Após as primeiras reflexões sobre a conceitualização de capital social, outros autores refletem sobre a temática, com o intuito de melhor elaborar conceitos, premissas ou formas de mensurar o capital social nos grupos. A partir daí, diversas interpretações surgem para tentar elucidar o capital social e seus pilares, de modo mais objetivo e compatível com os fundamentos da ciência moderna e seus métodos empíricos.
Coleman (1988) é um dos autores que se destacam neste percurso, sendo o primeiro autor a difundir a ideia de que o capital social consiste em recursos que se inserem dentro das estruturas das relações sociais. Deste modo, define o capital social como sendo um conjunto de características da organização social que tornam possíveis ações coordenadas, sejam elas individuais ou coletivas. Para o autor, quando se trata de um bem comum último na vida social dos grupos, os atores podem transcender seus próprios interesses por um bem-estar geral da coletividade (COLEMAN, 1990).
O autor também traz suas contribuições à perspectiva de capital social, quando afirma que o capital social assume três formatos, correspondendo, a depender do contexto: primeiramente, às expectativas e obrigações recíprocas que dependerão diretamente do grau de confiança presente em cada estrutura social; em segundo lugar, às redes de comunicação nas quais as informações circulam e que facilitarão ações coletivas; e, por último, às normas que irão garantir a efetivação das situações supracitadas. Este capital social, destaca o autor, é criado à medida que as relações entre indivíduos mudam de tal forma que facilitem sua ação individual o que, em nossa perspectiva, ratifica as práticas comunicativas contemporâneas em rede.
Coleman salienta, ainda, que “a função identificada pelo conceito de ‘capital social’, é o valor desses aspectos da estrutura social para os atores, como recursos que eles podem usar para atingir seus interesses” (COLEMAN, 1988, p. 101). Isso pode ser percebido em um exemplo, onde o autor descreve que
por ejemplo, un grupo cuyos miembros manifiestan confiabilidad, y confían ampliamente unos en otros, estará en capacidad de lograr mucho más en comparación con un grupo donde no existe la confiabilidad ni la confianza [...] En una comunidad agrícola [...] donde un agricultor necesita que otro le embale el heno y donde los instrumentos agrícolas son en su mayoría prestados, el capital social le permite a cada agricultor realizar su trabajo con menos capital físico en forma de herramientas y equipos (COLEMAN, 1990 apud PUTNAM 1994, p.304-307).
Buscando uma relação íntima entre o conceito de capital social e as práticas cotidianas de troca de informações, o autor relaciona o capital social aos canais de informação, vendo este último como base para a ação social e, assim, enfatizando a importância dos mediadores neste processo de troca e de indicadores, como a confiança e a reciprocidade. Nesta direção, o indivíduo irá servir de fonte de informações, podendo utilizar as informações que circulam no canal para seu benefício próprio ou alimentá-lo com a finalidade de buscar status. Esta confiança, na percepção de Coleman, é um dos componentes cruciais no funcionamento e estruturação do capital social, componente este que também é visto por Putnam (2000) como parte integrante do próprio conceito de capital social. Como modo de identificar o capital social, Coleman (1988) aponta ainda outros elementos, como recompensas, reconhecimento
Para tanto, argumenta que as relações sociais que são potencialmente fontes de informação que facilitam as ações individuais e coletivas, as relações de autoridade que auxiliam na resolução de problemas e conflitos, e as organizações sociais que são constituídas para finalidades específicas muitas vezes formais, sustentam, juntamente com as informações potenciais, ações coletivas que originam capital social.
Para Coleman (1988), os elementos da estrutura do capital social - em termos mais funcionais - cumprem a função de servir de recursos para que os atores envolvidos atinjam suas metas e interesses, mesmo que de forma individual. Segundo o autor, três grupos de elementos podem ser identificados dentro das estruturas sociais que sustentam o capital social: a) as obrigações, expectativas e lealdade; b) os canais de informação e c) as normas e sanções estabelecidas.
São essas normas que - sendo institucionalizadas ou reconhecidas pelo grupo como legítimas - permitem, de forma eficaz, o funcionamento do contexto social e seus intercâmbios. Essas interações, por sua vez, se dão também em contextos que condensam elementos prévios, tais como as relações de autoridade, confiança e distribuição de direitos, entre outros que constituem tais normas (COLEMAN, 1990).
No decorrer de sua análise, acrescenta-se ainda a percepção de que o capital social não seria necessariamente um processo intencional, mas que resultaria das ações arbitrárias dos indivíduos na estrutura social. Deste modo, o capital social teria impactos tanto positivos quanto negativos em determinado grupo, uma vez que ações que geram capital social positivo em um grupo, necessariamente não funcionarão da mesma forma em outros grupos.
Como modo de identificar o capital social, Coleman (1988; 1990) aponta alguns elementos , dentre os quais a autoridade - que ele percebe como sendo alcançada quando os indivíduos cedem seu direito de controle sobre determinadas ações ao outro - bem como recompensas, reconhecimento coletivo, status, confiança, apoio social, honra ou até sanções. Estas últimas duas constituiriam normas efetivas que geram confiabilidade ao ambiente, favorecem ou restringem certas condutas.
Nesta direção, o autor acredita que seria nas redes sociais densas e fechadas que o capital social se desenvolveria em sua plenitude o que, na visão de Burt (1995), seria um contrassenso. Este acredita que o capital social seja oriundo de redes abertas que são caracterizadas pelas pontes que são estabelecidas entre atores sociais. Para Burt, o capital
social seria o resultado das trocas oriundas das redes dos indivíduos, independente da força de seu laço.
Para Coleman (1990), as normas mais valorizadas pelo grupo normalmente são aquelas que favorecem primeiramente os interesses coletivos, tendo em vista que auxiliam na construção de benefícios comuns, como resolução de problemas e conflitos. Para tanto, destaca as informações potenciais neste processo, onde argumenta que as relações sociais são potencialmente fontes de informação que facilitam as ações individuais e coletivas nas relações de autoridade.
Higgins (2005) detalha que, a partir das argumentações de Coleman, as obrigações podem contar com diferentes graus de reciprocidade, levando em conta tempo e motivo. Já os canais de informação reduzem custos através de pessoas que têm informações pertinentes e compartilham com a rede social. Estes elementos esboçados nos argumentos de Coleman se adaptam à nossa discussão sobre compartilhamento de informações e afins por atores sociais que, na atualidade, utilizam-se dos artefatos de comunicação mediada para promover tal processo. Dentre eles, destacam-se os telefones celulares, que vêm servindo de suporte à captação e circulação de informações, bem como de fomento às práticas interativas e comunicativas atuais. Quanto às normas, elas têm por função específica inibir os comportamentos negativos que debilitam o capital social (HIGGINS, 2005).
Coleman (1988) afirma ainda que, embora existam muitas definições de capital social, duas características destas definições são compartilhadas: a primeira é a de que o capital social é constituído por alguns aspectos de uma estrutura social, facilitando certas ações dos indivíduos dentro da estrutura. O autor destaca que, ao contrário de outras formas de capital - como o físico ou o capital humano - o capital social é inseparável da estrutura social, na medida em que sua estrutura é sempre inerente às relações sociais entre os membros. A segunda diz respeito ao fato de que o capital social é produtivo, possibilitando a realização de certos fins que, na sua ausência, seriam inatingíveis.
Coleman também inspirou Bertolini e Bravo (2004 apud RECUERO 2009) a construírem categorias que constituiriam aspectos nos quais o capital social poderia ser encontrado. Segundo as autoras, cinco categorias são citadas: a) Categoria ‘Relacional’, que é composta pela soma das relações, laços e trocas que conectam os indivíduos de uma determinada rede; b) Categoria ‘Normativa’, que compreende as normas de comportamento
de um determinado grupo e os valores deste grupo; c) Categoria ‘Cognitiva’, que é soma do conhecimento e das informações colocadas em comum por um determinado grupo; d) Categoria ‘Confiança no Ambiente Social’, observada pela confiança no comportamento de indivíduos em um determinado ambiente; e) Categoria ‘Institucional’, que inclui as instituições formais e informais que se constituem na estruturação geral dos grupos, onde é possível conhecer as regras da interação social e onde o nível de cooperação e coordenação é bastante alto.
Podemos afirmar, em linhas gerais, que Coleman buscou inscrever a teoria da ação racional dos indivíduos dentro da análise do sistema social no qual eles encontram-se inseridos. Isso possibilita ressaltar a racionalidade do indivíduo no plano de suas ações na coletividade. Assim, o autor conclui que a organização social é o ponto de partida para análise do capital social, o que permite a análise de sua teoria à luz dos planos micro e macro.
Desta forma, é interessante observar que as reflexões sobre as ações individuais, em Coleman, são de ordem social e coletiva. Em seus estudos, estas ações individuais são a base que constitui a sociedade, tendo como pilares as trocas sociais. A partir daí, outro ponto forte de sua teoria é o fato de que, sendo as trocas sociais a liga que une as pessoas em grupos, os atores geram, então, interdependência, a qual serviria, principalmente, para a continuidade da cooperação que gera capital social.