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Andrea Fontes é uma cantora fluminense, nascida na cidade de Nova Iguaçu, em 1971. Está com mais 40 anos de carreira musical. Essa carreira é anterior a cultura gospel, ela começou ainda em sua infância, aos quatro anos de idade. No entanto, seu primeiro álbum foi lançado em 1980, quando ela tinha nove anos. De lá até o presente momento lançou outros álbuns, nos formatos compacto, LP e CD. Sua discografia é composta por até o momento por 21 álbuns.44 E a sua discografia por dois trabalhos.45 O estilo musical de Andrea Fontes baseia-se no forró46, baião, xote e outros elementos de música popular brasileira. Existem aqueles que definem esse estilo como “música pentecostal”. Outra marca musical da cantora é que muitas de suas canções são em forma de histórias e narrativas. O videoclipe que escolhemos analisar da cantora, Batismo no Ônibus, do álbum Momento de Deus (2005). Esse álbum é o primeiro que a cantora lançou pela
44 Seguindo para o Céu (1980); Deus não Dorme (1980); Parábola da Semente (1987); Fogo Puro (1988), Cristo Vive (1989); Unção (1990); A Igreja Pura (1991); Vencendo Desafios (1994); Força do Amor (1998); Usa-me (2000); Prosseguir (2001); Permissão de Deus (2002); Tua História (2003); Momento de Deus (2005); Pregador Fiel (2007); Deus Faz e Acontece (2009); Eu Acredito em Milagres (2011); Do outro lado (2012); Diploma de Vencedor (2013); Deus Surpreende (2015); Ele Me Chamou de Alguém (2107).
45 Ao vivo Andrea Fontes (2008) e Deus surpreende (2015).
46Forró: Segundo alguns, do inglês for all, para todos, referências a certas festas dos técnicos e engenheiros
britânicos que construíram estradas de ferro no Brasil, nas quais excepcionalmente era permitida a entrada dos peões. Na verdade, a palavra forro, que significa festança, é muito mais antiga e veio de forrobodó. Nos dias de hoje, o termo também identifica o local de festas das comunidades nordestinas de todo o Brasil, com seus característicos baiões, xotes e xaxados (DOURADO, 2004, p.138)
gravadora MK Produções, os demais eram produzidos de forma independente. Ele é considerado um dos mais importantes da carreira de Andrea, como podemos perceber nesse comentário do site Letra de Música:
Para Andrea, o CD Momento de Deus, que fez grande sucesso com a música "Batismo no Ônibus" e rendeu à cantora Disco de Platina, foi um marco no seu ministério. “O álbum vai ficar na história. Onde eu vou as pessoas dizem: 'É ela, a cantora do 'Batismo no Ônibus'”47. Quando gravou o seu primeiro DVD ao vivo a apresentação da “(...) canção "Batismo no Ônibus", que encerrou o DVD, o palco ganhou a réplica de um ônibus, para alegria dos presentes e surpresa da cantora”.48
Podemos afirmar, através das informações da matéria do site, que o álbum foi bastante popular e obteve um número considerável de vendagem particularmente pela música Batismo no Ônibus. A história da canção composta por Raimundo Neto é uma adaptação musical para uma narrativa popular oral das igrejas evangélicas brasileiras, particularmente as denominadas “pentecostais49”. É uma narrativa transmitida há várias
décadas de geração para geração. Essa narrativa é costumeiramente contada durante as reuniões denominadas “círculos de oração”. Nesses círculos de oração50 as pessoas
buscam o denominado “batismo do Espírito Santo”51, numa analogia a narrativa bíblica
da descida do Espírito Santo descrita no livro de Atos 2. 1-13. Nela cada povo ouviu em
47 Disponível em: <https://www.letradamusica.net/andrea-fontes/biografia-artista.html.> Acesso 26 de janeiro de 2019.
48 Ibidem.
49Escolhemos a definição de IngoWulfhost para definir as Igrejas Pentecostais. Para ele elas têm sua origem
por volta dos séculos 17 e 18 na Inglaterra. Lá surgiram os believers (crentes) entre os mineiros ingleses, os mais explorados dos explorados durante a revolução industrial. Perseguidos pela polícia, alguns fugiram para os Estados Unidos, onde se localiza o berço do pentecostalismo brasileiro, mais especificamente na cidade de Los Angeles. Lá o pentecostalismo surgiu em 1906 a partir do assim chamado “ movimento de santidade”. Esse movimento, fortemente influenciado pelo conceito de Wesley acerca da perfeição humana, acentuava que se deve diferenciar a santidade da justificação e que a santidade é uma segunda obra da graça de Deus. O núcleo mais forte era a Escola Bíblica de Topeka, onde se defendia que o falar em línguas era um sinal que acompanhava o Batismo do Espírito Santo.Em 1906 o pregador negro W. J. Seymour foi pregar na igreja negra da evangelista Nelly Terry em Los Angeles sobre Atos 2.4. Pregou que, além da justificação e santificação, Deus teria uma terceira bênção, ou seja, o Batismo do Espírito Santo (WULFHOST, 1995, p. 7-8).
50 Círculo de oração: Nome dado aos grupos de intercessão de igrejas pentecostais. Estes grupos são formados normalmente por mulheres casadas. Suas atividades contemplam a oração fervorosa em busca de comunhão e milagres, além de louvor e atividades beneficentes. As reuniões de oração fazem parte do cotidiano de igrejas pentecostais como as Assembleias de Deus desde sua origem e eram incentivadas por seus fundadores Gunnar Vingren e Daniel Berg.
51Segundo Ingo Wulfhost o Batismo do Espírito Santo nos primórdios do pentecostalismo norte-americano
já se destacava como terceira bênção após a justificação e a santificação. Cabe lembrar aqui que no pentecostalismo brasileiro a justificação aconteceria no momento da conversão pessoal a Jesus Cristo e que mais tarde a santificação se realizaria de forma total no Batismo do Espírito Santo. Normalmente, no pentecostalismo o Batismo do Espírito Santo acontece após o “ Batismo nas águas”. Depois de uma preparação e uma expectativa muito grande e forte acontece o Batismo do Espírito Santo. A experiência religiosa de ter sido eleito por Deus, selada pelo Batismo do Espírito Santo, é para o crente a sua distinção em relação a todas as demais pessoas (WULFHOST, 1995, p.17).
sua própria língua a mensagem do evangelho de Jesus. Na leitura pentecostal a manifestação do Espírito Santo acontece quando se fala em línguas consideradas estranhas ao entendimento humano e quando se recebe poder para executar os “dons espirituais”, tais como o dom de curar e o de profetizar. Receber um desses dons, através do “batismo do Espírito Santo” é um alvo muito procurado, alvejado e necessário para a vida comunitária, por isso a grande ênfase para que tais experiências aconteçam. É nesse contexto que a narrativa popular do batismo no ônibus configura-se, pois, se o fiel não se permitir “receber” o “Espírito Santo” durante uma celebração ritual dentro do espaço sagrado da igreja, Deus poderá fazer isso em meio a vida cotidiana, de alguma forma, em algum momento, num lugar “profano”. Isso porque segundo a tradição doutrinária essa experiência com o transcendente precisa acontecer na vida de todo o evangélico das “igrejas pentecostais”. Começaremos nossas considerações pela melodia da canção, que é cantada no estilo xote. Esse estilo é utilizado com grande frequência pelas igrejas evangélicas “pentecostais” nos momentos cúlticos. Durante a execução da melodia em três momentos distintos Andrea para de cantar e declama algumas estrofes. Esses momentos declamados foram por nós destacados na transcrição da letra52:
Certo irmão tinha desejo de ser batizado com fogo divino. Ser pentecostal. E foi para uma festa. Um culto abençoado onde o monte fumegava, era fogo total. No meio daquele fogo uma irmãzinha cheia. Batizada por Jesus, do banco se levantou. Começou a marchar. E dançar na igreja. E o irmão vendo aquilo, logo duvidou e disse: Eu quero ser batizado com fogo. Mas para ficar assim eu não quero e nem creio Jesus Cristo. Usou um vaso na congregação. Enviou até onde estava aquele irmão e disse: Eu vou te batizar no ônibus cheio
Declamação: Aí, o irmão tocou no outro irmão que estava ao seu
lado e disse: essa profecia não foi pra mim, porque eu sou dono de uma grande empresa, tenho uma frota de carro, não ando de ônibus. É, mas o que Deus fala, Deus cumpre. Passados alguns dias... Certo dia ele acorda pra ir pra sua empresa, tenta ligar o primeiro carro e ele não pega, vai para o segundo carro, não pega e assim foi um a
um o Espírito Santo não deixou nenhum pegar quando chegou no último carro ele lembrou da profecia e pensou pronto vai se cumprir hoje, mas eu não vou de ônibus, eu vou de taxi é mas veja só como Deus faz.
E foi para a parada esperar um taxi. O que passava estava cheio. Pra agonia dele. E de repente para um ônibus. Pra onde ele ia e o mesmo estava lotado, só cabia ele. Eu chego atrasado, mas nesse não vou. De repente lá vem outro para o seu alívio. Jesus teve misericórdia. E chegou a benção. Do mesmo que passou. Só que agora vazio
Declamação: Aí, o irmão pensou: pronto o ônibus tá vazio, a
profecia não pode ser cumprir minha empresa não é tão longe, não vai dar pra enche é mas de repente. O irmão começa a lembrar daquele culto abençoado, esquece a profecia e começa a glorificar. Oh glória! Oh culto gostoso! Óh glória a Jesus! E o irmão nem percebe que aquele ônibus que passou cheio quebrou e o povo teve que passar todinho pro ônibus que ele estava. É, ele ficou ligado dando glória, aleluia, de repente, um certo momento, Jesus, pou! Batiza o irmão com o Espírito Santo. O irmão começa falar em língua estranha, não se contenta em ficar sentado, fica de pé e começa a marchar, todo bem arrumado, engravatado e o ônibus vira um alvoroço o motorista para o ônibus e pergunta: Que negócio é esse que está acontecendo ai? Alguém diz: motorista, tem um homem aqui dentro que ficou doido, tá falando uma língua que ninguém entende e quando a gente toca nele leva choque. Meu Deus do céu o que a gente faz? “Ah! Vamos descer esse camarada aí e chamar o guarda pra fazer alguma coisa, leva pro hospital ou pro manicômio, aqui dentro ele não pode ficar”. É...
Foi uma dificuldade pra descer o irmão. E todo povo desceu pra ver no que daria e fizeram uma roda. Aquela multidão, era tanto benzimento, tanta ave-maria. Foram chamar o guarda. Que já foi difícil abrir caminho no meio do povo que estava lá. Quando o guarda viu o irmão se abraçou com ele. E em línguas também começou a falar.
Declamação: Aleluia, eta glória a Deus! Num era que o guarda era
crente e batizado com Espírito Santo, já entendia o mistério aí, foi que o povo assombrado e disseram: aí gente, ninguém encosta, não ninguém encosta que esse negócio pega! E pega mesmo irmão, começa a glorificar a Deus onde você está, que pode te encher de poder hoje. Na cozinha, na sala, no quarto, na varanda, varrendo, lavando louça, passando pano na casa, como estiver... Glorifica!!! Desse jeito é o Deus da bíblia sagrada. Ele decide e faz do jeito que Ele quer. Se Ele promete, cumpre ele nunca falha é desse jeito. E esse é o jeito que Ele é. Não se preocupe irmão. Somente dê glória. Deixa o povo dizer que é coisa absurda. Arrebenta tudo, mas o que ele fala cumpre. Mesmo que para o mundo pareça loucura.
Com relação a análise da letra podemos destacar que ela se passa como uma história, com narrativa linear, com o eu-lírico na terceira pessoa do singular que irá discorrer sobre a história de um personagem. Em alguns momentos os diálogos dos personagens dessa história são cantados ou declamados pela cantora. É possível perceber pela descrição da letra que as ações acontecem em diferentes espaços: na igreja, no estacionamento da casa do personagem principal, dentro do ônibus e na rua. A história da canção é sobre um personagem que estava na igreja e durante o culto, pensa consigo mesmo sobre o desejo de ser “batizado com o Espírito Santo”, em meio aos seus pensamentos observa que uma outra personagem começa a dançar e “marchar”, porque era batizada no Espírito Santo, esses movimentos corporais são comuns e esperados durante esse “êxtase53 religioso”, e são denominados tal como a letra descreve. Segundo
a descrição da canção o homem se assusta ao ver aquela manifestação da mulher e considera melhor não ser batizado para não agir da mesma forma que a mulher. Todavia, é abordado por outro personagem que “profetiza”54, ou seja, traz um recado divino para
53 Optamos pela definição de êxtase segundo Antonio Gouvêa Mendonça que descreve que o êxtase pode ser um estado de consciência alterado, com maior, ou menor intensidade, e que se caracteriza pela passagem que o indivíduo sofre de uma realidade para outra. Técnicas como movimento do corpo, gestos repetidos, cânticos ritmados e orações de intensidade crescente podem levar ao êxtase coletivo, em que o grau de alteração de consciência, embora variável de indivíduo para indivíduo, configura o culto extático. (...) O indivíduo em êxtase pode ir de um intenso estado emocional, às vezes assinalado por tremores, voz embargada ou inarticulada, choro, desbloqueio das censuras naturais, até estados de total inconsciência. Nas religiões em que se busca o êxtase é frequente o surgimento da glossolalia que, em muitos casos, é instrumento de profecias (revelações) (MENDONÇA, 2008, p.128-129).
54 Segundo Antonio Gouvêa Mendonça a profecia (revelação) indica intimidade do indivíduo com o
ele dizendo que seu batismo acontecerá num ônibus cheio. O homem duvida da “profecia”, acredita que ela não pode acontecer porque ele não tem o hábito de andar de ônibus. A cena seguinte mostra o homem num estacionamento, e todos os carros que ele tenta utilizar não funcionam, ele então tenta pedir um táxi, também não consegue. Um ônibus cheio passa e ele não pega, espera um pouco mais e entra num ônibus vazio, contudo, ele acaba enchendo porque o ônibus da frente quebrou.
No ônibus lotado o homem é surpreendido pelo “descer do Espírito Santo” e acaba recebendo seu “batizado”, começa a “falar em línguas que ninguém entende”, ele então se levanta, e “marcha”, ou seja, realiza movimentos corporais tal como a mulher dentro da igreja. O que faz que os demais passageiros do ônibus fiquem bastante assustados. Em meio à confusão, o motorista para o ônibus, todos descem, e o homem continua em seu estado de êxtase, as pessoas resolvem chamar um guarda, que para a surpresa de todos também era batizado pelo Espírito Santo e também começa seu próprio êxtase, o que gerou um assombro ainda maior nos demais passageiros do ônibus. Na canção é possível observar elementos que caracterizam o discurso religioso, segundo as perspectivas de Orlandi, uma delas é que o discurso de “Deus é eterno-já-lá”, isso porque tal como acontece na narrativa bíblica do livro de Atos (At 2. 1-13)55, o Espírito Santo “se
manifesta” nas pessoas em diferentes tempos históricos, o que permite que elas vivenciam experiências espirituais com o transcendente. Essa experiência espiritual, que evangélico precisa passar segundo as doutrinas das igrejas dessa linha teológica, também traz um caráter de “historicidade ao discurso” da narrativa da letra. Bem como a “duplicidade do discurso” que transita entre o “plano espiritual divino” e o “plano temporal dos humanos”, ou seja, “a pessoa é dotada de poder divino, mesmo sendo humana”.
Segundo da interpretação da análise de discurso, de Orlandi, a letra possui um “discurso lúdico”, que faz um convite para que todas as pessoas se permitam vivenciarem essa experiência espiritual, preferencialmente no meio da celebração ritual, para que não precisem vive-la na vida cotidiana. Sua “polissemia é aberta”, e pode tanto trazer a memória de quem ouve a lembrança de como foi a sua experiência espiritual, e ser um convite para quem ainda não a viveu, experimentá-la. Além do mais, o interlocutor se expõe aos efeitos do próprio discurso, pois, no “não dito”, na sua forma de “pressuposto”,
revelação é a manifestação da vontade da divindade para com os seus seguidores ou até para com outros indivíduos (MENDONÇA, 2008, p.129).
55 BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Letra Extragigante. Tradução João Ferreira de Almeida. Quarta Impressão. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2016. Edição Almeida Revista e Corrigida.
o eu-lírico na terceira pessoa também já vivenciou essa experiência. E com a ilustração da história de outro personagem convida aos demais a experimentá-la também. A descrição da experiência religiosa na história do personagem da canção também confere a música um poder de “discurso de mistificação”. Ao final da canção a ênfase de que a manifestação do “batismo do Espírito Santo” pode acontecer em qualquer lugar, que Deus faz as coisas do jeito que quer, e que sua ação ultrapassa a lógica humana. E que o “mundo” nunca irá entender o agir de Deus, pois, é entendido como loucura, numa analogia a narrativa bíblica descrita na epístola de Paulo a comunidade de Coríntios, em I Coríntios 1. 18-2556, que descreve que a sabedoria de Deus é loucura para os seres humanos. Nesse sentido o discurso religioso da letra tem a ver com “outro discurso religioso”.
Cabe nos ressaltar algumas palavras utilizadas na letra que são caracterizantes do das igrejas evangélicas, em especial as pentecostais, e bastante utilizadas na cultura gospel. A palavra “fogo” é utilizada como metáfora para descrever o “poder de Deus”, quanto mais “fogo”, mais “poder vindo do transcendente a pessoa possui”. A palavra “fogo” aparece quatro vezes na canção. Outra palavra é “vaso”, as pessoas são chamadas de “vaso”, numa analogia ao fato de que são “vasos de barro no qual emana o poder abençoador de Deus”, para enfatizar que “o poder não vem delas, e sim do divino”. A palavra Deus aparece sete vezes, Jesus cinco ocorrências e Espírito Santo três vezes, apesar da ênfase na experiência com o “batismo no Espírito Santo”. Portanto, as três pessoas da trindade são destacadas na letra. A narrativa musical segue uma duplicidade durante toda a canção, cômico/manifestação do transcendente. O que em muitos momentos parece uma manifestação cômica, tal como os carros não funcionarem, o táxi cheio, o ônibus que quebra, são momentos que se busca enfatizar que a manifestação do sagrado pode ocorrer quando, onde e da maneira que o transcendente quiser. Essa duplicidade é bastante intencional, para trabalhar tanto a questão de que Deus “usa coisas loucas” para realizar seu plano, quanto para o alerta de que é melhor o evangélico buscar o “Espírito Santo” durante o culto. Para que este não passe por situações “extraordinárias” em sua vida ordinária. Essa duplicidade cômico/manifestação do transcendente na linguagem do videoclipe fica bastante explicita também, como veremos a seguir.
O videoclipe Batismo no Ônibus foi produzido pelo MK Studios, estúdio da própria gravadora que lançou o álbum, a MK Publicitá, não conseguimos obter a
informação sobre quem foi o diretor e nem o ano de seu lançamento. Ele possui um estilo popular, o que representa uma originalidade, isso porque ele foi produzido de uma forma simples para se dirigir aos simples, ou seja, o que poderia ser considerado amadorismo em termos de elementos de produção, é na verdade uma intenção de seus produtores de aproximação com o público ao quem se destina. A narrativa visual se desenrola a partir da história do personagem que ainda não havia recebido o “batismo no Espírito Santo” em nenhuma celebração religiosa, ou seja no espaço do místico, do extraordinário, e acaba recebendo a presença divina no ordinário, dentro de um ônibus. O videoclipe começa com algumas imagens em tela dividida de cenas que irão aparecer novamente durante sua exibição e o fundo preto com palavras em branco que formam a frase: “MK Studios orgulhosamente apresenta Andrea Fontes Batismo no Ônibus”. Posteriormente as cenas irão acontecer dentro de uma igreja, com Andrea cantando, sem participar da história, porém, no mesmo espaço que os personagens estão, já fica claro nas imagens sobrepostas, relativamente lentas em relação ao dinamismo característico do formato do videoclipe, que está acontecendo um culto. O destaque do close up já revela quem é o personagem principal do enredo da história: um homem que queria ser batizado no Espírito Santo. No meio do culto uma personagem levanta-se e começa uma “manifestação de êxtase”, com gestos caracterizantes de quem é “batizado pelo Espírito Santo”, como já destacamos em nossas considerações sobre a letra. O personagem principal revela uma expressão de surpresa e negação do que observa, enquanto a narrativa musical revela o que ele está pensando: “Eu quero ser batizado com fogo. Mas para ficar assim, eu não quero e nem creio, Jesus Cristo”. Aliás, durante todo o videoclipe a narrativa da linguagem musical irá acompanhar praticamente em sua totalidade a narrativa da linguagem visual. Sendo assim, podemos afirmar que elas têm “um sentindo de complemento”.