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Chapitre 2. Traitement du texte explicatif/scientifique : Difficulté de la

2. Difficultés de compréhension des textes scientifiques

Em Examen Critique,2 Humboldt tinha como objetivo analisar os eventos e avanços

ocorridos entre os séculos XV e XVI no campo da geografia e das navegações. Assim, as crônicas tornaram-se uma de suas principais fontes, utilizando-as para validar suas argumentações historiográficas. Segundo o autor prussiano, a proximidade temporal seria um sinal de confiança nas informações contidas nesses escritos, uma vez que teriam presenciado os eventos: “Ambos [Juan Ponce de Léon e Anglería] são anteriores a 1514 e pertencem a uma época em que a recordação dos primeiros descobrimentos ainda estava fresca na memória”(Humboldt, 1914: 142).

Além disso, o testemunho ocular era compreendido como sinal de veracidade. O relato de Polo de Ondegardo, por exemplo, era descrito como digno de fé (Humboldt, 1970: 213). Em outros momentos, Alexander von Humboldt mostrava-se como historiador ao recorrer às crônicas como evidências textuais de suas afirmativas. Entre outras passagens, podemos citar a descrição dos hábitos alimentares dos indígenas, na qual recorre às informações contidas na obra de Gómara para assegurar a fidedignidade daquilo que está narrando (Humboldt, 1970: 152-153).

Os cronistas também eram valorizados, individualmente, como especialistas em determinados conhecimentos ou ainda quanto ao estilo de descrição, revelando pontos de convergências discursivas entre o naturalista prussiano e os autores do século XVI, como apontarei adiante.

Referências às crônicas como detentoras de um conhecimento de outras áreas não restritas à história

Adjetivos como erudito, sagaz e cuidadoso são atribuídos aos cronistas em relação aos seus escritos. Mesmo a leitura dessas obras, especialmente aquelas atribuídas a

2 Examen Critique foi parcialmente traduzido para o espanhol em 1914 com o título de Cristóbal Colón y el

Colombo, era apontada como prazerosa. No entanto, a valorização das crônicas não se restringia ao seu papel enquanto fonte de informações sobre o passado. Alexander von Humboldt afirmava que elas contribuíram significativamente não somente na produção de conhecimentos científicos relevantes para os séculos XV e XVI, mas também na de saberes importantes para sua época. Por acreditar que a história percorre um caminho de desenvolvimento gradual, lento e contínuo em direção ao progresso humano, Humboldt tinha como suposição a de que todos os êxitos obtidos no campo do conhecimento eram fundamentais para alcançar resultados consistentes, como pode ser observado no trecho abaixo:

Quando se estuda os primeiros historiadores da conquista e compara-se suas obras, sobretudo as de Acosta, de Oviedo e de Barcia, às investigações de viajantes modernos, surpreende-se encontrar o germe das mais importantes verdades físicas nos escritores espanhóis do décimo sexto século. (Humboldt, 1914: 16)

Comparações entre trechos de cronistas visando encontrar maior exatidão

Um terceiro uso que Humboldt faz das crônicas estava pautado na comparação e não era totalmente valorativo de todas as crônicas, mas estabelecia uma hierarquização. Os eventos descritos pelos cronistas eram contrapostos visando à reconstrução mais fidedigna do passado. As comparações também surgiam no sentido de qualificar uma obra em relação à outra. As narrativas de um mesmo fato eram postas lado a lado e, por meio de uma avaliação, Humboldt estabelecia sua seleção entre as que eram mais dignas de verossimilhança. Um exemplo dessa postura pode ser observado em sua comparação entre Gómara e Oviedo; o prussiano considerava o primeiro mais isento que o segundo.

Trechos onde estabeleceu críticas às crônicas e uma possível incúria dos autores com a verdade

No entanto, seu juízo de valor não era uniforme. As crônicas não eram vistas como documentos infalíveis que refletiam a verdade total sobre o passado, não merecendo

qualquer ponto de crítica. Metodologicamente, Humboldt em diversos momentos afirmou ser preciso cautela na análise das fontes e sempre atestar a veracidade das informações contidas nelas. Em alguns trechos de Examen Critique, Humboldt julgou as crônicas como incertas, especialmente em relação às datas (que deveriam ser exatas para validar a informação), lacônicas, exageradas e tendenciosas. Essa visão que não se colocava em contradição com a atitude anterior de valorização das crônicas – embora fossem posturas opostas –, mas estava imbricada com sua concepção de história e de metodologia. As obras de autores quinhentistas não eram encaradas como um repositório de equívocos e de inverossimilhanças como anteriormente, mas não estavam isentas das críticas textuais que caracterizaram o saber histórico do período e também eram manejadas por Humboldt. Assim, como foi apontado acima, na análise humboldtiana predominava o estudo minucioso de fontes e fatos, bem como o predomínio da razão em suas avaliações sobre o passado, característica de um novo fazer histórico que emergia nos oitocentos.

Por fim, é importante salientar que Alexander von Humboldt admirava os escritores daquele período, especialmente Cristóvão Colombo. Retomando as ideias de Mary Louise Pratt, nota-se nessa admiração uma reiteração das imagens formadas pelos primeiros europeus ao chegarem ao continente americano. Assim, observa-se a reprodução de uma série de imagens e adjetivos que também eram empregados nas crônicas coloniais. No entanto, não se pode qualificar o discurso de Alexander von Humboldt como cópia ou mera derivação daquilo que já havia sido escrito. A utilização de tais repertórios comuns às crônicas conduz à construção de uma representação de natureza americana simultaneamente próxima e dessemelhante.

A visão de natureza e as descrições formuladas por Humboldt foram marcadas pelo contato que o autor teve com as crônicas. Também ratificam que, longe de serem homogêneas, as leituras e apropriações eram polissêmicas, variando conforme o tema, mas sempre de acordo com os critérios de verdade estabelecidos no período. Isso significa que a rejeição ou valoração de determinada informação contida na crônica relacionava-se, sobretudo, com os pressupostos epistemológicos vigentes.

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Parte II

Século XIX: Intelectuais e a