circunscrito, durante um longo período de tempo, a conclusões oriundas de estudos comparativos (mulheres cuidadoras vs homens cuidadores) tem levantado, junto de um corpo crescente de autores, indagações sobre a efectiva correspondência da informação disponível à realidade. Revisões recentes acerca das questões metodológicas no estudo dos homens cuidadores (Bookwala, Newman & Schulz, 2002; Houde, 2002) destacam algumas dessas limitações ao evidenciar as características das amostras que os compõem, constituídas por números reduzidos de cuidadores do sexo masculino, e que enviesam, desde logo, a confrontação das medidas de resultado obtidas. Numa dessas revisões, chega a ser sugerido que a própria utilização de medidas standard para avaliar a experiência de cuidar (e.g. medidas de sobrecarga) poderá estar a comprometer os resultados, na medida em que, tratando-se de instrumentos desenvolvidos com cuidadoras mulheres, poderão não ser sensíveis à captação da experiência masculina (Bookwala, Newman & Schulz, 2002). Por outro lado, ao considerar especificamente a condição do homem idoso, torna-se fundamental ponderar a tendência deste para sub-relatar problemas de saúde ou de sobrecarga em questionários, facto adiantado por investigadores como Fuller- Jonap & Haley (1995) e Kaye & Applegate (1993, 1995) que evidenciam a necessidade de privilegiar outro tipo de avaliações. Paralelamente, no que concerne às tarefas desempenhadas, o entendimento dado ao cuidar por homens e por mulheres resulta frequentemente na definição de actividades como compras, cozinhar ou limpar como tarefas de cuidar que, sendo muitas vezes intrínsecas à realidade feminina, não são por elas referenciadas como tal (e.g. Ekwall, Sivberg & Hallberg, 2004). De igual modo, reconhecendo-se este viés, a circunscrição às tarefas instrumentais tende a ocultar a execução de outras actividades nas quais o contributo masculino poderá ser semelhante ao feminino, como por exemplo o cuidado antecipatório ou preventivo característico das situações de demência.
Em suma, embora a investigação se tenha debruçado inicialmente sobre lógicas comparativas, estas cedo suscitaram infidelidades interpretativas, a maior parte decorrente de diferenças significativas entre o número de cuidadores homens e o número de cuidadoras mulheres presentes nos estudos, bem como dos instrumentos de avaliação utilizados. Deste modo, a esta abordagem metodológica que avaliava o fenómeno do cuidar masculino de acordo com uma “feminine yardstick” (Russell, 2001:357), viria a contrapor-se uma outra, que procurou radicá-lo no seu epicentro ao tomar como ponto de partida e de análise exclusiva, sem comparações, a experiência masculina. Na realidade, a necessidade de compreender aquela experiência em profundidade, principalmente as variações internas da grande categoria “homens cuidadores” (e.g. filhos, cônjuges), resultaria na proliferação de investigações assentes em metodologias qualitativas que, ao expandir a compreensão desta problemática, têm demonstrado uma maior variabilidade da experiência do que aquela que tem vindo a ser tradicionalmente apresentada e/ou assumida.
Desde os primeiros estudos, de raiz fenomenológica, que datam da década de 80 (Motenko, 1988, 1989; Vinick, 1984), até outros mais recentes como aqueles desenvolvidos nos EUA por Russell (2001, 2004, 2007a, 2007b) e por Kramer et al. (1997b, 2000), e no norte da Europa (Finlândia) por Kirsi, Hervonen & Jylhä (2000, 2004), ambos seguindo uma linha de interesse centrada em processos demenciais, o facto é que têm-se multiplicado, nos últimos anos, os esforços para abordar, com a profundidade desejável, tais experiências. Nesse sentido, se Carpenter & Miller (2002) denunciavam, no fim da década de 90, a escassez de estudos especificamente centrados na experiência masculina (uma revisão da literatura realizada pelos autores revelou a existência de apenas 18 estudos publicados entre 1988 e 1999), desde então, mais precisamente nos últimos 5 anos, de modo crescente se assiste a uma proliferação de estudos qualitativos, que contribuem no sentido de colmatar essa lacuna. São estudos que evidenciam não só o modo como os maridos idosos cuidam das suas esposas, especialmente aquelas com demência de tipo Alzheimer (e.g. Cahil, 2000), como as motivações e padrões de prestação de cuidados de filhos homens com pais idosos e dependentes (e.g. Sanders & McFarland, 2002; Kwok, 2006), ou mesmo a participação de homens, de vários graus de parentesco, como cuidadores informais de familiares em condições tão particulares como as referentes a doenças terminais (e.g. Fromme et al., 2005). Em paralelo, preconizando-se um aumento do número de homens cuidadores no futuro, tem vindo a aumentar a consciencialização para os desafios do homem cuidador, sobretudo maridos / companheiros, em populações mais jovens no contexto de doenças específicas como
o HIV/SIDA (e.g. Sipes, 2002) e o cancro (e.g. Ciambrone & Allen, 2002; Hilton, Crawford & Tarko, 2000).
Convirá referir, no entanto, que à semelhança dos enviesamentos e limitações decorrentes da proeminência de uma lente de género (verificável sobretudo nos estudos comparativos), outras constatações têm emergido relativamente à investigação realizada com homens cuidadores enquanto unidade central de análise. Esta linha empírica tem sido amplamente referenciada como tendo muitas debilidades, na medida em que recorre a amostras bastante reduzidas, não aleatórias, e centradas em homens de classe média, com nível de escolaridade médio-alto (Kaye, 1997). De forma análoga, estes estudos vislumbram-se ainda escassos em número e padecem de múltiplas limitações que condicionam a generalização dos resultados obtidos (cf. Bookwala, Newman & Schulz, 2002; Houde, 2002), como sejam as definições operativas do cuidar de que partem, e o seu carácter eminentemente descritivo e exploratório. Sendo maioritariamente estudos de cariz qualitativo, as mais importantes excepções circunscrevem-se (i) ao desenho de investigação misto (qualitativo e quantitativo) de Kaye & Applegate (1990) realizado com 148 homens americanos (filhos e maridos), recrutados através de grupos de apoio a nível nacional, (ii) à linha de estudos de Kramer et al. (Kramer, 1997b, 2000; Kramer & Lambert, 1999), que se tem centrado sobretudo na saúde dos homens cuidadores e, (iii) mais recentemente, a linha de estudos desenvolvidos no Canadá pela equipa de Ducharme e Lévesque (Ducharme et al., 2005a, 2005b, 2006; Lévesque et al., 2007) que se tem centrado na realidade dos maridos idosos cuidadores em vários domínios de análise, de acordo com o modelo transaccional de stress de Pearlin49.
Existindo várias lacunas acerca do conhecimento disponível sobre a experiência masculina neste papel, e independentemente da abordagem utilizada, indiscutível parece ser a necessidade de evitar estereótipos de género, de perceber similaridades da experiência em ambos os sexos (e em vários subgrupos em cada um deles), e de reexaminar as assumpções habituais sobre o género e o cuidar, constatadas que começam a ser as necessidades de providenciar respostas que vão ao encontro da longevidade assistida da população e do aumento da proporção de cuidadores homens ao longo da vida. Nesse sentido, vários autores (cf. Fisher, 1994; Harris, 1993; Kaye & Applegate, 1994) já destacaram a importância de conduzir investigações especificamente orientadas para cada coorte no sentido de incrementar e aprofundar o conhecimento disponível, devidamente contextualizado, sobre a sua experiência. Porém, apesar destas recomendações terem sido proclamadas pela primeira vez há