Section II.2 – Revue de la littérature du capital investissement dans les pays émergents
III. La problématique d’un capital investissement adapté aux pays émergents
1. Difficultés d’introduction du capital investissement dans les pays émergents
As carreiras científicas e tecnológicas continuam sendo guetos masculinos. Muitas mulheres conseguem ultrapassar as barreiras e ingressar em tais carreiras, porém permanecem minorias quando se compara com a quantidade de homens. Estas mulheres têm dificuldades de serem reconhecidas como pesquisadoras e cientistas. Muitas vezes sua capacidade intelectual é questionada pelo fato de serem mulheres.
As justificativas para a menor presença feminina em tais carreiras são diversas. Muitas vezes baseiam-se em características que se espera encontrar nas mulheres e que dificultaria o trabalho científico, outras vezes no fato de entenderem que a mulher não tem habilidades suficientes para desenvolver a atividade científica. O conhecimento matemático, supostamente menor nas mulheres, também é utilizado como forma de excluí-las. Ou seja, as expectativas são baseadas em estereótipos de homem e de mulher. O estereótipo dificulta a percepção da multiplicidade de formas de se vivenciar a masculinidade e a feminilidade. Dizer que uma pessoa não tem capacidade de desempenhar uma atividade pelo fato de ser mulher ou homem é uma demonstração de desrespeito à formação e qualificação da pessoa, bem como uma manifestação de preconceito.
Estudos (CARVALHO M. G., 2007; CASAGRANDE et al., 2005; LOMBARDI, 2006; SCHWARTZ et al., 2006; dentre outros) mostram que as mulheres são minoria nas carreiras científicas e tecnológicas, não só no Brasil como também em outros países. Isso pode ser consequência do fato dos pais/mães e professores/as oferecerem pouco estímulo para que as meninas se dediquem e se interessem pelos estudos matemáticos, fato que estaria também limitando suas possibilidades profissionais futuras (VELHO e LEON, 1998). Considera-se que o conteúdo matemático é fundamental para a maioria das carreiras científicas e tecnológicas e a afinidade com a Matemática pode ser decisiva na escolha das profissões. Entende- se que este não é o único fator a interferir nas expectativas profissionais, porém não se pode negar que uma pessoa com pouca afinidade com uma determinada disciplina dificilmente escolherá uma profissão que necessite do seu conteúdo no desenvolvimento das atividades profissionais cotidianas.
Segundo González Garcia e Pérez Sedeño (2006, p. 46), a suposta falta de habilidade Matemática e espacial “explicaria o escasso número de mulheres nas engenharias e arquitetura, profissões que requerem habilidade para as Matemáticas e as relações espaciais”. Entretanto, Velho (2006, p. xiv) argumenta que a socialização diferenciada de meninos e meninas é fundamental para o desenvolvimento das habilidades e no decorrer deste processo “as mulheres são ensinadas a procurar ajuda e a ajudar e não a serem autoconfiantes ou a funcionar autônoma e competitivamente como os garotos”. Selke (2006) argumenta que os meninos, ao ingressarem em cursos técnicos, trazem um conhecimento prévio
oriundo da socialização voltada para o manuseio de artefatos tecnológicos. Argumenta ainda que os/as professores/as de disciplinas técnicas, ao iniciar um conteúdo, partem do pressuposto de que todos os alunos e alunas já têm este conhecimento prévio. Os/as professores/as, ao introduzir um tema novo durante as aulas, não partem do zero e com isso as meninas, que de uma maneira geral tiveram socialização mais voltada para as relações pessoais, encontram dificuldade em acompanhar as aulas.
Os materiais didáticos podem contribuir para a construção da imagem que os/as estudantes têm das ciências e da produção e uso de artefatos tecnológicos. Em pesquisa realizada para a dissertação de Mestrado, Casagrande (2005) constatou que os gêneros são representados de forma diferenciada nos livros didáticos de Matemática, principalmente com relação ao mercado de trabalho e à relação com as Ciências e a Tecnologia e com os artefatos tecnológicos. Os homens e meninos são mais frequentemente representados em relação a profissões que têm maior contato com artefatos tecnológicos bem como em profissões remuneradas. Por outro lado, as mulheres são mais frequentemente representadas em atividades laborativas que muitas vezes não são consideradas como profissões. Elas aparecem realizando atividades artesanais que podem ser desenvolvidas no interior das casas, conciliadas com o cuidado do lar e da família e têm remuneração mais precária. São raras as situações nas quais as mulheres aparecem manuseando equipamentos eletrônicos ou informáticos. Como os livros didáticos são distribuídos a todas as escolas da rede pública de ensino, esta representação diferenciada pode servir de estímulo aos meninos e desestímulo às meninas a se interessarem por profissões que necessitem de maior conhecimento científico e tecnológico.
Tabak (2002) argumenta que a participação das mulheres nas ciências e tecnologias é fundamental para o desenvolvimento do país. Para a referida autora é importante “a utilização de todos os recursos humanos disponíveis para a constituição de uma importante massa crítica e de uma comunidade científica produtiva” (2002, p. 28), e complementa: “a sub-representação das mulheres no campo científico representa uma subutilização dos recursos humanos disponíveis na sociedade, o que afeta o desenvolvimento nacional” (TABAK, 2002, p. 54). Para ela, um país que se encontra em desenvolvimento como o Brasil não pode abrir mão da
capacidade intelectual de mais da metade de sua população. Desta forma, compreender as causas pelas quais as mulheres não se sentem atraídas pelas carreiras científicas e tecnológicas pode contribuir para que se desenvolvam ações para que mais mulheres ingressem nessas carreiras e possam assim contribuir para o desenvolvimento do País no que tange aos aspectos da Ciência e Tecnologia.
Santos e Ichikawa (2006, p. 13) argumentam que, como causa para a escassa presença feminina nas ciências e tecnologias, pode-se ter “a forma como se ensina ciência e tecnologia na escola, os conteúdos das disciplinas, as atitudes de quem as ensina para as estudantes” e isso tem sido investigado com o intuito de se elaborar políticas que minimizem tal situação. Acredita-se que são inúmeras as razões que levam as mulheres a preferirem outras carreiras que não as vinculadas com Ciência e Tecnologia. Não há problema no fato de elas preferirem outras carreiras, porém precisamos estar atentos/as para perceber se as carreiras científicas e tecnológicas são percebidas por elas como opção de escolha.
O desempenho em Matemática tem sido uma das causas apontadas para o reduzido interesse das meninas e mulheres por carreiras científicas e tecnológicas. Velho e Leon (1998) argumentam que meninas e meninos têm desempenho semelhante nos primeiros anos da vida escolar inclusive em Matemática. Entretanto, em torno da 7ª série as meninas passariam a demonstrar menos interesse pelos conteúdos desta disciplina. Segundo as autoras, diversos fatores podem influenciar nesta mudança de comportamento das alunas, dentre eles o menor estímulo oferecido por pais/mães e professores/as. Por outro lado, Walkerdine (1995, p. 214) questiona a falta de reconhecimento do brilhantismo das meninas por parte dos/as professores/as. No estudo realizado por Walkerdine (1995), quando algumas meninas se saíam bem em Matemática, elas “eram acusadas de ir bem porque trabalhavam muito, seguiam regras, comportavam-se bem”. Enquanto para os meninos que não obtinham bons resultados, encontravam-se explicações na falta de paciência para se dedicar às atividades escolares.
A falta de paciência e concentração também foram causas encontradas por Dal’Igna (2007) para justificar o baixo desempenho dos meninos. A justificativa era que os meninos não teriam dificuldade de aprendizagem. Eles estariam interessados em outras coisas que não o estudo. Esta diferença nas formas de justificar o fracasso e o sucesso de meninas e meninos pode ter consequências
danosas para todos/as. Aceitar e justificar o mau desempenho masculino como não sendo algo ruim pode levar os/as professores/as a negligenciar a respeito de dificuldades que os alunos estão enfrentando naquele momento da vida escolar. Por outro lado, a desvalorização do sucesso feminino pode causar nas alunas um desestímulo a prosseguir empenhando-se na execução das atividades escolares e apresentando bom desempenho.
É preocupante pensar que o empenho e a dedicação das meninas sejam vistos como “defeitos”. Em Matemática estas atitudes são fundamentais para o aprendizado e a fixação dos conteúdos que apresentam muitas regras e normas e que às vezes são abstratos. O aprendizado de Matemática e de outras disciplinas depende da capacidade individual dos/as estudantes, porém também do esforço, empenho e dedicação por eles/as apresentados. Estas características são complementares e contribuem para o bom desempenho de meninas e meninos. Alguns estudos (WALKERDINE, 1995; DAL’IGNA, 2007) têm apontado que os/as professores/as têm desvalorizado as mesmas nos/as estudantes, de modo especial, nas alunas.
Carvalho M. P. (2001), em pesquisa realizada com professores/as de séries iniciais, encontrou descrições diferenciadas para o comportamento de meninas e meninos. As meninas eram descritas como mais organizadas, tranquilas, assíduas, seguidoras de regras, com cadernos enfeitados, inclusive as que apresentavam um mau desempenho escolar. Os meninos eram descritos como agitados, espontâneos, transgressores de regras, com cadernos desorganizados, dentre outras características.
Segundo Souza e Fonseca (2010), a Matemática é considerada no senso comum como uma disciplina masculina por valorizar características mais comumente encontradas nos homens, como a razão e a precisão. Convém salientar que nem todos os homens são racionais e precisos e nem as mulheres são desprovidas destas características. Ser racional não significa não ser delicado/a atencioso/a, preocupados/as com o outro/a. Tampouco uma pessoa que se mostra sensível é irracional. Estas formas de ver o comportamento masculino e feminino foram social e culturalmente construídas, portanto variam de acordo com o espaço e o tempo. Por esta razão, existe a possibilidade de serem modificadas.
Em estudo realizado sobre os resultados do INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), Souza e Fonseca (2008) observaram que as mulheres obtiveram piores resultados do que os homens em Matemática. As autoras argumentam que no cotidiano, mulheres e homens usam conteúdos matemáticos diferenciados9
. Elas estão mais acostumadas com a leitura de números, de bulas, comparação de preços, enfim, com cálculos aproximados e eles com atividades de controle que necessitam uma precisão maior, como por exemplo, controle de saldo bancário, consumo de energia e água, etc.
Evidentemente não se pode dizer que somente os homens realizem atividades de controle e somente as mulheres cálculos aproximados, porém, segundo as autoras, haveria uma predominância desta diferença de atividades relacionadas à Matemática. São exatamente os conteúdos mais acionados pelos homens que compõem este teste, fato este que poderia justificar o pior desempenho feminino. Para Souza e Fonseca (2008, p. 516) “a sociedade atribui um valor maior a determinadas formas de matematizar (em detrimento de outras) e, consequentemente, também valoriza mais os indivíduos, os grupos e as instituições que as dominam” e isso pode interferir no fato das mulheres obterem piores resultados em testes de Matemática10. Porém, é importante ter em mente que “uma diferença evidencia uma desvantagem e não uma deficiência” (SOUZA; FONSECA, 2008, p. 517). Caso seja real o fato de homens e mulheres acionarem conteúdos matemáticos diferentes no dia a dia não significa que um gênero saiba mais do que o outro, apenas que exercem habilidades diferentes.
Andrade, Franco e Carvalho (2003) analisaram o desempenho de alunos e alunas no PISA (Program of International Student Assessment) no ano de 2000. Este Programa aplicou testes de Leitura, Ciências e Matemática a estudantes de 15 e 16 anos de 36 países e o resultado mostrou que as alunas obtiveram rendimento inferior em Matemática em quase todos os países. Somente em três países11 o rendimento feminino superou o masculino nesta disciplina e em nenhum país o rendimento masculino em Leitura superou o feminino. Os autores ressaltam que “no
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Em pesquisa realizada com homens e mulheres catadoras de material reciclável.
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Ver dados do INAF (Índice Nacional de Alfabetismo Funcional) sobre o Alfabetismo funcional no site http://www.ipm.org.br/download/inaf02.pdf.
11
Brasil observou-se a maior diferença em favor dos meninos em Matemática e a menor diferença a favor das meninas em Leitura” (2003, p. 80).
Esta constatação poderia levar à conclusão de que as alunas brasileiras apresentam uma desvantagem ainda maior em relação aos meninos. Entretanto esta conclusão seria precipitada se baseada exclusivamente em um teste que os/as jovens brasileiros/as não estão acostumados/as a fazer e que foi elaborado por Instituições estrangeiras sem base na realidade brasileira. Evidentemente que este fato não se aplica somente às alunas. Os alunos brasileiros estão expostos à mesma realidade que elas. O desempenho dos/as estudantes brasileiros no PISA foi baixo. Faz-se necessária a realização de estudos para investigar as razões para este baixo desempenho feminino e masculino tanto em Leitura quanto em Matemática em nosso país. Fato a se ressaltar é a maior valorização dada ao desempenho em Matemática. As manchetes de jornais e sites de internet onde foram publicados tais resultados afirmam que os meninos superam as meninas nesta disciplina e o fato das meninas superarem os meninos em Leitura só aparece no corpo do texto e com menor destaque. Tão importante quanto conhecer os conceitos matemáticos, é a necessidade de se comunicar.
A compreensão e o conhecimento sobre o rendimento escolar dos/as estudantes pesquisados/as e a forma como eles/as percebem seu desempenho em Matemática é de fundamental importância para a análise das relações entre os gêneros que ocorrem no cotidiano escolar. É possível compreender se existe diferença na forma como estudantes de sexos distintos se posicionam com relação à aprendizagem dos números e cálculos.
As/os autoras/es aqui citadas/os apontam para a necessidade da busca pela equidade de gênero na sociedade, incluindo o ambiente escolar. Uma das possíveis consequências desta equidade seria a diminuição das desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, bem como a maior inserção das mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas. Estudos apontam como razões para o pouco interesse das mulheres por estas carreiras a falta de exemplos de mulheres que construíram carreiras de sucesso nestas áreas, o pouco estímulo de pais/mães e professores/as para que as meninas se interessem pelos estudos matemáticos (VELHO; LEÓN, 1998; WALKERDINE, 1995), a diferença de socialização (SELKE, 2006; VELHO, 2006), dentre outras. Marilia Gomes de Carvalho (2003, p. 22)
considera que o fato de que “Ciência e Tecnologia foram, por muito tempo, vistas como atividades masculinas” pode contribuir para que muitas mulheres mantenham a visão de que essas não são carreiras adequadas a elas e levá-las a optar por carreiras voltadas para as humanidades.
Tabak (2002) argumenta que a participação feminina na ciência e tecnologia é relevante para o desenvolvimento do país. Schiebinger (2001) considera que a presença das mulheres no meio científico permitiria o desenvolvimento de outras áreas e temas que tradicionalmente não despertam o interesse de pesquisa nos homens.
É importante salientar que todas estas possíveis causas para a menor participação feminina na Ciência e na Tecnologia são social e culturalmente construídas, e que, portanto, podem ser modificadas por meio de ações políticas e educacionais que rompam com os estereótipos que dificultam o acesso e a permanência das mulheres nessas profissões. Sabe-se que em muitos lares brasileiros a principal fonte de renda é a remuneração do trabalho feminino. Sabe-se ainda que as carreiras científicas e tecnológicas são mais valorizadas pela sociedade e melhor remuneradas. Ao dificultar o acesso das mulheres a estas profissões, elas ficam alijadas dessa melhor remuneração e suas famílias deixam de ter acesso à qualidade de vida que a maior renda proporcionaria. A igualdade de gênero nas carreiras científicas e tecnológicas pode contribuir para a diminuição das desigualdades sociais.
Sendo assim, a busca pela equidade e igualdade de gênero não só na ciência e tecnologia, bem como a valorização das profissões exercidas majoritariamente por mulheres contribuiria com o desenvolvimento das mulheres, porém não somente delas. A sociedade toda ganharia com a diminuição das desigualdades sociais.