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4.7. Dietary salt
Sócrates, há mais de vinte séculos, já concebia a Filosofia não como um saber, mas sim como um modo de se relacionar com ele, alicerce para o desenvolvimento de uma série de práticas. Nessa perspectiva, colocar-se, hoje, no papel de ensinar Filosofia, é pensar e refazer a cada dia a prática pedagógica.
Inicialmente, é preciso pensar na posição do professor em relação aos aprendizes: se aquele ocupar o lugar do saber e estes, por sua vez, o da ignorância, já está estabelecida a inversão de um dos princípios básicos da Filosofia, o de admitir nossa ignorância, para, e somente assim, buscar o conhecimento. Então, o primeiro ponto que coloca para nossa reflexão é repensar o papel designado para o professor, encarando seu trabalho profissional não mais como o de um porta-voz da verdade, mas, em troca, como também o de um aprendiz.
Kohan (2009, p. 9) afirma que, “pôr em prática a Filosofia com pretensões educativas, isto é, o encontro sob o nome de Filosofia entre dois pensamentos – um de quem ocupa a posição de ensinante e outro do que habita o espaço do aprendiz”, é tarefa paradoxal e necessariamente impossível. Isso porque é inegável considerar a existência de tensões políticas, éticas, epistemológicas, estéticas, no ambiente de relacionamento entre alunos e alunos e entre estes e o professor.
Como afirma Kohan (2009), mesmo nas propostas mais democráticas, em que o centro do saber é o aluno e a construção do conhecimento é feita de forma coletiva e participativa, há colisões e enfrentamentos que não podem, e nem devem, ser ignorados, até por serem condição para a própria existência do pensamento filosófico.
Mas essa condição, inerente ao ensino da Filosofia, está longe de ser um impedimento para sua prática: ao contrário, é justamente essa a potência e o sentido de sua presença nos espaços educacionais. Tais tensões devem ser consideradas e valorizadas, de modo a se criar situações em que se exerça, minimamente, a liberdade, pressuposto imprescindível para o aprender e o ensinar Filosofia e para a transformação de si e dos outros.
Desse modo, “há sempre um pouco de vida e um pouco de morte quando se ensina Filosofia, algo de liberdade e de controle, de cuidado e sua ausência, de
emancipação e embrutecimento” (KOHAN, 2009, p. 11), o que dá vida e torna a Filosofia possível no espaço educacional. Assim, o que se vê nesse campo de pensamento é um paradoxo, do qual não se pode ou não se quer escapar. Ainda nas palavras de Kohan (2009, p. 14), o professor de Filosofia, retomando a concepção socrática de mestre/aprendiz, deve “ajudar a ver sem mostrar-se, expor- se se escondendo, ensinar a dizer uma palavra que não se deixa ler, aparecer onde já não se está mais ou já não se é mais que a forma de algum outro”.
De fato, a grande contribuição de Sócrates ao professor de Filosofia é a sua afirmação de que fazer e praticá-la é, necessariamente, ensiná-la, pois o pensamento filosófico exige o contato e a intervenção sobre o pensamento do outro, e a participação coletiva (KOHAN, 2009). Como afirma Kohan, a divisória entre a “Filosofia” e a “não Filosofia” é “se de verdade ela chega a afetar o modo de vida daqueles que a compartilham”.
Ensinar e aprender Filosofia no mundo contemporâneo, especialmente no espaço escolar, é um desafio ao próprio sistema capitalista e à economia de mercado. Se na antiguidade clássica Sócrates foi acusado de corromper a juventude, hoje não são menores as acusações. Sob um ponto de vista utilitarista, a Filosofia é tida, ainda por muitos, como uma disciplina supérflua, que desviaria dos alunos a atenção necessária à prova do vestibular, que não prepararia para o mercado de trabalho, que afastaria a criança ou o adolescente da religião, entre outras. O grande perigo não são as inculpações, mas sim a resposta de alguns filósofos, que optam por se inserirem na lógica de seus algozes e transformam a Filosofia em competência para a boa incorporação do ser humano no mercado capitalista (KOHAN, 2009).
A realidade é que a Filosofia exigiria uma autonomia, do professor e do aluno, tanto diante dos demais saberes, quanto diante das instituições. Porém, essa autonomia, de forma plena, é impossível de ser alcançada e leva a pensar nas perguntas lançadas por Kohan (2009):
(...) é possível ensinar Filosofia sem antecipar o campo do pensável para o aluno? Por que seria desejável, interessante ou necessário fazê-lo? Se fosse, que diferença surge em termos do espaço de pensamento que se abre para quem aprende Filosofia? (KOHAN, 2009, p. 75)
Diante de tantas questões, paradoxos e uma busca que nunca chega a uma resposta definitiva e, claro, sem querer fechar um campo interminável de reflexões, termino esse tópico apontando a vontade e, com despretensão, a práxis que tentei empreender para o ensino/aprendizagem de Filosofia.
Concordo com Sócrates, no sentido de que o professor de Filosofia deve proporcionar um lugar aberto para o pensamento, em que seja possível a constante reformulação de ideias e no qual ele próprio esteja permeável em relação aos seus alunos. Diz Kohan (2009, p.80): “interessa que o caminho disposto permita a cada um encontrar-se consigo mesmo no pensamento e pôr em questão o espaço que ali se habita para, finalmente, problematizar o modo como se vive”.
A Filosofia deve permitir a transformação do que se é e do que se pensa, de modo a descortinar um campo de possibilidades de uma nova vida e uma nova cosmologia. O professor, movendo-se em um labirinto de tensões, deve ser um questionador, balizador e motivador da caminhada em direção ao pensamento filosófico.
4.2. A filosofia na escola e a minha vã filosofia: a reflexão filosófica em sala de