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Discussion Objectifs atteints

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Como artista assumo uma mundividência que se encontra no cruzamento das leituras que faço, com a tribo de autores que me servem de lentes para experimentar e me relacionar com os outros e com o mundo. Uma concepção impulsionada por uma espécie de visão quântica do mundo, onde o olhar se joga com o ver em três dimensões, em contexto, com espaço, tempo, em estratigrafia…com um certo erro de paralaxe, onde tempo, visão, sentido e contexto, moldam a percepção daquilo que vemos e moldam a nossa compreensão do presente num jogo de perpétuas dobras de evoluções e involuções.

Um tipo de percepção gerada pelo meu trabalho artístico em torno dos processos fotográficos alternativos9, com especial relevo para a cianotipia que, como ferramenta conceptual, pode possibilitar uma visão crítica do mundo e das coisas.

Isto porque na cianotipia não há topos, não há câmara, não existe um ponto matematicamente definido a partir do qual tudo se organiza. Ela é um espaço aberto, aonde a visão que se exerce é desterritoralizada, permitindo uma série imensa de posicionamentos, uma vez que não existe uma distância determinada por regras óticas e geométricas. Por conseguinte, gera-se um novo olhar móvel, livre de peso, e que vê em todos os sentidos. As imagens produzidas libertam-se das leis da perspectiva, não têm cima nem baixo. Nem o olhar nem o

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Nome dado a um conjunto de processos fotográficos que não necessitam de uma câmara fotográfica para se realizarem.

mundo são fixos: flutuam, um em relação ao outro, numa nova liberdade e impermanência. Assim, as movimentações têm que ser constantes, pois não existe um ponto matematicamente definido a partir do qual se observa e se controla simbolicamente. As rupturas são constantes, pelo que não pode haver um único tipo de visão com respeito à realidade, mas múltiplos.

Neste sentido, o tipo de visão deixou de ser monocular para ser binocular, pois a sobreposição das imagens que cada olho produz obriga ao erro de paralaxe. Assim a relação entre observador e objecto é multidirecional, pelo que a necessidade de classificação e catalogação deixa de fazer sentido, pelo menos conforme a conhecemos (Jesus,2011). É deste modo que a visão desterritorializada que a cianotipia permite experimentar, a meu ver, permite proporcionar aos sujeitos diferentes modos de interpretação a partir de pontos de vista diversos, enformados pelas experiências de cada um, favorecendo deste modo uma tomada de consciência do sujeito sobre si próprio e sobre a realidade em que se movimenta.

Ora este entendimento parece-me importante para a construção dos sujeitos na relação com os outros e consigo próprios, ao mesmo tempo que lhes fornece ferramentas para questionar aquilo por que se torna natural e evidente. Por isso, enquanto artista visual, uma das questões que mais orienta o meu pensamento prende-se precisamente com o ver. E coloco este interesse no sentido em que aquilo que dificulta o entendimento dos dispositivos fotográficos na nossa maneira de ver, e portanto de pensar, é que estes ainda se continuam a percecionar como uma entidade separada do observador (Crary,1990,2001). Quero dizer,

O que é ver? O que é compreender, quando a construção dos saberes passa por imagens, ópticas, máquinas que vêem aquilo que o olho humano nunca verá? Nunca procuramos senão no seio da mancha de luz. Vemos apenas pelo candeeiro, que decide a sombra e a luz. Só compreendemos através de aparelhos de visão técnicos ou instituídos, enfrentando um meio – o nosso – estruturado como um claro-escuro. De que modo estes aparelhos de visão orientam a construção dos olhares e, portanto, das ideias? (Sicard, 2006:16).

Foi assim que comecei desde o fotográfico a questionar os alicerces das minhas representações, tentando perceber por que processos e meios uma imagem conseguia orientar as representações coletivas onde outras falhavam. Trabalhos como o que apresentei no museu D.Diogo de Sousa, no Prémio Casa da Galeria’10 ou no Centro Português de Fotografia, demonstram bem a leitura que fiz do meu trabalho fotográfico (Anexo,VI).

Leia-se por exemplo o texto de apresentação do trabalho exposto no Prémio Casa da Galeria’10

Porque é que a fotografia é a impressão da luz e não da sombra? Como é que a sua visão monocular pode assumir-se fiel à visão binocular humana? Porque é que a fotografia tem que ser o produto de uma máquina? Certamente o espaço aonde estas questões colidem é o do já sentido de Perniola, ou do não-lugar de Augé; um lugar que gera espaços de interação com sujeitos que formam aí a sua identidade. Ora, uma questão que me parece situar-se no topo da lista de eventuais perguntas às imagens ou aos textos, é precisamente aquele que tem que ver com a sua verdade (Foucault,1997a). Que tipo de visão é suposto a fotografia permitir? Que representação lhe é impregnada de tal modo que se pretenda através dela fixar um olhar determinado sobre a realidade ou, que tipo de identidade é que esse objecto pretende fabricar no observador? O fluxo gerado pelo impacto do questionar as nossas próprias representações, resulta no trabalho que aqui apresento. Uma série de imagens (imagini) reais, binoculares, sem máquina, e que registam a sombra das plantas e dos seres que habitam os jardins da minha avó. Desenhos fotográficos, pinturas, fotografias, impressões…será a sua classificação essencial? Ou corresponderá mais um desejo nosso? Certamente, o confronto que estas imagens provocam, e o diálogo interior que daí advém, nos diz mais sobre a nossa natureza, do que sobre a natureza desta imagens. Inquietemo- nos… (Anexo,VIb)

Mas a este texto de apresentação juntava também no dossiê de candidatura uma breve descrição do projeto, acrescentando que a obra deveria permitir, pela sua disposição, “uma interação com o público, possibilitando ao observador questionar o lugar do olhar através da remoção dos alfinetes e consequente alteração da posição da(s) imagem(s)”. Assim, a acompanhar a exposição do trabalho estava afixada a seguinte frase “Se as imagens não lhe parecem na posição mais correta, por favor, queira remover os alfinetes e alterar a sua posição” (Anexo,VId).

Será perante esta realidade que o meu pensar e a minha produção artística se lançam num questionamento ao jogo relacional entre os aparelhos fotográficos e a visão, permitindo-me de ora em diante questionar o lugar do olhar diante das representações e das coisas que se me apresentam (Jesus,2011). Por tudo isto, a minha relação com o artista faz-se por preparação técnica e mental.

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