2. PILOT STUDY ON THE MANAGEMENT OF AGEING OF
5.6. Ageing management techniques
Os índios do Brasil, em sua dolorosa história, sobretudo nos primeiros séculos de colonização, tiveram que abdicar de uma organização societária e política, sem o direito de viverem aglomerados, por conta da vontade do dominador, que não lhes assegurava o direito de ser índio. Ao contrário, as classes dominantes causaram tensões de caráter traumático porque, como bem assinala Daniel Munduruku (2007, p. 50) não viam os indígenas como ser de vontade própria e por isso passaram a ser
[...] uma pedra no calcanhar do progresso sem direito a se rebelar pelos maus tratos que sofriam. E o mais importante é que ser índio passou a ser um infortúnio divino. Ser índio passou a ser sinônimo de atraso, de selvageria, de barbárie, de primitivismo, de canibalismo, etc. Havia um verdadeiro exército, inclusive religioso, a lembrar os nativos e seus descendentes que sobre eles pesavam uma grande sentença: não viverás, não vencerás.
O espantoso é que o colonizador foi incapaz de perceber a riqueza cultural e linguística dos povos primitivos, que contava com aproximadamente 1.175 línguas indígenas no tempo da descoberta do Brasil (cf. RODRIGUES, 1993, p. 91).
Em toda a história das ideias humanas, fácil é descobrir o poder arrasador daquilo a que se pode chamar “o prestígio das autoridades” e o “prestígio das
correntes das ideias” (cf. NOGUEI A, 1958, p. 9).
A população indígena, que era estimada na época da chegada da frota de Cabral em 1.000.000, é hoje de 630.000 pessoas e 180 línguas que pertencem aos troncos linguísticos Tupi e Macro-jê. Toda essa diversidade cultural e linguística deve assegurar que a população indígena faz diferencial significativo na história da formação da sociedade brasileira.
A violência e crueldade que os povos indígenas sofreram pelos
colonizadores desde o “achamento” do Brasil causaram a dizimação de vários
povos e constituem um crime contra a espécie humana, contra os patrimônios ecológico e cultural brasileiros. Essa diversidade de riqueza é ressaltada por Aryon Rodrigues (1996, p.17):
Os índios do Brasil não são um povo: são muitos povos, diferentes de nós e diferentes entre si. Cada qual tem usos e costumes próprios, com habilidades tecnológicas, atitudes estéticas, crenças religiosas, organização social e filosofia peculiares, resultantes de experiências de vida acumuladas e desenvolvidas em milhares de anos. E distinguem-se também de nós e entre si por falarem diferentes línguas.
É sabido que, dentre as línguas faladas no Brasil nos primeiros anos da colonização, destaca-se o tupi, a língua que se transformou na língua veicular e que favorecia a aproximação, em termos de comunicação, entre os indígenas e os colonizadores.
No vocabulário brasileiro constam muitas palavras tupis e africanas. O convívio entre o português colonizador, os indígenas e os escravos propiciavam a expansão de uma situação de multilinguismo. Nesse contexto da construção do inventário lexical do português do Brasil, há que ser pontuada a contribuição dos índios que deixaram o seu legado na variedade meridional da língua portuguesa.
Na época da colonização do Brasil, os “colonos” de origem portuguesa falavam o português entre si, convivendo ao lado das populações de origem indígena, africana ou mestiça, que, só muito posteriormente, aprenderam o português, e usavam de uma forma deferente, levando-se em conta a norma ensejada por Portugal. Além do português, existia, de forma mais alargada, a língua geral, que, para Teyssier é o tupi, gramaticizada pelos jesuítas e que viveram lado a lado como língua de comunicação (cf. Teyssier, 1982, p. 94).
Dentro desse processo de formação da norma nacional, o colonizador sente-se obrigado a assimilar aspectos do idioma dos indígenas, tendo ocorrido, em algum grau, o inverso em relação à inserção de elementos do léxico do português em algumas línguas indígenas.
Assim, não se pode considerar as particularidades do português brasileiro ou as atuais diferenças entre ele e o português lusitano fruto do erro ou deturpação da língua portuguesa implantada no início da colonização, como alguns pseudolinguistas têm afirmado. Noll (2010, p. 7), diz que o Brasil
[...] é um país de muitas cores. A formação do seu povo e da sua língua, variante da portuguesa, no solo americano, está estreitamente ligada à população autóctone, sobretudo nos primeiros séculos da colonização. Portanto, o português brasileiro, comparado com a variedade ocábulo, caracteriza-se não só pelos seus arcaísmos lexicais e a fonética, mas também pela tradição tupi, que se manifesta em inúmeros nomes de lugares [...]
De acordo com os estudos de Serafim da Silva Neto, mesmo com a aparente diversidade linguística que se apresentava na nova terra, o PE conservou os princípios fundamentais da língua estabelecida na origem, desde a formação do galaico-português. Essa atitude era, para ele, percebida nos textos que aqui eram produzidos e no ensino oficial. Entretanto, no que se refere à mobilização do campo lexical, o PE foi enriquecido, à medida em que a conquista da terra dependia também da fixação da língua transplantada, nos objetos de troca, nos valores espirituais e nas situações dialógicas quotidianas. E para parafrasear Joseph Vendryes, o contato entre línguas é uma necessidade histórica e o contato traz, fatalmente, a penetração (cf. VENDRYES, 1939, p.? apud SILVA NETO, 1976, p. 53).
Com o objetivo de expansão, as primeiras décadas de contato europeu com a diversidade linguística e cultural foram marcadas pela necessidade de aprender as línguas faladas no território brasileiro. Uma estratégia utilizada foi o envio de padres jesuítas para aprenderem a língua dos índios e auxiliar, assim, a comunicação.
Em meados do século XVI, novidades linguísticas começaram a surgir e, paulatinamente, instala-se uma espécie de sistema bilíngue, embora não regular. É o que alguns autores, a exemplo de Silva Neto e Teyssier, classificam como língua geral, comunicação com objetivos pré-estabelecidos, em que de um lado forçava o aprendizado da língua dos naturais da terra e do outro a adaptava à maneira de falar de cada um dos aprendizes. Rodrigues (1996, p. 148), afirma que:
Essa língua, falada agora na nova sociedade mestiça que se desenvolvia e em contacto constante com o português dos bilíngues e dos portugueses, foi-se alterando em relação à que se falava ente os indígenas tupi. A ela é que foi dado, na segunda metade do século XVI e durante o XVII, o nome de língua geral.
Alguns autores que tiveram a oportunidade de percorrer a costa brasileira no período da colonização, a exemplo de Pero Magalhães Gândavo (GÂNDAVO,1576, p. 122 apud NOLL, 2008, p. 134) chegam a afirmar que:
A lingoa de que usam, toda pela costa, he uma: ainda que em certos
vocábulos differe n’algumas partes; mas nam de maneira que se
deixem huns aos outros de entender: isto até altura de vinte e sete
grãos, [...]”
Nota-se, pelo exposto, que a língua geral era falada e compreendida na costa do Brasil, resultado da necessidade de comunicação entre as etnias. Rodrigues (2002, p. 17) afirma que essa capacidade de comunicar-se “é uma qualidade desenvolvida pela espécie humana e se caracteriza por princípios e
propriedades que são inerentes a todo homem”.
O uso de uma língua geral ficou tão evidenciada, entre as famílias dos colonizadores, que “as famílias dos indígenas e paulistas estão tão ligadas intimamente, que a língua que se fala é a língua geral” (cf. TEYSSIER, 2004, p. 95). Mattos e Silva (2004, p. 14) diz que
[...] a língua geral da costa, de base tupi, chegou a ser um risco para a hegemonia do português do Brasil, juntamente com outras línguas gerais indígenas que foram veículos de intercomunicação entre brancos, negros e índios não só no litoral brasileiro, mas nas entradas paulistas [...]
Como se vê, as informações apresentadas anteriormente pelos autores podem contribuir com dados que reafirmem a interferência das línguas indígenas no português do Brasil. Uma vez que a língua geral da costa era a mais utilizada, a corte proibiu a sua difusão nas províncias e os jesuítas foram expulsos do território brasileiro, por serem estes os responsáveis pela sua difusão e motivação de uso. Como profetiza Antonio de Nebrija (1492), “a
língua é companheira do império” (cf. Asensio, 1991[1974]). Essa proibição foi oficializada com o Diretório do Marquês de Pombal, em 1758.