O viver em uma instituição manifesta-se em dimensões distintas para cada adolescente. Nem todas aceitam passivamente essa condição de cerceamento do direito de ir e vir, e buscam se tornar visíveis de várias formas, seja através de brigas, ou xingamentos e reclamações, mas, sobretudo, através das evasões (vulgo fugas). As fugas acontecem durante um
determinado período de institucionalização sejam dias, meses ou anos. A porta de saída pode ser pulando o muro da instituição ou no momento que vão á escola. Mas, qual o principal motivo para que as adolescentes fujam, e como a instituição tem lidado com essas evasões?.
Primeiramente, as “fugas” são mais frequentes entre o gênero feminino do que o masculino. E segundo o ponto de vista de Valentina e da Assistente Social Tereza, elas fogem para fazerem sexo. Correlato a isto, percebe que “a adolescência é uma idade que tem como [um dos] objetivo o acesso à sexualidade” (BOZON, 2004, p. 64). Entretanto, todo e qualquer tipo de contato que conote uma relação amorosa, tanto heterossexual quanto homossexual entre os institucionalizados, tende a ser punidos. A coerção e/ou inibição da manifestação da sexualidade, é também uma das formas que a instituição utiliza para a formação de corpos dóceis e disciplinados . Abaixo, segue uma das falas de Tereza sobre a percepção das “fugas” relacionadas ao exercício da sexualidade.
As meninas já são antes de entrar no abrigo sexualmente ativas, e são a partir de 12 anos. São meninas que com 11 anos já estavam namorando [...]. A evasão das meninas é comum, e está relacionada ao namoro. É ficar com o namorado ou qualquer um que aceitá-la para não ficar no abrigo. É a liberdade juntamente com a libertinagem [...] e não tem respeito pelo próprio corpo, mantém sexo sem prevenção de forma desregrada (Tereza, Assistente Social, 2011)
Na perspectiva das adolescentes, a fuga representa uma libertação, não importa se vão sair sem documento, dinheiro, acham que lá fora irá dar um jeitinho. Na maioria dos casos identificados, as motivações estavam relacionadas ao fato de sair para se divertir, ir a uma festa e, principalmente, namorar. Vale ressaltar, que na maioria das vezes, quando as adolescentes fogem, há intenção de sair para curtir e depois voltar para a instituição. Essa foi uma fala recorrente nas entrevistas, e por isso o termo fuga está entre aspas. No entanto, algumas manifestam uma insatisfação profunda pela vivência institucional, e acabam concretizando o desejo de fugir, afirmando que não aguenta ficar mais tempo na instituição. Algumas adolescentes deixavam uma carta para Valentina agradecendo pelo apoio, carinho, cuidado, e o pedido de desculpas pela atitude, revelando que não suportariam viver mais tempo na
instituição. Ainda assim, outras adolescentes revelaram que, apesar de já ter tido vontade de fugir, acabou não concretizando o plano de fuga:
Eu nunca fugi, tenho medo de me arrepender e de me complicar (Marina, 15 anos, vítima de abuso sexual perpetrado pelo padrasto apud SANTOS, 2010, p. 67).
Eu já falei, pô meu, eu vou sair daqui, mas depois eu parava e pensava, se eu fugir, meu filho vai ficar aqui, mas pelo meu filho, porque os meus irmão já são grandes ( Valéria, 14 anos de idade, vítima de abuso sexual perpetrado pelo pai, 2012)
Retomando as falas da diretora e Assistente Social sobre os motivos das fugas das adolescentes estarem relacionados à prática do sexo, nos levam a refletir que a institucionalização além de criar uma barreira à relação social extramuros, restringe as possibilidades de experimentação da sexualidade, um direito humano que deve ser assegurado e não violado.
Por outro lado, como as fugas estão intimamente presentes no cotidiano da instituição, esta exerce uma grande influência na produção e organização da convivência social e afetiva através das punições. Se uma adolescente foge, todas ficam de castigo, não podendo ir à praia, a lan house, a praça e etc.
Além de suprimir o contato extramuros como uma forma de castigar as adolescentes que fugiram, as ameaças por parte da direção em enviar estas à Casa de Passagem Nossa Senhora das Graças56, também se faz presente como uma forma de disciplinamento. Para as adolescentes que já tiveram a experiência de ser “acolhida” pela Casa de Passagem, relatam que o local parece uma prisão e que sofreram maus tratos por parte dos funcionários e das adolescentes “acolhidas”, e por isso, a grande maioria das adolescentes manifesta o medo de ser transferida para esse local.
Todas [referindo-se a três adolescentes que fugiram, uma delas era
inclusive Lorena] irão para a Casa de Nossa Senhora das Graças,
porque tenho que dá exemplos as outras adolescentes. Não posso deixar elas aqui no abrigo, para que elas não influenciem as outras. Estou arrasada, péssima com o que aconteceu, não posso aceitar esse tipo de comportamento no meu abrigo, aqui é um local de respeito. É preciso dá exemplo para que as adolescentes saibam o
56 A Casa de Nossa Senhora das Graças é uma unidade de atendimento para a integração
social de crianças e adolescentes do gênero feminino, e na faixa etária de 07 a 17 anos. Todas elas são encaminhadas pelo Conselho Tutelar, Ministério Público ou Juizado da Infância e Juventude devido a situação de risco, na rua ou em outra condição de vulnerabilidade que justifique o seu “acolhimento” temporário.
que pode acontecer com aquelas que fogem. (Valentina,diretora do abrigo apud SANTOS,2010, p. 68)
É notório que o medo que as adolescentes têm de serem encaminhadas à Casa de Passagem é utilizado como objeto de “manipulação” pelos funcionários do Lar Flor de Lis para aquelas que descumprirem as regras da instituição. Essa estratégia de manipulação assemelha-se aos escritos de Goffman (1999), em seu livro “Manicômios, prisões e conventos”. Enquanto que para os doentes mentais, a camisa de força ou os choques são estratégias utilizadas pela equipe dirigente do hospital para manter a ordem, neste caso a ameaça de ser transferida à Casa de Passagem Nossa Senhora das Graças cumpre o mesmo propósito. Desse modo, as relações de disciplinas constituem trocas socialmente construídas através de ameaças, e de sua concretização (SANTOS, 2010).
Outra situação semelhante refere-se ao envio de adolescentes agressoras que praticaram algum tipo de violência física (deixando marcas e cicatrizes no corpo da vítima) para a DAI (Delegacia do Adolescente Infrator). Um certo dia, estava conversando com Valentina em sua sala, e chegou Rosa, uma adolescente de 13 anos de idade que estava institucionalizada por motivo de situação de risco, morava na rua ( Idem). A adolescente chegou em sua sala chorando porque Gardênia, outra adolescente, jogou uma pedra que acabou ferindo sua perna. Segue o desfecho:
VALENTINA: Me diga o que aconteceu Rosa, diga que eu vou agir
[...] chame Gardênia porque as duas vão descer para a Delegacia do Adolescente Infrator ( DAÍ) [..] se arrumem
PESQUISADORA: Você vai mandar realmente as duas para a DAÍ? VALENTINA: [Risos...] É só para meter medo.
PESQUISADORA: Você não acha que haverá um certo descrédito na
sua fala, uma vez que elas irão perceber que não dará em nada.
VALENTINA Não, elas sabem que eu mando descer para a DAÍ.
Neste caso de Rosa e Gardênia, eu invento uma desculpa(2010)
As punições também aglutinam sentimentos de solidariedades entre as institucionalizadas. Quando uma adolescente é encaminhada à Casa de Passagem porque fugiu do Lar Flor de Lis, as outras adolescentes manifestam seus sentimentos através de lágrimas, tristezas e descumprimento das regras da instituição, como uma forma de chamar a atenção por considerar injusto o castigo (SANTOS, 2010).
Mas, será que todas as adolescentes que fogem são castigadas?. Constatamos que não. Como é de práxis , as medidas legalmente adotadas pela Instituição em caso de fuga, se dá pelo encaminhamento de um ofício informando a evasão para os órgão competentes: Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Contra Crianças e Adolescentes (DERCA), Conselho Tutelar, Ministério Público e Juizado da Infância e Juventude. Porém, nem sempre essa rotina burocrática ocorre. As adolescentes que são consideradas “queridinhas” de alguns dos funcionários ou da diretora Valentina, quando “fogem”, não são adotadas nenhuma comunicação às autoridades judiciárias e nenhuma medida de advertência ou transferência para outra instituição é aplicada. Essa prática seletiva por parte dos funcionários e da direção gera conflitos na sua relação com as demais adolescentes institucionalizadas que querem tratamentos iguais (Idem).
Além disso, não podemos deixar de mencionar que em alguns casos de fugas das adolescentes, os moradores da comunidade ligam para Valentina informando que encontrou a adolescente em um determinado local. Em seu carro particular, Valentina relatou que vai até ao encontro, acompanhada de seu marido e outro amigo, na tentativa de trazer a adolescente de volta à instituição. Segundo Valentina, a participação das pessoas da comunidade que conhecem o seu trabalho é de grande ajuda, pois o envolvimento da comunidade do bairro “ já livrou muitas adolescentes de serem estupradas e espancadas. As vezes eles dão até conselhos para as adolescentes” (Idem).
Outra questão que merece ser mencionada é que muitas das adolescentes quando fogem, retornam gestantes. De acordo com a fala de Tereza, Assistente Social, “algumas voltam para o abrigo depois que estão grávidas. Depois que recebem a porta na cara, e como não têm para onde ir, voltam para o abrigo, assim como outras que fugiram , e acabaram pedindo para ser aceita novamente na instituição”.
Leandra voltou grávida pedindo auxílio, só que Valentina não quer aceitar ela como abrigada porque ela já fugiu outras vezes [...] . Recentemente, Liara estava morando com um rapaz depois que fugiu, e agora quer retornar para o abrigo [..] ela apanhava do homem e o homem a ameaçava, e foi nesta segunda-feira pedir a Valentina para voltar para o abrigo. Valentina disse que ela tinha que mudar muito o seu comportamento [...] vai ser a mesma coisa, depois que ela experimentou o outro lado, ela não vai querer cumprir as regras (Tereza, Assistente social, 2011).