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PARTIE I : CONDITIONS GENERALES

ARTICLE 15 : DESCRIPTION DU RACCORDEMENT, DES INSTALLATIONS DE L’UTILISATEUR

Vale retomar que tenho por objetivo nesta tese compreender discursos sobre maternidades em suas relações com classe social e raça, no contexto do trabalho doméstico remunerado. Como dito anteriormente, o meu planejamento metodológico inicial visava então a realização de oficinas para reconstrução dos objetivos de pesquisa e instrumentos metodológicos, tanto com as trabalhadoras domésticas, quanto com as empregadoras. Uma das avaliadoras da banca de qualificação já tinha uma inserção anterior no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Pernambuco e alguns meses mais tarde, já no ano de 2018, após a submissão e aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos realizei contanto com

ela, a fim de dialogar sobre o processo de construção de campo com as trabalhadoras. Nesse sentido, a mesma me repassou o contato do Sindoméstica e me indicou que falasse com Lélia, uma das integrantes da diretoria do sindicato.

Em contato telefônico, conversei com Lélia21 sobre a pesquisa, contando-lhe meus

objetivos iniciais e desejos em relação ao campo. Ela foi bem acolhedora por telefone, pediu para que enviasse o projeto de pesquisa ao e-mail do Sindicato, se dispôs inicialmente a dialogar com suas parceiras e marcamos uma reunião presencial para conversarmos melhor. Houve algumas desmarcações e remarcações até finalmente nos encontrarmos no dia 07 maio de 2018. Na ocasião fui com uma estudante de graduação e integrante do LabEshu22, que então cursava a disciplina de

Trabalho Supervisionado sob minha coorientação23. Apresentei de forma mais aprofundada a pesquisa e dialogamos sobre questões de maternidades no âmbito do trabalho doméstico remunerado. Lélia me disse que não teve tempo de dialogar com as parceiras, devido a um grande acúmulo de trabalhos. Ficou, portanto, de levar a pauta para reunião interna da Diretoria do Sindoméstica, ainda naquele mês e colocou como possibilidade iniciarmos as atividades de oficinas no início de junho. Ficamos de nos comunicar por telefone novamente para que eu obtivesse o retorno sobre a discussão na reunião.

Após a reunião, quando consegui contato com Lélia, a mesma discorreu que não conseguiu brecha para discutir a questão da pesquisa na reunião do Sindicato e argumentou que todas estavam muito atribuladas de trabalho, principalmente em articulação para o evento de comemoração de 30 anos do Sindoméstica, que seria no segundo semestre. Além disso, Lélia tinha uma série de viagens de trabalho pela Fenatrad – Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas - e teve dificuldades de articular alguém no Sindoméstica para ficar responsável pelo diálogo com a pesquisa. Nesse sentido, disse que pensaria em estratégias e que entraria em contato assim que fosse viável. Assim sendo, só retornamos o contato no final de junho e marcamos uma segunda reunião para o dia 04 de julho.

Nesta segunda reunião, Lélia falou do desejo de contribuir efetivamente com a pesquisa, entretanto relatou cansaço e falta de tempo pela rotina intensa de viagens e trabalho. Falei também que me preocupava muito em não ser ‘mais uma demanda’ para o sindicato, e que a metodologia poderia ser flexível, me comprometendo a pensar de que forma fazer com que esta fosse “leve”

21 Todos os nomes de pessoas interlocutoras da pesquisa, assim como os nomes trazidos por elas nas entrevistas

serão fictícios, a fim de preservar a identidade e anonimato.

22 Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana – Núcleo de pesquisa do qual faço parte.

23 Trabalho Supervisionado é uma disciplina da graduação em Psicologia da UFPE na qual o(a) estudante de graduação

para todas nós. Inclusive, que conhecer as demais integrantes seria uma forma de amenizar a sobrecarga da mesma. Aproveitei para perguntar quantas pessoas trabalhavam no sindicato. Ela me disse que efetivamente (diariamente) estão lá apenas quatro pessoas, incluindo ela, que já estão aposentadas. Fora isso, existem mais seis pessoas na Diretoria do Sindicato, as quais ainda trabalham diariamente como domésticas e, portanto, não conseguem contribuir no cotidiano diário da instituição.

Ainda nessa ocasião, eu disse que, devido ao tempo do campo e das interlocutoras, pensava em modificar a estratégia de pesquisa e partir logo para as entrevistas. Lélia achou uma boa ideia e disse que poderíamos fazer algo no Sindicato posteriormente ao processo de campo. Disse que estaria com a agenda lotada de viagens até setembro. Contextualizei para Lélia que a ideia de fazer antes as oficinas era uma forma de construir a pesquisa e roteiros de entrevistas com base nas demandas das próprias trabalhadoras. Exemplifiquei: procurar saber o que as trabalhadoras perguntariam às suas patroas, em relação à maternidade.

Lélia informou também que as trabalhadoras se encontravam sempre no terceiro domingo do mês. Nesses dias eram realizadas as reuniões da Diretoria pela manhã e a Assembleia com as demais trabalhadoras à tarde. Ela então convidou-me a ir no Sindicato em um domingo para almoçar com as trabalhadoras da Diretoria, me apresentar, conversar sobre a pesquisa e até já entrevistar algumas pessoas durante a Assembleia. Eu respondi que iria e contextualizei que as entrevistas demandam tempo e um lugar privativo. De todo modo, esse encontro seria importante para conhecer as trabalhadoras, conversar sobre a pesquisa com quem estivesse presente e trocar contatos.

Desse modo iniciei meu contato mais firme com o Sindoméstica. De julho de 2018 à março de 2019, estive presente em cinco Assembleias. Também participei do seminário de comemoração aos 30 anos do Sindoméstica, conheci e dialoguei com diversas trabalhadoras, dentre as quais estão as quatro interlocutoras trabalhadoras domésticas desta pesquisa. Além disso, realizei outras ações visando o fortalecimento da instituição. Detalharei melhor meus encontros com o Sindicato em um tópico posterior a esse, além de discorrer sobre meus encontros com as interlocutoras.

Já em um dos meus primeiros encontros com o Sindoméstica, peguei com Lélia o telefone e nome de duas pessoas com quem entrar em contato no Sindicato dos Empregadores Domésticos de Pernambuco - SEDOPE24. No entanto, ainda demorei alguns meses para entrar em contato com

o órgão, somente o fazendo em setembro. Acredito ser bem importante trazer aqui algumas das minhas impressões sobre o processo de entrar em contato com as empregadoras e meu lugar de pesquisadora.

Os contatos iniciais com o Sindoméstica e as trabalhadoras domésticas foram bem intensos pra mim. No início, achei que tal intensidade era o motivo para demorar a realizar o contato com as empregadoras. Com o tempo, percebi minha resistência e refleti sobre a mesma. Na mesma medida que eu aprofundava os diálogos com as trabalhadoras, passei a entrar em contato com uma série de violências praticadas por patrões e patroas. Em paralelo, vivíamos um momento em que a conjuntura política brasileira estava cada vez mais pautada na cisão entre dois grupos de pessoas – aquelas que queriam manter a garantia de direitos da maior parte da população e aquelas que se diziam descontentes com o cenário político e se utilizavam de um discurso pautado no “desejo de mudança” para reafirmar um projeto político reacionário e violento. Estávamos perto da eleição presidencial de 2018 e eu sentia que a comunicação com o SEDOPE proporcionaria o contato com a parte da população que estaria coadunando com um golpe de Estado, um candidato fascista à presidência e a redução dos direitos trabalhistas25.

Passei diversos dias para nomear que entrar em relação com todas essas questões me causava dor. Ainda passei algum tempo para sair do lugar de inércia frente a essa parte do campo da pesquisa. Aos poucos, fui me conectando com a vontade de romper com essa resistência através das reflexões sobre meus próprios lugares de privilégio de raça e de classe. Eu tinha, nessa época, uma consciência de que parte ainda da minha resistência se dava por uma questão de classe, devido a esse sempre ter sido um atravessamento importante em minha trajetória de vida. Sabia que, nesses termos, sentia-me muito mais à vontade com as trabalhadoras e com o Sindoméstica. No entanto, também tinha e tenho a consciência de que muitas coisas em minha vida e em meu corpo me distanciavam dessas últimas.

Tais fronteiras foram sentidas por mim e acredito que compuseram o processo de escolhas de pesquisa. Nessa época, me conectei com essas fronteiras, a fim de buscar – ao longo de todo o processo – me compreender em meus lugares e não lugares com essas duas “categorias” de

25 Aqui me refiro ao golpe jurídico-parlamentar (disfarçado de impeachment) que destituiu, no ano de 2016, a

Presidenta Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT) de seu cargo, exercido desde de 2011. Dilma foi substituída interinamente por Michel Temer. No ano de 2018, em que estive mais presente no Sindoméstica, houve ainda a prisão política do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) e a eleição presidencial, na qual disputaram o 2º turno os candidatos Fernando Haddad (ex-ministro da Educação) e Jair Bolsonaro (ex-deputado federal) levando o último à presidência. Bolsonaro profere e alimenta discursos de ódio contra mulheres, pessoas negras e homossexuais. Têm posicionamentos a ações políticas concernentes à extrema-direita. Foi ainda o único deputado federal a votar contra a aprovação da PEC das domésticas.

pesquisa: trabalhadoras domésticas e empregadoras. Algo me parecia certo: se em termos de identificações políticas eu me aproximava mais das trabalhadoras (ao menos aquelas com as quais eu estava em contato), por outro lado meu corpo e minha formação acadêmica me aproximavam mais das empregadoras. Eu sabia que existia uma grande chance de entrar em contato com empregadoras brancas (ou ao menos, elas seriam maioria). Assim sendo, busquei me atrelar a um dos princípios que orientou a formulação da pesquisa com empregadoras: romper com o pacto de silenciamento entre nós, brancas e brancos. E, ao mesmo tempo, buscar compreender as possíveis vias de solidariedade entre empregadoras e trabalhadoras.

No mês de setembro de 2018 entrei em contato telefônico com o SEDOPE, com o propósito de falar com uma das pessoas responsáveis indicadas por Lélia. Fui atendida por alguém que se disse secretária do espaço e pedi para falar com Rejane ou Daniela. A pessoa que atendeu disse então que “doutora” Rejane não se encontrava e que “doutora” Daniela estava em reunião. Comecei, através desse pronome de tratamento “doutora”, a perceber as diferenças e desigualdades frente aos dois órgãos em questão: existia uma nítida hierarquia no processo de gestão e trabalho. Perguntei quando seria viável conversar com uma dessas mulheres e a secretária orientou retornar a ligação. Novamente, não obtive sucesso em falar com alguma das duas. Nesse sentido, expliquei o objetivo do contato: disse que era estudante de doutorado em Psicologia, apresentei brevemente que se tratava de uma pesquisa sobre experiências de maternidades no âmbito do trabalho doméstico remunerado e que gostaria de saber da possibilidade de uma parceria do SEDOPE para acessar as empregadoras.

Ainda por telefone, a atendente disse acreditar ser difícil “arranjar” pessoas que se dispusessem a realizar as entrevistas. Conta que alguns órgãos jornalísticos já buscaram o mesmo e não obtiveram sucesso. Nessa ocasião, tentei explicar-lhe que as entrevistas de pesquisa têm um caráter diferente das jornalísticas e pergunto-lhe sobre a possibilidade do órgão me receber para uma conversa pessoal. Marcamos então tal conversa para o dia 21 do mesmo mês. O SEDOPE se localiza no bairro de Boa Viagem, num empresarial ao lado do shopping mais antigo do Recife. Em contraponto a uma casa que percebi como acolhedora – onde se localiza o Sindoméstica – adentrei o empresarial somente após me identificar na portaria através de documentação com foto e impressão digital. Trago aqui essa questão por acreditar que elas não são vazias: o território – enquanto localidade não somente geográfica, mas que contém em si códigos e símbolos – diz de quem pode/deve e de quem não pode/não deve frequentá-lo.

Adentrei a recepção do SEDOPE – único lugar em que entrei/circulei nesta instituição - recebida pela secretária que estava no momento. A mesma me disse mais uma vez que a pessoa

responsável pela instituição no momento estava em serviço, indisponível para me receber. Perguntei-lhe se havia alguma ocasião de encontro coletivo (reuniões e/ou assembleias) no espaço e ela me afirmou que não. Ela então colocou como possibilidade, o Sindicato entrar em contato com algumas mulheres empregadoras a fim de compreender se as mesmas eram mães e se estariam disponíveis para um momento de entrevista comigo, não sendo possível me ceder nomes antes de pedir autorização das mesmas. Concordei e agradeci, marcando com ela o prazo de uma semana para retorno telefônico. Na semana posterior a secretária me afirmou que nenhuma das mulheres com quem entrou em contato havia se disponibilizado.

É importante dizer que nesse momento várias das questões que eu previ no projeto de pesquisa já haviam passado por deslocamentos, principalmente após o processo de aprofundamento no campo. Estava previsto na escolha da participação das interlocutoras, um tempo mínimo de dez anos de exercício da maternidade. Havia ainda projetado que as interlocutoras trabalhadoras seriam negras e as empregadoras brancas. No entanto, ao longo do percurso, decidimos deixar que o próprio campo me informasse o que seria viável. Principalmente diante das dificuldades de contatos com empregadoras, assumimos as imprevisibilidades do processo de tessitura da pesquisa. Maria Cecília Minayo (2017) faz importantes reflexões em relação a números de participantes e saturação na pesquisa qualitativa. Para ela a provisoriedade do montante de entrevistas, observações ou outras técnicas de abordagem devem acompanhar os(as) pesquisadores(as) por todo o percurso de pesquisa. Segundo a autora, não há medidas a

priori para o entendimento das “homogeneidades, da diversidade e da intensidade das informações

necessárias a um trabalho de pesquisa” (p.10). O que se faz necessário é que o(a) pesquisador(a) tenha encontrado uma lógica interna de seu objeto de estudo, o qual também é sujeito, em suas conexões e interconexões.

Não conseguindo, então, parceria com o SEDOPE, passei a buscar as trabalhadoras mães através de minha rede pessoal. Ao entrar em contato com amigas(os) e colegas, muitas quiseram me indicar pessoas de suas próprias famílias, incluindo pessoas com quem eu mantinha contato pessoal. Decidi por não considerar essas indicações- as que eu tinha ou havia tido contato durante a vida - como interlocutoras, não por acreditar na neutralidade em pesquisa, mas exatamente por ter receio de como os discursos e possíveis denúncias minhas frente aos mesmos poderiam me causar diversas afetações e constrangimentos.

Por fim, obtive a indicação de cinco empregadoras, das quais três se disponibilizaram para conceder entrevista. A todas elas (inclusive às interlocutoras trabalhadoras domésticas) pedi indicação de alguma outra pessoa, pensando no método bola de neve (VINUTO, 2014) – no qual

as interlocutoras de pesquisa indicam outras interlocutoras, e assim sucessivamente. No entanto, tanto com as empregadoras quanto com as trabalhadoras, já havia uma antecipação prévia da não disponibilidade de amigas ou colegas participarem da pesquisa – argumentando-se falta de tempo ou vergonha. Apenas uma empregadora me indicou outras duas, passando-me o contato das mesmas. Nenhuma das duas demonstrou interesse de participação na pesquisa, argumentando falta de tempo viável para tal.

A análise deste trabalho conta, portanto, com os discursos áudio-gravados e transcritos das entrevistas semi-estruturadas (roteiros em APÊNDICE B e C) realizadas com quatro trabalhadoras domésticas e três empregadoras, além dos diários de campo de minhas observações participantes no Sindoméstica (em Assembleias e reuniões), assim como os diários de minhas impressões sobre os momentos de entrevistas com todas as interlocutoras. Discorrerei com mais afinco sobre esses dois métodos de construção de dados posteriormente. Ressalto que apesar de utilizar no processo analítico as entrevistas com quatro trabalhadoras, realizei cinco entrevistas. Uma das trabalhadoras que entrevistei foi indicada também por uma amiga e somente no momento da entrevista foi possível perceber que a mesma, apesar de trabalhadora doméstica e mãe de três filhos, só começou a realizar trabalho doméstico remunerado há cerca de sete anos, quando seus filhos já eram adultos – e dois dele, inclusive, já haviam constituído família e não residiam mais com a mesma. Nesse sentido. Adiante trago de forma mais aprofundada meu percurso junto ao Sindoméstica e, posteriormente, os relatos sobre os momentos de entrevistas e caracterização das interlocutoras.

4.2 O SINDOMÉSTICA: resistência e articulação política das trabalhadoras domésticas na região

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