2. La TEP en ligne à temps de vol 47
3.4. Discussion sur la séparabilité des contributions
Especificamente sobre os imigrantes, Park publicou em 1928 o artigo Homem Marginal, tendo como parâmetro as análises de Simmel sobre o tema (SIMMEL, 2005). Nesse artigo, analisa o indivíduo que vive entre duas culturas, dando ênfase aos judeus que deixam seus guetos na Europa, migrando para cidades da América do Norte em busca de trabalho e liberdade. Esse imigrante, ao passo que assimila a nova cultura, vive em constante conflito e
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―intensa autoconsciência‖ enquanto ―velhos hábitos estão sendo descartados e novos hábitos ainda não estão formados‖ (PARK, 1928, p. 893).
Alfred Schütz escreveu em 1944 um artigo chamado ―O Estranho‖ em que faz referência a Robert Park. Afirma que o estudo de Park sobre o homem marginal faz parte de uma excelente literatura sobre ―processos de assimilação e ajustamento social‖ (SCHÜTZ, 2003).
Simmel, a partir de um tipo ideal, já havia analisado os sujeitos que, saindo de sua comunidade, vivenciaram os estranhamentos de uma nova cultura e de um novo espaço (MARIZ, 1988). O conceito de homem marginal não deixa de reforçar o tipo de Simmel, mas se percebe no estudo de Park ênfase no conflito, e não apenas na descrição do contato cultural.
A partir das ideias de Park outras pesquisas sociológicas basearam-se no conceito de homem marginal, ora utilizando-o como base para pesquisas empíricas; ora modificando o conceito (GOLDBERG, 2012). Ou, ainda, focando em apenas um de seus aspectos, como é o caso de Stonequist, orientando de Robert Park, interessado nas consequências para a personalidade.
A partir da tese de seu aluno Stonequist (1937), Park dará mais tarde outro sentido à expressão homem marginal, que passará a ter uma conotação mais negativa, incluindo a situação dos negros do Sul dos Estados Unidos, que vivem à margem da cultura branca. O homem marginal será tipicamente um imigrante da segunda geração, que sofre os efeitos da desorganização do grupo familiar, como a delinquência juvenil, a criminalidade, o divórcio. (VALLADARES, 20010, p. 40)
A relação do conceito de homem marginal com os negros moradores de zonas segregadas dos EUA gerou estudos focados em ideias preconcebidas sobre as comunidades, relacionando-as a desajustamento e instabilidade emocional. Inclusive no Brasil, como já vimos (seção 1.1), cria-se o paradigma da marginalidade interligada ao espaço das favelas, negativizando a ideia de ―marginal‖, o que também passou para as políticas públicas.
Nesta seção, no entanto, não pretendemos nos delongar com as críticas ao homem Marginal, como as de Perlman (1977) e WACQUANT (2001). Gostaríamos de salientar alguns artigos escritos no Brasil que não relacionaram esse tipo ideal à ordem da reprovação moral, mas analisam os indivíduos que, ao chegarem a uma nova comunidade, refazem seus processos de referência, muitas vezes em situações muito conflitantes. Estamos falando de estudos como os de Octavio Ianni (2004), Florestan Fernandes (2007), Cesar Teixeira (2015)
e Roberta Mélega (2001). Vamos analisar brevemente um estudo de Fernandes que utiliza o conceito de homem marginal.
O artigo intitulado ―Tiago Marques Aipobureu: um bororo marginal‖, escrito em 1945 por Florestan Fernandes, trata sobre as vivências de Tiago. Ele deixou sua comunidade Bororo a convite de missionários salesianos para estudar e ser professor, passando, inclusive, alguns anos na Europa. Ao iniciar sua carreira de professor não se adaptou ao papel passivo que os missionários lhe impunham. Observou que os missionários o viam como um bororo e, sendo assim, sua ascensão profissional chegaria, no máximo, a professor e catequizador. Esperavam certa passividade dele, como os demais de sua tribo demonstravam ter, mas ao sair de sua comunidade desprendeu-se dos dogmas solidificados até então, de forma que não era mais um bororo como os demais (FERNANDES, 2007).
A reação de Tiago nos faz pensar sobre pessoas de outros povos como ciganos e judeus estudados por Park cujas biografias levaram Park a compreender o homem marginal como alguém que se liberou, emancipou-se de determinada tradição (PARK, 1928). Mas não há uma história igual à outra e o homem marginal é um conceito, não é uma descrição de determinado indivíduo. Tiago tem, então, suas peculiaridades e uma delas foi tentar abandonar o mundo dos não índios. Não atendendo às expectativas dos missionários, e ainda tendo uma postura crítica a eles, passa a ser rejeitado, e por isso decide retornar a sua comunidade. Todavia, por ter ficado muitos anos longe, perdeu as habilidades físicas que precisava para ser um bom caçador e ter reconhecimento entre seus pares (FERNANDES, 2007). Além disso, o afastamento e o convívio com outras comunidades possibilitaram que ele visse de uma forma mais crítica a sua comunidade. Uma das coisas que o contraria é a transformação dos costumes, percebendo que vários deles haviam sido deixados de lado sem a comunidade ter consciência disso.
Ele observa e analisa sofregamente os padrões tradicionais de comportamento, porque procura uma solução, uma forma de ajustamento – ao contrário de seus companheiros da tribo, que perdem em perspectiva o que ganham em integração. Por isso, no fundo, além de encontrar uma explicação para a sua conduta de desajustado, descobre falhas nos outros que, sem perceberem as mudanças, não sabem que seu comportamento está bastante distanciado dos padrões tradicionais da tribo. As condições modificam-se, os homens não podem ser sempre os mesmos – uns em maior, outros em menor grau. É outra forma de compensação desenvolvida pelo marginal, que Tiago revela de modo acentuado. (FERNANDES, 2007, p. 314)
Através de Tiago, o sociólogo Florestan Fernandes descreve duas culturas diferentes, a partir da biografia de um indivíduo, as suas escolhas, possibilidades e trajetórias. Para tanto,
utiliza como conceito central a ideia de marginalidade, mas uma marginalidade não determinista, apresentando, inclusive, como hipótese mais viável ao futuro de Tiago a diminuição dos conflitos internos e uma vida mais integrada em sua tribo.
A biografia de Tiago poderia ser analisada através de outros conceitos como pelo viés do hibridismo, desfocando da ideia de margens e limites. O hibridismo é um conceito que nos remete a desestabilização, mistura e renovação cultural (HANNERZ, 1997). Contudo, o conceito de homem marginal continua relevante diante do processo histórico que envolve tanto os primeiros encontros com o ―novo‖ como as futuras vivências marcadas pela trajetória passada. Nesse sentido, destacamos o artigo ―Uma longa viagem‖ de Octavio Ianni em que trabalhou com esse conceito. Ele aborda as vivências de uma família do sul rural da Itália que migra para uma cidade industrial, e com uma parte desse texto terminamos essa seção,
Pode ser apenas um solitário, retirante, perseguido, ambicioso, viandante; mas podem ser muitos, milhares, milhões, afetados por desastres ecológicos e epidemias, guerras e revoluções, xenofobias e etnicismos, racismos e fundamentalismos, em busca de trabalho, refúgio, raízes, paz. Continuam a percorrer territórios e fronteiras, continentes, ilhas e arquipélagos, levando pelos caminhos as marcas dos próprios passos, desenhando no mapa do mundo os sinais de suas errâncias (...) continua a rememorar a partida e o caminho percorrido, recriando situações, pessoas, vivências, imagens, diálogos, sentimentos, memórias, fragmentos, esquecimentos (...). A condição de migrante é, simultaneamente, a de quem está aqui e lá, em duas ou mais situações, perspectivas, modos de ser. Pode desenvolver certa equidistância, visualizar criticamente a sociedade adotiva e a originária, colocar-se em condição de ―marginal‖. (IANNI, 2004, p.165)
3 - PERCORRENDO A BIBLIOGRAFIA: CORRELAÇÕES PARA A DIMENSÃO DO CONHECIMENTO
Conforme veremos nos textos aqui referenciados, em variados espaços, grupos humanos precisaram mover-se e trocar o local em que viviam – o bairro, a cidade –, sair de um espaço rural para um urbano, entre outras trajetórias. As mudanças podem acontecer espontaneamente, por estratégias de pequenos grupos que necessitam de espaços – para produzir melhor seus alimentos, por exemplo. No entanto, as remoções também ocorrem devido às catástrofes ambientais e projetos de governo relacionados a intervenções urbanas.
Remoções de moradia relacionadas a intervenções urbanísticas e estratégias políticas ocorrem frequentemente de forma compulsória. Na seção que segue, procuramos trazer à luz estudos relacionados a esse tema específico. Em especial, analisamos a literatura referente ao deslocamento compulsório de moradores de favelas no Brasil, um fenômeno organizado com o intuito de solucionar o que é considerado pelos governantes como um problema para o desenvolvimento das metrópoles brasileiras.