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Description des procédés de synthèse de céramiques sous forme de nano-structures

Transcrições, recortes e colagens

Nicolau N.o 1 (Ano I, N.º 1. Curitiba, jul./1987.) EDITORIAL

Tempo de Criar

Ao se constituir, já desde o nome, como genérica homenagem aos múltiplos estratos imigrantes que, ao longo dos anos, moldaram a nossa cara e o nosso caráter,

Nicolau se insere, igualmente, no espaço de um novo tempo nacional em que a

pluralidade de idéia é um dado inquestionável e tão mais enriquecedora quanto maiores forem as oportunidades de que se promova a sua livre circulação.

Este o nosso primeiro propósito, ao aceitarmos o desafio de reunir, num mesmo espaço de expressão, as diversas variantes do pensamento que, aqui e agora, vão, a seu modo, conduzindo o processo criativo – paranaense em particular e brasileiro em geral.4

Não nos pretendemos uma publicação a serviço de tendências, grupos, escolas, facções, mesmo porque tal postura alienaria, de um projeto aberto e democrático, a significativa contribuição de parcelas ponderáveis da “intelligentsia” nacional. Pessoalmente posso dar o testemunho de que tal princípio se cumpriu à risca, não sendo ferido em nenhum momento sequer da elaboração deste primeiro número de

Nicolau. Isto, numa publicação oficial, sob os auspícios do Estado, dá bem a medida

do esforço em que todos estamos empenhados pela construção da democracia brasileira.

Espelho e síntese do trabalho de nossos criadores, Nicolau se quer, assim, como o registro vivo, inquieto e perturbador do tempo em que vivemos e diante do qual se impõe, para nós, ao menos, um único e inextricável compromisso: o de contribuir, ainda que modestamente, para o progresso humano, sem o que a vida de um homem não faz sentido, nem o seu destino.

Wilson Bueno, editor

Nicolau No 1 Seção Painel

Liberdade e esperança:

O acesso à cultura é um dos direitos fundamentais do homem nos regimes políticos inspirados pelos princípios de liberdade e participação.

Não se trata de uma possibilidade formal, porém de uma garantia material inerente à cidadania e, portanto, incluída no patrimônio jurídico e social das pessoas.

Dentro de tal perspectiva é indispensável o exercício da liberdade de expressão do pensamento dentro do qual se insere a discussão aberta das idéias e a confrontação dos teoremas da existência.

Pensando justamente na liberdade, “essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” como diz Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência, reúnem-se poetas, romancistas, e outros trabalhadores das letras e artes para a edição do Nicolau, que surge como proposta democrática no campo da cultura.

E além de um documento a revelar textos de literatura, cinema, teatro, artes plásticas e outras manifestações criadoras, o Nicolau é a generosa referência étnica que identifica grande parcela da imigração paranaense, formada por homens e mulheres que independentemente de suas origens geográficas, políticas e culturais, encontram nesta terra o seu porto seguro e a paisagem de suas esperanças.

Álvaro Dias – governador do Estado.

Cultura - plasma do ser:

“Avança Paraná”, constituindo-se filosofia presente em todos os segmentos do Governo, transforma-se aqui, na força geradora de novas perspectivas culturais. A cultura é o próprio plasma do ser. Acontece no cotidiano – é o cotidiano mesmo, o tradicional, mas também o novo, a vanguarda, com momentos importantes que precisam ser captados e registrados. A cultura é o passado e o presente, e sendo presente propicia o avançar... Avançar para o futuro de para novas fronteiras, abrindo-se a novos sonhos, a novos debates, a novos talentos.

É nesse âmbito que ocorre o político, o administrativo, o educacional, o religioso, e é nessa perspectiva que nasce o Nicolau; Nicolau tão Paraná e tão imigrante;

ver todos os talentos florescendo, os debates acontecendo e todo o Paraná mostrando sua sensibilidade, sua força e sua garra.

Gilda Poli – diretora da Imprensa Oficial do Estado O Livro:

Em 1986 o setor do livro viveu um momento de glória. Parecia que o leitor brasileiro havia afinal despertado. Parecia. Hoje, pós-cruzado, o setor sofre violenta depressão. Livrarias fecham, as vendas caem em média 60%, as editoras puxam o freio de mão e algumas capotam. Tudo como dantes. Para quem edita no Paraná, isso é tão grave quanto para quem edita em São Paulo ou no Piauí.

Sempre me pareceu tolo isso de colocar o Paraná como um caso especial no desconcerto dos brasis. Não somos especiais: sofremos dos mesmos males.

A pobreza e a instabilidade do setor do livro, aqui têm as mesmas causas: este é um país que nunca curtiu livro (nenhum país é/foi colônia impunemente), além de ser um país pobre, porcamente administrado, com um sistema educacional falido, sem uma rede de bibliotecas compatível com sua população e tamanho, onde 95% das escolas não têm biblioteca, e onde o resenhismo na divulgação do livro é um escândalo de clubismo e corrupção.

Com a circulação do Nicolau, eu, que sou ingênuo, espero que o livro, notem bem, o livro (não as tardes/noites de autógrafos ou esquisitices de autores) venha a ser notícia. O livro. É só abrir, ir virando as páginas e lendo.

Roberto Gomes – escritor e editor

Nicolau N.o 2 (Ano I, N.º 2. Curitiba, ago./1987.) EDITORIAL

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou castas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

O poema de Drummond (in Poesia e Prosa, Nova Aguilar, 1979) poderia ser a oportuna epígrafe deste segundo número de Nicolau.

O presente, esta ave, o colhemos com as mãos.

Não é preciso dizer mais, que o poema emblemático inteiro fala de nossas urgências, do compromisso com o tempo em que vivemos e, principalmente, do direito ao sonho, não como utopia, mas como exercício diário, paciente, chinês, de construir, pedra a pedra, o hoje que sobre a Terra nos foi concedido.

Aos que honraram a redação de Nicolau com cartas, telegramas e telefonemas de diferentes partes do Paraná e de outros Estados brasileiros, a certeza reafirma de que nosso projeto já é uma realidade que triunfa. Nem por isso pronto e acabado: viver o presente, sendo a nossa tarefa, será sempre esta de forjar, na oficina humana, as fabricações do futuro.

Aqui, pois, continuamos, receptivos a crítica, sugestões e, sobretudo, à colaboração dos que quiserem somar-se a nós no esforço em que estamos – empenhados para fazer de Nicolau o expressivo veículo de reflexão do tempo presente que com o braço e o suor do rosto industriamos – sem trégua e nem cansaço.

Wilson Bueno

Nicolau No 3 (Ano I, N.º 3. Curitiba, set./1987.) EDITORIAL

Estou acompanhando com muita atenção este maravilhoso tablóide cultural. Continuem em frente. Parabéns pelo trabalho. Com um Governo assim a identidade cultural do Paraná começa se revelar. Francisco Mecking. Londrina.

Meus cumprimentos pelo Nicolau. Recebam o abraço agradecido e os votos de continuado sucesso para esta publicação que já se firmou no seio da cultura

paranaense. Oldemar Justus. Curitiba.

Parabéns a toda a equipe da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná pela excelente iniciativa de um veículo cultural de expressão como é o Nicolau. Lourdes Almeida. Boa Vista – RR.

Votos pleno êxito ao Nicolau. Sen. José Richa. Brasília – DF.

Congratulações por tão importante iniciativa. Nicolau é capaz de proporcionar ao leitor um conhecimento maior da cultura brasileira. D’Alembert Jaccoud, Secretario da Cultura do Distrito Federal. Brasília – DF.

Impressionou-me a excelente resenha publicada em Nicolau N.º 2 sobre o livro A

revolta dos posseiros, de Iria Zanoni Gomes. Almiro Moraes. Pato Branco, PR.

Tenho visto jornais culturais de diversos estados brasileiros e também do exterior e também considerei uma enorme lacuna o Paraná não ter o seu. Agora chegou

Nicolau. Para ficar. Mais um bicho do Paraná. Luis Carlos Leme. Londrina.

Não há dúvidas quanto aos méritos de Nicolau – ótima iniciativa, bom trabalho, boas intenções, mas... e o Raiz? Não entendo o por quê das constantes mudanças nos órgãos públicos. Até onde o Nicolau vai circular? Desculpem o azedume. Neuza M. de Vieira. Curitiba.

Foi preciso chorar, tão comovente e verdadeira a reportagem “Um mundo bizarro longe deste insensato mundo”, de Adélia Lopes. Nadyegge Almeida. Curitiba.

Acabo de ler matéria Adélia Nicolau 2. Ela foi simplesmente brilhante. José de F. Miranda. Curitiba.

Parabéns / como está / bem / continue / não / deixe / de continuar / continue / mudando / longa vida a Nicolau. Nelson Canabarro. Florianópolis – SC.

Saudamos Nicolau. Aguardamos próximos números. Nilo Berto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre – RS.

Vida longa para Nicolau. Sérgio Rubens Sossélia. Paranavaí – PR.

Nicolau está ótimo e merece ser difundido em todo o país. Fernando Ghignone.

Presidente da EMBRAFILME. Rio de Janeiro.

Bom saber que, de agora em diante, existe o Nicolau. Bom saber das coisas do Paraná. Parabéns pelo vigoroso trabalho. Maria Amélia Mello. Rio de Janeiro.

No longo capítulo das novas publicações, depois de ter participado de algumas,

Realidade, Ex, Opinião, Livro da cabeceira do homem (de que fui editor), EXTRA a

conhecer pelo não-sei-quê. Ao longo do tempo, a gente amarga. E cresce. De meus votos de vida longa.Terá vida longa! João Antônio. Rio de Janeiro.

Nicolau. Viva Copérnico, Maquiavel, Papai Noel, e Nicolas Behr. Glauco Mattoso.

S.Paulo.

Enquanto planejamos um espaço à altura de nossos leitores, nos permitimos publicar, aqui, resumidamente, algumas das cartas chegadas à redação, numa viva amostra do entusiasmo que Nicolau vem despertando. Assim, pois, nesta edição, a livre manifestação do leitor faz o editorial, e a nós só resta agradecer a acolhida.

Wilson Bueno, editor.

Nicolau N.o 3, p. 26 – Seção: Resenhas

Curitiba, conhece-te a ti mesma!

O discurso populista do Cruzado Um, que fez o Brasil sentir-se campeão mundial de solidariedades, a nossa e a dos fornecedores, tem um importante precedente na história político–demagógica do país. Foi em 1952, quando o então presidente eleito, Getúlio Vargas, conclamou as donas de casa a boicotarem os açougues, dado o desrespeito atingido pela classe dos marchantes (entende-se latifundiários) contra o povo. No Brasil inteiro foram criadas Associações de Donas de Casa, insufladas pelo discurso do “baixinho de São Borja".

Mas, na realidade, o Governo estava usando as mulheres como "bucha de canhão”, já que se encontrava imobilizado politicamente para enfrentar os chamados "tubarões" do comércio. É neste momento que começa o romance histórico: História; Mulher; do jornalista e escritor Luiz Augusto Morais, tendo como pano de fundo este momento político brasileiro, e como palco do enredo: Curitiba. Foi a primeira vez na história do Paraná que as mulheres reuniram-se e tentaram criar uma entidade politizada, com um fim específico.

Muito embora respaldadas pelo discurso da proteção à família, ali já se delineava um início de movimento feminista organizado. Mas é exatamente a falta de uma visão clara das manobras políticas dos homens, independente de eles serem do Governo ou do Partido Comunista, que vai tornar o movimento fácil de ser manobrado, e levado a uma confrontação com a polícia, que até hoje é uma mácula dolorida da nossa história, dadas as violências cometidas. A personagem principal do livro é Cecília, uma menina de quinze anos que se vê envolvida na Comissão de Mulheres e aos poucos vai percebendo as relações de poder existentes nas ruas, conhece o afeto das

companheiras e a violência da cavalaria de Bento Munhoz da Rocha.

Para quem pensa que Curitiba sempre foi uma província calma, este livro é importante documento desmistificador. Sem, com isso, perder as ricas características cotidianas da época, como espetáculos na Rádio Guairacá, filmes de Hollywood que lotavam cinemas abafados, as peculiaridades das ruas, as pessoas, e a política machista da época. Terminado o livro fica a impressão que regredimos politicamente, aliás, todo o Brasil teve este problema, mas em nossa cidade esta característica parece que foi mais evidente.

Talvez como conseqüência da violência com que a polícia espancou as mulheres.

História; Mulher é o primeiro romance da editora Gralha Azul, e o diretor desta nova

casa de livros do estado é Virgílio Avanci, um veterano nessa lida, já que faz 17 anos que ele distribui livros em Santa Catarina e no Paraná. O livro, lançado em abril, está na 2ª edição. Bom para a cidade, que assim se conhece um pouco mais.

José Jacintho O retrato:

Difícil falar do artista plástico paranaense com a assustadora situação econômica do país. Temos que ser versáteis: fazemos arte de vanguarda, propostas conceituais, arte-educação, design, ilustração. A associação dos Artistas Plásticos do Paraná tem cerca de 170 associados, um número razoável, que daria até para começar uma revolução. E daí? O que vejo é uma exposição de retrocesso. Visualizo um retrato com distintos grupos de artistas: os que não precisam sobreviver de sua arte, e que na verdade não produzem muito, e senhoras entediadas que vão fazer “arte” por lazer, terapia ocupacional, porque dá um certo ar intelectual. São poucos os “operários da arte”, trabalhadores incansáveis para os quais a arte faz parte da vida e a obra é continuidade de si mesmos. Fazer arte em Curitiba é brigar dia-a-dia para enfrentar um público desinformado. Os galeristas, por usa vez, não apostam em artistas com uma linguagem mais contemporânea.

Assim esta cidade vai vender a paisagem do Paraná e o pinheiro por mais 50 anos. Mazé Mendez – artista plástica.

Nicolau No 4 (Ano I, N.º 4. Curitiba, out./1987.) EDITORIAL

A trajetória de Nicolau, até aqui, já nos permite dizer, sem erro, que somos muitos. Mais do que a nossa primeira intuição deduziu, mais do que supôs a nossa (vã) expectativa. A julgar pelas cartas, telegramas, telefonemas ou pelos numerosos textos espontaneamente chegados à redação, podemos afirmar que somos muitos – nos bairros, nas cidades, nos Estados, no País. E é, sobretudo, está solidariedade de raiz que funda, alimenta e constrói os nossos melhores propósitos. Considerado, por gente rigorosa, como saudável inventiva na história das publicações culturais do Brasil, Nicolau continua aferrado à idéia de que só a pluralidade de pensamento será capaz de refletir, por inteiro, a nossa singularidade. E nem poderia ser de outra forma, se estamos sinceramente empenhados na construção da democracia brasileira.

Não copiamos modelos, não deitamos olhos “colonizados” aos suplementos de cultura daqui e d’além mar. A nossa matéria, a matéria Nicolau, somos nós mesmos e a nossa gana de expressar o hoje e o agora do processo criativo em que, de uma forma ou de outra, todos estamos envolvidos. Se isto nos confere cara & modo, é este o nosso perfil e talvez, este, o nosso maior triunfo.

Wilson Bueno

EDITORIAL

As comunidades negras dos Campos Gerais do Paraná, reportadas pelo agudo senso jornalístico de Adélia Lopes, as Áfricas reviajadas pelo talento de Télia Negrão, a sina (e o signo) da diáspora na análise de Dimas Floriani – a partir da saga do exilado chileno Miguel Littín –, o país dos enjeitados na ótica singular do escritor João Antônio, o místico poema guarani, comovente exemplo da resistência de uma língua assediada por séculos de dominação, os nossos índios, na visão de Carlos Marés, e até mesmo o “último” dos ecologistas desde já imortalizado na surpreendente ficção-científica de José J. Veiga – entre outros temas –, se pretendem, nesta edição de Nicolau, a viva manifestação de nossa profunda solidariedade para com os segregados, os oprimidos, os postos-de-lado e à margem.

o cívico negro novembro do aniversário de Zumbi dos Palmares, herói popular, símbolo, lenda e legenda.

A tudo o olhar Nicolau colhe, e não quer, para si, a marca daquela “simpatia consoladora” que só faz perpetuar, ante a questão das minorias, os instrumentos da dominação e do engodo. Impõem-se, pois, mais do que a reflexão, o exercício diário, constante e nunca esmorecido, que nos leve à prática da efetiva identidade entre humanos, sem o que todo discurso sobre “democracia” cairá na retórica inconsistente dos que aspiram, em vão, imobilizar a História.

Wilson Bueno

Nicolau N.º 6 (Ano I, N.º 6. Curitiba dez./1987.)

EDITORIAL

Ao atingirmos a marca do sexto número de Nicolau, com circulação mensal nunca interrompida, por dever de consciência – pessoal e intransferível – somos espontaneamente levados a um depoimento, necessário em todos os sentidos: neste meio ano de trabalho cotidiano e incansável, fomos a singular testemunha de que vivemos efetivamente um tempo de liberdade sem precedentes em nosso processo histórico.

Jamais, em nenhum momento, até aqui, da trajetória Nicolau – que já se firma como publicação cultural de superlativa importância no país – sofremos qualquer tipo de pressão, procedente de qualquer instância ou escalão do Governo, mesmo porque em caso contrário, nos recusaríamos a subscrever a publicação que se quer um espaço aberto e democrático, única forma capaz de refletir o hoje e o agora da criatividade de nossa gente.

Tal depoimento, no editorial de um veículo patrocinado pela iniciativa oficial, dá bem a mostra de que não devemos nos furtar a consignar a verdade, sob pena de cairmos no círculo viciado e vicioso da omissão – erro imperdoável dos que não conseguem (ou não querem) enxergar a História de frente.

EDITORIAL 7 (Ano I, N.º 7. Curitiba, jan./1988.)

Chegou o verão dos infinitos paralelos do ano da graça de 88. Procuramos ajustar a pauta deste número à imperativa leveza da estação. A poesia nela teve um lugar privilegiado: vamos da lira de Sylvio Back aos poetas amorosos reunidos em uma plúrima Erótica, deles à toada com sabor de terra de Domingos Pellegrini, à criação que Jacques Brand ousou de um epigrama do mago Donne, à reverberação dos despropósitos nucleares sucedidos em Goiânia nas linhas de José Carlos Capinan. O scholar Foster procura os limites do mito de Francia no livro – fundamental – de Roa sobre El Supremo, Chico Alencar capta na perspectiva do seu vértice de fronteiras um vislumbre edênico do que a vida pode ser... Vamos verão adentro, com nossos demais convidados, em boa companhia.

Apenas à guisa de ordem-do-dia: para fazer o Brasil que sonhamos, estamos e estaremos em nossos postos de trabalho. Insuscetíveis às turbações, imunes às crises de rumo, às perplexidade de alta política, às contingências dos verões dormentes, essa é uma tarefa de sempre, que merece a inteira medida de nossa dedicação.

Em tempo: a equipe do Nicolau e este editor agradecem o reconhecimento como o melhor veículo cultural brasileiro em 1987, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Uma honra que repartimos com o povo e o governo do Paraná.

Wilson Bueno

EDITORIAL 8 (Ano I, N.º 8. Curitiba, fev./1988.)

No fevereiro do sul continuamos em nossos postos de trabalho, pensando o Paraná, pensando o Brasil, correndo com prazo e pautas, investigando, buscando e, sobretudo, procurando assegurar, ao menos na medida de nosso esforço, produto final à altura dos que nos lêem. Assim, as negras nuvens sobre as araucárias são objetos da mirada essencialmente jornalística de Malu Maranhão, Milton Ivan Heller deita olhos de garimpeiro na trilha do filólogo Saraiva, o sábio das picadas, a prosa de José Joffily ressoa, desde a concha acústica de Londrina a um tempo denúncia e história, Martins Vaz vai de muitas maneiras, aos fragmentos do fragmento, Pedro Longo reviaja a Coréia, Key Imaguire realiza a cronologia das artes gráficas no Paraná; Valfrido Pilloto traça o perfil socialista e libertário de Dario Vellozo; Helena

Kolody fala a Telma Serur sobre as artes da vida e as artimanhas da morte; Ferreira Gullar soma-se ao esforço de Nicolau com um poema desde já antológico; Beto Carminatti destila os negros excelsos venenos de seu mapa imúndi; a lira das águas do poeta Reinoldo Atem cola ao papel para sempre impressa. Este, entre outros temas, reafirmam nosso propósito primeiro e nunca esquecido: o de procurar refletir, através de inventivo plural, as urgências de nossa singularidade.

Wilson Bueno

Nicolau N.o 9 (Ano I, N.º 9. Curitiba, mar./1988.) EDITORIAL

No março da mulher, mês e marco, Nicolau se prende o vivo referencial da criatividade feminina, bem mais que as discussões, de resto estéreis, sobre os dons da equivalência entre sexos, já que – juntos – é que vimos, em esforçados