto e a imensidão de terra a sua volta. Desde muito pequeno já começou a perceber que não se precisava de muito para a educação acontecer.
Porém, ainda muito jovem, quando teve que deixar os estudos para ajudar sua família, pode perceber que nem sempre educação está ao alcance de todos, Paulo Freire teve seu primeiro contato com as diferenças sociais em relação ao acesso ao conhecimento.
Paulo Freire entra definitivamente para a educação quando pôde dedicar-se novamente aos estudos e então, torna-se professor na escola em que estudava.
É no inicio dos anos 60 que o nome de Paulo Freire começa a ganhar visibilidade, quando propõe um método de alfabetização de adultos que revoluciona o sistema pedagógico da época, o Método Paulo Freire5, que
alfabetizava não por meio das lições tradicionais e repetitivas e sem sentido para quem aprende, onde o professor era o único detentor do saber, mas sim o mediador entre a leitura do mundo e a leitura da palavra.
Considerou o conhecimento prévio e realidade do aluno, que chamou de educando, o educador, segundo Paulo Freire tem a função de ser o mediador do processo ensino-aprendizagem, onde não se ensina nada, mas sim se discute e se conclui por meio da bagagem cultural de cada um.
“A leitura do mundo precede à leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele” (FREIRE, 1983, p. 22).
5O método Paulo Freire trata-se de um método de alfabetização de adultos a partir de palavras que façam
sentido aos educandos, palavras que façam parte de sua leitura de mundo, de seu cotidiano e de seu ponto de vista, Paulo Freire denominou essas palavras como palavras geradoras, a partir dessas palavras eram estudadas a silabação, a fonética e a formação de novas palavras geradoras.
“Apropriando-se criticamente e não memorizadamente – o que não seria uma apropriação – desse mecanismo, começa a produzir por si mesmo o seu sistema de sinais gráficos” (FREIRE, 1976, p. 116).
A década de 60 foi marcada pela participação dos jovens, na política na música, nas artes e nos movimentos estudantis. Mesmo adulto, Paulo Freire engajou-se nessas militâncias e participou da fundação do Movimento de Cultura Popular6 (MPC).
Paulo Freire, para a ditadura militar brasileira era considerado como uma ameaça, em razão de suas ideias revolucionárias de dar a classe popular o direito de reconhecer a importância de sua própria história, em razão da intenção de libertar as massas da alienação e da opressão burguesa por meio da educação. Logo, foi exilado em 1964. Nesse momento, Paulo Freire tinha planos de criar 20 mil Círculos de Cultura7 como os de Angicos e alfabetizar cerca de 5 milhões
de Brasileiros.
Uma vez exilado na Bolívia e depois no Chile, Paulo Freire tem o reconhecimento e a oportunidade que a ditadura brasileira lhe negou, então apoiado pelo governo chileno pôde continuar seus trabalhos dedicados a uma educação popular. Sua vivência no Chile foi extremamente importante para a formação de seu pensamento político pedagógico.
Em 1967, lança no Brasil seu primeiro livro Educação como Prática da Liberdade (1967), nele descreve seu método e prática, livro em que propõe a libertação do oprimido. Colocando o educando a frente de sua própria existência, Paulo Freire, nesse livro, descreve uma educação que se dá por meio do diálogo e da reflexão, capaz de despertar, libertar, conscientizar Freire (1976).
“Necessitávamos de uma educação para a decisão, para a responsabilidade social e política” (FREIRE, 1976, p. 88).
Em 1968, Paulo Freire termina seu livro mais famoso: Pedagogia do Oprimido, livro que se torna um dos motivos para Paulo Freire deixar o Chile, tamanho o teor revolucionário do livro.
6O MCP foi criado em 1961, por um grupo de intelectuais e artistas pernambucanos, na primeira gestão de
Miguel Arraes como prefeito de Recife. Assumiu inovadoramente o conceito de cultura popular como chave para o trabalho com a população pobre, por meio de escolas para crianças, alfabetização de adultos, praças e núcleos de cultura. Revitalizou as festas folclóricas e teve expressiva atuação no teatro e cinema. Seu Livro de Leitura para Adultos renovou radicalmente o material didático da época. Sediou a primeira experiência do Sistema Paulo Freire, no Centro Dona Olegarinha, em 1962, e o I Encontro Nacional de Alfabetização e Cultura Popular, promovido pelo MEC, em 1963.
7Círculo de Cultura: “Em lugar do professor [...] o coordenador de debates. Em lugar de aula discursiva, o
Pedagogia do Oprimido é o livro em que Paulo Freire exalta as massas populares, colocando o oprimido como protagonista de sua própria história. Nessa obra, Paulo Freire aproxima ainda mais política e educação, leva o oprimido a reflexão, à tomada de consciência em relação ao opressor e da necessidade de lutar pela sua libertação.
De acordo com Scocuglia (1999b), Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, formula as primeiras matrizes de uma “pedagogia da resistência”.
A pedagogia progressista prega que a educação se dê por meio da dialética, de maneira que o educando possa ver-se incluso do esquema ensino-aprendizagem, pois, assim, trará o conhecimento adquirido para uma realidade que lhe é útil, a sua realidade.
Paulo Freire via a pedagogia tradicional como ferramenta de alienação do Estado, onde as massas operárias eram treinadas a aprenderem apenas aquilo que lhes era permitido, a pedagogia em que acreditava e fazia dela sua práxis, era uma pedagogia de reflexão, que ficou conhecida por pedagogia crítico-social, embasada em ideias marxistas de Karl Marx8 e seus seguidores
como Antônio Gramsci9 e George Snyders10.
Freire mostra sua compreensão de uma educação mergulhada no conflito entre classes sociais (embora sua análise nunca tenha se restringido a tal enfoque) clarificando suas aproximações teóricas com diversos autores marxistas - identificadas a partir dos últimos capítulos da Pedagogia do oprimido, começando do próprio Marx e, depois, na seqüência dos seus escritos, chegando a Gramsci. (SCOCUGLIA, 1999b, p. 26).
“Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua ‘conivência’ com o regime opressor” (FREIRE, 1982, p. 56).
É em Pedagogia do Oprimido que Paulo Freire apresenta termos e conceitos que se popularizaram no campo da educação moderna. Como opressor e oprimido, educador e educando, dialética, dialogicidade e 8Karl Marx (1818-1883), alemão, idealizador do socialismo.
9Antônio Gramsci (1891-1937), Fundador do Partido Comunista na Itália.
10George Snyders ( ) constrói o conceito de pedagogia progressista apoiado em ideias marxistas.(É
antidialogicidade, educação bancária e educação problematizadora, manipulação, alienação, libertação e outras.
Segundo Gadotti et al. (2008), a produção de Paulo Freire pode ser divida em 3 momentos: A leitura de mundo, quando Paulo Freire parte do conhecimento prévio do educando e a partir dele tece o conhecimento sistemático. Em um segundo momento, Gadotti et al. (2008), comentam a dialogicidade, que nada mais é que compartilhar o mundo lido, estabelecendo uma troca onde se estabelece a validade daquele conhecimento.
No terceiro momento, temos a reconstrução do mundo lido, problematização, interiorizar na teoria e externar na prática. O conhecimento atinge uma função libertadora.
Foi no livro Cartas à Guiné-Bissau que Freire (1978) contou ao mundo de sua experiência na África. Nessa obra, Paulo Freire participa do processo de emancipação de países antes colonizados pela Europa, ajuda na reconstrução de um povo que perdeu tudo menos sua cultura e sua história. É quando Paulo Freire pode de fato perceber a práxis de suas teorias, aprofundar suas pesquisas e avaliar seus erros e acertos.
Para Paulo Freire, o ato da educação sistemática inicia-se na realidade e na história de cada indivíduo, de cada povo. Seu trabalho em Guiné-Bissau tinha um caráter político e revolucionário.
“Aqui, discutimos, sim, a complexidade da alfabetização de adultos, a impossibilidade de tomá-la em si mesma como se fosse viável realizá-la fora e acima da prática social que se dá na sociedade” (FREIRE, 1978, p. 94).
Outra obra que se destaca na produção de Paulo Freire é ‘A importância do ato de ler’, livro em que Paulo Freire relata sua experiência em Príncipe e São Tomé11, comenta os cadernos utilizados no Programa de Alfabetização de
Adultos, os Cadernos de Cultura Popular12.
Paulo Freire ressalta a importância da leitura de mundo diante da leitura da palavra, relata passo a passo seu trabalho com esses cadernos enfatizando a importância da dialogicidade diante da prática da leitura e da escrita.
Sobre a Importância do Ato de Ler, Scocuglia afirma:
todo o processo de alfabetização e pós-alfabetização, como processo eminentemente político, funda-se no permanente 11Ilhas que se situam no golfo de Guiné, África.
12Eram dois os Cadernos de Cultura Popular: Cadernos de Exercícios, Praticar para Aprender, e Cadernos
desafio às massas populares de sua “capacidade de pensar, de fazer, de saber e de criar”. Funda-se, para ele, no direito dessas massas de “conhecerem melhor o que já conhecem”, de “conhecer o que ainda não conhecem” e de “produzir um novo conhecimento”- conectado aos seus interesses, como um “saber-instrumento”. O autor demonstra, com insistência, suas preocupações com a questão epistemológica. Essa questão perpassa todo o seu trabalho, pois Freire identifica a educação como um ato de conhecimento político (SCOCUGLIA, 1999a, p. 79-80).
Pedagogia da Autonomia, também foi um livro de suma importância nas definições de Paulo Freire, que afirmava suas ideias e propósitos a cada uma de suas obras, mas nesse livro “Paulo se fez texto [...] É o livro-testamento de sua presença pelo mundo”13.
Nele, Paulo Freire declara seu amor pelo mundo e por sua causa “Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo” (FREIRE, 2007, p. 19).
Deixou neste livro frases famosas que inspiram e norteiam educadores de todo o mundo:
“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 2007, p. 25).
“Não há docência sem discência” (FREIRE, 2007, p. 23).
“Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é a minha coerência entre o que digo , o que escrevo e o que faço” (FREIRE, 2007, p. 103).
“O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem que ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática” (FREIRE, 2007, p. 39).
Pedagogia da Autonomia foi o último livro publicado em vida por Freire (2007), e nele deixa a síntese de seu legado, recados aos educadores de todo o mundo, com a doçura de quem quer bem e com a responsabilidade de quem acredita em sua história, de quem sabe que ensinar exige uma postura ética, crítica e corajosa de quem se propõe fazê-lo.
Paulo Freire foi um dos maiores educadores deste século, suas obras fazem abordagem a uma educação libertadora, onde o educando passa a ser o protagonista do processo, tomando consciência de sua importância como construtor de sua própria história.