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O conhecimento e o reconhecimento da imagem do Morro do Careca como uma marca da cidade de Natal foram- possíveispormeiode um convite, feito aos empresários europeus na década de 2000, para participarem de um congresso em Salvador, Bahia, com a presença do todos os governadores do Nordeste brasileiro. Na oportunidade os gestores apresentaram os argumentos quanto ao potencial turístico que cada estado oferecia para o investimento estrangeiro do setor imobiliário. Os seus vários investimentos imobiliários em Natal se deram, inclusive, devido à paisagem do Morro do Careca como recurso simbólico atrelado aos serviços de marketing comercial, como uma marca do lugar.

A compreensão do potencial comercial que a praia e sua paisagem oferecem para os investimentos passa pelo reconhe- cimento do excelente e fabuloso panorama da vista do Morro na praia. No entanto, a existência de paisagens semelhantes em outras orlas marítimas pelo mundo afora descartam sua exclusividade como paisagem. Para Salah, a duna de Ponta Negra guarda muita semelhança com regiões à beira mar de Moçambique. Para ele, não faltam morros do careca em outras praias da África, osquaisse distinguem do potiguar apenas na

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altura, com metros de diferença a menos, mas com a mesma extensa faixa de areia e um entorno de vegetação de Mata Atlântica. Essa paisagem compartilhada faz com que não se possa abordar o Morro do Careca como dado adquirido, o Morro por si só não garante o potencial comercial para cidade.

Hoje, embora haja um valor simbólico atrelado aoMorro do Careca, as insuficiências de infraestruturas na localidade da praia, bem como a falta de manutenção periódica e planejada dos aparelhos urbanos, deixa Ponta Negra em desvantagem na competição capitalista global frente aos outros morros do careca e mesmo a outras paisagens costeiras. As dinâmicas do mercado globalizado, bem como os problemas locais da praia, são para Salah uma explicação da ausência do turismo estrangeiro em Ponta Negra. É notório que o turismo local tem um forte componente do turista interno do país. Nem mesmo a população de estrangeiros residentes no bairro de Ponta Negra hojeé tão representativa como há uma década – e menos ainda a de turista estrangeiro.

O apelo que o bairro e a praia de Ponta Negra têm comouma localidade turística, assim como acidade do Natal, que possui uma urbanização turística – a exemplo do desenvolvimento de uma via costeira hoteleira ou mesmo da própria orla potiguar como um todo –, pode ter um efeito inflacionário tanto para o turista como para a população local, seja no setor imobiliário ou nos itens de consumo não duráveis, alimentícios e, principalmente, no trans- porte aéreo. Viagens aéreas as quais possuam Natal como destino são bastante onerosas, sobretudo para um turista europeu, que dispõe de um intenso tráfego aéreo que proporciona passagens bem mais baratasdo que as ofertadas para o Brasil.

Apesar das adversidades, ainda assim a imagem do Morro do Careca proporcionou uma dinâmica a um ramo específico

Tiago Souto Bezerra | Ricardo Kleiber de Lima Silva

da construção de habitações típicas de orla marítima, aquelas com vista direta para o mar. Há uma multiplicidade de agentes que interagem nos investimentose que dependem de todos os outros como pontos de relações, isto é, são habitações, hotéis, restaurantes, e a própria infraestrutura do Estado, seja com a instalação de aparelhos urbanos ou mesmo com próprio aparato burocrático de alvarás e licenças, tendo um peso associado num espaço compreendido como uma constelação relacional.

Embora reconheça as ações do Estado, Salah, comoum dos agentes do capital imobiliário, não vê que o poder público tenha cumprido suas obrigações implícitas, como, por exemplo, quanto à falta de manutenção periódica nos calçadões da orla –o que permite o aparecimento de diversos buracos na via de pedestres –, ou mesmo na ineficiência dos banheiros instalados, os quais são verdadeiras zonas fétidas. Assim, além de afugentar o fluxo econômico, expõem aqueles que caminham na orla a possíveis acidentes, de modo que as preferências e os gostos, como sobreposições de experiências passadas, funcionam em cada momento como uma matriz de percepções, apreciações e ações, tendo em vista que o turista europeu compara e prefereoutras localidades de visitação, como a Ilha da Madeira, em Portugal.

As habitações hoteleiras dessa ilha são, em sua maioria, padrão cinco estrelas, o que reflete o investimento de milhões de euros feito pelo Estado português na ilha, nos últimos cinco anos. Atualmente, a rede hoteleira da ilhaapresentauma constante ocupação máxima, e as reservas nos seus hotéis são feitas com anos de antecedência, sobretudo para festa de final de ano, quando há show pirotécnico equivalenteaosrealizados em grandes eventos, como no Réveillon do Rio de Janeiro.

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Além da insatisfação com o poder público, quanto à insu- ficiência da infraestrutura local no plano da cultura material, o não aproveitamento do potencial que o simbolismo do Morro do Careca oferece se dá também pelas redes de artesãos locais. Estes, por vezes, ofertam para o turista um produto caro e de baixa qualidade, o que inclui atémateriais importados que não expressama cultura local, sendo apenas reprodução de mercadorias globalizadas.

Compreende-se que Salah não é completamente insen- sível ao simbolismo que o Morro do Careca confere aos seus negócios, como operador do capital imobiliário internacional, mas o empresário não pôde deixar de expor seu forte descon- tentamento quanto às controvérsias do poder local no que diz respeito à falta de manutenção da orla de Ponta Negra. Sua trajetória de vida, pautada por uma posição no topo da pirâmide social, bem como a sequência de vivências em vários países pelo mundo afora, conferiu-lhe uma ampla visão de mundo, como pode ser identificado em sua entrevista. Nesse sentido, pode-se compreender o agente como produção social, mas também como um indivíduo no âmbito das suas ações, escolhas e posições.

Cabe a nós, portanto, compreender que o longo e dura- douro processo de socialização o posicionoucomo operador do capital imobiliário internacional, comoum indivíduo coletivo que tem em suas ações e representaçõeso resultado de esquemas mentais e corporais que simultaneamente foram estruturados. Isso se deunão só por meios sociais e transmi- tidos por uma herança – econômica, cultural, intelectual e simbólica –, mas também por diversos campos vivenciados na sua trajetória de vida, osquais atualizaram seu habitus como

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um conjuntosobreposto de disposições ou mesmo capacidades de pensar, sentir e agir.

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Com um empresário do capital