3.4 Analyse des états d’équilibres pour les trois configurations
3.4.3 Deux compartiments interconnectés en parallèle
Ariès (1978) descreve a vida da criança urbana na Idade Média de uma forma que lembra a infância descrita pelos nossos pais e avós: brincadeiras na rua, grupos multietários e fraca supervisão de adultos da comunidade imediata. No decorrer da história, a criança urbana torna-se progressivamente mais reclusa à família imediata e à escola e o seu quotidiano, é entregue às instituições onde se espera que profissionais substituam, com as necessárias vantagens, as relações afetivas primárias. Muitos leitores de Ariès (1978) interpretam as suas ideias como significando que a Antiguidade e a Idade Média não tinham um conceito de infância e representavam a criança como um adulto em miniatura e por isso, não lhe reservavam um lugar especial na sociedade e na cultura. No entanto, esta interpretação precisa de ser desmistificada. Qualquer sociedade
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humana tem, necessariamente, um conceito de infância e das outras fases da vida. Se assim não fosse, bebés e crianças pequenas simplesmente não sobreviveriam. É evidente que todas as sociedades reconhecem as diferenças entre crianças pequenas, crianças maiores e adultos e lidam com elas a partir desta diferenciação.
O que distingue as conceções de infância em momentos e lugares históricos diferentes é a maneira como esse conceito é concretizado em cada cultura: em que idade a criança adquire autonomia, quando e como deve receber educação formal, qual a idade desejável para o casamento. Cada uma dessas conceções tem um preço de ajustamento entre a Natureza da infância e as expectativas culturais a respeito dela e do seu lugar no mundo (Juliá, 1996:170).
Admite-se, atualmente, pelo menos ao nível do discurso, que a criança é um ser diferente do adulto em pensamento, necessidades e problemas. A infância tem prioridade sobre os demais estágios da vida, devido não só à sua maior fragilidade, mas sobretudo pela responsabilidade de ter de assegurar as esperanças de continuidade no futuro. Esta mudança acompanhou o florescer das sociedades industriais, com as suas conquistas em conforto material e melhoria nos padrões de saúde e nos padrões de natalidade e mortalidade infantil. À medida que essas taxas decrescem e que a expectativa de vida aumenta, a criança passa a ser um bem mais raro e valioso, tendo uma probabilidade mais alta de sobreviver à idade adulta e merecendo, portanto, mais investimento, tanto dos pais como da sociedade.
Nunca se falou tanto da importância da infância. Nunca as sociedades disponibilizaram tantos recursos para fornecer bem-estar e, acima de tudo, influenciar as pessoas através da sua formação nos primeiros anos de vida. Na perspetiva de um embrião imaginário que possa escolher a época do seu nascimento, há motivos para celebrar a vinda ao mundo no século XXI. A probabilidade de sobreviver ao primeiro ano de vida aumentou drasticamente com a erradicação de muitas doenças graves e a disponibilidade de medicamentos para combater a maioria das doenças da infância. A expetativa de vida é muito mais elevada e a oferta de educação escolar é mais ampla. Contudo, não pode esquecer-se de escolher, além da época, o lugar de nascimento (Llop, 1996:47). As conquistas da infância não são universais, variando de uma região do mundo para outra e, dentro do mesmo país, de uma classe social para outra. Como em todos os outros aspetos da vida, não há igualdade na distribuição de recursos e todas
23 as sociedades ainda têm de alterar os mecanismos de acesso aos bens que garantam os reconhecidos direitos universais da criança. Mesmo aquelas crianças que nascem no lugar “certo” não estão a viver, necessariamente, a sua época de ouro. Infelizmente, a primazia que as sociedades vêm dando à criança ocorre mais pelo potencial futuro do que pelo seu valor atual. Se, por um lado, as realizações científicas do século XX, o postulado da continuidade entre os eventos ocorridos, a ideia de educabilidade e a possibilidade de moldar adultos a partir da educação certa representam um enriquecimento da vida das crianças; por outro cobram um alto preço ao seu presente. A historiografia da infância desenvolveu-se nas vertentes da história da assistência, da família e da educação, constituindo um patamar para se avançar na compreensão das interrelações entre esses três aspetos (Kuhlmann, (2002:15). Compreende-se a infância como a conceção ou a representação que os adultos fazem sobre o período inicial de vida, ou como o próprio período foi vivido pela criança, e como foi a sua vida em todas as suas vertentes. Segundo Kuhlmann (2002:20) a definição da duração do tempo da infância atribui-se a Hipócrates, 400 anos antes de Cristo, que classificou a idade de bebé dos zero aos sete anos de idade. No entender de Archard (cit in Ferreira, 2004:4), as conceções de infância podem variar, quer nas suas fronteiras, ou seja, na determinação do seu início e do seu final, quer nas suas dimensões, existindo variações nas definições formuladas para este período de vida. A infância pode ser subdividida numa série de períodos diferentes. Assim sendo, qualquer conceção da infância variará de acordo com o modo como as suas fronteiras são estabelecidas, as suas dimensões ordenadas e as suas divisões geridas. Kramer(1982) acrescenta ainda que a infância só adquire pertinência social quando lhe são atribuídas competências e papéis específicos. No parecer de Kramer (1982:18), a ideia de infância não teve sempre o mesmo significado, pelo contrário, ela aparece com a sociedade capitalista, urbano-industrial, na medida em que muda a inserção e o papel social da criança na comunidade. Se, na sociedade feudal, a criança exercia um papel produtivo, na sociedade burguesa passava a ser alguém que precisava de ser cuidada, escolarizada e preparada para uma função futura. Este conceito de infância é determinado historicamente pela modificação nas formas de organização da sociedade. Philippe Ariès (1978) refere no seu estudo que a arte medieval não conhecia a infância, ou não se esforçava por a representar até ao século XII. Ele refere mesmo que lhe custa a crer que fosse por falta de habilidade ou
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impotência, mas simplesmente porque não havia lugar para a infância, fazendo mesmo referência a deformações do corpo da criança que os artistas representavam nas suas obras (Ariès, 1988:58).
As preocupações com a infância resultaram do reconhecimento e valorização que as crianças passaram a ter no meio em que viviam. Mudanças significativas ocorreram nas atitudes das famílias em relação às crianças que, inicialmente eram educadas a partir de aprendizagens adquiridas junto dos adultos e, aos sete anos, a responsabilidade pela sua educação era atribuída a outra família que não a sua. Apesar de uma grande parte das crianças com menos de sete anos de idade continuar a ser educada segundo as antigas práticas de aprendizagem, o surgimento do sentimento de infância provocou mudanças no quadro educacional. De acordo com Philippe Ariès (1978) esse sentimento surgiu no século XVII quando a sociedade passou a ter consciência da particularidade da infância que distingue essencialmente a criança do adulto.
Campanella (1568-1639) na sua obra Cidade do Sol criticou o ensino servil da gramática e da lógica aristotélica e realçou a importância das crianças aprenderem ciências, geografia, os costumes e as histórias pintadas nas paredes das cidades. Campanella já demonstrava uma preocupação com a educação das crianças antes dos seis anos de idade e, desde então, pode verificar-se que surgiram as primeiras propostas educativas contemplando a educação das crianças dos zero aos seis anos. A infância passa, a partir de então, a ser percecionada como uma fase da vida com valor próprio e não como uma simples etapa de preparação para a vida adulta. Segundo Nóvoa (1987:414). O facto da infância se tornar alvo de atenção e preocupação por parte dos adultos vai ter como consequência o desenvolvimento das preocupações educativas e a consequente criação de instituições consagradas ao ensino, o que pode ser interpretado como um sinal do reconhecimento de um estatuto próprio e diferente do dos adultos.