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1.2) Un discours religieux mis à mal par l’humour et le tragique

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O que é distintivo da nova visão das relações entre literatura e filosofia moral é que, segundo Alice Crary, uma entusiasta dessa posição, forma literária e conteúdo moral estão inseparavelmente vinculados em alguns romances. Segundo Crary (2010, p. 250- 251), a compreensão dessa vinculação exige a aceitação do que essa autora chama de uma “concepção ampla da racionalidade”, segundo a qual, primeiramente de modo negativo, o pensamento racional não se limita à apresentação de argumentos. Uma concepção, por oposição a essa, limitada da racionalidade a toma como consistindo exclusivamente da apresentação explícita de argumentos que utilizam juízos garantindo juízos na forma de inferências formalmente válidas, como num silogismo bem construído. O que a nova visão contrapõe a essa visão é que as características distintivamente

---André Klaudat---

31 literárias da produção de textos ficcionais podem ter um interesse eminentemente racional embora não seja a apresentação de argumentos (CRARY, 2010, p. 250). Portanto, uma concepção ampla de racionalidade embasa a visão de que cursos de pensamentos provocados pela narrativa literária possam ser racionais em função dela moldar nossa sensibilidade de uma maneira determinada. Afirma Crary (2010, p. 251): “A concepção ampla acomoda a possibilidade de que uma porção de discurso que apela ao nosso coração [a narrativa literária] possa como tal contribuir para a compreensão racional [da situação moral]”. Assim, um ensinamento moral de caráter racional e um pensamento moral determinado podem estar contidos na orquestração de reações sentimentais específicas intencionadas pelo autor ou autora de uma estória ficcional. Essa visão sobre como uma obra literária pode ser parte da filosofia (num sentido lato) moral, ao conter “ensinamentos” morais, depende da concepção ampla da racionalidade que prevê que “certas capacidades de sensibilidade ou propensões são internas a todas as capacidades racionais” (CRARY, 2010, p. 252). Consequentemente, o “trabalho moral” de um(a) autor(a) dependerá dela conseguir “convencer racionalmente” não ao oferecer a ilustração da correção de juízos morais específicos contida na sua estória, mas antes através do “engajamento sentimental” orquestrado pela narrativa em função precisamente de uma visão moral determinada. Isso poderia ser mostrado nas estórias de vários autores, em especial, segundo as defensoras da nova visão que mencionei acima, em Jane Austen, Tolstoy, Irmãs Brontë, George Eliot, E.M. Forster, Theodore Fontaine, Henry James, Charles Dickens, Proust, Iris Murdoch, entre outros. Nos Estados Unidos, há resistência para incluir Mark Twain com seus Huckleberry Finn e Tom Sayer (o último uma leitura do 4º ano da Escola Projeto de Porto Alegre). Há uma discussão similar no Brasil em relação à literatura infantil de Monteiro Lobato. Eu teria certeza em excluir as obras de Borges, Cortázar, Jorge Amado, Rubem Fonseca, Garcia Lorca. Talvez, segundo esse ponto de vista, incluiria Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Machado de Assis e Lima Barreto.

Vou me limitar a um único exemplo por razões de espaço e porque Crary analisa esse caso: trata-se de Disgrace (Desonra) de J.M. Coetzee, que conta a estória de um professor universitário na conflagrada África do Sul pós-apartheid. David Lurie e sua filha Lucy tem um embate no final do capítulo 13, que pode bem capturar o tema central do romance, isso aos olhos de Crary. Depois do ataque sofrido por ambos, Lurie se surpreende com a falta de reação de Lucy. Eles discutem nos seguintes termos:

Tu pensas que o que aconteceu aqui foi um exame: se tu passas, tu recebes um diploma e um salvo-conduto para o futuro, ou um

---André Klaudat---

32 sinal pintado no marco da porta que fará a praga te poupar? Não é assim que a vingança funciona, Lucy. A vingança é como um fogo. Quanto mais devora, mais faminto fica.

Pára David! Eu não quero ouvir essa conversa de pragas e fogos. Eu não estou tentando salvar minha pele somente. Se é isso que tu pensas, tu te enganas completamente.

Então me ajuda. É uma espécie de salvação particular que estás tentando levar a cabo? Tu esperas poder expiar os crimes do passado com sofrer no presente?

Não. Tu continuas me entendendo mal. Culpa e salvação são abstrações. Eu não ajo em termo de abstrações. Até que tu faças um esforço para ver isso, eu não posso te ajudar (COETZEE, 1999, p. 112).

Fica claro nessa discussão que existe alguma coisa que distancia pai e filha. Esse diálogo termina nos seguintes termos: “Ele quer responder, mas ela o corta. ‘David, nós concordamos, eu não quero continuar essa conversa’. Nunca antes eles estiveram tão, e tão amargamente, afastados. Ele está abalado” (COETZEE, 1999, p. 112). Segundo Crary, é possível compreender o propósito moral de Coetzee com a estrutura narrativa dessa estória se percebermos e soubermos apreciar moralmente isso que separa tão drasticamente pai e filha.

Para Crary, o que os distancia é uma questão de acuidade moral, que claramente faltaria a Lurie como Coetzee procuraria nos fazer perceber. Conduzidos pelas mãos habilidosas do autor, veríamos que Lurie experiencia e compreende o mundo e o que acontece com ele próprio em termos, fundamentalmente, de abstrações, o que de fato o incapacita a entender, a capturar, a real dimensão dos acontecimentos e da situação na qual eles se encontram. No caso do ataque que ambos sofrem, a compreensão de Lurie do que aconteceu permite a ele somente “convidar” Lucy a abandonar completamente aquele lugar e a vida ali vivida: seria a única atitude racional a ser tomada. Como a “proposta” é partir para a Inglaterra, a porta de saída é a do aeroporto. Mas as limitações morais da visão de Lurie do quadro seriam particularmente claras, segundo Crary, na incapacidade que ele demonstra de ver sequer que a sujeição a forças naturais e políticas que estão fora de controle de certos sujeitos particulares é crucial para até mesmo entender esses sujeitos e suas ações em determinadas circunstâncias. Como consequência, Lurie não veria as vulnerabilidades de Melanie — de quem Lurie “abusou” no início da estória e que lhe custou a posição na universidade — e Lucy como “produtos de suas posições em contextos históricos e políticos mais amplos”. E ele de modo algum

---André Klaudat---

33 vê — o que é emblemático da leitura de Crary — que “há uma conexão direta entre o que David fez a Melanie e o que aconteceu a Lucy”.

É importante para a posição de Crary que não cometamos um erro de expectativa a esta altura. O que David Lurie alcança ao final da estória, e seria para a compreensão disso que Coetzee realizaria sua arte, não seria uma visão, digamos, perfeita da realidade. Diz Crary: “Eu não estou sugerindo que a novela objetive de algum modo tornar esse mundo transparente à compreensão”. O objetivo de Coetzee, e o que deveria ser compreendido por nós se entendemos a obra, é apresentar, na sua radicalidade, “a dificuldade do pensamento moral”. Não se trata de buscar iluminar completamente certas “situações de grande miséria”, nem de apresentar uma “chave miraculosa” para identificar as suas “fontes mais profundas” para então nos instruir sobre como “encarar” essas situações no contexto social e político da África do Sul pós-Apartheid (CRARY, 2010, p. 260-261).

Mas qual seria, afinal, a visão moral apresentada e defendida em Disgrace, segundo Crary, essa que envolve o destaque à “dificuldade do pensamento moral”? Seria a de que corremos grande perigo moral se nos permitimos ser vítimas de uma determinada forma de cegueira moral. Crary (2010, p. 266) argumenta com vigor, tendo certamente o caso de Lurie em mente:

Disgrace destaca as ramificações políticas do retrato da vida ética que ele [o romance] pinta. Situado num lugar e num tempo de grande sublevação política, ele tem a intenção de nos persuadir de que os riscos morais que corremos se nos recusamos a pensar sobre o mundo de uma maneira que é aberta, por uma rica prontidão à vida [responsiveness], não são somente estes de falhar em dar sentido às nossas vidas, mas também este de através disso sucumbir às formas de cegueira moral que nos condenam a perpetrar ou a aprofundar graves injustiças políticas.

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