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Pesquisas recentes que trazem o estudo antropológico com crianças são cada vez mais encontradas, seja tornando relevante o protagonismo infantil, a socialização das crianças ou suas relações com os adultos com quem convivem. Considero importante perceber como as estratégias de realização de pesquisas com crianças são organizadas, pois a questão

20 Um exemplo citado por Sarmento (2005) sobre a diversidade social, econômica e de gênero ilustra a variação de fatores que diferenciam as crianças: “Uma criança da classe média europeia, do gênero masculino, do grupo etário, por exemplo, dos 6 aos 12 anos, da etnia dominante e raça branca tem muito mais possibilidades de viver com saúde, de aceder à educação escolar, de ter tempo para brincar e de aceder a alimentos, roupas, condições de habitação, jogos e espaços de informação e lazer que uma criança do mesmo grupo etário, mas que tenha nascido em África ou na América do sul, pertencente a meios populares e que integre o gênero feminino: são muito menores, neste caso, as possibilidades de estudar, brincar e aceder a bens de consumo, e muito maiores as possibilidades de estar doente e de ter sobre os ombros as responsabilidades e os encargos domésticos. Esta comparação, um pouco trivial, é ilustrativa da diversidade social das crianças, que ocorre se tomarmos cada um dos factores de estratificação por si, ou se considerássemos a todos no seu conjunto” (SARMENTO, 2005, p. 371).

metodológica auxilia muito em pesquisas futuras. Aprendemos muito observando os caminhos percorridos por outros antropólogos e de como conseguiram vencer suas dificuldades em campo. Contudo, considero ainda mais importante percebermos o quanto as pesquisas com crianças estão sendo construídas levando em conta a diversidade de temáticas, seja a construção da socialização nos grupos escolares, estratégias de convivialidade e enfrentamento de proibições ligadas à religião, processos de conversão no seio das famílias e o que esse processo repercute na vida das crianças.

Algumas dessas pesquisas serão aqui descritas em um passeio pela diversidade de temáticas que foram eleitas como motivação para discutir os conceitos de alteridade, cultura, relação entre as pessoas, partindo da ótica das crianças.

Em sua dissertação de Mestrado, a antropóloga Christiane Rocha Falcão (2010), “Ele

Já Nasceu Feito: O Lugar da Criança no Candomblé” traz uma valiosa contribuição acerca da

relativização de noções biológicas e sociais e sobre o lugar da criança no Candomblé. Toda discussão proposta por Falcão tem início a partir do lugar de autoridade religiosa ocupado por um menino de onze anos dentro do Candomblé em que toda sua família de sangue21 fazia parte.

O lugar dele é o lugar de uma autoridade, e o fato de ter pouca idade não é relevante quando ele já nasceu “feito” (FALCÃO, 2010, p. 59). Nascer feito é a expressão nativa utilizada para

explicar a continuidade religiosa determinada pelos Orixás, e que implica em incumbir com a autoridade necessária à pessoa que herdará a liderança religiosa do terreiro. No caso específico dessa pesquisa a pessoa destinada a dar continuidade ao terreiro é o menino, que mesmo sendo ainda uma criança é reconhecido com autoridade religiosa por todos, inclusive pelos adultos.

Outro ponto observado por Falcão (2010) é o conhecimento sobre os costumes religiosos que algumas crianças que fizeram parte da pesquisa possuem, chegando a ensinar muito da religião para os adultos envolvidos. As crianças demonstram possuir mais conhecimentos que alguns adultos que pertencem e frequentam o terreiro, as que fazem parte da família de sangue e vivem muito próximas aos rituais do Candomblé são detentoras de muito conhecimento e esse conhecimento é responsável por uma hierarquia dos que sabem mais sobre os que sabem menos, mesmo que essa relação hierárquica ocorra entre adultos e crianças. Ainda que os adultos exerçam um controle social sobre as crianças, a autoridade infantil, no que diz respeito ao conhecimento religioso é reconhecida. Como reforça a autora, “(...) na estrutura religiosa esses mesmos mais novos e crianças podem ser reconhecidos como autoridades em detrimento da ideia de tenra idade” (FALCÃO, 2010, p. 66)

21 Falcão (2010) desenvolve a ideia diferenciada entre família de sangue e família religiosa e suas implicações, nesse trabalho.

As relações de poder observadas por Falcão (2010) em sua pesquisa nos mostram uma interpretação diferenciada do modelo tipo ideal moderno em que o poder dos adultos e pais sobre as crianças é mais comum de ser esperado. No terreiro sergipano pesquisado, o lugar da criança não é o mesmo que elas ocupam fora da religião, com isso a autoridade ritual exercida por crianças relativiza o modo de pensar a criança e outras formas de vê-las.

Há algum tempo, Campos (2010; 2011) vem tomando para si o interesse em dialogar com a criança enquanto interlocutora nas suas pesquisas, buscando compreender como constroem as relações com os adultos e com as demais crianças à sua volta. Em seu artigo

Pesquisando o Invisível: Percursos Metodológicos de uma Pesquisa sobre Sociabilidade Infantil e Diversidade Religiosa (2010), produzido com a colaboração de Paiva Júnior, Gomes,

Lima e Silva e Cisneiros, trouxeram uma grande contribuição quanto ao caminho metodologicamente percorrido e a inserção no campo para a realização da pesquisa.

Debruçar-se sobre a sociabilidade infantil e às reações das crianças acerca da diversidade religiosa teve como desafios o que relata os autores:

O principal desafio enfrentado, do ponto de vista metodológico, foi a invisibilidade da criança nos estudos antropológicos sobre questões religiosas e de sua sociabilidade, em especial, no que concerne ás reações à diversidade religiosa no espaço escolar brasileiro. A invisibilidade se dá principalmente por a antropologia, e as ciências sociais de um modo geral, só mais recentemente ter se aberto epistemicamente à criança como agente cultural. Em segundo lugar, a produção da invisibilidade da relação entre religião e sociabilidade infantil se dá pelo fato mais geral (no sentido de que não é específico à questão infantil) de parte da academia e do senso comum sustentarem a crença no sincretismo brasileiro como força confraternizadora e harmonizadora das diferenças (CAMPOS et al., 2010, p. 02).

Contribuindo para retirar o papel desempenhado por crianças em contextos religiosos do obscurantismo tradicional, Campos (2010) colabora com a problematização teórica das ações infantis em espaços de poder e domínios religiosos. A compreensão e reelaboração das crianças, entendidas nessa pesquisa como reproduções interpretativas, revelam a agência exercida pelas próprias crianças na construção de suas relações.

As crianças necessariamente não imitam ou reproduzem ideias e atitudes dos adultos, ao contrário reelaboram o modelo dos adultos de forma criativa de acordo com seus interesses e motivações no que concerne às suas amizades e formas de sociabilidade (CAMPOS et al., 2010, p. 30).

Em outra contribuição antropológica, Um Estranho no Ninho: Uma Experiência

Protestante em Escola Laica no Recife, Campos (2011) ocupa-se outra vez do processo de

religiosa no contexto escolar laico. A partir do sofrimento causado a uma menina por seus colegas de escola, que a maltratavam devido ao seu comportamento e sua orientação religiosa, a sutileza presente nesse artigo nos faz pensar o quanto podemos apreender a partir das emoções presentes nas relações infantis, não subestimando a intolerância religiosa como algo que faz parte de episódios da esfera cotidiana.

O destaque foi dado ao caso de intolerância religiosa experienciada pela criança em questão e, a partir do seu sofrimento poder problematizar a vivência das crianças com as diferenças dos seus pares. A autora chama a atenção para que possamos,

(...) entender como crianças vivenciam a diferença no espaço escolar brasileiro torna- se fundamental para percebermos se elas estão reproduzindo valores tradicionais hierárquicos ou não, e se o comportamento efetivo das crianças reflete atitudes de respeito e inclusão da diferença ou se expressaria intolerância (CAMPOS, 2011, p. 173)

As reproduções interpretativas, como foram discutidas ao longo dessa sessão, são reelaboradas pelas crianças num processo de internalização dos ensinamentos e experiências vivida com os adultos/pais e dizem muito sobre a continuidade das práticas sociais observadas por elas.

Partindo também da observação do sofrimento das crianças penitentes na Festa do Morro da Conceição22, em Recife, Cisneiros (2014) constrói sua pesquisa, Se é Promessa tem

que Fazer: Etnografia do Pagamento de Promessas de Crianças na Festa do Morro da Conceição, preocupando-se em entender o que sentem as crianças que, vestidas de azul e

branco, pés descalços sob um sol escaldante, cabelos compridos, seguem morro acima acompanhando pais e avós. A fala das crianças é motivada por emoções, sofrimentos e negociações estabelecidas com os adultos para que a promessa seja cumprida e um dos exemplos dessa negociação trazida pela autora é a de um menino que demonstra não ser passivo no pagamento da promessa a partir da revelação de que todas as vezes que concorda em subir o Morro, ganha uma bola. A criança re-significa o ato de sofrer para sua realidade de brincadeira (CISNEIROS: 2014). A autora descreve a autonomia revelada pelo menino como pista para compreender que as crianças não são meros expectadores e seguidores passivos da ordem dos adultos, mas negociam com eles, exercem agência nessas relações. “As crianças “prometidas” sempre regulavam o nível de agência e performatividade do pagamento de promessas através

22 Nossa Senhora da Conceição é muito cultuada no Recife e tem sua festa em Casa Amarela, bairro localizado na zona Norte da Cidade. Muitos fiéis pagam promessas por graças alcançadas, levando crianças como penitentes.

da negociação de recompensas. No caso acima, uma bola, em outros casos, outras negociações” (CISNEIROS, 2014, p. 51-52).

Na pesquisa Diversidade Religiosa na Escola Pública: Um Olhar a Partir das

Manifestações Populares dos Ciclos Festivos, Silva (2011), a observação partiu da proibição

imposta pelos pais para que as crianças evangélicas não participassem das festividades na escola pública em que estudavam. Nos momentos dos ensaios das danças e apresentações algumas dessas crianças ignoravam a proibição e participavam sem que os pais soubessem, sendo controladas por irmãos mais velhos. A relevância foi dada à construção de estratégias de convivialidade criadas tanto pelas crianças quanto pelos pais para que a religião fosse respeitada em suas orientações e restrições e que as crianças não fossem prejudicadas nas atividades escolares. Outra discussão que esse trabalho produziu esteve diretamente ligada à laicidade do espaço público e à garantia de direitos.

Esses exemplos citados são apenas algumas das pesquisas que trazem a criança como elemento principal observando os conflitos, sentimentos, relações de interação com os adultos pela ótica da própria criança. A produção científica local – PPGA/UFPE - conta atualmente com muitos pesquisadores que tem interesse em desenvolver estudos que contribuem com a antropologia da criança, como também estão preocupados em realizar uma antropologia com as crianças, favorecendo novas formas de observação e da relativização da temática.

Galeria de imagem 1

Nessa imagem, cedida por Nalva, destaco a menina louvando em um Culto destinado aos adultos na AD Sonho Dourado. A concentração da criança enquanto canta seu louvor é total.

O grupo de crianças que ocupa o primeiro banco que aparece na imagem acima tem idades variadas, entre quatro a dez anos. São meninos e meninas que pertencem à AD Castelo Branco II e que levam para Igreja seus brinquedos e suas Bíblias. Eles usam a farda que foi confeccionada para a ocasião, Festa do Conjunto Infantil, as meninas de vestidos vermelhos e os meninos com camisas vermelhas e calças jeans (Arquivo pessoal).

As crianças presentes na Escola Dominical da AD Alto da Jaqueira aprendem a doutrina através de cartazes que vão sendo explicados pelos professores. Os cabelos compridos das meninas é uma das características do ethos assembleiano (Arquivo pessoal).

As crianças são chamadas a orar, a professora instrui que fiquem curvadas sobre o banco e conversem com Deus (Arquivo pessoal)

Atividade destinada às crianças do grupo Primário da AD Sonho Dourado na EBD (Arquivo pessoal)

Culto da Santa Ceia realizada na AD Sonho Dourado. Evidenciando a participação feminina no Coral (Arquivo Pessoal)

Cartaz afixado na AD Castelo Branco II convidando as famílias para a EBD e Cartaz utilizado para Evangelização das Crianças na EBF da AD Sonho Dourado (Arquivo Pessoal).

3 ASSEMBLEIA DE DEUS: EVANGELIZAÇÃO E FAMÍLIA COMO UM “PROJETO DE DEUS”

O objetivo dessa terceira seção é discutir o início da AD em Belém Pará. Fundada há mais de um século, a Assembleia de Deus permanece expandindo seu projeto de evangelização para além do campo religioso, adentrando cada vez mais no campo político com o Estatuto da Família. Essa discussão torna-se pertinente para entendermos o cenário em que a AD surgiu e suas estratégias de evangelização através do núcleo familiar de forma organizada e efetiva.

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